ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, março 22, 2007



Foto - Ben Arieh





É complicado traçar a ideia de progressão e objectivo que temos com toda a clareza que seria desejável. A história que temos como nossa, nem sempre, ou poucas vezes, segue o curso narrativo e “arranjável” que a distância permite ver com clareza. A racionalidade é uma espécie de luxo, mantido a duras penas, e sob uma capa de auto protecção que a mais das vezes não é sequer voluntária. Mas não quer por isso dizer que não possua uma relação causa efeito, ou eu não seja feita de factos ocorrido na peugada no tempo. Em algum momento, a esquina é dobrada, e as perspectivas alteradas trazem um automatismo onde tudo parece feito de mecanismos precisos, mas sem explicações axiomáticas, tão ao gosto dos pragmáticos.

Não restam dúvidas de que a história em causa, em plena medianiz, é feita das hesitações próprias de procuras parcelares, de caminhos feitos de costas em direcção à percepção das razões. E se avançar não significa de forma nenhuma a fuga para a frente, há que perceber que quando a bicicleta atingir o declive de montanha, o esforço para a vencer necessitará de respostas, como sangue claro nos músculos. Se assim não for, o cansaço, como um oroboro, acabará por devorar o próprio esforço, inconsciente da suposta e bem intencionada arrogância dos objectivos, os quais são apenas feitos de busca de respostas, não de efeitos. Sim, é assim tão simples. Assim tão directo. E assim tão indecifrável.

Passaram muitos anos desde a percepção dos espaços inadequados para a arrumação dos intentos, afectos, forças e fraquezas. Como qualquer bom pragmático, a ideia de que entre mortos e feridos, alguém se há-de safar é tão prática como a demonstração de regras tendentes ao holismo, ou desejo de certeza universalizável. E se a incerteza for em si indemonstrável, porque não aceitá-la como escopo do percurso? Se funciona durante tantos anos, a misericórdia do mundo envolvente torna pelo menos mais fácil a sua inclusão na teimosia dos caminhos. Ainda que estes sejam escolhas que, pelo menos parcialmente, afinal não se escolhem. E as dores derivadas não são por isso mais fáceis. Talvez até sejam piores.

O problema das grandes cicatrizes é a convicção de integridade que trazem. E será dispensável qualquer tentativa de transferência sensorial para compreender seja o que for. Num dado momento, um segundo de malfadada percepção muda o mundo, e os efeitos são como uma estrada incerta num país sem montanhas. O facto de o horizonte a engolir, não garante o seu fim. E é complicado fazer chegar a outros a noção clara do que anteriormente tinha uma estrutura una, e de um instante para o outro passa a ser fragmentado, explicado, e terrivelmente desmistificado. Com essa percepção, cessa a percepção da integralidade emocional, e como para qualquer ser perdido seja onde for, a estratégia é clara. Segue-se em frente, porque a algum lado se irá dar com certeza.

Estou certo, pelos relatos que ouvi, e dos quais ainda me lembro, que nenhuma destas percepções é autónoma. Não há inatismos na confusão, ou na incapacidade de arrumar a loja dos sentimentos. Ela nasce, cria-se, e tem o que de poderia chamar de anti-musa. Resiste aos comentários dos arautos do tempo curandeiro, como será compreensível, o cristal colado pode reter tudo no seu anterior, mas não brilha da mesma forma, e em cada caco há uma perspectiva diferente que surge consoante a luz e o olhar nele se centram. E as miríades nem sempre são bonitas. A inconstância não tem tempos de aviso. É uma merda, mas é verdade.
Tendo isto tudo em conta, os detalhes que são dados pela narrativa trazem à tona as realidades. E seria natural que com o passar dos anos, o esclarecimento significasse o fim das questões e da incerteza. Da insegurança e uma certa ira provocada pela fome. Gostaria que dizer que passa, que se funde numa percepção esclarecida do material.

Mas para alguns, não é assim tão fácil.

Para já não creio que aconteça a ninguém. Alguns acabam simplesmente por se render. Outros encontram atalhos, curvas, declives e subidas. E outros continuam. Que se lixe o “para onde”, é preciso é ir. E é nesse caminho que encontramos alguém que poderia fazer parte de uma história (nada) simples. Narrativa progressiva, quase circular. Passos dados pelos afectos, pelas conquistas, pela sede de progressão, pela imprudência dos limites feita de uma luta interna. Essa luta, como disse acima, pode ser adivinhada, mas nunca objecto de compreensão por transferência. Ninguém pode simular a inquietude do cérebro na escuridão, a ausência do sono, a piedade dos gostos parcelares transformados na maior aspirina de alma do mundo.
E no entanto tenta-se.
Entregamos o que podemos, entramos até onde nos deixam, e observamos, com os braços estendidos, um bebé grande que caminha num muro de aresta estreita. E ele lá vai. Por vezes dança, noutras cambaleia, e não raras vezes corre.

Há algo de irremediavelmente poético e irresistível nos esclarecidos teimosos. As partes de si que entregam, por vezes por acidente, são verificáveis a mais das vezes nas escorregadelas das suas fraquezas, nas fragilidades quase patéticas das suas desculpas. O desejo que as corrói, e nos qual por vezes felizmente nos incluem, é a sua viagem de concepção e incêndio. E amamo-los na estreita medida da esperança que nos causam, no vislumbre da percepção que sabemos que têm, e com a qual nos brindam de tempos a tempos.
Mas é um jogo perigoso, e mais ainda, ocasionalmente incongruente. É uma bela estupidez, uma tontice deliciosa, que os reduz e engrandece ao estatuto de miúdos demasiado elucidados, demasiado grandes, demasiado humanos perante as teimosias próprias da sua enorme capacidade de sentir. Apesar de tudo, estão tão vivos que nos vão queimando, irritando, e acabam por se instalar na nossa quota-parte interior reservada dos perenes. Filhos da mãe. Neste caso, também da minha. Bem, a ironia faz bem ao sangue. Não é o que dizem
?

Talvez existissem outros meios de o reconhecer. Sim, porque não me atrevo sequer a esboçar uma explicação. Seria como ter aquelas conversas acerca dos limites da percepção universal, quando já se está com uma bebedeira desgraçada, a qual, felizmente, adormece pelo absurdo a real percepção do horror existencial. E lamentamos informar, existe mesmo.
Sim, é mais fácil desdramatizar e colocar tudo na onda do fixe, não se passa nada, desafectem a cena e sejam realistas “cool”, mas no fundo, os problemas estão lá, as rachas na parede também, e a água, a bem ou a mal, começa sempre a escorrer pelas frinchas como sinal de pressão.

Parece que ainda me recordo da faixa de cabelo por cima dos olhos. Os olhos que apareciam e desapareciam no contexto do rosto. A avenida larga cheia de sol, o quintal, a praia, o calor. Um cenário igual a mil outros, mas totalmente diferente, como são todos os que significam uma perda. Daquelas que não se explicam mas que moldam de forma talvez irremediável. Se são danos ou progressões, só a viagem que encetas consegue responder, e por vezes nem isso. Acho que poderia imaginar cada passo da história. Cada idiotice assim analisada quando se consegue ser racional, e desmontada pelos efeitos na pele. E por vezes olho e encho-me de um sentimento misto se orgulho e tristeza. É difícil não sentir o primeiro na honesta tentativa de uma coerência feita de dor, por um lado, e o segundo por esta mesma, embora a mais das vezes apareça disfarçada. Acho que na ideia de protecção a um ente realmente querido está sempre encerrada a ideia de indicação de um caminho. Dos passos necessários. Mas algumas pessoas tornam essa tentativa mais difícil que outras. Tornam-na redundante, feita apenas de emoção, sem o dom do pragmatismo ou solução clara que abala realmente os tais esclarecidos teimosos.

Seja nativa de uma casa junto da praia, de um cabelo encaracolado, ou tenhas nascido com ela, a voracidade do percurso é um jogo perigoso, como todas as obstinações o acabarão por ser. Têm o encanto da capacidade, do triunfo, da força, da multifacetada caixa de ferramentas. Mas assim como a nicotina, acelera as sinapses do sujeito, ao mesmo tempo que o vai matando lentamente. E ninguém que gosta desses sujeitos está para aturar isso.

A celebração de alguém é sempre expressa da melhor forma através da consciência da sua história. Daquilo que dela surge para sustentar uma narrativa, uma recordação, uma experiência que acrescentou um tom à palete destinada ao real. Que deliciosa é a partilha de histórias, a troça de bom coração, os cheiros e visões detectadas ao mesmo tempo. E como tudo se sedimenta na construção das uniões, das transcendências do sangue, da linguagem não verbal, da assumpção de tiques, gostos e lealdades.

Eu tenho isso tudo, em ficheiros desordenados, é certo, mas bem presente. Alguns instantes posso descrevê-los até ao grão de areia numa camisola, ou o rubor de um rosto. Carimbados pela aprendizagem que originaram, são feitos de um afecto que o tempo não desmembra, de um antagonismo complementar que gera lealdade e o tão raro senso de real pertença.
A vida que tenho, e as minhas obsessões, são inseparáveis da compreensão e contestação das tuas, e ainda mais do percurso que fizemos até chegar aqui. Teve alguns buracos, é certo, mas é da estrada plana que mais me lembro, e aquela que não raras vezes faz falta em virtude das curvas da tua estrada de luz ao fundo. E entre irmão, embora possa parecer estranho, nem sempre sabemos o que dizer. Arrisco a concluir que talvez até seja mais fácil com sangue alheio do que com o nosso. Se estou a escrever isto, fica mais que provado.

E no entanto…

O teu encanto está lá sempre. Aquele de que falo acima. Aquele que te faz fugir, mas nunca desaparecer. Que te faz claro, mas “multi-laminado” e complexo, como uma pedra de xisto cortada pelo vento e encerrada numa daquelas encostas onde cresce o vinho que tanto gostas.
E ainda que na discórdia de algumas essências, na visão diferenciadas de alguns fenómenos, a união desafia a normalidade, complementa-se, acrescenta capítulos a uma história, e faz nascer do antagonismo a honestidade que cria os laços que ficam. Talvez uma maior concordância não permitisse uma abrangência tão grande de amor fraternal, nem uma admiração tão vasta.

Quem sabe?

O sangue não explica tudo.
São as histórias, afinal, que tudo fazem.
Que nos moldam, unem, e lançam um contra o outro na complementaridade.
Que afiam os dentes da lealdade.

FELIZ ANIVERSÁRIO, IRMÃO.
(21/03/1969)

Mais do que o sangue, é algo indefinível e mais abrangente que nos une.

A nós, que somos algo de rocha.














terça-feira, março 20, 2007



Talvez... bem, não talvez, com certeza que não será o melhor pedaço de cinema do ano. Nem o melhor filme. Nem a melhor ideia.

Mas este foi o pedaço de cinema que me fez sair mais realizado da sala, mais feliz por ter decidido adquirir o cartão Medeia, ou simplesmente, por ter tido a sorte de experimentar o efeito subjectivo da obra que alguém completou, e como tal, me trouxe mais uns intantes em que preferi estar consciente, e perceber o que tinha para dizer.

Essa subjectividade cria afectos, nichos, paixões e pequenos cultos internos, semelhantes a amizades fortes, reatadas anos mais tarde, com a sensação da pertença recuperada. E sinceramente, talvez como o filme o diga, certas coisas acabam por ser aquilo que nos salva a vida, ou mais precisamente, o quotidiano, bocadinho a bocadinho, por letras, sons, formas, e essencialmente, presenças.

Este "indie" juntou-se a uma galeria de eleitos para mim. Filmes que formam de um puzzle pessoal, de um recanto onde de forma talvez indecifrável (não é sempre), sinto-me como se chegasse a casa.

Thank someone or something for small mercies.




Ainda a propósito do dia de ontem, fica algo que expressa bem a mais pungente e bela ideia de paternidade que me ficou na memória. No fundo, e sempre, tudo são histórias.


E associado a elas, fica o meu sentido e respeitoso silêncio perante quem ontem não pode entregar um texto ou dar um beijo...

segunda-feira, março 19, 2007




Alguns instantes roubam-nos o fôlego, apenas para o devolverem durante o resto da vida, deixando que nos refugiemos junto a ele.
E ri-se, ao saber-se assim impassível de ser roubado, por maior que seja a malícia ou a suposta esperteza insidiosa de iconoclastas sempre demasiado contentes consigo mesmos...

foto - Peggy Washburn


Quando a anorexia e a obesidade são flagelos de impacto dramaticamente visível, percebemos que os gritos de ajuda dados nos extremos são próprios da cegueira social, e dos danos muitas vezes irreparáveis que a parcialidade de cada estado provoca.

Remediar as coisas quando a merda já está inexoravelmente feita parece-me ter sempre o mesmo efeito.
A catarse paliativa, e pouquíssimo mais.

É no insubstancial de cada dia que se encontram as respostas impassíveis de representação para a fome impossível de identificar ou a saudade pelas coisas que nunca conhecemos.
Confuso?
Então pensem em cada instante em que o quiseram fazer.
Aposto que é geral a impressão que essa intangibilidade deixou, e os efeitos que teve na decoração de todas as outras coisas de sensível trato na vida de cada um.
Bem, pelo menos comigo é assim.

Ligar a vitrola antes de ler, por favor.
Obrigado.









Olá Pai.



Há muito tempo que te conheço. Há muito que sigo os meus passos nos teus, e embora talvez não nos conheçamos assim tão bem como isso, desafiamos há muito o plano das ligações terrenas. Aquelas que dizem ser limitadas, como estações do ano um pouco mais longas no presente da vida de todos, nos espaços do tempo enquanto ele lenta e inexoravelmente prossegue, sabe-se lá em que direcção.

Há tantas histórias de que consigo recordar-me. Tantas que não aceito a progressão da idade sobre ti. Velhinhos que vejo, mais novos que tu, e nunca te consigo associar a eles, porque realmente não o és. Não tenho olhos para essa parcela do passar do tempo. Os olhos estão lá, do verde ágil, das palavras entusiastas, do que não tem tradução relativamente ao que me ensinaste toda a vida. Daquelas coisas que contadas a outros nada dizem, colocadas no plano do meu crescimento, nos instantes em que passei de um momento para o outro, no caminho em que me colocaste.

Se hoje tenho cabeça para pensar, devo-o ao imenso manancial de escolhas que puseste ao meu dispôr sem que eu, como qualquer jovenzinho com sorte, desse por isso. E na construção da minha personalidade, dei os erros que provavelmente nunca querias. E por saber-te felizmente imperfeito, como os modelos devem ser, mostras todos os lados das escolhas, mesmo aquelas que fizeste e que te renderam coisas menos boas. Vi os erros que mesmo assim não toldaram a tua essência. Ensinar e amar é também personificar o erro, porque o que não é tangível, dificilmente se torna interiorizável Deve ser por isso que sou agnóstico, e se for a pensar, devo-to a ti (e a essa senhora aí do teu lado) por também ter podido efectuar essa escolha.


Portanto, reconhecendo a minha falha, porque a lógica do dia de calendário é a pior possível, aproveito as palavras que tenho para falar de um universo onde as coisas são tão por vezes tão íntimas e carnivoras que nenhum vocábulo serve. Tudo parece um balbuciar desconexo, talvez aquele que tenhas ouvido muitas vezes quando ainda lutava para ter dentes, confortado por uma canção de voz grave e mãos poderosas.


Por isso não te desejo um feliz dia, porque seria limitar-te a umas insignificantes 24 horas. E eu tenho 33 anos de histórias. Não para contar, mas para recordar, fazendo um mapa de mim mesmo, por onde passas, por onde deixaste a incondicionalidade de um estado de afeição. Só por isso és tão infinitamente superior, tão mais produto da tua reconstrução, do passar do tempo, da colheita dos frutos do tempo terreno, desgraçadamente limitado.


Este é mais um dia em que vemos o sol juntos.

Tu és o homem do momento. De obra feita, dir-se-ia em linguagem corrente. Mas ainda com muito para acompanhar na conservação da mesma, tão necessitada ainda da tua intervenção.

Para ti não há comboios.

Continua a teimar, se fazes o favor.

Obrigado.



quinta-feira, março 15, 2007

Aquilo de que gosto realmente, que adoro, que amo, dêem-lhe lá o nome que quiserem, tem razão de ser. Essa razão não é toda a fundamentação, e mal estariamos se tudo pudesse ser dissecado por relações simples de causa efeito, bem como se tudo fosse uma aleatoriedade.


Para mim, o amor seja em que forma for nunca é passível de ser despido de parte fundamentável, aquela que assenta no reconhecimento de tantas coisas boas e fora do mundo que os objectos da nossa afeição possuem.


E o mesma lógica é aplicada de forma inversa. Porque há muita gente boa, (e muita má, infelizmente) e dentro da primeira amamos muito poucas pessoas. A magia está aí. Naquilo que fazem com o que têm, em parte sem saberem como ou porquê.


Para mim a beleza é completa dessa dicotomia.


Explico sempre porque gosto realmente de alguém, seja amante ou amigo, mas surpreendo-me pelo que me escapa, pelo que essa pessoa faz sem saber, mas que pela conjugação do que tem, se torna para mim único.


A magia do amor ou afeição é isso mesmo.


É no meio da parte que se explica, "eruptir" a ponta de empatia forte e intangível que nos escapa, nos faz progredir, nos coloca as borboletas no estômago e nos dá a urgência de cuidar e tocar aqueles que passam as nossas portas, ou entram no mar que fazemos nosso.


A magia é ter aquelas qualidades e fazer-nos esquecer que as podemos enumerar, surgindo como uma pessoa que simplesmente é, e da qual simplesmente gostamos com tudo o que temos.




P.S. : Para mim o amor completamente aleatório não existe. Em meu ver, chega a ser insultuoso, e detestaria que alguém gostasse de mim sem saber minimamente porquê, sem que conseguisse apontar-me uma única coisa que pudesse ser a porta de entrada para qualquer afeição grande que me tivesse, sem que eu pudesse concretizar nem que fosse um elemento de merecimento, ou que, inversamente, tivesse tudo esquematizado, como um sistema de avaliação pura e meramente objectiva.



No more mister nice guy.

Definitivamente, não funciona.

É triste, mas é verdade.

quarta-feira, março 14, 2007



É extremamente difícil explicar às pessoas o impacto de certas coisas na nossa mente ou aquele local estranho e intangível onde formamos os nossos juízos estéticos e sensíveis ao ponto onde eles começam a doer. É uma forma de solidão, como outras, mas acho que nunca desistimos de querer generalizar ou universalizar a noção clara de que um autocarro acabou de nos atropelar a alma. Nunca sabemos como o fazer, ou as tentativas, ainda que satisfaçam, os outros, nunca fazem o mesmo por nós. Tudo se diz, mas realmente nada de ouve, como tentar gritar durante os próprios sonhos.

Esses momentos tornam-se uma terapia, uma espécie de local seguro onde paramos quando estamos fartos de jogar à apanhada com o que quer que nos assola todos os dias. Uns usam drogas, outros bebida, outros ainda psiquiatras ou psicólogos. Outros escurecem. Outros desligam através da expressão artística de pessoas que por acidente até parece que os conhecem.
Os mais afortunados, usam amigos verdadeiros, mas esses são ainda mais raros que bruxas a recitar poesia. (*)
(A propósito de um poema de Auden - "Diz-me a Verdade sobre o Amor" - recitado por uma miúda mascarada de bruxa, há muitos anos atrás.)
Quando temos uma idade em que não existem vícios de cinismo, talvez porque a vida jovem e fácil assim o permitiu, e quando os elementos familiares e quotidianos não nos trazem mais que dores de alma próprias de crescimento confuso, sonhar, mais que uma necessidade, torna-se uma espécie de comando surdo. Esse comando aproveita-se por sua vez da imprudência e puerilidade para desempenhar pequenos milagres, provocar muitas asneiras, e plantar uma seara de recordações.
O sol traz muitas delas.

terça-feira, março 13, 2007



Parece que, segundo várias opiniões que vou ouvindo, a dor colectiva é um caso digno de nota, ao passo que a dor individual é um acto de imodéstia e dramatização indesculpável. Isto, claro, a não ser para aqueles que o saibam fazer com elegância.
Mas de acordo com a minha (necessaria e conceptualmente limitada) experiência pessoal penso que quem realmente padece de dor real não pode reagir elegantemente. É como tentar localizar jurisprudência quando se está bêbado de cair, ou fazer ski enquanto se preenche o formulário do IRS.
A beleza que encontro nas pessoas está quer na sua construção, quer nos seus pormenores. Está na revelação das suas idiossincrasias, e como elas pintam um mundo meu de forma sempre diferente nos segundos em que por lá aparecem.
Nos pormenores, estão cada uma das piadas que ornamentaram um instante, ou o mau feitio que os transformou em nuvem isolada de verão. Estão as irritantes tipologias que moldam a forma de estar. É por isso que ora gosto delas, ora me apetece emigrar para o Tibete e viver com as cabras e o vento da mentanha.
Nos detalhes estão aquelas coisas que estendem a convivência para além da sacralidade do assunto novo, do acontecimento inédito, mas a banham na recorrência de algo mais pequeno que se acrescentou ao que parecia reconhecível. Reinventar os contributos é estabelecer a continuidade. É fazer da afeição o valor tão seguro quanto possível.
E no fundo, importam-me aquelas que realmente se importam com alguma coisa.
Nem sempre se pode ser conveniente, ou intimidado pelas recusas, ou adaptável.
Mas prefiro mil vezes quem quer ver ou saber, quem tem uma perspectiva nem que seja um grama diferente, que o politicamente correcto de uma forma de segregação que mais não é que uma simpatia dissimulada e tão bem disfarçada como uma girafa à porta de um clube só para ursos.
O que gosto nas pessoas, são os seus detalhes.
São as coisas que são tão sua pertença, que uma vez exteriorizadas, as tornam realmente inconfundíveis. E indignam-se com qualquer tentativa de mácula no processo gregário que tal conceito acarreta.
O que gosto nas pessoas é o que as faz querer saber. Importar. Prestar um mínimo de atenção.
Porque estão lá para descobrir.

Não sei se o Brett Easton Ellis ou o Chuck Palahniuk,podem ser chamados de Irvine Welsh americanos, mas até à data e em minha modesta opinião, o último leva a melhor.

segunda-feira, março 12, 2007

"We are all special cases."

Camus


Pois é, e a um ponto que até chateia...


Afinal como é?
Existem pessoas que fazem mal, ou pessoas que simplesmente se comportam conforme que lhes é permitido pelas outras?
É um dilema lixado, porque de alguma forma está sempre ligado à noção daquilo que define cada personalidade, dos limites auto-impostos, e mais do que tudo, daquilo que achamos não admissível em abstracto.
Que diabo, fraquezas toda a gente tem, e quem nunca fez asneira ou se comportou de forma da qual não se orgulha particularmente, que atire a primeira pedra. Mas usar conscientemente determinadas estratégias que serpenteiam pelas fraquezas do outro para daí tirar dividendos da sua credulidade é algo que sinceramente me dá alguma urticária.

Mas vamos lá a ver a real perspectiva das coisas.
Até que ponto esse discurso/estratégia tem pernas para andar sem a conivência do ouvinte? Até que ponto os factos justificam uma intervenção racional no sentido do esclarecimento, e da escolha esclarecida?

Os "artistas", coelhos fofinhos com dentes afiados se quiserem (eu gostei imenso da imagem), são como uma engrenagem bem oleada, onde o funcionamento dos conceitos é tão fluido como um mar sulista num dia de verão onde nem o vento sopra. Cai bem, parece ter a lógica daquilo que o ouvinte integra como sendo o encaixe das suas próprias inevitabilidades, e nas quais se escuda para depois tirar as conclusões menos boas.
As pessoas que, mesmo sabendo que os seus alvos são assim construídos, aproveitam essa debilidade, demonstram duas formas de desrespeito.

1 - Pelo outro, porque bater em quem está em baixo ou demonstra incapacidade de se defender é baixo por qualquer padrão aplicável. É sorver o inatacável da outra pessoa, é instrumentalizá-la ao ponto de uma auto-gratificação que se justifica na estratégia aplicável.

2 - Por si próprios, porque se a pica se mantém por pessoas que tão mal se têm em própria conta, que não protestam, que não reagem, então os manipuladores detestam verticalidade e apreciam moluscos invertebrados, o que não os abona muito.
Os artistas, que deambulam numa constância da sua atitude muito bem calculada e inteligentemente armada, predam naquilo que deveria ser matéria da integridade pessoal. Aquelas coisas onde não se toca, onde não devemos mexer, mesmo que pareça tão fácil, tão exposto. Mas se for a ser perfeitamente pragmático, esses especímenes só farão aquilo que lhes é permitido. E se a porta é escancarada, mesmo quando o cavalo é claramente de Tróia, então a ocasião faz o ladrão, já lá dizem os antigos.

Agasta-me mais a atitude de teimosa recorrência, de estupidez (desculpem lá os maus fígados, dormi pouco) a qual, perante as continuas manifestações de histórias coladas com cuspo e desrespeitos variados, escudam o masoquismo e a falta de respeito próprio sob a capa de um sentimento qualquer. E depois queixam-se tremendamente porque afinal de contas, as atitudes e lógicas que se verificam não assentam na perspectiva que idealizavam. É uma outra forma de inflexibilidade por crença auto-imposta.
Perante a verdade, a pessoa pode batalhar. A persistência pode ser muito válida, e até tocante, mesmo quando as coisas parecem não ter remédio. Mas é feito num contexto de opção consciente, de opção perante o que o outro esclarece. E até há histórias que acabam bem, e outras que não.
Mas o essencial é que quer de um lado, quer do outro, não há dissimulação. É preferível quando há um combate o mais honesto possível, coisa que o "artista" não permite, porque a viscosidade do seu discurso assenta em coisas com as quais não se brinca ou manuseia a não ser em caso de extrema verdade ou necessidade.
Por isso o dilema fica.
Recordo uma história do meu homónimo onde os vampiros só entravam em casa depois de serem convidados. E aí, pronto, caldo entornado.
Neste caso, a ideia é algo semelhante.
Será que podemos levar completamente a mal o predador, se a presa teima em deitar-se de barriga para cima e permanecer imóvel?
Bem, no meu caso pessoal, julgo que prosperar junto de outrem à custa das fraquezas reconhecidas deste é sinónimo de indignidade do predador. E o facto de ser fácil, não o torna correcto. Pelo contrário.
Mas também aquele que leva duas pancadas na tromba e fica, é porque não ainda não as levou em número suficiente.



sexta-feira, março 09, 2007




Da Genealogia e Morfologia do Horror.


Já me havia cruzado com
este caso a propósito do livro de Jack Ketchum chamado "The Girl Next Door", que desde já recomendo, embora recomende também um estômago suficientemente forte, porque é absolutamente necessário. Já agora complementem com a leitura do livro "The Indiana Torture Slaying: Sylvia Likens' Ordeal and Death", de John Dean, coisa que pretendo fazer em breve. E depois arejar bem a cabeça para aceitar a informação e expurgar o incómodo amargo que a incredulidade provavelmente deixará na cabeça durante uma ou duas semanas.
A história de Sylvia Likens tem os típicos condimentos de circundância social próprios de histórias de morte ou comportamento desviante. Existe pobreza, miséria, ignorância e abandono. Existem dificuldades associadas à pressão inter-pares, às lógicas de segregação económica e social e à alienação da vida em comunidade.
A miúda de 16 anos que foi torturada e morta por vários membros de uma comunidade, sob o controlo de uma psicopata malévola, é a infeliz protagonista de uma das mais chocantes, revoltantes e injustas histórias de violência infligida sobre uma única pessoa de que há memória ou registo. E não ocorreu na idade média, ou em meio aos cultos bárbaros das civilizações mais obscuras. Aconteceu na década de sessenta, nos EUA. No meio de uma comunidade aparentemente "normal".
Aquilo que uma mulher e alguns adolescentes foram capazes de fazer a um outro ser humano ultrapassa aquilo que os piores pesadelos possam imaginar. O relato das sevícias arrepia a pele e lança uma onda de horror, incompreensão, tristeza e revolta que não tem qualquer cabimento em qualquer espécie de justificação que seja senão uma loucura e maldade conscientes e aterrorizantes. Os detalhes são demasiadamente horríficos para transpor para aqui, mas entre algumas das práticas, ficam as queimaduras de cigarro na pele e a marcação de uma mensagem ofensiva com uma agulha incandescente na pele. E isto é do menos horrífico. E sim, a moça acabou por morrer.
Mas talvez aquilo que mais arrepie, numa perspectiva de análise sociológica, se é que lhe posso dar esse nome, é o facto das agressões e a consequente morte terem sido perpetradas por membros da comunidade, por instigação da dona da casa, como uma espécie de adequação de tratamento por uma suposta qualificação social associada a promiscuidade. Irónia das ironias, e segundo a investigação, a rapariga era virgem.
Um outro grau desta terrível conclusão prende-se com a ignorância e omissão dos vizinhos e transeuntes que ouviam os gritos e testemunhavam as agressões. Não é raro o relato de pessoas que sabiam o que se passava, e que no entanto nada faziam, também divididas entre a qualificação social que tinham dado à rapariga, e a ideia de que o que sucedia era de alguma forma merecido. Um pouco à semelhança de uma conceito abordado por Jeffrie Eugenides e Soffia Coppolla nos "Suicídios Virgens", quem talvez tenha morto Sylvia Lykens (bem como as meninas Lisbon ) tenha sido a ignorância, a omissão, a alienação, se bem que no caso daquela, as coisas tenham contornos muito mais grotescos de realidade que a ficção de Eugenides.
É impossível não sentir a desolação e tristeza que uma conclusão destas traz.
Aquela que nos diz que somos capazes do indizível, do inominavelmente negro, lado a lado com tudo o que de bom também conseguimos fazer.
É aí que a compreensão me falha...

Consegui reduzir a imagem de forma a não atrapalhar a leitura dos textos.
A minha ignorância "htmliana" não foi mais forte que a persistência da experimentação.
Método científico.
Lá está...

quinta-feira, março 08, 2007

(Disclaimer: Como o assunto me interessa muitíssimo, este post é muito grande e chato como a potassa, ao contrário do tema que o motiva. Sintam-se à vontade para seguir em frente.)

Dia da Mulher.

Só por si poderia originar um aceso debate relativamente á natureza e efemérides que parecem conter em si mesmas elementos de discriminação. No entanto, se servir para denunciar de forma oficial os ainda recorrentes e inaceitáveis fenómenos de discriminação e violência que um género imprime sobre o outro em sociedades onde a ideia de um Estado de Direito é uma quimera, já terá alguma utilidade.

Na lógica e âmbito de direitos e deveres como cidadãos e seres humanos, a igualdade deve ser absoluta. Sem excepções que não estejam associadas à própria condição do género e intransponíveis deste para outro, como alguns aspectos da maternidade, interrupção da gravidez, tipos legais de crime específicos, etc.

Se um dia como este servir para denunciar determinadas práticas e afastá-las de qualquer espécie de defesa por diferenciação cultural e civilizacional, então que possa esse propósito significar a própria (muito discutível) defesa de um dia como este.

Parece impossível pensar em determinadas situações que ainda ocorrem, que são prática comum na chamada era da informação, mas que decorrem todos os dias. De acordo com as autoridades da ONU:

- Nos Eua uma mulher é espancada a cada 18 minutos, sendo esta a causa de cerca de 22% a 35% das visitas às urgências.

- No Peru, cerca de 70% dos crimes denunciados à policia envolvem violência doméstica.

- Em todo o mundo, mas com especial ênfase nos continentes Asiático e Africano, dois milhões de mulheres (sim, 2 000 000) são sujeitas a excisões genitais, em práticas que envergonhariam por defeito alguma da barbárie que criada pelas crónicas mais negras da idade média.
- Ainda existem as práticas de selecção de género, sendo o caso mais mediático a China, com as conhecidas salas de morte , onde o que lá acontece desafia a nossa capacidade para adivinhar o horror próprio do gigante económico que todos reverenciam pela sua capacidade de crescer, mas que funciona como uma colónia de formigas, onde quase todos parecem dispensáveis, especialmente as mulheres recém nascidas. Tudo é passível de ser sujeito ao rolo compressor.

- Em Ankara, na
Turquia (como sabem, candidato a Estado Membro da UE) Mehmet Halitogullari ignorou os pedidos de clemência da própria filha de 14 anos, estrangulando-a com um fio metálico até que ela perecesse. Este pai estrangulou a própria filha, vendo-a morrer lentamente, na agonia da asfixia porque a mesma tinha, segundo ele, manchado a honra da família por ter sido raptada e violada. O “pai” justificou a sua acção pelo facto de ter a necessidade de limpar a honra da família, dizendo que ignorou os gritos da filha, assassinando-a a sangue frio. E este é só um exemplo dos assassinatos de honra, o que é prática frequente naquele país, no qual se compara este acto a cortar um dedo. E isto sucede com a conivência da própria família, incluindo em alguns casos, as outras mulheres da família. Correndo o risco de ser pouco objectivo, isto pouco se afasta da psicopatia assassina de muitos serial killers.


- De acordo com relatos da ONU oriundos da Índia, a pesquisa genética para reprodução selectiva é um negócio em expansão, além de que as clínicas especializadas utilizam publicidade na qual se diz que é preferível gastar 38 USD numa interrupção de gravidez de uma menina do que 3800 USD num dote a conceder mais tarde.
A Índia é também conhecida pelos amantes repudiados que desfiguram ou matam a mulher que lhes interessa usando para tal ácido sulfúrico, ou por esposos que consideram o dote adquirido muito baixo.
Além disso, existem os bordéis disfarçados de ashrams “sagrados”, para onde são enviadas as
"meninas viuvas" que Deepa Mehta correndo risco de vida às mãos dos fundamentalistas que, curiosamente, ficaram mais furiosos com a denúncia de um amor entre castas diferentes do que com a admissão da prostituição dessas menina e mulheres viúvas. Apesar dos movimentos reformistas, estes fenómenos parecem continuar a existir nos dias de hoje.


-E para não falar nas violações como prática de eugenia, conhecidíssimas nos conflitos dos Balcãs, bem como em muitos países africanos, e em especial no horror de
DARFUR.


-E finalizando com uma nota de humor, saibam que é, ou irá ser ilegal vender brinquedos sexuais, com especial incidência nos vibradores, em vários estados dos EUA como
Alabama, Tennessee, Texas e Arkansas, dando multas e penas de trabalho pesado, mas onde é facílimo e barato comprar uma arma. Mas a ridicularia não termina aqui, estendendo-se ao Tribunal Federal que legitima a criação deste tipo de legislação. no mínimo idiótica.


Enquanto tudo isto for uma realidade, o dia da mulher, nem que seja pelo facto de chamar a atenção para situações que não figuram nos piores pesadelos de muitos, talvez tenha algum sentido, não como data de diferenciação de género, mas como chamada de atenção para aquilo que ainda ocorre em forma de violência exercida por um género sobre o outro. Nada justifica tal assimetria de direitos e garantias entre seres humanos. E quanto a isto estamos conversados. Qualquer ser humano, homem ou mulher, tem direito à protecção dos seus direitos e igualdade de circunstâncias, tratando-se de forma objectiva de forma igual o que é igual e de forma diferente o que é diferente.

Existem no entanto outras perspectivas, especialmente no ambito da manutenção da diversidade necessária entre géneros e na riqueza que daí advém, bem como nos eternos combates de perspectivas entre os dois sexos, especialmente no que diz respeito à sua inter-relação social, emocional e consequentemente comportamental.

Homens e mulheres também andam às turras, e andarão sempre, pelas formas como a sua genética e condição de aprendizagem, social ou não, os condicionam ou fazem crescer. Essas diferenças vão desde a forma como se pratica e sente o núcleo da prática sexual, bastando para isso pensar que o clítoris tem o dobro das fibras nervosas que o pénis tem, sendo oito e quatro mil respectivamente. Pode parecer uma piada, mas não é efectivamente.

Eu acho sinceramente que as mulheres me enriquecem a vida. Das mães, às namoradas, às amigas, às amantes, muito raramente senti que não tenha aprendido alguma coisa com elas, especialmente em meio à dificil navegação dentro das suas complexidades e necessárias incongruências, típicas do ser humano. Como ser pensante, emocional e sexual, a mulher é sempre um mundo a descobrir, e qualquer atitude de condescendência por razões de género é produto da pior forma de ignorância ou sobranceria possível.

No entanto, algumas das maiores detractoras do machismo ou da tentativa ou exercicio de domínio ilegítimo de um sexo sobre o outro, são defensoras de práticas e posições que em nada diferem daqueles que criticam, e que infelizmente são mais frequentes do que se julga. A pior face do feminismo assenta na condescendência e exercício de preconceito escarnecedor sobre o outro género. É combater fogo com fogo e usar de tácticas de desgaste de um discurso válido para efeitos também eles violentos e em muitos casos, inaceitáveis.

Algumas das vozes do feminismo não defendem a igualdade das mulheres, mas uma espécie de reconhecimento de uma suposta superioridade que deveria ser evidente, sendo denunciada por uma espécie de condescendência infantilizante que além de ser injusta, tenta ser generalizante. No fundo, trocar um dominador ilegítimo por outro, face á denuncia de supostas fraquezas e evidentes inferioridades. Já falei de alguém que o demonstra sem pejo aqui. Alguém que já foi acessora de imprensa do Presidente da República, e que tem a responsabilidade de não passar tamanha demonstração de preconceito para alguma opinião pública que infelizmente a ouvirá e interiorizará os disparates proferidos. Mas como ela existem muitas, e o discurso é perfeitamente reconhecível no seio das nossa intimidade social, onde estes discursos são ouvidos e supostamente legitimados.

Eu não temo mulher alguma. Respeito aquelas que me respeitam, e não tenho problema nenhum em aprender com mulheres que são mais capazes, hábeis e no fundo melhores do que eu. Mas não superiores naquele sentido já referido. Reconheço a qualidade superior à minha, como o faço relativamente a homens, se for esse o caso. Argumentem, convençam-me, e estou-me borrifando para o timbre de voz ou que tipo de volume está na zona do peito. Seja homem ou mulher, valem as palavras, as acções e as formas de estar e viver. Se for melhor e for mulher, entao toca a aprender algo com ela. Sem medos ou inferioridades.

Sim, sou um defensor acérrimo da qualidade da mente e do corpo. Muitas mulheres consideram isso uma espécie de exercício de machismo, porque significa uma pressão para elas. Errado. Porque a pressão, pelo menos para mim, é exercida também no plano mental, emocional e da prática da cidadania, para homens ou mulheres. E deixemo-nos de ideias de que não há pressão física sobre os homens, porque isso é uma treta na qual já ninguém acredita. Há de todas as formas. As pessoas tornaram-se exigentes, e acho bem. Nem nós próprios nos devemos dar por garantidos a nós, e não evoluir é morrer tanto aos olhos dos outros como aos nossos. O truque é ser exigente, mas claro, não maníacos do perfeccionismo. A regra do bom senso não é, como noutras situações, despicienda aqui.

Em suma, este dia diz-me pouco porque não me lembro das mulheres só neste contexto. Mas também não tenho nada contra ele se significar uma forma visível de corrigir desigualdades, injustiças e deter agressões injustificadas (*).

Celebro o conceito da mulher todos os dias. E todos os dias ele me irrita, admira, maravilha, intriga, chateia, desilude, ensina, ou seja, todos os dias o ser humano capta o meu interesse por cada uma das suas facetas psico-fisico-intelecto-sexuais.

Feliz (mais) um dia de metade da humanidade.

Ok, a minha preferida, pronto.

(*)o que por definição são quase todas as formas de agredir seja quem for. Não todas, mas quase.



quarta-feira, março 07, 2007






Da Racionalidade Afectiva

À primeira vista pode parecer uma contradição em termos. O espaço para a racionalidade no afecto parece aferível a partir de uma lógica quase semelhante ao método científico.

Mas será?

Será mais afectuoso eliminar a racionalidade, a lógica, a explicação, todas direccionadas num caminho direccionado à reconstrução, à ajuda consciente e material do objecto de afeição? Ou será preferível deixar que o afecto se manifeste como uma exculpação emocional onde a mesma só significará a persistência dos erros, e o correspondente sofrimento do que teima em permanecer imutável?

Sinceramente, acho que ambos são necessários, sempre numa lógica de ajuda. Saber que a afeição nos pode levar no caminho claro do respeito pelo outro. É mil vezes preferível sentir o afecto ao ponto de aplicarmos uma lógica que conduza ao melhoramento do outro, não porque somos melhores, mas porque reforçamos e sublimamos aquilo que aquele tem e que pode ser tão visível e material, ao ponto de o arrancar do local onde se afunda.
A racionalidade afectiva é dizer o necessário porque se gosta. É trilhar o caminho do que é mais difícil de dizer porque o respeito a isso obriga. É celebrar as qualidades pela indignação que causa vê-las escondidas pela teimosia da própria pessoa. É ser mais activo na procura da verdade pessoal, mas sem cegueira, e sem condescendências. É querer mesmo o melhor na pessoa, sentindo que ela o pode dar.

Existem aqueles que a aplicam, que a professam e pregam, mas sempre na acção, na vertente do outro, daqueles que lhes causam o afecto, e que o merecem no melhor que pode ser dado, no qual a racionalidade não está esquecida. Existem aqueles que não estão quietos, nem conseguem. E o que seria de nos sem esses teimosos, que agem, que fazem, que mexem, tudo porque de alguma forma, sabem que a inacção condescendente e a pancadinha inerte mas combalida e "afectuosa" nas costas é apenas mais uma demonstração daquilo que o Paul Thomas Anderson dizia serem "as coisas que deveríamos estar a fazer uns pelos outros... e não estamos."

E o mais fantástico é que não acham o que fazem nada de especial.
Acham normal. Acham convictamente racional que perante o afecto, só se possa agir assim.

Ainda bem...
"Keep me past the gate
I've worn the world without a word
And I don't care too much for what they say
Grip my smothering end
Another day will pass again
Keep My fire alive for I'm not afraid
Can I make them understand
Who in the world would have thought this
God I'll never know your plans
Doin what i got to
What I Got to hang on
Cause I'm doin what I got to
What I got to hang on
Hanging on by a thread this is what I got
So hang on to this"




Thank you :)







Se uma pessoa é importante, ao conceder-lhe a uma última oportunidade estamos a dar-lhe corda para duas coisas:

1 - Para se enforcar de vez;
Ou

2 - Para sair do buraco em que se colocou.

Objecto único, função dupla.
Ideia simples de execução nem sempre fácil.

terça-feira, março 06, 2007

Empatia absoluta com desconhecidos que admiro - Parte II


"We're about a lot of things; unity, evolving thoughts and ideas, choosing compassion over fear, emotional, and, uh, anger. Which is ok. Anger is constructive, unlike hate - that is destructive."

Maynnard James Keenan
Empatia absoluta com desconhecidos que admiro - Parte I


"I consider myself a handicapped person in that I used to believe that everyone, uh, that their intention in the world was to learn more, to do better, to seek out the truth, and the older I get, I realize that’s not the case with most people. They’re pretty content with the way things are and to just kind of live day by day."

Maynnard James Keenan


segunda-feira, março 05, 2007

Ok, é oficial. Luisa Castel' ou Castelo Branco.
Se a vir na rua, tenho de pensar duas vezes para decidir se lhe passo ou não com o carro por cima.
Sinceramente, são mulheres destas que dão mau nome ao que de válido é feito pela equiparação social de género. Porque são tão preconceituosas e condescendentes como os supostos machistas que denunciam, e a atitude é igualmente repugnante por isso mesmo. É o ressabiamento a um ponto inimaginável e que chega ao risível.
A frase foi:
"As mulheres gostam de tocar. Os homens, coitadinhos, à excepção das playstation e outras mulheres, não gostam de tocar em nada. Limitados."
Eu poderia tecer uma imensa diatribe acerca disto, mas os disparates são tão evidentes e grosseiros que as frases falam por si mesmas, na imensa pobreza de ideias e preconceitos que possuem.
Se a história do mundo tivesse sido ao contrário, e se as mulheres tivessem realmente assumido o protagonismo politico e social que deveriam ter tido desde sempre, mas numa posição ilegitima de domínio (como infelizmente tem sido ao longo dos séculos), esta mulher provavelmente estaria na linha da frente dos mecanismos de segregação sexual, de implementação de mecanismos de discriminação directa e indirecta, de chauvinismo e da pior de todas - a condescendência institucionalizada.
Isto não é feminismo.
É uma outra coisa, de difícil qualificação...

sexta-feira, março 02, 2007

Para mim, agnóstico como sou, entendo que um amigo real faz com que a necessidade solitária que criou um Deus imaterial e sempre companheiro, produtor de esperança, seja desnecessária. Um amigo real, o milésimo homem ou mulher, é quem preenche esse vazio. É quem cá está, mesmo quando não damos por isso, é quem vê, mesmo quando não mostramos, é a palavra certa acerca daquilo que nunca confessámos ou partilhámos. Assim sendo, seja feita a justiça a quem o disse de forma superior, a amizade é a incondicionalidade de um estado de afeição. É a renuncia nunca esperada de alguém que vê em nós uma missão sem qualquer objectivo imediato para si mesmo.
Escrito algures em 27/09/2000
Pois, é isso mesmo... Estrelas e irmãos.
Já sei que provavelmente vou ser desancado pela população feminina (mas também não tenho muitos comentadores, portanto o estrago não deve ser grande), mas que diabo, nos dias que correm isso até acontece com alguma frequência, e nunca isso foi elemento dissuasor portanto, portanto adiante. Por vezes a testosterona lá vem ao de cima, e porque também a tenho, lá vai...
Há uma coisa que não entendo, e que provavelmente não vou entender, e que sempre me pareceu um tiro no pé em termos daquilo que são queixas supostamente justas relativamente às chamadas qualificações fáceis ou preconceitos de género. E aquilo que vou expressar é uma verdadeira perplexidade, porque está espalhado por toda a blogosfera, e aparece como real motivo de conversa num evento onde a roupa é ou deveria ser claramente o menos importante. Aliás, não é raro o local onde a conversa sobre o vestuário ultrapassa largamente qualquer texto sobre cinema, e que evento mais estranho para se falar de e sobre filmes que os Oscares. Cada coisa no seu contexto...(?)
Não é preciso procurar muito para encontrar em muitos blogues ditos femininos ou escritos por mulheres, um qualquer post sobre o que cada uma das actrizes vestiu na noite dos Oscares. Esta verdadeira escalpelização vai desde as diatribes por má escolha de cor, aos sapatos, à maquilhagem, etc, etc.
A análise chega a ser profusa, há uma espécie de antecipação quase comparável ao que acontecerá aos nomeados, ou talvez até mais fervorosa, no que diz respeito a quem veste o quê de quem.
Sinceramente, que me importa o que o Martin Scorcese ou o Clive Owen levavam vestido, (a não ser que algum dos smokings fosse verde alface com gravata "fucia"(*), o que indicava que alguém andava a fazer uma estranha campanha de (mau) marketing pessoal)? Qual é sinceramente, o fundamento para o interesse ávido em saber o que trazem vestido e as subsequentes conversas, as críticas dissecantes, as troças, os empolamentos, etc? Aquilo não é uma festa de cinema? Uma entrega de prémios de cinema? Porque será que nos prémios de Cannes, Berlim, Tróia ou no Fantasporto a malta se está borrifando (julgo eu) para os trapitos e mais interessada no cinema?
E mais irritante ainda são as entrevistas fora do Kodak Center, onde a entrevistadora de serviço fala dos filmes, mas lá vai falar dos vestidos e sapatos e mais o caraças, enquanto o "cameraman" filma o trapito que provavelmente custou o mesmo que a dívida externa do Butão.
Atenção, não estou a dizer que há algum mal em gostar de alta-costura, mas sinceramente, esta evidente lógica de saber "o que a gaja levava vestido-ai que o cu dela é afinal maior do que se pensava-parece um espanador-quem é que a deixou sair de casa naqueles sapatos" numa GALA DE CINEMA, ultrapassa-me. E, correndo o risco de me enganar, se encontrarem um blog escrito por um homem onde se fale de vestido e sapatos, e ai-que-chique-que-ela-vai ou ai-que-brega, pois apontem-mo, porque terei o prazer em perguntar-lhe com franqueza qual o interesse em escalpelizar a coisa a tal ponto.
É uma festa do cinema (corporativizada e vendida ou não), de cinema que tem qualidade, de realizadores, de actores, de argumentistas, e também de melhor guarda-roupa é verdade, mas o dos filmes, e não o dos participantes e espectadores da festa.
E no outro dia ouvi queixas sobre a programação da SIC Mulher, que com razão denunciavam que a mesma está cada vez mais próxima da TV-Sopeiral, de um conceito de mulher que já não tem cabimento, entre outras coisas.
E pergunto-me.
Se senhoras como a Luísa Castelo Branco, a mulher mais irritante à face da terra (bem, depois da Paula Bobonne e mais umas, mas da mesma divisão claramente) mandam filetes de pescada podre acerca da estreiteza de horizontes masculinos quando se trata de desportos colectivos ou carros, a questão que se assoma ao espírito é só esta. A malta quando vê o futebol ( eu nem sou grande fã, prefiro basquetebol) está-se borrifando para o que veste o Moutinho, o Simão ou o Quaresma, ou qual a marca do fato dos sapatos que vai a guiar o Jaguar-E.
Brincadeiras à parte, fica-me sempre esta perplexidade. E acreditem, é genuína.
Sim, poderão dizer que é uma coisa de gaja, e aceito perfeitamente. Mas parece-me ser mais que uma curiosidade, senão uma das atracções da noite, o que sinceramente não entendo.
Criem o ante-Oscar, para ser dado à porta. Aí já teria algum sentido, julgo eu...
(*) Nome desnecessariamente amaricado para designar rosa-velho.
Quando já nem sequer nos lembramos, quando os dias passam e esquecemos da necessidade de nos esquecer, o que abaixo se lê desaparece, bem com as perguntas associadas... E que bem faria a algumas pessoas, alguns que teimam em tudo pensar, e pouco fazer de acordo com o que pensam... ou querem...
E vivem nisto:
"Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?"

Mário Quintana


Roubado vergonhosamente
aqui...
E nas paragens, na modorra, o espirito espreguiça-se e sente as câimbras do tempo que se quer de progressão, cada vez mais assente na expectativa.
Tenho histórias para escrever, mas o trabalho não deixa. Bem como a imobilidade física.
E quando o tempo lá surge, estou vazio. Visto o fato de macaco e lanço-me aos tijolos escondidos nas teclas. Que remédio. Mas sai pouco. A conta gotas.
Maldito langor!

quinta-feira, março 01, 2007




"Walking side by side with death
The devil mocks their every step
The snow drives back the foot that's slow
The dogs of doom are howling low
They carry news that must get through
To build a dream for me and you
They choose the path that no one goes
They hold no quarter,
They ask no quarter,
They hold no quarter..."


Isto faz-me lembrar de alguma forma uma ligação improvável à Balad of Peter Pumpkin Head.
Ouvir ambas arrepia-me sempre a pele, e não necessária ou exclusivamente devido aos (magníficos) conjuntos de sons...


Há algo que me espanta sempre, não importa o tempo que passe, ou quantas vezes experimente o fenómeno.
A capacidade que temos de criar uma afeição a partir da construção do impacto de uma personalidade alheia parece um truque de magia. Simples, como todos os bons truques o são, mas com a característica da realidade.
Pensem bem.
Conseguir olhar para uma pessoa e importarmo-nos com o que diz. Com o que pensa. Com a forma como ri, com as coisas que nos ensina. Exercer uma preferência, dispensar um bocado de mente e pensamento porque algo na pessoa cria um impulso de proximidade, e como tal, nos faz gostar dela.
O forjar de uma afeição, numa construção simbiótica. Os amigos, amantes e amores, a percepção de que algo que é alheio a nós parece pertencer-nos de alguma forma. E isto ocorre porque simultaneamente lhe entregamos algo saído do simples facto de lhes querermos bem. E a magia não está no reconhecimento das suas qualidades. Nunca achei que afeição alguma pudesse estar despida de fundamentos associados ao mistério das empatias. A causa-efeito também tem voto, e de qualidade.
Mas o truque de que falo é perfeito precisamente quando transformamos esse reconhecimento num gosto pela pessoa, e passamos a reconhecê-la para além daquele. De tal forma a afeição se confunde com a pessoa, que retroage a boa ideia que tinhamos, e os fundamentos parecem então tornar-se mais produto incrementador da afeição, e não o contrário, que afinal lhe deu origem. Fica a ilusão (feita convicção de realidade) de que a pessoa sempre foi assim, talvez até antes de a conhecermos. Sentimo-nos antigos e pertencentes a uma boa história feita de tais protagonistas.
Importarmo-nos com (alguns) outros leva-nos a rever de alguma forma aquilo que somos. A conhecermo-nos melhor. E talvez a equilibrar as perguntas quanto a outros instintos não tão louváveis, mas tão surpreendentes e reais como este.
Normalmente acerca do nosso melhor, julgo eu, porque no fundo nos sentimos gratos por algo que em ultima instância é construido por nós, mas revertido em outrém. E agradece-se, através dos actos inseridos na experiência do gosto e do desejo de provocar bem estar, porque acaba por significar algo para o próprio.
É um truque antigo.
Dos melhores.