ESTAÇÕES DIFERENTES
Stephen King - "Different Seasons"
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segunda-feira, abril 30, 2007
sexta-feira, abril 27, 2007
AT THE MOVIES II (FLASHBACK)
Sempre achei que fazer rir é uma arte suprema e um sinónimo de inteligência superior. Os verdadeiros humoristas, aqueles que fazem realmente rir são, para mim, pessoas merecedoras de todos os encómios possíveis. Fazer rir é conseguir apanhar a pessoa distraída e surpreendê-la numa reacção absolutamente espontânea, tocando-lhe num nervo que nunca soubera que tinha.
Este é o meu filme preferido dos Cohen e tornou-se um amor especial de longa data. Talvez não seja o melhor, (os críticos dirão isso sem hesitação) mas é o que para mim mais significou. Apela a um estilo de humor que me é muito querido, com um toque de nonsense mas muito ténue no meio da ironia e gozo com esta espécie de Odisseia. E é provavelmente o único musical que gosto de ver uma e outra vez, ouvindo com gosto as canções que o povoam, especialmente esta jóia acima transferida. Clooney faz um papel assombroso como um Ulisses "screwball", palavroso e com uma fixação pelo seu cabelo. "I'm a Dapper Dan Man!!"
E por alguma razão que desconheço, este filme faz-me rir pelas cócegas que provoca num recanto do meu sentido de humor que encaixa perfeitamente no que entendo como intenção da obra, pelos seus detalhes. E sobretudo, faz-me sentir bem. Cada vez que o vi, (e vejo), saio da projecção como se tivesse sido acarinhado pelas palavras de um velho amigo coadjuvadas por um sincero abraço. Ver este filme é como voltar a uma casa maluca onde habito parcialmente, e sentir-me confortável, ou como ter a ilusão de algo que passou mais ou menos despercebido e fora feito inconscientemente para mim. No fundo, como ver uma forma única numa núvem desenhada apenas pela minha mente, e sentir-me pertencente a algo desregulado mas feliz.
Mas a verdade é que a indignação e o esforço de contestação intelectual e cívica não pode nunca ser considerado uma manutenção na zona de conforto, até porque, relatividade à parte, cada dia parece tornar-se mais complicado para a manutenção da sociedade equilibrada. E é aqui que ressaltam as tendências políticas, que não partidárias, onde o conforto nos permite pensar e teorizar e sobretudo, identificar sentidos.
O meu problema com alguma da malta de direita, já que sou apartidário mas de coração, argumentos e convicções puxados a uma esquerda moderada, é a sua pretensa superioridade moral e argumentativa e a forma sobranceira como apresentam as sus discordâncias. Em última instância fazem lembrar os críticos de cinema do Público e do Expresso, que enrolados no seu hermetismo discursivo, qualificam indirectamente de idiotas todos aqueles que discordam das suas análises. E posturas de direita não são personalidades, são atitudes perante um contexto concreto. José Sócrates é tudo menos socialista, e isso é inegável, que diabo...
Vejamos alguns exemplos que a direita (e conservadores) tem apresentando no plano de visibilidade internacional:
O que anda a fazer o presidente do banco mundial, "indigitado" por Bush, que acabou com a festa de Natal dos funcionários da instituição, provavelmente por critérios de poupança, mas colocou a namorada a receber um salário de 150 mil euros, mais 5 mil que a Condoleezza Rice? E abstenho-me de comentar mais esta vergonha associada ao principal arquitecto da mais ilegítima invasão dos últimos tempos da história mundial.
O que anda a direita nacional a fazer, onde o presidente do seu partido mais representativo é um pobre pateta, achincalhado por todos e mais alguns dentro do seu próprio partido (veja-se a ultima de Meneses relativamente ao escândalo da CML), e onde a sua ala política mais radical é liderada por um populista sem qualquer senso de vergonha, que volta quando a tempestade já amainou e o seu fracasso eleitoral já repousa na curta memória pública?
Que dizer da câmara Municipal de Lisboa? Como dizia o meu querido irmão, uma coisa é fazer esquemas com órgãos camarários, mas colocar o próprio nome em acordos insidiosos? Se já não há desculpa para ser corrupto, muito menos há para ser parvo, porque já lá dizia um amigo meu brasileiro, feio é roubar e não poder carregar.
Que andou a direita a fazer em Itália, onde os escândalos com corrupção são tão notórios que o deposto Berlusconi já parece uma daquelas caricaturas "orwellianas" que fazem rir e assustam ao mesmo tempo?
Mas a verdade é que os comentadores de direita que leio e conheço olham para estas situações com o distanciamento sobranceiro de quem tem um quintal limpo mesmo que ao lado haja ervas daninhas do tamanho de árvores. Vasco Rato ou Pacheco Pereira nunca mais alardearam em praça pública a existência das ADM no médio oriente, e este é somente um exemplo. Mas como diria o segundo, "essa já não é a questão essencial".
E apenas a título de exemplo, a vergonha que nos manchou a todos aquando do genocídio no Rwanda, pode voltar a marcar-nos com o que se passa em Darfur, e para variar, o mundo assobia, olha para o outro lado, e espera que os miúdos que brincam com facas acabem a briga e retornem as suas casas descansadamente. E gostaria de saber o que pensam os homens e mulheres de direita que acharam necessária a intervenção no Iraque por questões de segurança e direitos humanos relativamente a esta situação. Bem sei que não há petróleo ou qualquer outro recurso natural, mas qual a desculpa para a inércia da comunidade internacional, em especial para os polícias do mundo? Não devem tomar conta da ocorrência de tudo?
A razão pela qual sou moderadamente de esquerda acaba por ser espelhada em convicção e noção do que deve ser o papel da sociedade para com os seus membros. Uma sociedade de progressão, integração, de melhoria e conhecimento, e nunca de sectarização entre uns e outros, nunca por castas que ao contrário do reconhecimento pelo mérito (tivemos a Celeste Cardona na justiça e o Santana Lopes como PM, e em termos de mérito não se pode descer muito mais que isso...) verificam esse sectarismo por recurso a critérios de competição a todo o custo, quando deveria existir educação a todo o custo. ~
É por isso que sou de esquerda.
Porque afinal de contas, somos sempre, e primeiro que tudo, pessoas. E se não for isso que perseguimos como teleologia apriorística do contrato social, então para que serve? Acaba apenas por ser uma refinada forma de selvajaria que alguns defendem até que finalmente lhes bata à porta. E isto não é demagogia. É apenas consciência de que as regras são para cumprir e que a razoabilidade na defesa dos direitos e dignidades é insofismável.
Só isso.
P.S. - Antecipando os comentários que teria se este fosse um blog visível, obviamente que este tipo de situações também acontece no outro lado da barricada. Veja-se a palhaçada da licenciatura do PM, a consequente tentativa de saneamento de conteúdos jornalísticos, a pessimamente explicada situação do novo aeroporto da Ota, entre outras coisas. A tristeza não conhece facções, infelizmente....
quinta-feira, abril 26, 2007
terça-feira, abril 24, 2007
(Depois de muito procurar, esta é a única versão que encontrei daquela que, para mim, é a melhor faixa de música dos Shins. É fantástica, entra pelos ossos e fica lá, a reverberar. )
DESPOJOS DOUTROS DIAS III
"Muitas pessoas dizem que é difícil experimentar uma certa felicidade pelo bem estar de outros. Pelos seus triunfos, pelo facto de que entre as suas mãos está um abraço real que os salva, nem que seja pedaço a pedaço, pelo facto de que talvez até estejam melhores que nós e não se coibem de nos exibir esse sorriso por esse mesmo facto.
Não entendo o conceito da inveja enquanto elemento abstracto. Ficar roído porque alguém conseguiu genuína e justamente um triunfo. Porque venceu à sua custa, e é alguém mudado em virtude dessas mesmas vitórias.
Não entendo como pode algo dentro de alguém contorcer-se em virtude do sorriso de felicidade genuína, que até sabemos que não durará muito naquela intensidade. Como verificamos que a aura da pessoa transpira para outros, e alguém simplesmente puxa a nuvem para o auge da parada.
A inveja mesquinha é dos sentimentos mais execráveis que existe ao cimo da terra. Oscar Wilde à parte, faz parte do elemento mais repugnate do cinismo, que assenta na recordação da morte necessária do que se mascara de eterno. Com alguma sorte e meio mundo de trabalho, até pode ser.
Mas o invejoso fará tudo para minimizar cada feito, para se sobrepor como uma espécie de delator das más colheitas e escolhas do mundo, como se este lhe pertencesse numa sala de audiência.
A inveja é a pior forma de roubo que existe entre pessoas de guarda meio baixa. Mascarada de adulação, não faz dos invejados Othelos, mas planta demasiadas sementes de dúvida, e esvazia os instantes que justificam todos os outros que não são tão bons. Ou mesmo insuportáveis.
Um invejoso queixar-se-á de um ruído no banco de um carro de sonho comprado pelo amigo que o desejava desde miudo. Criticará a voz estridente na terceira gargalhada da maravilhosa mulher que o amigo traz para um jantar. Sublimará as pequenas derrotas, e ignorará os grandes triunfos.
O invejoso só suporta ser condescendente. Quando erroneamente pensa que se pode tornar o queixoso dos efeitos de uma suposta felicidade superior.
Não é difícil ficar feliz por outros.
De certa forma descansa-nos. Permite-nos atacar outros problemas com mais força, porque sabemos que a nossa energia gasta a aplacar aquela dor alheia, deixou de ser necessária.
Ficar feliz pelos outros, é calçar um pouco dos seus sapatos, e passar mais uns metros no meio do vridro farpado. Sem cortes, sem cautelas. Anestesiados por algo que se resolve, e que pode muito bem propagar-se.
Num vírus de justificação terrena.
Alheio ás putridas vacinas da inveja."
31-10-2005
E ainda aqui
segunda-feira, abril 23, 2007
Só a semelhança de processos e a acumulação hipotética e empática de visões de futuro.
E ninguém tem culpa.
- A grande Triciclo, porque, entre muitos outros, o seu post sobre o aborto foi dos melhores textos que li desde sempre neste meio e elucidou-me na construção da minha argumentação;
- A esquizofrenia colectiva mas muitas vezes brilhante da Sociedade Anónima;
- O cinzento-paleta do Gurosan - Ainda tenho aquela dúvida sobre Sufjan Stevens;
- A irreverência arguta mas estranha, bem como ocasionalmente autodepreciativa e agressiva da Luna;
- A Ana Roque, pelo seu incansável e inestimável trabalho de recolha, e pelos originais com que ocasionalmente nos brinda.
sexta-feira, abril 20, 2007
Eu tenho isto. E é tão difícil de seguir como os outros...
Tradução de Féliz Bermudez - ( talvez tão bom como o original...)
SE
Se podes conservar o teu bom senso e a calma
Num mundo a delirar para quem o louco és tu
Se podes crer em ti com toda a força d’alma
Quando ninguém te crê; se vais faminto e nu
Trilhando sem revolta um rumo solitário
Se à turva incompreensão, à negra incompreensão
Tu podes responder, subindo o teu calvário,
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão
Se podes dizer bem de quem te calunia;
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor,
Nas sem a afectação dum santo que oficia,
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor,
Se podes esperar sem fatigar a esperança;
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho;
Fazer do Pensamento um Arco da Aliança
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho;
Se podes encarar com indiferença igual,
O Triunfo e a Derrota – eternos impostores;
Se podes ver o Bem oculto em todo o mal
E resignar, sorrindo, o amor dos teus amores;
Se podes resistir à raiva ou à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega, eivadas de peçonha,
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste;
Se és homem para arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado
E, calando em ti mesmo a mágoa de perderes,
Voltas a palmilhar todo o caminho andado;
Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizer palavra e sem um termo agreste
Voltares ao princípio, a construir de novo;
Se podes obrigar o coração e os músculos
A renovar o esforço, há muito vacilante,
Quando já no teu corpo, afogado em crepúsculos,
Só existe a Vontade a comandar “Avante!”;
Se, vivendo entre o povo, és virtuoso e nobre
Ou, vivendo entre os reis, conservas a humildade;
Se, inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti, à luz da Eternidade;
Se quem recorre a ti encontra ajuda pronta;
Se podes empregar os sessenta segundos
Dum minuto que passa, em obra de mal monta
Que o minuto se espraie em séculos fecundos;
Então, ó Ser Sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos e os espaços;
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu
Abrindo um infinito ao rumo dos teus passos;
Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem recear jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um HOMEM.
Rudyard Kipling
Parece um mito, mas por vezes lá vai dando o ar da sua graça...
(Jeff, a tua continua a ser a melhor versão de sempre, mas eis uma alternativa.)
quinta-feira, abril 19, 2007
O conceito de felicidade é uma coisa complicada. Cada pessoa a entenderá de forma diferente, com pressupostos adaptados a cada percurso e cada manancial de expectativas. Mas parece-me indiscutível que qualquer estado de imobilidade ou constância absoluta levará à rotura do estado de realização que se antecipava no "iter" para essa condição de "feliz".
Definir alguém apenas por essa condição é reduzir a amplitude da sua complexidade a uma espécie de deficiência na análise do mundo e da sua dinâmica. Se alguém permanece feliz perante todos os estados e estímulos, então é tão inócuo e insignificante como um niilista para quem nada serve em momento ou circunstância alguma. (E mesmo assim entre uns e outros, ao menos os felizes cheteiam menos a molécula e não têm poses afectadas de suposto esclarecimento sobre o núcleo da verdade do mundo - mas isto é apenas um à-parte). É quase óbvio que a singularidade e construção do contorno pessoa só se atinge na alternência de estados, de visões, e emoções e humores. A terra define-se pela oposição ao mar e vice-versa. Hieraclito 2.0.
Mas há algo de profundamente incomodativo naqueles que também reduzem a felicidade a zero, que a sentem como uma aldrabice plena de ilusão ignorante, como se ao serem sorumbáticos, o mundo lhes pertencesse mais devido a um pretenso e superior conhecimento da natureza das coisas. É algo quase maldoso, de inveja, uma cabotinice preguiçosa de quem, a mais das vezes, não opera o simples mecanismo de equilíbrio entre o bom e o mau, entre o feliz e o infeliz, o agradável e o obnóxio, ou em termos mais simples, não mexe o cu para tornar o seu mundo e o de outros, ainda que poucos, um pedaço melhor. E depois vingam-se naqueles que, pelo seu olhar, se atrevem a sorrir deliciada e genuinamente, ou a sentir uma pulsão agradecida por alguns momentos em que tudo realmente corre bem e o mundo parece só luz.
O facto do Stephen King, Neil Gaiman, Alan Moore, Zaffon, Alan Ball, Sam Mendes, Scorsese, Thomas Newman, Maynard James Keenan, David Fincher, Chris Nolan, Chris Cornell, Sufjan Stephens, Pure Reason Revolution, e mais uns quantos ainda estarem vivos e poder assim esperar por novas obras destes artistas.
Ter Amigos, ter emprego, ter o cartão Medeia.
etc...
Ou melhor:

quarta-feira, abril 18, 2007
Não há hipótese... sou mesmo um saudosista dos bons velhos tempos de Seattle.
