ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, julho 27, 2007


Em períodos de caos no trabalho, ou simples ferrugem de escrita, são normalmente coisas do mundo de todos nós que me fazem quebrar algum silêncio. Talvez porque berrar para o ar de nada adiante, e embora escrevê-lo aqui também não, pelo menos fica registado como a inutilidade da indignação individual num cenário onde as excrescências sociais da nova ordem mundial mostram a cara e redundam na incoerência daqueles que preconizam uma dinâmica económica que acabará por nos desagregar como uma manta de amebas na mão de uma criança precocemente experimentalista. Mas embora a indignação individual valha cada vez menos, acho que vale sempre a pena dizer alguma coisa.




O plano governamental para o aumento da natalidade é uma boa intenção cheia de peneiras, feita pequena conjuntura para "enganar" efeitos de mudança estrutural. Será que as pessoas julgam que 2500€ chegarão para levar aqueles que não querem ou não podem ter uma familia mais numerosa a tê-la?




Quando o tecido empresarial português martela as exigências de uma alteração constitucional para retirar qualquer elemento de estabilidade do contrato de trabalho, e reduzi-lo a uma mera relação obrigacional simples, com total liberdade de desvinculação, como é que se pode ter a lata de pedir à população portuguesa para ter mais filhos? Ou alguns?




Eu gostaria que os defensores do liberalismo economicista fossem a um banco e tentassem comprar uma casa com um contrato a termo certo de seis meses. Ou a um stand tentar comprar um carro. Ou a um colégio do pré-escolar minimamente decente para tentar colocar um filho, e ter dinheiro para que os gajos aguentem os putos até Às sete, isto se o chefe estiver de bom humor. Ou tentar explicar-lhe que não pode ter a Playstation 3 porque dali a seis meses nem se sabe se a família terá o salário para as despesas correntes.


Gostaria que pelo menos existisse o pudor e o bom senso para se concluir que a natalidade é um reflexo de duas conjunturas normalmente díspares. Ou uma pobreza extrema, onde a natalidade dispara (assim como a mortalidade infantil, mas isso é outra história) por várias razões que vão desde a inexistência de uma ideia de planeamento familiar à incapacidade de recorrer economicamente à mais básica profilaxia, ou uma estabilidade económica que permite a alguns ter a capacidade de gerar prole sem a estar a sujeitar a riscos de insolvência familiar constantes. Entre Oeiras e Cascais, junto ao rio, é ver uma miríade de cabecinhas loiras e alegres, a correr e sujar-se por toda a parte. Acho que o sinal é claro.


Portanto se o modelo social preconizado pelos detentores do poder económico, (os quais defendem uma alteração da constituição na qual se preconize um modelo laboral onde claramente a vida pessoal e familiar é secundária) é claramente "Huxliano", não podem esses mesmos defensores vir pedir milagres demográficos numa era onde o medo, a incerteza e as pessoas consideradas descartáveis são uma realidade inegável e aterradora.

Não se trata de ser de esquerda, direita, centro, de cima ou de baixo. Trata-se de coerência mínima e bom senso.


Tenham vergonha!

Tenham respeito pelas pessoas.

terça-feira, julho 24, 2007

Poderia dizer-se que é um retorno de férias, mas a verdade é que estes são tempos de alguma hesitação, muita confusão e problemas em barda para resolver.
Não vou dizer que o blog vai fechar, ou que vai entrar em paragem sabática/de reflexão, ou que vou tosquiar cordeiros para o Tibete (embora para alguns isso não fosse uma ideia desinteressante). Sei que é possível que amanhã, ou daqui a cinco minutos receba um choque electrico e comece a despejar, mas a verdade é que no momento presente, a ideia parece ser pejada de um cariz cada vez mais errático e dificil de executar.
Tenho histórias para acabar, outras para continuar e concluir, e questões pragmáticas (trabalho e organização pessoal) de tal monta que a energia parece faltar.
O blog é, para mim, como um velho amigo. Bem sei que isto parece um cliché dos mais recauchutados, mas a verdade é que acaba por ser uma janela que se abre não para o ar entrar, mas para poder sair. No fundo prende-se com o impulso de escrita, e quanto a esse, nada a fazer. É teimoso e persiste, como qualquer forma de expressão apriorística que cada um de nós tem. Uns dançam, outros pescam espadartes, outros constroem maquetas. Eu tenho esta mania de martelar no teclado, devido a uma caligrafia que roça o vergonhoso.
Mas enfim, já ia começar a divagar, e temos todos mais que fazer.
O Estações Diferentes permanece vivo, mas está algures entre a hibernação e o coma induzido, com ocasionais despertares, creio eu, pelo menos até que a energia que o mesmo merece possa ser-lhe canalizada. Será breve, julgo eu, mas nestas coisas, advinhar não passa disso mesmo.
See you around guys.
See you soon.
I'll be watching.
SK.

quinta-feira, junho 28, 2007

Se Orson Welles tivesse pregado aquela partida na rádio em Portugal, eu seria um dos primeiros a sair para a rua, à espera de ver os seres verdes e as máquinas destrutivas.

Embora não saiba exactamente porquê, sei que o faria.

terça-feira, junho 26, 2007

Não tenho a mínima pachorra nem consideração por anónimos.
Normalmente se tenho algo a dizer às pessoas, digo-o, ou se a praça pública não é o local adequado, envio um mail ou uma carta, expressando o meu desacordo ou coisa que o valha.
O anonimato total, que se expressa através da ideia do toca e foge, faz lembrar os sacos de água suja ou os palitos nas campainhas dos prédios. A partir dos seis ou sete anos deixa de ter graça ou justificação.
Já o tinha dito, mas fica aqui novamente a chamada de atenção.



Reality check...

segunda-feira, junho 25, 2007

A memória acaba por não permitir escapatória, Porque ao contrário das palavras, a memória basta-se a si mesma, e se tenta alguma coisa, é porque normalmente já partiu do princípio que conseguirá.
É na presença ensurdecedora dos demais que os realmente especiais tudo silenciam.
A grande inimiga dos dias céleres é a apatia. Não porque os detenha, mas porque ainda os incrementa como tal, tornando-os apenas imperceptíveis.
E isso não é esquecer, mas apenas uma simples, terrível e subtil esquiva à existência.
A escolha por um olhar aprofundado, insistente e curioso é o primeiro passo para demasiada informação por unidade mensurável de expectativa.
São algumas das relações inversamente proporcionais que definem a necessidade que outros representam, bem como os efeitos das suas queimaduras, ao escolher-se olhar de frente para alguns desses sóis ilusórios.
Consegue sempre perceber-se a violência perpetrada pela forma como surgem colados os cacos.
Quando não se presume nada, descobre-se tudo.

sexta-feira, junho 22, 2007

Eu gosto de pessoas.
Não haja dúvidas quanto a isso. Gosto e pronto.
Mas também existem coisas acerca delas que detesto. A inércia, ou o comodismo/"encostanço" disfarçados de descontração deixam-me piurço, ou pior, triste.
O descuido com os pormenores porque "isso não interessa nada", ou "mas qual é o stress", é apenas uma maneira blaze que alguns encontram para achar que chegar a horas é um detalhe, ter um gesto é desnecessário, que a inclusão não se faz de pequenos feitos e intenções.
Claro que todos somos atreitos a momentos de isolamento, de escassez de tempo, de menor disponibilidade, mas a consideração, ou a gratidão simples pelas coisas também simples não se consegue de forma estática. Não é como abrir a janela, apanhar vento na tromba e está feita a respiração do dia.
A verdade é que na complicação que se tornam os relacionamentos interpessoais, sejam eles de natureza mais ou menos intensa, existem dinâmicas saltitantes. Hoje estamos aqui, amanhã mais ali. Mas a ideia de que uma personalidade cooperante e mais resistente significa um costado necessariamente mais largo para levar umas pancadas, é uma falácia. E a espaços, perigosa. Leva muita gente a defender-se, a criar barreiras, ou a exibir dentes assertivos onde apenas um pouco mais de intenção materializada seria remédio santo para um pouco mais de paz alegre.
Os gestos não são só isso.
Não basta saber que gostamos das pessoas, e que isso lhes basta como contributo. Há que ir com um martelo e quebrar a redoma dos dias sufocantes. Há que saber-se que a intervenção e presença não podem ser pedidas, mas que surgem, por vezes das formas mais directas, simples, e eficazes.
Eu gosto hoje menos de pessoas do que gostava há uns tempos. A porradaria das percepções dá para perceber isso. O espanto e calafrio da desilusão feita surpresa também. Por vezes aparece de onde menos se espera, e isso é um facto. E o que mais me custa (e talvez menos desculpe a alguns de quem esperei outra coisa) é terem-me levado a pensar assim, de forma conclusiva e serena, apesar de todos os meus próprios protestos. Faz-me sentir irado, estupido, otário e crédulo, como acho que o fará a toda a gente que assim se sinta, e no entanto a ideia da expectativa ainda se renova.
Mais do que ainda gostar de pessoas, ainda creio nelas em conceito.
Haverá maior parvoíce da minha parte?



Este filme, e esta magnífica faixa trazem recordações, mas sobretudo, reflexão.


Sempre achei extremamente difícil contar uma boa história de amor. Talvez porque a natureza contraditória do fenómeno faça com que a sua materialização se deva revestir de especiais cuidados, sob pena de ficar soterrado pelos constrangimentos, e não elevado pela intensidade daquilo que o torna (perigosamente) único.


Também considero que o amor é um “transmorfo” subjectivo. Cada hóspede da sua influência cria um universo próprio para o poder vivenciar, e as manifestações alteram-se consoante a capacidade do seu portador. É como um vírus (a maior parte das vezes benigno, mas nem sempre) cujas mutações correm pelo contorno do seu portador, chegando mesmo a transformá-lo.


Recordo aquele texto que andou a circular na internet, do MEC (A Causa das Coisas continua a ser, para mim, a referência. A crónica "Almoços" é a melhor e mais hilariante crónica que alguma vez li na vida), a propósito do chamado "Elogio do Amor Puro". Entendendo a posição do senhor (e o texto é de facto belo), mas não posso deixar de discordar com algumas coisas, que foram defendidas e assumidas como máxima de vida por uma carrada de gente, começando logo pela designação "Amor puro".


Não sei o que significa. Que vem a ser amor puro? Pureza num conceito tão contraditório, violento e caótico como este parece-me quase como colocar uma tiara de fada na cabeça da MAE WEST. Não joga. Quanto muito existe um destilar da capacidade de querer, a qual torna o sentimento tão afiado e intenso que corta tudo à sua passagem, mas não há nada de puro, nada de cândido ou limpinho. Amor é sangue e pele debaixo das unhas, e transmuta-se como uma segunda pele, adaptando-se ao tamanho e ritmo dos corações. Quando estes se partem, a tal pele estala, e como diz o outro, o vento acaba por levar tudo. O amor é sim o mais contaminado de todos os sentimentos, julgo eu.


Depois elogiar o amor sem razão alguma, aleatório, estúpido, cego e doente, mais parece uma ronda de tiro aos patos. Mas que merda de mania esta de achar que os mais elevados e poderosos sentimentos humanos se caracterizam por uma total ausência de relação "causa-efeito", ainda que seja parcial! Será assim tão nobre e bonito olhar para alguém e, assim do nada, deixar de ter capacidade de “empatizar” seja com o que for porque a suposta rajada aleatória do amor varre tudo à sua passagem? Será que a ideia do valor intrínseco da pessoa, daquilo que nos encanta na sua capacidade de comunicar, de ser, de se mexer, de problematizar, de fazer rir, de deixar sair as contradições que a fazem humana, são meros detalhes despiciendos, perante a tal grandeza da estupidez linda do suposto amor de origem desconhecida? A mim parece-me terrível que algo tão importante como o amor possa ser definido como uma indeterminação arbitrária, onde aquilo que sou como pessoa é simplesmente dispensável, perante o grande mistério totalitarista do amor que não se sabe de onde vem.


Tenham paciência...


Existe, obviamente, mistério no Amor. Porque entre dezenas ou centenas de pessoas que conhecemos, muitas delas com charme, encanto, inteligência, beleza, só muito poucas nos fazem suar com a antecipação do toque. É esta espécie de triagem que constitui o mistério, por uma combinação de coisas cuja matriz desconhecemos, e que nos retira o peso do corpo ao descobri-la. Mas que diabo, o substrato está lá. Há algo que reconhecemos como fundamento parcial daquele ser humano que nos encanta. Olhamo-lo, ouvimo-lo, cheiramo-lo e sabemos que lá está algo que tem coincidência com os nossos pontos de aceitação, com juízos estéticos, éticos, emocionais, e mesmo aquilo que nos irrita compõe o ramalhete. Aceitar a total falta de fundamentação, é, em meu modesto ver, reduzir a pessoa e o próprio amor a uma espécie de esoterismo dogmático, e o amor tem para mim muito pouco de religioso ou de "é assim porque é e o que é que a malta há-de fazer." (E sou tão sensível ao maravilhoso final do "The Dead" do Joyce como qualquer romântico inveterado.)


Se a beleza do amor é a falta de comunicação, a casmurrice, a ansiedade, os gritos, a falta de um mínimo de lógica e senso, as tragédias gregas, e se só isto significa esse algo que entra por nós a dentro e nos desequilibra, nos faz melhores, mais completos e mais vivos, então eu estou mesmo morto e não recebi o aviso lá em casa. Escandaleira, possessividade paranóica e drama não é amor, mas apenas uma forma de exercer poder sobre alguém.


Amor real, para mim, traduz-se em sentirmos que, por causa de alguém, somos muito melhores do que éramos, mais capazes, mais completos, e sobretudo, diferentes. Diferentes porque maiores, porque algo transforma as realidades, que parecem sempre iguais, em algo para o qual existem fundamentos, mas raramente uma explicação cabal.


Amor é perdermo-nos no que somos, e no que alguém é. É perceber que o coração pode partir-se e esse risco pode transformar-se num abandono à realidade que se vê sem cores ou formatos. Amor não é um tom pardacento ou misturado no completo desconhecimento. É passar do cinzento ao vermelho, e viver as gradações como se caíssemos de uma falésia, mas nunca em total desconhecimento.


Amor não é puro.

É justamente o contrário.

O amor é a mais notável forma de contaminação.

As boas histórias (acerca dele) são feitas de perguntas, de descobertas e sobretudo, de reconhecimentos inauditos, braço dado com as novidades de quem levou aquilo que era um pouco mais longe no nosso reconhecimento.

(E, claro está, é também um aroma corporal de fazer dobrar os joelhos e transpirar sem calor...)


quarta-feira, junho 20, 2007

William Golding, ao aceitar o Nobel da literatura em 1983 disse:
"I came to Sweden characterized as a pessimist, though I am an optimist. Now something - perhaps the wonderful warmth of your hospitality - has changed me into a comic. That is a hard position to sustain. It reminds me of days long ago when as a poor teacher I would take turn about during the night with my wife, getting our infant daughter to sleep. I remember once, how at three o'clock in the morning when I began to creep away from the cradle with its sleeping child, she opened her eyes and remarked: "Daddy, say something funny".

However, the moment has come for me to put off the jester's cap and bells.
I do thank Sweden for its wonderfully warm hospitality and I do thank the Nobel Foundation and the Swedish Academy for the welcome and unexpected way in which they have, so to speak, struck me with lightning. I only wish all borders were as easy to cross and all international exchanges as friendly.

I have been in many countries and I have found there people examining their own love of life, sense of peril, their own common sense. The one thing they cannot understand is why that same love of life, sense of peril and above all common sense, is not invariably shared among their leaders and rulers.

Then let me use what I suppose is my last minute of worldwide attention to speak not as one of a nation but as one of mankind. I use it to reach all men and women of power. Go back. Step back now. Agreement between you does not need cleverness, elaboration, manoeuvres. It needs common sense, and above all, a daring generosity. Give, give, give!
It would succeed because it would meet with worldwide relief, acclaim and rejoicing: and unborn generations will bless your name."
Isto dito por um homem que escreveu um dos mais negros, pungentes, belos e horrendos livros que alguma vez li. Um homem que, a julgar por esta obra, seria um pessimista, porque retrata sem complacência a nossa queda para a selvajaria.
Mas acho que temos sempre que aprender muito com aqueles que são capazes de fazer um mundo, de produzir algo que o tempo simplesmente se encarrega de continuar a engrandecer.
Quando leio coisas destas, e depois sou forçado a confrontar-me com discursos neorealistas liberais que glorificam o salve-se quem puder, reitero a convicção de que muito do que não se pode fazer depende única e exclusivamente de quem detém demasiado poder nas mãos.
Pensar no outro ainda é possível, e não uma quimera gozável.
Felizmente.
"ALL things uncomely and broken, all things worn out and old,
The cry of a child by the roadway, the creak of a lumbering cart,
The heavy steps of the ploughman, splashing the wintry mould,
Are wronging your image that blossoms a rose in the deeps of my heart.

The wrong of unshapely things is a wrong too great to be told;
I hunger to build them anew and sit on a green knoll apart,
With the earth and the sky and the water, re-made, like a casket of gold
For my dreams of your image that blossoms a rose in the deeps of my heart."

William Butler Yeats

Mais Yeats para um dia melhor... :)

Sempre gostei mesmo, mesmo, mesmo muito deste senhor...
Mesmo muito.
A mermaid found a swimming lad,
Picked him for her own,
Pressed her body to his body,
Laughed; and plunging down
Forgot in cruel hapiness
That even lovers drowm


William Yeats



Eu sempre gostei muito deste senhor...
Tanta verdade em tanta beleza simples...

terça-feira, junho 19, 2007





"It is the oldest ironies that are still the most satisfying: man, when preparing for bloody war, will orate loudly and most eloquently in the name of peace. This dichotomy is not an invention of the twentieth century, yet it is this century that the most striking examples of the phenomena have appeared. Never before has man pursued global harmony more vocally while amassing stockpiles of weapons so devastating in their effect. The second world war - we were told - was The War To End Wars. The development of the atomic bomb is the Weapon to End Wars.
And yet the wars continue."

Alan Moore - "Watchmen"

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"JON: I'm leaving this galaxy for one less complicated.

VEIDT: But you'd regained interest in human life.

JON: Yes, I have. I think perhaps I'll create some.

VEIDT: I did the right thing, didn't I? It all worked out in the end.

JON: "In the end?" Nothing ends, Adrian. Nothing ever ends."


Alan Moore - "Watchmen"


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"Who watches the watchmen?"

Juvenal, Satires, VI, 347


"As far as we can discern, the sole purpose of human existence is to kindle a light of meaning in the darkness of mere being."

Carl Gustav Jung

segunda-feira, junho 18, 2007



"(...)O toque da tintura de iodo doía sempre muito. Instalava-se entre as fendas nos lábios, causando um arrepio inicial muito forte o qual rapidamente se transformava em dor pulsante quando a carne se apercebia da substância que se lhe juntava. O que arde cura, já dizia a mãe dela e provavelmente milhares de outras mães que esfregavam o álcool ou tintura de iodo nos joelhos esfolados dos miúdos no final de um dia de brincadeira.

Mas ali nunca se brincava. E quando ela pensava que sim, o resultado posterior era sempre bem pior. Não há nada como a fúria mascarada de bom humor ou alegria. A ilusão era teimosa e aparecia sempre. Como um miúdo prestes a ser atropelado depois da proibição de brincar na estrada. Aquela sensação de que as coisas aparentam ser diferentes, a expectativa, o toque que parece tão genuíno. Tão confortante. Não admirava que a dor se tornasse muito pior. Como um contraste brutal que se estendia muito para além das marcas físicas. A quebra de esperança uma e outra vez. A humilhação perante a ilusão.


Isabel olhava-se ao espelho. O rosto era fino, bonito, de traços bem delineados. O nariz, mesmo depois de no passado ter sido partido em dois locais, recuperara a beleza feita de uma curva ligeira e levemente empinada. Os lábios eram carnudos e o sorriso feito da luminosidade própria de quem sorri com todo o rosto. O corpo, segundo aquilo que lhe diziam muitas amigas menos favorecidas pela natureza, era feito daquela massa que suporta todas as passagens do tempo e asneiras do quotidiano. Fizera alguns trabalhos como modelo enquanto tirava o curso de psicologia, mas este levara a melhor sobre uma entrega real ao mundo das passerelles. Fora no entanto num desses desfiles que conhecera o Rui. Um director-geral da maior sucursal de uma marca famosa de roupa em Portugal.Um tipo alto e largo, com olhos de um azul cegante e sorriso encantador. Dinheiro a rodos. Um discurso sedutor que a levou claramente a esquecer o olhar demasiado brilhante e incisivo. A forma como arreganhava o lábio inferior enquanto falava. Os gestos corteses, a capacidade para as melhores surpresas, um certo arrebatamento contido que lhe causava a ela um fantástico senso de insaciedade relativa. Isabel perdeu-se rapidamente, com a facilidade de quem escorrega por uma encosta cheia de gelo. Tudo parecia assentar. As palavras, os gestos, o decorrer dos dias onde sempre existia algo para fazer. Em cerca de um ano, a boda estava marcada.


O inebriamento fez com que Isabel descurasse alguns pormenores, ou na sua linguagem silenciosa e interna, coisas que pareciam tudo mas provavelmente não eram nada. Afinal, toda agente tem mau feitio ocasionalmente, e a quota parte de perversidade em alguns aspectos acaba por simplesmente fazer parte do encanto de cada um. Mesmo que pareçam aquelas coisas que indiciam algum perigo.


Na primeira noite após o retorno da viagem de lua-de-mel, Isabel fez uma proposta sexual pouco habitual para ela própria. Sentia-se completamente rendida aquele homem e a sua mente simplesmente viajava para a exploração de tudo o que fosse possível com ele. E foi então que surgiu pela primeira vez. A expressão feliz, alegre. Um sorriso diferente de tudo porque em si era um paradoxo. Havia quase como que uma luz que se acendia no rosto de Rui, como qualquer filamento brilha intensamente antes de causar um curto-circuito. Quando ela entrou no quarto com as botas de cabedal de salto alto e nada mais e antes que pudesse colocar-se de quatro, o sobrolho direito conheceu a primeira chaga. A mão pesada do marido fechou-se numa espécie de pedra feita de dedos e bateu-lhe na fronte direita, abrindo um corte que necessitaria de sete pontos para fechar. Isabel voou para trás, desamparada pela dor, impacto e surpresa, e caiu no chão. O sangue vertia em golfadas pelo sobrolho esquerdo, desenhando uma pintura grotesca no rosto. As lágrimas saltaram antes mesmo dela perceber, e a cabeça era agora um reino de dor tão forte que chegava a causar náuseas estomacais. Sentia-se completamente perdida. Não tinha qualquer noção do que se passara, e por um instante balsâmico, a mente tentou iludi-la a pensar que teria batido na ombreira da porta. No entanto, a realidade era sempre muito mais lesta como mensageira, e percebeu rapidamente que o Rui lhe tinha batido. Ficou deitada no chão, nua, com as botas calçadas. A pintura já completamente borrada no rosto, e o sangue que lhe coloria a face, as mãos e agora um pouco do peito. E a dor. A dor imensa. A dor da humilhação, da surpresa, do medo. Todas juntas às guinadas insuportáveis que advinham do sobrolho direito, aberto como uma boca em pleno grito.Com uma calma palaciana, Rui aproximou-se dela e agarrou-lhe pelos cabelos. Olhou-a nos olhos.E embora ela só pudesse ver pelo olho direito, e ainda assim meio cego pelas lágrimas, reparou que o sorriso não desaparecera dos lábios. Mas todo o rosto era uma máscara de ira e desprezo demasiado difícil de contemplar. Uma ameaça pura, uma intenção de violência feita olhar. Rui tirou a mão da melena, mas não em antes arrancar uma mão cheia de cabelos pela raiz. Isabel gritou. A sua cabeça era agora um oceano de dor. A mente, um inferno de humilhação sem fim à vista. Apresentava-se perante ela uma estrada de recordação feita de anos.


Isabel e Rui eram casados havia três anos. Os cenários nunca mudariam, e os motivos aumentavam exponencialmente. Isabel sabia que a sua vida era um risco constante. Um risco que implicava ver aquele sorriso. Os motivos nunca eram certos, e não havia forma de evitar. A brutalidade ganhava aquele contorno de elemento auto-explicável. Existia. Como uma tempestade. A tempestade pode ser injusta, mas existe. E ela está lá e não há como escapar quando se está no trilho do tornado. Era esta a ideia de Isabel.Felizmente não tinha filhos. Era este o pensamento que tinha cada vez que curava u ma ferida. Mas naquela manhã o teste fora positivo, pelo que Rui lhe abrira o lábio em três locais. Isto depois de forçar o vómito por tantas pancadas consecutivas no estômago. Isabel vira a morte de perto. Porque não havia o sorriso. Havia a possibilidade da escuridão completa, daquela da qual nunca se despertava."

Em Portugal (fonte – PSP, GNR e APAV – Relatório “Mulheres (In)visíveis”) - No ano de 2005 foram denunciados 18.192 casos de violência doméstica à GNR e/ou à PSP. A APAV recebeu, no mesmo ano, 12.809 denúncias. Entre 65% a 87% dos casos apresentados às autoridades, o agressor era cônjuge ou companheiro da vítima. - Fonte: Amnistia Internacional

Só gostava que fosse mesmo um mero exercício de ficção...