No nosso processo de crescimento, algumas pessoas são absolutamente fundamentais. Não falo da estrutura parental, porque essa mais do que fundamental, é decisiva, mas falo daqueles que entram na nossa vida para a mudarem. Mudam perspectivas, lógicas, formas de ver. Fazem-nos crescer, pintam-nos um cenário, têm um absoluto e real interesse em quem nós somos.
Passei toda a minha vida a relembrar algumas coisas que me foram ditas, mostradas e oferecidas por uma pessoa há mais de 15 anos. E dou comigo a fazer um esforço para a encontrar, porque nunca lhe agradeci devidamente, nunca lhe disse uma ou duas palavras de reconhecimento por tudo quanto me foi dado. E reforço o termo "dado", porque é de entrega que se fala. Uma entrega emersa numa tutoria que criou reacções quase pavlovianas quando em contacto com um determinado conceito.
Esta pessoa mostrou-me que o início da descoberta do outro lado, do outro sexo, da outra perspectiva, dificilmente poderia ser melhor. Mostrou-me a sorte que tive em ver o universo dela(s) por dentro, quando mais não era que um sorvedor de informação catalizado pelas hormonas, as dúvidas e as percepções.
Ela era mais velha. Estranhamente parecida com a Meryl Streep quando era novinha. A voz era suave e sempre indicadora. Não sei bem explicar isto, mas era a voz de alguém que se submetia a grandes esforços para que qualquer perspectiva de tantas realidades que me escapavam, fosse a mais completa de todas. Alguém que olhava nos olhos e por alguma razão estranha se emocionava com a insegurança de alguém que pé ante pé avançava nas descobertas. Entregava algo do seu mundo muito, mas muito maior, e aceitava a inevitabilidade do incapaz e imberbe retorno que tinha.
Livros, imagens, esforço para ver novas coisas. Afastou-me um pouco do circuito da vox populi na minha idade de então, e trouxe-me à tona de um mundo mais assutador, maior, mas cheio de beleza em tantas quantidades de fenómenos.
Mostrou-me o mundo de uma mulher a meio caminho entre a amante e a tutora, sem as protecções do vicio social, e emersa no desejo de revelar algo de perigosamente frágil. Quando se é pouco mais que um menino, a predação não é um elemento capaz de fazer seja lá o que for perante a preciosidade de um mundo pessoal que se mostra a alguém com o intuito de melhorar o mundo alheio e exterior. Até porque não sabia bem o que fazer com o que ela me dava. E quando uma mulher deseja dar, tudo o que nos tornamos parece revestido de um brilho que nem sabemos se merecemos, mas que nos eleva sempre.
Só com o passar dos anos entendi o real efeito daquela pessoa em cada escolha. Em cada tentativa de entender cada pessoa que cruzou o meu caminho. Em cada agradecimento pela partilha de intimidade, em cada vergonha por cada erro injustificável. Em cada centimetro de pele que toquei e que queimava. Em cada percepção de sensualidade, em cada instante da fragilidade alternada à força sexuada muito superior.
Essa pessoa mostrou-me um mundo novo, mas sobretudo o seu. A sua forma de ver as coisas. A introdução no universo feminino com um olhar de interesse, curiosidade, respeito, acolhimento, sem nunca deixar de revelar o poder ínsito nessa condição.
Gostava de a rever. De ouvi-la, conhecer a cara metade, a família, os cães e gatos se os tiver. De lhe dar um abraço, estender a mão e ouvir-lhe a voz. De recordar os gestos e aprender novas coisas que o passar dos tempos lhe tenham trazido. De ver até onde foi.
Queria agradecer-lhe, retribuir, mostrar até que ponto aquilo que ela deu mudou o mundo de uma pessoa. Que tornou a primeira abordagem uma de interesse, curiosidade, respeito e sempre algum deslumbramento.
Que em certa medida, até me despreparou defensivamente para os anos que se seguiriam, mas que a alternativa teria sido bem pior.
Obrigado C.
Estejas onde estiveres.



















