ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com

sexta-feira, julho 14, 2006

No nosso processo de crescimento, algumas pessoas são absolutamente fundamentais. Não falo da estrutura parental, porque essa mais do que fundamental, é decisiva, mas falo daqueles que entram na nossa vida para a mudarem. Mudam perspectivas, lógicas, formas de ver. Fazem-nos crescer, pintam-nos um cenário, têm um absoluto e real interesse em quem nós somos.
Passei toda a minha vida a relembrar algumas coisas que me foram ditas, mostradas e oferecidas por uma pessoa há mais de 15 anos. E dou comigo a fazer um esforço para a encontrar, porque nunca lhe agradeci devidamente, nunca lhe disse uma ou duas palavras de reconhecimento por tudo quanto me foi dado. E reforço o termo "dado", porque é de entrega que se fala. Uma entrega emersa numa tutoria que criou reacções quase pavlovianas quando em contacto com um determinado conceito.
Esta pessoa mostrou-me que o início da descoberta do outro lado, do outro sexo, da outra perspectiva, dificilmente poderia ser melhor. Mostrou-me a sorte que tive em ver o universo dela(s) por dentro, quando mais não era que um sorvedor de informação catalizado pelas hormonas, as dúvidas e as percepções.
Ela era mais velha. Estranhamente parecida com a Meryl Streep quando era novinha. A voz era suave e sempre indicadora. Não sei bem explicar isto, mas era a voz de alguém que se submetia a grandes esforços para que qualquer perspectiva de tantas realidades que me escapavam, fosse a mais completa de todas. Alguém que olhava nos olhos e por alguma razão estranha se emocionava com a insegurança de alguém que pé ante pé avançava nas descobertas. Entregava algo do seu mundo muito, mas muito maior, e aceitava a inevitabilidade do incapaz e imberbe retorno que tinha.
Livros, imagens, esforço para ver novas coisas. Afastou-me um pouco do circuito da vox populi na minha idade de então, e trouxe-me à tona de um mundo mais assutador, maior, mas cheio de beleza em tantas quantidades de fenómenos.
Mostrou-me o mundo de uma mulher a meio caminho entre a amante e a tutora, sem as protecções do vicio social, e emersa no desejo de revelar algo de perigosamente frágil. Quando se é pouco mais que um menino, a predação não é um elemento capaz de fazer seja lá o que for perante a preciosidade de um mundo pessoal que se mostra a alguém com o intuito de melhorar o mundo alheio e exterior. Até porque não sabia bem o que fazer com o que ela me dava. E quando uma mulher deseja dar, tudo o que nos tornamos parece revestido de um brilho que nem sabemos se merecemos, mas que nos eleva sempre.
Só com o passar dos anos entendi o real efeito daquela pessoa em cada escolha. Em cada tentativa de entender cada pessoa que cruzou o meu caminho. Em cada agradecimento pela partilha de intimidade, em cada vergonha por cada erro injustificável. Em cada centimetro de pele que toquei e que queimava. Em cada percepção de sensualidade, em cada instante da fragilidade alternada à força sexuada muito superior.
Essa pessoa mostrou-me um mundo novo, mas sobretudo o seu. A sua forma de ver as coisas. A introdução no universo feminino com um olhar de interesse, curiosidade, respeito, acolhimento, sem nunca deixar de revelar o poder ínsito nessa condição.
Gostava de a rever. De ouvi-la, conhecer a cara metade, a família, os cães e gatos se os tiver. De lhe dar um abraço, estender a mão e ouvir-lhe a voz. De recordar os gestos e aprender novas coisas que o passar dos tempos lhe tenham trazido. De ver até onde foi.
Queria agradecer-lhe, retribuir, mostrar até que ponto aquilo que ela deu mudou o mundo de uma pessoa. Que tornou a primeira abordagem uma de interesse, curiosidade, respeito e sempre algum deslumbramento.
Que em certa medida, até me despreparou defensivamente para os anos que se seguiriam, mas que a alternativa teria sido bem pior.
Obrigado C.
Estejas onde estiveres.

quinta-feira, julho 13, 2006

Estendemos a mão, e ficamos assim.
Abrimos e fechamos os dedos, agarramos o ar, e inspiramos o vento do espaço vazio.
Ouvimos as vozes em recordação e lá ficamos.
No eco dos desejos contraditórios, e na correnteza forte do futuro sem contornos.



A sensualidade é feita da vida que anima a forma e que com ela se confunde, e nunca se dissocia. É a cor que damos ao mundo quando ele parece já ter todos os tons à sua disposição.
É um acre que se quer morder.
É escorregar mas não cair.
"You grow up on the day you have your first real laugh at yourself."

Ethel Barrymore

quinta-feira, julho 06, 2006



Pausa para pequenas férias.
Até dia 12.

Out of Office, into Life...
A falta que alguns nos fazem, vem sem custo.
Voltam a nós porque a naturalidade nunca os viu ausentes.
Ou porque a linha da nossa vida os segura, deixando-nos a todos contentes.
Bem-(re)Vindos...
Hoje disseram-me que entre o Brad Pitt e o Fernando Mendes, poderia existir alguém que realmente escolhesse o último.
Pode parecer uma piada á partida, mas a sinceridade com que foi dito leva-me a colocar a questão sem ironia. Deixou-me inclusive perplexo e verdadeiramente curioso.
Seria realmente possível que isso acontecesse?
Eu não acredito, mas há quem acredite...
Hoje, em discussão, falou-se da necessidade da repressão para afastar o álcool das bocas ds petizes ainda mal formados qie andam por aí a embezanar-se valentemente.
Entendo os méritos da lógica subjacente, mas pergunto-me se a criação de mais um "guetto" comportamental e mais uma proibição não será lançar gasolina para uma já considerável fogueira.
Será que criar a noção de transgressão não significará aumentar a vontade de incorrer na mesma? Será que os putos estupidos que se embebedam para mostrar à malta o que é cool não terão mais um argumento para o fazer?
E num país de tradição em vinho e quejandos, será possível fazer isto?
A mim sempre me pareceu que a forma mais eficaz de procurar este tipo de resultados assentava na formação e esclarecimento. E sobretudo em entender que quem quiser transgredir fá-lo-á seja em que circunstância for, alimentando redes ilegais e duplicando os problemas, julgo eu.
É também necessário entender que o consumo de bebidas alcoólicas não assenta exclusiva nem maioritariamente nas patologias de abuso que toda a gente teme e denuncia. E se há miudos a sair à noite com 14 anos e a chegar a casa bêbados que nem cabritos sem cascos, então a pergunta deve ser outra.
Talvez a preocupação deva assentar em saber o que fazem fedelhos de 14 anos em discotecas às 4 da manhã, e não o que andam lá a beber, porque essa é uma inevitabilidade clara e consequencial do local onde eles se encontram, nem que seja por pressão dos seus pares.
Como em tudo, a formação conta. E a educação parental também.
Porque no fundo, todos nós nos encabrámos na nossa altura, e continuamos a encabrar, mas o alcool, como as drogas, não são em si mesmos os originadores de comportamentos patológicos. Esses começam muito antes, e a repressão mais parece um falso alívio de consciências pesadas, ou a velha máxima da casa roubada, trancas à porta.
O que em qualquer caso, e ineficaz e mascara o problema, nunca o resolvendo...

quarta-feira, julho 05, 2006

terça-feira, julho 04, 2006

Quando tenho a visão turva, os meus amigos pintam-me o cenário à sorte.
As cores muitas vezes combinam.
Logo, a sorte é sempre minha.
We should all be so lucky...



One man in a thousand, Solomon says,
Will stick more close than a brother.
And it's worth while seeking him half your days
If you find him before the other.
Nine nundred and ninety-nine depend
On what the world sees in you,
But the Thousandth man will stand your friend
With the whole round world agin you.


'Tis neither promise nor prayer nor show
Will settle the finding for 'ee.
Nine hundred and ninety-nine of 'em go
By your looks, or your acts, or your glory.
But if he finds you and you find him.
The rest of the world don't matter;
For the Thousandth Man will sink or swim
With you in any water.

You can use his purse with no more talk
Than he uses yours for his spendings,
And laugh and meet in your daily walk
As though there had been no lendings.
Nine hundred and ninety-nine of 'em call
For silver and gold in their dealings;
But the Thousandth Man h's worth 'em all,
Because you can show him your feelings.

Rudyard Kipling
The Thousandth Man
"SIMPLE SIMON"
REWARDS AND FAIRIES
O desapontamento já não deveria ser uma novidade. E no entanto as surpresas não cessam. Damos connosco a verificar que as pessoas podem ir ainda mais longe nos detalhes daquilo que não nos agrada, ou nos apanha de guarda baixa. Aquilo que é mal aproveitado, com o intuito retorcido de reverter em vantagem.
Chegamos à conclusão que a teimosia que nos faz não desistir da bondade intrinseca dos conceitos, pode no entanto levar uma carga de porrada tal que as surpresas vão sendo cada vez menores, e a indignação é substituída por uma tristeza suave. Quando começamos a esperar quase tudo, algo vai mal, e pior que isso, as estruturas assentes na crença que reste começam a enferrujar. E com ela, vem a decadência.
Há que entender que nem toda a gente é assim, é um facto.
Mas cada vez mais se torna necessário o cuidado. Porque aquilo que depositámos em confiança, torna-se arma de arremesso em retaliação, despeito e malícia própria da pior e mais repugnante espécie de delatores... os que convictos da sua eficácia da sua engrenagenzinha podre, nada têm afinal a delatar.
Os pobres idiotas. Os seres mesquinhos e miserabilistas a quem a raivinha dos dentes torna patéticos, perigosos e mal intencionados ao ponto de se humilharem nos pequenos esquemas.
A desilusão já não é novidade. E essa é a pior conclusão a que podemos chegar acerca dela. Quando tudo parece já normal, a sensação é terrível.
Existem claro os que fazem o contraponto, mas que em certa medida, são também atingidos colateralmente por estas granadas de velhacaria.
A confusão está instalada, e ninguém parece saber muito bem ao que anda.
São as outras surpresas que dão a sensação de progressão à viagem, mesmo quando o sol se esconde em Julho e as conclusões abstractas não são as melhores.
São aqueles que num segundo dão pelo menos cinquenta centésimos que fazem da poluição humana um fenómeno parcelar.
Felizmente.
"I gotta hold on to my angst. I preserve it because I need it. It keeps me sharp, on the edge, where I gotta be."

Al Pacino - Heat - Michael Mann


So true...
"And in the end, we all know what we did
(...)
Somehow we've brought our sins back physically. And they're pissed."
Flatliners - 1990
Uma das melhores vozes feminina de sempre do rock and roll pertencia à Stevie Nicks. A música dela, enquanto artista a solo, era aceitável, nada de especial, mas aquela voz é estarrecedora.
A roupa de cigana ou feiticeira, encaixada na pequena estatura, não deixava antever o que aquela garganta poderia produzir.
Tenho um concerto velhinho dos Fleetwood Mac em casa, numa cassete VHS que nunca mais conseguirei recuperar, na qual a mulher mostra que a natureza por vezes dota as pessoas de talentos assombrosos.
Um exemplo do virtuosismo vocal desta senhora. A Voz -
aqui


Por vezes sinto-me assim.
Começar o dia com o "Venus" das Bananarama é mesmo prova de que tudo vale para ter o Verão de volta.

Enfim...

segunda-feira, julho 03, 2006



Giger

É espantoso como mesmo em silêncio quase damos em doidos...
"The selfish, they're all standing in line
Faithing and hoping to buy themselves time
Me, I figure as each breath goes by
I only own my mind"

Eddie Vedder

domingo, julho 02, 2006



O desejo é um gatilho terrível. É a aceleração da realidade até que o equilibrio se perde na suave vertigem da concretização.
É o chegar, a antecipação do conseguir. É a bondade do mundo que não fica na mesma, e nos poupa à habituação a todos os lugares, a todos os toques e possíveis repetições do que de nós nos fizemos.
O desejo é problema. Dificuldade. Quando é real, acaba por ser a fatia de mundo que oculta todas as outras. É no seu controlo, no prolongar e adiamento que reside a fundamentação de tantos actos. É na constância do querer que nos angustia a antecipação do próximo instante que em o queremos presente, ou desejamos contínuo.
O desejo é a linha curva e contracurva, na voz que não fere no tom mas tem todas as agressões incendiadas em poucas palavras. ´
É aquilo que sempre foi.
Somos nós contra nós mesmos.


"But I know the rage that drives you.
That impossible anger strangling the grief...
...until the memory of your loved one is just...
...poison in your veins.
And one day, you catch yourself wishing
the person you loved had never existed...
...so you'd be spared your pain."

Chistopher Nolan

quarta-feira, junho 28, 2006

Está assente.
Welcome to the Cruel World é para mim a melhor faixa do Ben Harper.
Perfeita.
Até mesmo no que desejaria que não fosse verdade.
Não são os burros velhos que não aprendem línguas.
São as que falam, que por serem mortas, não dão movimento a nada.
E isso é uma pena.

terça-feira, junho 27, 2006

Aos que esperam, alento.
Aos que aguardam, coragem.
Aos que antecipam, calma.
Aos que se mortificam, lógica.
Aos que trazem, retribuição.
Aos que ficam, uma mão aberta.
Aos que tocam, reacção.
Aos que fogem, razões.
Aos que insistem, visão.
Aos que são melhores, aplauso.
Aos que se tornam piores, marasmo.
Aos que são especiais, reconhecimento.
Aos que me fazem falta, uma imagem.
Aos que admiro, o céu.
Aos que gosto, só eu.

segunda-feira, junho 26, 2006

As pessoas valem sempre a pena.
Não sempre, não todas em todos os momentos, mas não fazer nada por ninguém é algo que não conceptualizo sequer.
As pessoas, aquelas que ajudámos, aquelas que nos deram a mão, as que precisam, as que oferecem, as que marcam porque estão marcadas, as que surpreendem pelo puro gozo de dar.
O esclarecimento pode ser uma faca fria, mas as pessoas valem sempre a pena. Algumas. Em alguns momentos, que se pretendem que sejam muitos.
As pessoas podem ser a pior coisa que nos acontece. Mas também são a identificação daquilo que é inamovível, a parcela de dignidade interna que nos faz amar o melhor da humanidade individual. Das trocas de ideias parcelares, dos mundos que só conhecemos pela troca do aparentemente impensável, mas que afinal é feito do individual, único e diferenciável.
As melhores coisas que fiz, e as melhores que vivenciei, tiveram em conta o contributo de alguém. Sempre.
É na presença e companhia de outros que sempre evolui. Foi na aprendizagem dialéctica que conheci as melhores e piores realidades. Foi querendo por vezes rejeitar todo o contributo de qualquer calor que aprendi a ver a sua importância.
Por vezes fazemos o que podemos, guiados por algo que não se destorce. É um enamoramento intelectual pela rectidão de algumas ideias, impulsos e junção das parcelas de realidade. E ao fazermos isso, chegamos ao mais intrinseco de poucos, para ver a imensidão aparente de muitos.
Sem os outros não sou nada.
E tenho essa convicção perfeitamente instalada. Em paz.
Quando os amo ou detesto, sei sempre que será assim.
Preferia ser músico para poder dizer-te sentidamente as coisas do fogo infernal das tuas cores.
Como ardes bela.
Na doideira das tuas dores.

domingo, junho 25, 2006

Physical pleasure is a sensual experience no different from pure seeing or the pure sensation with which a fine fruit fills the tongue; it is a great unending experience, which is given us, a knowing of the world, the fullness and the glory of all knowing. And not our acceptance of it is bad; the bad thing is that most people misuse and squander this experience and apply it as a stimulant at the tired spots of their lives and as distraction instead of a rallying toward exalted moments.

Rainer Maria Rilke






Jack Vetriano - The Singing Butler



"From a pool of ink I am born. I open my eyes only to see the hollow darkness I’ve developed in and quickly close them again for they have no utility whatsoever. There is an awkward being embracing my body, doing everything I don’t, spreading everywhere I am not every time a suffocated gesture of mine empties a spot. What is this substance I cannot breathe, which overtakes my vital territory in slow motion, shaping me as I shape it? An uncontrollable (yet rather inspired) contraction of my limbs provides me with the necessary impulse to fly towards the surface. My black deformed enemy immediately fills the vacuum of my former prison (rejoicing with glory, hollower than ever). I realise now how fortunate I have been to escape.
Cold. So cold. Lungs pitifully soaked; arms, legs, everything. In face of such a thermic chaos there doesn’t seem to be a need for that gloomy umbrella you insist on painting. Who will hold it for you when it’s finished, anyway?
From the desolated canvas a strip of sand arises at my feet. Two or three rain deposits run through it (as fresh streams through a wasteland), although I am not quite able to recognise their movement. A few brushes ahead I am caught by the glimpse of a distant sea – some timid, but nevertheless imposing resemblance of a sea, brought to my private environment by a burst of pale, intense blue. Another umbrella. Dear Jack has chosen me for his much-adored toy. He has confined me to what seems to be his idea of a playground, and is now hermetically sealing it with sky-crowding umbrellas. How clever of him to use servants as umbrella-holders (or is it rather umbrellas as servant-holders?). You see, a lower-class member will hardly ever drop the burden and escape when in presence of his all-mighty boss. Therefore, risks minimised, this lost gentleman is to remain under strict and permanent surveillance.
I sense someone approaching. My numb limbs are finally receiving the warm tenderness of some cornered sun’s rising rays. Again, a shivering presence among us. The distinctive scent of a lady’s perfume, the indescribable glow of a silk dress. Oh, painter, make her beautiful! Let her fill with radiance this smoke-sheltered desert! Make her shy and gracious, so that I may take her by the hand and lift her in a dance with all the gentle passion of these sand-covered shoes."
Uma visão da qual gostei muito, de uma pessoa que me é querida e que se inspirou no quadro acima apresentado. R., para quando a tal narrativa prometida, se quiseres, cheia destes delírios?

quinta-feira, junho 22, 2006


"A amizade é um acto de vontade. Pode fazer-se alguma coisa por ela. Podem fazer-se muito mais esforços. Controlar mais fenómenos de comportamento. Uma amizade pode querer-se na totalidade, e aceitar-se nesse outro tanto. Uma amizade satisfaz mais do que dói, e por momentos, pode quase enganar ao ponto de se pensar que nada mais que ela é necessário para que a imensa fome de alma que por vezes temos fique queda e saciada.

Mas somente quase... é uma ilusão quase perfeita. Quase...

Porque de uma certa forma, nunca sabemos até que ponto podemos ser ultrapassados por nós mesmos. Os nossos desejos brincam connosco, fazem-nos voar ou enterram-nos em escuridão opaca. Dançamos a sua musica como se nada mais pudéssemos ouvir.
E nessa redoma de encantamento, nessa parcela de mundo que pode realmente isolar-nos, talvez só a amizade possa entrar. Porque será ela que acabará por nos vingar sempre, quando a ilusão termina e deixa aquela voraz insaciedade. Aquela que muitos dizem que o tempo cura, mas que bem vistas as coisas, só piora, até que apodrece e se esquece, porque a substância sonhada deixa de ter o formato pelo qual foi amada.

No fundo, é um processo de substituição, nunca de esquecimento. Porque esse momento deixa-nos sempre de alguma forma perdidos nem que seja pela reiterada memória que dele possamos ter.
E aí, como em tantas outras coisas, a amizade pode ser a única coisa que possa fazer algo semelhante a um salvamento. Entendo que um amigo real faz com que a necessidade solitária que criou um Deus imaterial e sempre companheiro, produtor de esperança, seja desnecessária. Um amigo real, o milésimo homem ou mulher é quem preenche esse vazio. É quem cá está, mesmo quando não damos por isso, é quem vê, mesmo quando não mostramos, é a palavra certa acerca daquilo que nunca confessámos ou partilhámos. É quem atura as nossas merdas, mas sem com elas concordar. Bem sei que é algo sobejamente conhecido e batido, mas nem por isso deixa de ser verdade, penso eu.

Assim sendo, seja feita a justiça a quem o disse de forma superior, a amizade é a incondicionalidade de um estado de afeição. É a renuncia nunca esperada, alguém que vê em nós uma missão sem qualquer objectivo imediato. São aquelas pessoas que nada temem relativamente a nós, nem quando estão connosco, e fazem-nos sentir exactamente o mesmo."
Já o proferi em tempos, mas hoje torna a fazer-me falta dizê-lo.

quarta-feira, junho 21, 2006

Disparate de Solsticio

Correr:

Ver o mundo a recuar com a ajuda ilusória do vento.

Num mundo redondo, só estamos a aproximar-nos mais do local de onde saímos.
Quando encontramos uma pessoa complicada e dificil de conhecer, tendemos a pensar que há alguma má vontade, ou um necessário desiquilibrio entre custo e benefício.
E no entanto, é a génese que deixa sempre a dúvida, tão deliciosa como qualquer espécie de descoberta sequencial. O porquê, que em certa medida obriga a revelações que nos colocam logo em aparente desvantagem, é sempre o mote.
E deixa de existir um porquê quando essa relutância é instrumental e afectada. Porque se há uma vontade, o porquê explica-se, e com ele desvanece-se o prazer de algo especial, exclusivo, que se consegue muitas vezes sem se saber bem porquê, mas que encerra aquilo que considero a real empatia.
As pessoas que são dificeis de conhecer, não sabem que o são.
E encantam em parte porque a sua resistência é inocente, real, honesta, fazendo adivinhar que o que escondem, também o será.
É por isso que o desafio se torna tão irresistível.
Julgo...
Não usar uma máscara é não ter um dístico.
E nenhum clube é isento de símbolo.
Está explicado :)
Experimentem parar um bocado.
Deixar que o barulho exterior simplesmente vos assoberbe, que o som entre na vossa cabeça e percebam até que ponto tudo parece pronto a explodir. Os sons dos carros, o matraquear dos passos, os prantos dos petizes e o estalar do verniz triste nos rostos rasgados pelo cansaço.
É ensurdecedor. Se abrirmos a porta da mente e tentarmos apenas prestar atenção a tudo o que nos rodeia pelo rugido urbano, pergunto-me a que distância ficamos de um cansaço extremo pendente para uma semi-demência.
Fecho a janela do carro e o silêncio parcelar é apenas recordação da habituação a isolamento por camadas. Ouve-se demasiadamente a voz interior e os seus ecos.
Porra, no ensurdecimento, venha então o diabo e escolha.
A urbanite é por vezes aguda e dolorosa.
Mas Lisboa é uma mulher, e por isso...
Hoje é o solstício de Verão...
E como hoje não poderei estar dentro de água às dez horas da noite, deixo-vos a impressão que esta data trouxe há um ano atrás.
Poderão vê-la
aqui.

Mais um daqueles instantes em que a Natureza que não se sabe bela, transcende e sublima ainda assim todo esse conceito.


E agora que chega o Verão, e que o dia se estende ao máximo na plenitude da sua luz, parece perfeitamente clara a ideia de que este é o tempo por excelência para sonhos diurnos.
É para isso mesmo que servem os ícones.
E porque o Sol é rei, amarelo e vermelho serão as cores do Verão.

Bons dias.

segunda-feira, junho 19, 2006

O Amor, por ser multifacetado, tem sempre em si mesmo a amaldiçoada dualidade do conceito que sofre de descrença lúcida e desejo mal disfarçado de materialidade.
É algo infinitamente mais perigoso do que se imagina, deambulando a sua inegável beleza por profundezas do ser que não roçam só a pureza dos estados incondicionais e maravilhosamente raros de racionalidade. Anda igualmente perto da nossa animalidade, e cria um senso de urgência na vida de todos os dias que nenhum outro objectivo consegue igualar.
A Amor é mal reputado por uns e endeusado por outros, como conceito escorreito e puro na sua materialidade. E no entanto mostra a perfeição da sua adaptabilidade nos pequenos estados de loucura, ou a ilusão magnífica de um olhar que não pisca, um estado de graça natural que não se transmuta.
O Amor, quanto muito, é sorte. É a resistência às experiências, feita da capacidade de reinventar a coisa mais visceral que a vida nos traz, e o laço com o mundo, embora ele nos ensanguente.
Não tenho opinião clara sobre o Amor nos dias de hoje. Como todos os mentirosos que maravilham quando finalmente dizem a verdade, é indissociável de toda a motivação de vida, e é, afinal, a procura que todos têm, mesmo que não admitam. Ou não sejam capazes.
É por isso que nunca se pode ser totalmente cínico relativamente ao Amor.
É vox populi.
Tomara qualquer deus ter o poder e efeitos do seu marketing...


Esta é para mim, ainda hoje, a melhor história. A quela que mais me tocou, que mudou curso de vida, que fez pensar, que fez tomar decisões, que me fez lê-la vezes e vezes sem conta pelo puro gozo da beleza e pontaria que via nas palavras e situações.
Não é com certeza a melhor história, (para mim é, mas as paixões profundas também têm destas coisas - ainda bem digo eu), mas foi escrita como um mapa interno, uma lógica tão profunda e óssea que ainda hoje me arrepio com dois parágrafos específicos.
Os personagens, as linhas de histórias, os respectivos destinos, a tristeza suave mas tão tocante no decorrer e demonstrar de todas as coisas que podem envolver a forma mais simples de amor que existe.
A amizade retratada nas páginas em causa é feita de coisas que arrepiam a pele de muita gente, especialmente o género a que pertenço. O amor fraternal oriundo da amizade profunda entre homens é ainda algo que trava muitas palavras na garganta, e sai em gestos atabalhoados. O asneiredo, as piadas, a palhaçada, tão necessária para que nós, artolas dos gestos contidos, possamos dizer a uma outra pessoa que ela é importante para nós.
Acho que é por isso que a morte de um dos personagem arranca sempre algo profundamente amargo e belo cada vez que o leio. Como se fosse sempre apanhado de surpresa.
Que privilégio é poder encontrar em algo inanimado, a fonte de uma paixão tão tremenda, que acompanha no tempo, e salva em tantas ocasiões.
a minha história pode não ser a melhor de sempre ... mas para mim, não há nada igual.
Fechar portas pode não ser o melhor, mas a sensatez nem sempre é agradável.
Afinal de contas, um dique não mata necessariamente um rio.


A simplicidade das mensagens da natureza, um pouco como a música, deixa-nos mudos. São criações de células perecíveis, mas encerram em si uma mensagem de simplicidade, numa natureza que deveria, no seu curso mecanicista, desconhecer o conceito de belo.
Mas estão lá. Em cores, formatos, ideias simplificadas de algo que o é mesmo desconhecendo de todo essa condição.
Está a chegar o Verão, e o sol arrasta esta multidão amarelada, e outra, na peugada dos seus raios. Os comportamentos começam a alterar-se, as ideias a surgir, e algo se transforma.
Como estas flores, algumas pessoas aparecem, sem saberem até que ponto são como são, e o quão parte de uma beleza simples mas fundamental podem ser.
Essas pessoas são um pouco como girassóis.
Belas porque sim, movem-se por reflexo próprio da sua natureza, e trazem a cor necessária a uma lucidez que desmonta matizes em vez de se preocupar com a luminosidade dos tons.
O Van Gogh lá sabia...

quinta-feira, junho 08, 2006



Férias:

Período de retiro para fazer o reboot ao sistema, reavaliar os percursos, sentir e criar as necessárias saudades dos presentes, dos companheiros de quotidiano.
Espaço cronológico no qual a leitura cresce consideravelmente, bem como os sms, e a ingestão de coisas menos próprias à linha.
Tempo de prazer, de descoberta, de algo que não seja o pragmatismo de todos os dias, e no meu caso actual, de reencontro com um silencio pessoal muito necessário.
Calor e cultura, mar e cobiça.

Bem hajam todos.
Até muito breve ( dia 20 mais ou menos)

Foto - David Mendelsonh

All the Right Friends


I know you say
Maybe some day
I need never be alone
I know I say

It's the right way
But you'll never be the one
I've been so alone now
For a long long, long time
I don't wanna hang out now
With the folks that just stopped by
While you party
You've been looking
But your searching never ends
You've been going
With the wrong crowd
You've got all the right friends
I've been walking alone now
For a long, long time
I don't want to spend now
With the folks...that just aren't mine

I don't wanna be with you anymore
I just don't want you anymore
I don't wanna be with you anymore
I just don't want you anymore
Rave on!Fall to...fall to...fall to...fall too
Fall to...fall to...fall to...fall too
I don't wanna be with you anymore
I just don't want you anymore
I don't wanna be with you anymore
I just don't want you anymore

I know you sayMaybe some day
I need never be aloneI know
I say it's the right way,
But you'll never be alone
I 've been walking alone now
For a long long time
I don't gotta hang out
With the folks that just aren't mine
I don't wanna be with you anymore
I just don't want you anymore
I don't wanna be with you anymore
I just don't want you anymore


REM


Some people just deserve to hear this from time to time, i guess. Perhaps we all do.
Se acreditarmos que um homem andou na lua, não há nada para ver, dizia o Stype.
Não creio.
Se não andarmos tanto na lua, e olharmos atentamente, há tantos mundos por aí que podemos viajar com os pés na terra. Por incontáveis originalidades, claro.

quarta-feira, junho 07, 2006

Quando se dorme pouco a mente aguça-se.
Percebe-se o que se queria sonhar, e o que não se consegue esquecer.
O cansaço é o produto desses dois factores.
A ansiedade a fundamentação.
Aos hipersensitivos devo metade do meu mundo.

(Private joke/homenagem)
"Electrolite" do REM tornou-se esta manhã o recriar de um reencontro com uma paixão violenta que nunca passa. É uma faixa absolutamente linda, da qual já não me recordava não porque não a tivesse na memória, mas porque nos tinhamos acidentalmente desencontrado. Exactamente como paixões que nunca esmorecem, nos caminhos que se desencontram, sem culpa.
Os trilhos de uma vida cheia são por vezes desprovidos de compaixão.
E depois há isto.
"Your eyes are burning holes through me
I'm not scared
I'm outta here"
"All Sparks, will burn out, in the end...."

Hoje The Editors, para os felizardos com bilhete :)

terça-feira, junho 06, 2006



Uma das melhores e mais importantes obras de BD do nosso tempo...
Absolutamente imperdível da mente do génio Alan Moore.
Parece que vai para filme.
Nos sorrisos sinceros de todos os dias, está o minimalismo feito de antídoto para um desespero rotineiro.
Nas atitudes e nas ausência de silêncio decorrentes, está toda a fundamentação metafísica (se quiserem), para tudo o que vale a pena perseguir.
Tentar ser melhor não é uma escolha. É um dever auto-imposto com todo o gozo da paixão insubstanciada, potencial, e sobretudo, motivadora.
É querer em abstracto, para dar e receber em concreto.
6 do 6 de 2006...

666

E o Inferno ainda somos nós.

sexta-feira, junho 02, 2006



David Mendelsohn


We live in deeds, not years:
In thoughts not breaths;
In feelings, not in figures on a dial.
We should count time by heart throbs.
He most lives

Who thinks most, feels the noblest, acts the best.

David Bailey

Os David(s) têm muitíssima razão.
Uma dentada no real, já!
"Vicarious"

Eye on the TV'cause tragedy thrills me
Whatever flavourIt happens to be like;
Killed by the husband
Drowned by the ocean
Shot by his own son
She used the poison in his tea
And kissed him goodbye
That's my kinda story
It's no fun 'til someone dies
Don't look at me likeI am a monster
Frown out your one face
But with the other
Stare like a junkie
Into the tv
Stare like a zombie
While the mother
Holds her child
Watches him die
Hands to the sky crying
Why, oh why?'cause i need to watch things die
From a distance
Vicariously i, live while the whole world dies
You all need it too, don't lie
Why can't we just admit it?
Why can't we just admit it?
We won't give pause until the blood is flowing
Neither the brave nor bold
The writers of stories sold
We won't give pause until the blood is flowing
I need to watch things die
From a good safe distance
Vicariously i, live while the whole world dies
You all feel the same so
Why can't we just admit it?
Blood like rain come down
Drawn on grave and ground
Part vampire
Part warrior
Carnivore and voyeur
Stare at the transmitter
Sing to the death rattleLa, la, la, la, la, la, la-lie
Incredulous at best your desire to believe in
Angels in the hearts of men
Pull your head on out
Your head believes it give a listen
Shouldn't have to say it all again
The universe is hostile
So impersonal
Devour to survive, so it is
So it's always been
We all feed on tragedy
It's like bood to a vampire
Vicariously i, live while the whole world dies
Much better you than I

Tool - 10 000 Days

O concerto foi o que se esperava. Excelente.
Maynnard, continua pá!
Mas acabar com os Perfect Circle é que me parece muito mal!
E se o Sudão se apresta a ficar sem a ultima réstia de esperança e solidariedade internacional, como se explica o silêncio dos auto-proclamados protectores do mundo?

O fedor da hipocrisia é uma das piores constâncias do discorrer da História.


Porque há mais Marias (Jennifers no caso) na Terra...


A perda de uma certa forma de inocência emocional pode ser um conceito dicotómico.
Fará parte de um processo de crescimento, como bem dizem os que por lá andaram e sobreviveram, mas também importa danos, alguns deles ainda à espera da carta da seguradora a confirmar ou desmentir a perda total.
Existe uma teoria muito popular que assenta uma certa ontologia perfeccionista do ser na progressão conturbada do seu caminho pessoal. Pensa-se que tudo ocorre por uma razão e que se emerge com a perfeita noção de que as provas só nos deixaram na melhor estação possível, ainda que o comboio quase tenha descarrilado.
Essa teoria merece alguns reparos, embora o esforço de alguns, quase instintivo e sem cariz volitivo, inspire aqueles que julgam estar sob o peso insustentável de uma reviravolta para a qual nunca contribuíram.
Há uma auto-responsabilização quando se aspira a algo melhor, e no que diz respeito às pessoas, esse processo assenta nas lógicas de exigência que se espera que quebrem uma cortina unilateral. Aquela que deixa passar a espaços, que dificilmente deixa sair, e se torna uma protecção lentamente envenenadora, se bem que prazenteira pelas descobertas que proporciona.
A inocência emocional, fonte da maior e mais intensa forma de estupidez e realização pessoal, é, passo o cliché, muito mais frágil do que pensamos. Eternizamo-la em meio ao inferno sensorial e cerebral em que ela nos lança no seu período mais intenso, mas esse pensamento torna-se a fonte de uma terrível saudade conceptual quando damos pela sua real falta.
Sendo que as pessoas acabam por ser capazes do absoluto insuportável e hediondo, mas também a fonte de toda a razão para deambular por aqui, resta pensar que o recriar de uma capacidade de crença emocional sem a mão conciliadora da racionalidade em todo o seu espectro, acaba por significar um verdadeiro milagre de resistência.
O melhor ainda acabam por ser as pessoas que nos apanham na curva, nos arrancam sorrisos sem licença, e fazem das nossas paredes uma adaptabilidade generosa onde nos acolhem. Como não recriam a ilusão da tal inocência, mas dão uma verdade talvez mais completa, melhor, mais humana e fiável. O melhor, no fundo.
E num dia de sol, como posso não agradecer-lhes?

quarta-feira, maio 31, 2006

É na normalidade dos nossos passos, dados todos os dias, e na observação dos detalhes, que encontramos as pequenas magias, os melhores truques, as mais inventivas desculpas para estarmos vivos. Para observar, para ver um pouco mais além, para esperar que os eventos nos deixem prontos a ter expectativa, para que a viagem seja tudo o que fazemos, precisamente porque é esperando a chegada que se procuram novas partidas.
Mas sempre sem abandonar a noção de que por vezes a tendência se altera, os fenómenos são colocados numa luz quente de Verão, e a serotonina acaba por convencer-nos que afinal, inventamos grande parte das cores com que pintamos as tendências da vida possível.
Por vezes é bom sentir um vento de bem estar, sem saber exactamente de onde sopra...

terça-feira, maio 30, 2006

E se a vida por vezes nos surpreendesse, como por vezes faz, e alguns sorrisos aparecessem como reflexos, choques feitos das pequenas surpresas da simplicidade do bom que encontramos?

sexta-feira, maio 26, 2006

PONTO G (?)
Esse renomado local onde parece que para as mulheres se torna possível passar da terra à lua em dois segundos, é para mim mais uma metáfora da dicotomia entre o desejo de compreender e a ausência de pedagogia.
Perguntar, inquirir, perceber, saber por interposta pessoa parecem pecados incongruentes com a lógica do amante competente e hábil. Há uma certa forma de paternalismo em alguns sectores da classe feminina, onde se diz à boca cheia que tudo deve ser intuido e percebido, mesmo que por vezes um pouco de comunicação pudesse fazer maravilhas pelos resultados finais.
O ponto G, que não duvido que exista, (espero que exista e que qualquer dia até possa tropeçar nele para que alguém desfrute ao máximo) é em muitas perspectivas, uma arma diferida de arremesso. É uma espécie de minimização que algumas concretizaram num conceito para justificar uma qualquer falta de habilidade na prática sexual.
Que diabo, se existe, e de alguma forma puder ser encontrado, porque não revelar? Porque não dar pistas quanto à sua localização para que posteriormente isso se possa repercutir de forma ainda mais satisfatoria entre os parceiros sexuais. Não será até uma forma de incrementar a afectividade porque se apoia na busca do maior e melhor prazer do outro? A mim parece-me que perguntar ou explicar não ofende, e por vezes dar uma ou outra indicação não é sinal nem de condescendência de quem a fornece, nem de inépcia de quem a recebe. São apenas uma forma de aproximação, e logo, parece-me, de melhoria.
O designado ponto G e a sua dificuldade de localização parece apenas mais uma forma de reforçar um certo mistério do eterno feminino, ao qual os homens só ascendem após aturada aprendizagem. Algumas mulheres, infelizmente, partilham um certo paternalismo que assenta na lógica de que a sexualidade masculina é evidente, ou seja, aquilo ou está de pé ou não, e pronto. E esse ponto G acaba por ser uma espécie de contributo para a separação conceptual entre a sexualidade feminina/complexa e a masculina/básica. Ora esta dicotomia não é falaciosa como é um perigo na manutenção da sexualidade saudável e exploratória. Por vezes não basta esperar. Por vezes podemos explicar, dar uma ajuda, e perceber a qualidade do parceiro com base no desempenho que faz de acordo com a sua vontade imaginação, e alguma indicação valiosa.
Existem muitos meninos do frango assado, que devem aprender que ser missionário durante demasiado tempo dá sono e é pouco piedoso afinal de contas, e muitas meninas que guardam um suposto segredo da sexualidade num silêncio expectante e até mesmo egoísta.
Bolas, qual é a lógica?
Se eu tivesse um ponto G, acho que tatuava uma espécie de seta subtil na pele que indicasse o caminho. Fora de brincadeiras, será que ao conhecermos os nossos pontos de prazer, não será uma melhoria de qualquer espécie de realcionamento darmos essa chave a quem queremos que o explore, para que aumente o prazer, e tudo acabe por ser melhor?
No fundo a ideia é sempre a mesma.
Ponto G, localização e forma de estimulação clitoriana, zonas erógenas preferenciais? Sim, podem ser intuidas e percebidas conforme os corpos se descobrem, mas caraças, se por exemplo se gosta mais de umas dentadinhas ao invés de um esfregão vigoroso, porque não dizer?
Se o ponto G está lá, é publicitá-lo a quem interesse! Porque só se pode adivinhar até certo ponto, e ter pior quando pode ser melhor é no mínimo, estranho e uma teimosia de certas tendências viciadas do comportamento social adquirido e respectivas limitações.
Ponto G à ribalta, já!


quarta-feira, maio 24, 2006

Muitas pessoas queixam-se.
Dos encargos, da trabalheira com os filhos, das lógicas mornas e repetitivas do que já não são relações mas uma espécie de sociedade por quotas unicamente com sócios de industria em co-propriedade de um imóvel que leva uma vida a pagar, das gorduras, do calor, do frio, do diabo a quatro.
Queixam-se que pouco muda e que tudo são obrigações. Disfarçam em discursos politicamente correctos a dilaceração que o quotidiano lhes provoca em troca de uma qualquer satisfação por objectivo supostamente cumprido. Remoem em silêncio o que o tédio das supostas escolhas traduz em sonolência. Só me lembro do John Cougar quando dizia "Life goes on, even after the thrill of living is gone".
E depois pergunto-me o porquê dessa rendição e algumas pessoas falam em crescimento e responsabilidade. Aquelas que supostamente transformam as relações numa espécie de pacto siamês onde o hábito e não o amor justificam ciumes, onde as convicções são substituídas por um código subentendido dos relacionamentos de longo prazo. Essa maturidade passa a ser a desculpa para a ritualistica assassina do espírito, do desejo de evoluir, tresloucar ou viver. Para não se procurar nada com uma paixão mínima, para que a música, as letras, as imagens, os formatos sejam não algo que se procura com o desejo de amar algo criado, mas um acaso ao qual de quando em vez até se presta atenção. Uma espécie de vantangenzita que se encaixou nos rituais de todos os dias, porque reagir é uma espécie de pecado contra a modorra vivencial.
Aceitam os papéis que uma rotina auto-infligida lhes deu, e escudam-se nessa ideia como se isso as ilibasse dos crimes que cometem contra si mesmos.
Sinceramente, ao menos os tipos que se desforram no trabalho e nada mais têm que isso, acabam por ser mais honestos. Esses não têm tempo livre porque escolhem não tê-lo, mas não agarram no que lhes pertence e estatelam-no contra uma parede de facilidades e rituaizinhos repetitivos. Esse não julgam que o sol se ergue e se põe justificado pelas coisas que há a fazer. Pelo que são obrigações ao ponto de as comprimirem numa espécie de torno pragmático que aniquila aquilo que as individualizou a certa altura. Aquilo que talvez tenha justificado que um beijo fosse furtado, ou que uma palavra mais arriscada fosse proferida. Aquilo que as individualizava numa conversa ou tornava a compra de uma prenda algo de entusiasmante, só para ver um sorriso. ( ao contrário da pergunta "que queres tu no Natal, que tenho de despachar isto". )
Sinceramente, muitas pessoas queixam-se da própria modorra em que se enterram, e as justificações soam um pouco como o "beyond my control" do Visconde de Valmont, ou seja, uma treta auto-indulgente.
Aceita-se a verdadeira solidão da falta de encontro dos comuns, e a genérica paixão que daí deriva, para se encetar um caminho do pragmático, onde as alegrias são por vezes pequenos espaços de transgressão, carcomidos pelo medo da vida adulta, e do que julgam ser obrigados a fazer.
Não se fortalecem amizades, nem se criam novas. Não se fazem ou descobrem coisas.
E depois, quando os relacionamentos se estatelam, entra-se na mais profunda e densa das merdas, em busca do conforto e da interacção daqueles que se negligenciaram por causas mais fortes que afinal redundaram na treta que sempre foram.
É por isso que essas muitas queixas soam sempre a auto-comiseração. São uma falsa questão, porque afinal de contas, é uma espécie de promissória de manutenção da boa vontade e interesse alheios quando as pessoas já desistiram delas próprias.
Enfim...

segunda-feira, maio 22, 2006

Estou em falta com alguém.
Quero agradecer á
Luna pela imensa gentileza e ajuda inestimável que permitiram que redecorasse aqui o estaminé, para o poder reabrir.
E já agora passem por lá porque ela tem sempre algo de interessante a dizer.
Obrigado, Luna :)
Quando nos deixamos ir, e percebemos que o percurso de vida nos colocou numa determinada posição, são os detalhes que nos colocam em cheque. São os pequenos elementos, as pequenas coisas, os pequenos passos. Somos nós confrontados pela vergonha suave dos nossos passos que nos transformam. Pelas escolhas feitas em momentos de tentação impossível, peranto os quais o silêncio dá respostas de conforto frio.
Somos feitos da lógica do que conseguimos aguentar. É por isso que as pessoas que nos dão pedaços de mais do que podemos suportar fazem o nosso quotidiano. São lancinantes porque dão-nos o mundo em respostas ao que não perguntámos.
E adoramos as pessoas que entram, que ficam, e nos constroem sem pedir licença. Sorriem-nos fazendo pouco da nossa bazófia, e são feitos do paternalismo necessário que deveria dar-nos a nossa verdadeira dimensão.
E detestamos o ponto a que somos finitos, à entrada de todas as antecâmaras do que pode ser cruel por nossa responsabilidade.
Somos o mundo associado em pormenores, acabado nas escolhas do que sabemos ser certo, mas só, acabado e seco.
Mas olhamos e a beleza está lá. Num simples acorde que nos adormece quando tudo se torna demasiado insuportável, e por fora o mundo fica na mesma.
A diversificação no quotidiano não é complicada.
As pequenas reinvenções derivam do interesse que achamos nas coisas. Se deixamos o mundo simplesmente passar por nós em cada uma das suas, ainda que pequenas, manifestações, tornamo-nos um repositório da nossa própria tristeza monótona.
São os pequenos rituais, e a capacidade de brincar com a simplicidade que trazem os instantes que depois se recordam. A lucidez não é significado directo de ausência de pequenos gozos. É talvez uma forma de os tornar mais intensos, pela lógica da alternância.
Muitas pessoas condenam-se a uma multiplicação de rituais e previsibilidades porque o apelo do conforto abafa o desespero. Porque a segurança é uma amante enfadonha mas regular.
Mas depois lá surge a queixa. A questão. O que se coloca em causa, simplesmente porque as fórmulas se esgotam, e o amor a tudo nunca é imóvel.
é a falta de diversificação no querer que tudo apodrece, acho eu.
Fui ver o Código Da Vinci. (atenção spoilers... se não viu o filme ou leu o livro, passe adiante)
E não entendo o hype. Os actores, tirando Paul Bethany e Ian McKellen que se entregam e parecem ter tido uma missão específica no argumento, andam numa sonolência que faz confusão. Eu, fã confesso de Audrey Tautou, fiquei desconsolado com a dormência que lhe é emprestada pelo guião, ou pela falta de convicção no material. A Hanks só lhe falta bocejar.
Eu, ser enfiado numa gruta nos últimos 3 anos, não li o livro, e como tal tive ao menos a expectativa do desenlace. No entanto, a intriga policial em si é fraquinha, embora as questões levantadas sejam interessantes, e mereçam uma investigação quando o tempo for mais simpático comigo. A ideia que o Graal seja Maria Madalena é muito interessante e faz algum sentido. É-me pelo menos mais simpática, porque reflete a noção de humanidade em Cristo, conceito muito mais consentâneo com a ideia que eu poderia fazer de religião, não fosse agnóstico.
Mas a questão que me colocou esta obra divide-se em duas:
1º - Porque terá isto chateado tanta gente? Porque terá a Igreja e a Opus Dei solicitado um boicote à obra? Na mesma linha do que foi dito da obra de Scorcese, eu considero esta última um filme muito mais certeiro, acutilante e mesmo terno. Logo, muito mais susceptível de chatear a molécula aos sectores mais fundamentalistas.
E a Opus Dei e o Vaticano enxofram-se por serem mostrados como um centro de poder sobre as massas, de influência e não mais que isso? A verdade chateia assim tanto?
2ª - O final da obra aponta para a experiência subjectiva de fé como sendo a única forma de entender estes fenómenos. A liberdade de sentir a experiência transcendental, porque a fé é essencialmente liberdade em crer num ente ou estrutura superior através de um juízo de afeição e convicção. O dogmatismo é apenas uma forma de criar um clube, não de propalar fé. E será sempre esse o erro das religiões dominantes. A tentativa de controlar e não esclarecer, de impor medo, e não esclarecimento.
Sendo assim, como pode ser este filme ou obra ou ataque? Quando até o suposto detractor da posição oposta à religião tradicional é visto como um fanático para o qual os fins justificam os meios?
Parece-me mais um produto de consciência pesada, por actos e posições que cada vez mais afastam as pessoas das religiões organizadas precisamente porque estas preocupam-se mais em controlar do que em mostrar alternativas a uma experiência de afeição e inspiração como é a sorte de crer em algu superior que supostamente nos protege e ama.
Como agnóstico, prefiro questionar pela liberdade intelectual. Pode ser mais solitário, mas pelo menos verificamos as nossas histórias.
Eu prefiro ter fé no meu semelhante, como dizia a certa altura Tautou, porque até podemos ser bons, e ao sermos, essa bondade e humanidade nasce de um impulso interno que é, em meu ver, o verdadeiro milagre.
O milagre da escolha que nos faz livres na escolha de um Bem criterioso e equilibrado.
Sim, Kant outra vez. :)
Bom dia a todos.

sexta-feira, maio 19, 2006

MORANGOS COM AÇUCAR... MAS AQUELE COLOMBIANO...
"Francisco Adam (o ‘Dino’ da série ‘Morangos com Açúcar’, em exibição na TVI) consumiu cocaína pouco tempo antes do acidente de automóvel em que perdeu a vida, no Domingo de Páscoa, 16 de Abril – e conduziu ainda sob o efeito da droga. Segundo fontes médicas que tiveram acesso aos resultados dos exames toxicológicos ao cadáver, os especialistas do Instituto de Medicina Legal, em Lisboa, encontraram cristais de cocaína (erytbronxylon, o nome científico) em “quantidade relativamente significativa”.As análises revelaram ainda no corpo de ‘Dino’ vestígios de anfetaminas e cafeína – estimulantes que habitualmente são adicionados à cocaína para aumentar o volume e potenciar os efeitos."
Correio da Manhã - consultar a notícia aqui
É estranho que recomece as hostilidades com algo assim, mas sinceramente é uma oportunidade de dizer alguma coisa sobre este assunto. Sobre aquilo em que assenta o que é comunicado aos jovens, o que lá chega, o que eles entendem como sendo a selecção do que é relevante na sociedade contemporânea. Não que eu tenha qualquer ideia, mas algumas coisas lançam-me na perplexidade de quem observa os fenómenos com um juízo subjectivo e comparativo.

Eu vi a série em questão duas ou três vezes. A indigência das tramas, dos diálogos e das representações era de tal forma incomodativa que me via obrigado a mudar de canal constantemente, como se evitasse a confrontação com uma cena embaraçosa. Mas tentei apenas perceber um pouco o fenómeno que ao contrário do que se pensa não arrasta só pré-adolescentes, mas gente com já bem mais que duas décadas de vida.

As miúdas são giras, os miúdos têm pinta, e tudo se passa numa espécie de abordagem enfeitada onde o suposto glamour dos petizes é levado ao extremo. Dir-se-ia o baywatch dos pequeninos, ou uma pequena agência de modelos nos subúrbios. Os enredos assentam no lado mais soft das problemáticas que envolvem estes jovens, com a dose suficiente de sexo subentendido para deixar a malta na ponta do assento.

Há quem diga que é para os miúdos, mas se há coisa que me irrita é esta noção de que discurso para os mais jovens tem de assentar em abordagens primárias, porque são todos muito burros e não entendem senão coisas prontas a comer. Chiça, se isso não é subestimar as pessoas, não sei o que será. Existem séries para jovens com alguma qualidade, pelo menos com algum conteúdo, que diabo. The O.C., ou mesmo o mais juvenil Dawson's Creek pelo menos faziam os miúdos e mesmo muitos graúdos, pensar um bocadito. E não deixavam de ser também entretenimento.

Mas parece que afinal o ídolo tem pés de barro. Espetou-se a alta velocidade porque vinha pedrado até à quinta casa. Que é um direito que lhe assistia, como a qualquer ser livre. Mas a glorificação que se fez, com direito a capa na Visão, escapa-se-me. Era um ícone de juventude e boa disposição que se perdia, que morria de uma forma reservada às supostas lendas. Mas afinal é apenas um miúdo que cometeu erros, foi burro, imprudente e pagou por isso com a vida, como tantos neste país. Aqueles que anonimamente ficam esquecidos na lógica das estatísticas, e que talvez percam a vida em circunstâncias nas quais a responsabilidade nãos lhes é tão atribuível.

O ídolo dos miúdos e alguns graúdos mostrou a mortalidade de que somos todos feitos, a imperfeição, a sujeição a más escolhas e erros que nos fazem humanos. Talvez isso transforme e leve o séquito de seguidores a pensar na densidade subjectiva de que é feita a vida, e isso contamine um pouco a superficialidade com que é contada a história daquele que é o maior fenómeno de popularidade televisiva da actualidade. Talvez a morte do actor sirva para reflectir, ou talvez seja algo que se varre para debaixo do tapete, num cenário que se quer leve e mercantilista. Servirá com certeza como exemplo do tipo de escolhas que fazemos, como talvez a pior forma de pedagogia, demonstrada por uma vida de alguém que até poderia vir a ter futuro como actor, já que pelo que me dizem, era dos poucos com algum talento no meio de miúdos com capacidade para pouco mais que regurgitar textos pouco inspirados, e mostrar os corpos perfeitos de juventudes pouco complicadas.

É pena que certas coisas tenham de ser vistas assim.
Francisco Adam inspirou muitos e mostrou-lhes da pior forma o cuidado que devemos ter ao errar. Por vezes o azar bate-nos mesmo á porta, e vem completamente sem açúcar.

Talvez essa seja uma outra perspectiva a mostrar. O grão de areia no herói malogrado, que mostra que a vida não é feita apenas de uma óptica.
Mas adiante com o açúcar que é Verão.

De volta.
Até já.

sexta-feira, maio 12, 2006

quinta-feira, maio 11, 2006

Vermelho e Branco serão as cores do retorno.
Tempo ainda desconhecido.
Just checking out my new home...