ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, junho 06, 2007





AT THE MOVIES III





(Atenção, alguns spoilers! Se não viu o filme, não leia este post!)


Bem, é uma autêntica salada russa, confusa, com tantas linhas de história, algumas delas que nem sequer se concluem (o que raios acontece à Calipso? Vai-se simplesmente embora, transformada em caranguejinhos?), estendida até à exaustão. Só se safa realmente o grande Depp e a personagem de Sparrow que impede o filme de mergulhar no total desgoverno, embora ande lá muito perto.


Sparrow faz-me lembrar outro magistral excêntrico, o Ichabod Crane de Depp naquele que ainda é o meu filme favorito do Burton, o espantoso Sleepy Hollow. É uma personagem completamente radiosa, hilariante e imprevisível no meio de tanta formatação de capa e espada. Não seria justo dizer que os personagens não são algo complexos. Barbossa, por exemplo, deambula entre o bruto sanguinário e trapaceiro, e o defensor de liberdade, e a própria Miss Swann lançou o inefável Jack para as entranhas do Kraken, portanto a coisa não se centra no dualismo dos bons e maus rapazes (e raparigas, diga-se).


No entanto, o filme perde-se. Gore Verbinsky parece um mau condutor a tentar segurar um Ferrari, e são só curvas e contra curvas mal calculadas, trajectórias e resoluções dramáticas em mudança primária, estendidas até à exaustão, já que o filme é extremamente longo. Não se perdia nada em cortar meia horita.

Diverte, sim, é um facto. As imagens e os efeitos são laboriosamente criados para dar a sensação de espectáculo e fantástico, mas este é um número 3 que se distancia muito da agradável surpresa que fora o primeiro capítulo desta saga (o primeiro filme é, em meu ver, um bom filme de acção e aventura, relembrando e inovando a imagem dos corsários e as intrigas de capa, espada e rum de outros tempos).

No fundo, Hollywood faz o mesmo novamente. Espreme a mama do potencial lucro até que nada mais resta senão muito barulho e pouca substância perante o potencial que uma aventura destas teria. Fica a sensação de vazio, de desperdício, como um estomago saciado reclama invariavelmente depois de um enfardamento de MacDonalds.

Bem pelo menos fica-nos o conforto em saber que Depp fará a versão "Burtoniana" de Sweeny Todd, que desde já antecipo com grande expectativa, e para piratas, tenho lá este para ler, quando o sol e o trabalho me permitirem espraiar na areia e saber o que realmente se passava nos barcos com as caveiras e os ossos cruzados asteados.













Quando os ciclos se completam e a linha curva que os fecha irrompe como uma bolha se sabão, criando novas realidades, a mudança do status quo aparece como uma inevitabilidade sempre com algo de dor à mistura.
Não será, na maioria dos casos, uma dor grave, mas mais um sentido de proximidade e relativa pertença que se perde, ou esboroa, perante a criação da distância pragmática necessária.
Ao longo do tempo, algumas das pessoas que fazem parte do nosso quotidiano afastam-se. Levadas pelo trabalho ou por mudanças de vida estruturais, deixam-nos sem a recorrência da sua voz, do seu contributo, dos pequenos mundos criados pela sua presença. São eventos naturais, até comuns, mas que descobrem sempre o lado menos luminoso das necessárias mudanças de qualquer percurso de vida.
Felizmente, em muitos casos, as mudanças são para melhor, o que nos deixa mais aliviados relativamente a essas pessoas. Rigozijamo-nos porque a alteração traz algo mais, algo melhor, algo de sentido de evolução.
Mas fica sempre esta ideia. A ideia de um lugar mais vazio pela ausência daqueles que o fizeram reconhecível e pertencente a algo partilhado.
Bonne chance!


terça-feira, junho 05, 2007

Se repararem, o dia de hoje encerra uma curiosidade engraçada...

Hoje é dia 05/06/07 ...
Disclaimer:
Não há qualquer intenção de generalizar, nem de passar qualquer atestado de igualdade redutora seja a que género for pelas palavras ditas seguidamente. É apenas uma experiência pessoal, que é necessariamente limitada.
Dito isto, e ao longo dos anos constato que a esmagadora maioria dos grupos a que pertenci se desagregaram ou destruiram por acção das mulheres que deles faziam parte. Há algo que azeda inexplicavelmente, e inquina tudo. Eu prefiro atribuir tal coisa a um infeliz acaso, até porque a esmagadora maioria das pessoas mais próximas a mim e mais queridas são mulheres. Mas há algo no agrupamento que lança as moléculas em estado dissociativo, apodrecendo a atmosfera, até que pouca coisa reste. E por mais que parta a cabeça a pensar, não encontro um motivo para tal fenómeno. Só sei que se tem repetido ao longo do tempo, em enquadramentos bem diferentes.
E é uma pena...
O Verão chega, acompanhado sempre dos últimos passos de uma maratona de efeitos.
Nos últimos anos tem sido sempre assim.
Padrões de alternância, diriam alguns.
Por vezes espero que a calmaria chegue. Mas ela nunca vem.
Como sempre, depende tudo dos mesmos, e o agnosticismo tem mais do que uma forma de cansaço.
Sem arrependimentos. Apenas bolhas de caminhada. Só isso.
A ironia faz bem ao sangue.

Repita eu mil vezes, e a frase parece-me sempre nova...
Ouvindo hoje a TSF, fiquei com uma ideia curiosa na cabeça.
Curiosa ou assustadora, consoante a lógica que se lhe aplique. Eu prefiro encará-la como um desafio, embora admita que as forças de constrangimento sejam sérias o suficiente para que o optimismo seja, no limite, moderado.
Todos falam em globalização. É uma realidade. Mas eu nem sequer vou abordar a questão económica, e aparentes contradicções dessa realidade. Falo sim da formatação comportamental, e alguma confusão quase difamatória relativamente à individualidade, tantas vezes confundida com individualismo.
A individualidade é o elogio do característico. É a percepção do pessoal, do próprio, da diferenciação indefinível. Expressa-se pela consciência da liberdade pessoal e o esforço construtivo, através de juízos éticos e estéticos para encontrar uma identificação. Essa identificação, em meu modesto ver, cresce e dignifica-se com a partilha. A experiência da liberdade pessoal sublima-se com a feliz contaminação da aprendizagem mútua. Somos mais e melhores quando aproveitamos o que de bom e entendível a individualidade de outro nos traz.
A multiculturalidade, e a interpenetração de influências é algo já amplamente debatido e reconhecido como positivo (Não confundir com relativismo cultural absoluto, que rejeito veementemente).
Mas é na expressão da evolução diária que subsiste o gozo e beleza da expressão da liberdade pessoal. O reconhecimento da justiça, dos juízos éticos, do esforço de exploração criativa e de partilha, para que o universo de cada um seja cada vez mais seu, no respeito da sua idiossincrasia, mas em colaboração com os outros.
É por isso que me preocupa a ideia da formatação.
A pressão esmagadora das conformidades, dos medianos, dos trilhos pavimentados, sem altos ou raízes de pergunta que possam crescer por baixo e estalem esse pavimento. Preocupa que a individualidade seja confundida com individualismo, que as ideias de reacção sejam esmagadas por um discurso de conformismo e aceitação de uma qualquer noção de poder omnipresente. Chateia-me que a diferença, que as perguntas nos olhares e nas formas de estar possam de alguma forma ser catalogadas como desvios.
A globalização deveria ser feita da contaminação por conhecimento e oportunidades, não por uma "new world order" em que a competição se sobrepõe claramente à colaboração, atingindo mesmo as esferas pessoais. A evolução não põe de parte a comunicação, julgo eu. Porque quando isso acontece, o mundo das pessoas fractura, violentamente, se assim tiver de ser.
E todos lamentam.
A verdade é que a individualidade não sobrevive sem a percepção do outro. Eu creio que a mesma deve ser feita em termos de conhecimento e descoberta de formas de colaboração, como um par de idiossincrasias que se alimentam mutuamente.
No fundo, desiludido ou não com as pessoas, a verdade é que as mesmas são a fonte da minha individualidade. Só assim ela fará sentido, e como tal, é na expressão da discordância que desenharei esse contorno.
Custe o que custar.

segunda-feira, junho 04, 2007

Aqueles que não te ouvem, raramente ou nunca o farão.

Por mais que gostem de ti.


E custa.
Quem por vezes cuida de nós são aqueles cuja natureza nunca lhes criou obrigação alguma, mas que se tornam autonomamente indicados e inexcedíveis.
E que sorte tenho por vezes, ao ver o esforço dos que não tinham nada que o fazer, motivados também pelo pouco que lhes posso dar. E como tornam a minha vida possível, pelo simples prazer de me terem por lá, com os meus disparates.
Antagonismos felizes...
Há algum tempo atrás, alguém me disse, acertadíssima, que por vezes as pessoas tendem a canibalizar-se. Confesso que nessa altura fiquei algo perplexo, porque não entendia a lógica subjacente a tal ideia.
Dizia ela, muito acertadamente, que a convivência reiterada de algumas pessoas, de acordo com as suas personalidades, leva a que essas mesmas pessoas se canibalizem, numa espécie de trituração pelos nutrientes necessários à união, e a formação de unidades diria que quase utilitaristas para manutenção de um estado. Surgem os líderes, e com eles, estabelece-se o trend, ou melhor, e menu, e a malta simplesmente devora a singularidade para criar uma espécie de bloco unitário onde o desvio de disciplina se paga caro. Com carne, metafórica e contextualmente falando.
Dentro de um grupo surgem então os subgrupos. As uniões fortalecem-se mas a capacidade de alargar o senso de união começa a sofrer de um constragimento de suposta proximidade. E digo suposta porque relembrando um pouco a metáfora do Garland, a ideia de perturbar o menos possível a disciplina prazenteira (do "é preciso é 'tar-se bem' "), torna-se uma espécie de tirania higiénica. Há uma desaprovação suave, um discorrer jocoso acerca das diferenças, e os pontos de contacto são explorados e sublimados quase à exaustão, ou à surdez.
"Em suma, se não és da malta, é com que comeces a pensar rapidamente em rever as tuas lógicas pázinho, porque o progrma do espectáculo já está decidido, e tu sabes o que acontece se não entras no programa..."
Julgamos nós que estas coisas se esboroam com o tempo, que os detalhes de exclusão se tornam subtis ou mesmo inexistentes quando a idade fortalece os laços e a temperança os torna pertença. Pois, estamos enganados. Porque para alguns, a ideia do fio contínuo do mínimo esforço comum continua a ser a palavra de ordem, e a dissidência é paga com luvinhas de pelica untada a simulacros de perfume de paz. Paz podre, claro, que depois redunda nas coisas que se sabem por terceiros, nas junções que geram relatos de coisas onde não estivemos, nos esforços que não se fazem, nas atenções que não se têm, porque o programa é o programa, e o resto... é o resto.
Não tenho qualquer pretensão a que me aturem. Bem vistas as coisas, sempre defendi que ninguém é obrigado a aturar ninguém. É a beleza da liberdade empática. A malta é livre para gostar de quem quiser. Mas o que custa são as incongruências, os cinismos suaves das falsas pertenças, o sublimar conveniente daquilo que afinal de contas são instantes a marcar no calendário e a passar adiante.
Custa a percepção subreptícia da tal disciplina, os sorrisos de anfitriões e não de coabitantes.
Pode parecer um exercício de maus fígados, mas o que realmente custa é a ausência de percepção para estas coisas. É não se saber a razão pela qual elas acontecem ou percebê-las arbitrárias, em alguns casos, por um desejo de protagonismo pequenino. Ou pior, por coisas que nem se sabem o que são ou porque se tornam tão fulcrais.
A convivência consegue fazer com que as pessoas se canibalizem, é um facto.
A capacidade de reunir pode ser limitativa em números (qualquer estrutura gregária o será), mas é sempre triste perceber que as pessoas de alguma forma se servem das utilidades dos outros, e palitam os dentes com um sorriso consolado, fazendo saltar as grainhas que outrora acidificavam o fruto da tal paz meio podre.
Será sempre assim?
Vou continuar a observar, mas faz pena que as verificações se acumulem, e que não percebamos a razão pela qual a manutenção de certa individualidade gera o ferrar do dente.
Tinhas razão. Só espero é que a tua teoria não seja aplicável sempre, mas apenas a instantes. O problema é que se multiplicam.
Lamentavelmente.

sexta-feira, junho 01, 2007

Um grande amigo que deixa saudades, mas que está em luta por algo melhor pelo seu país. Homem de Justiça.

C., és a imagem daquilo que sempre te conheci e do qual beneficiei.

Um homem de coerência, coragem, inteligência. Mas é também a tua humanidade que tanta falta faz por aqui, no grupo a que pertencíamos, pela amizade que sempre teremos.

Grande Abraço!

Pegando num bom ponto levantado por este post da Luna, senti-me tentado a elaborar algumas considerações sobre o chamado Romance ( vulgo sedução, flirt, conversinha de pé de orelha, bater o couro - Luna, tens razão, ainda é a mais identificativa.)

Ora vamos lá organizar-nos.


Não há dúvida que as coisas mudaram. Alguns dirão que para melhor, outros para pior. Mas o ponto levantado pela Luna, e muito bem em meu ver, prende-se com outra coisa. Prende-se com a ideia de facilitismo que rasga uma parte significativa do nosso comportamento socializante, e que, à falta de melhor explicação, se concentra no "mais rápido, mais completo, mais simples".
Em certas coisas, nada contra. Não tenho a mínima pachorra para a defesa da conversa do bandido, porque sinceramente, essa mesma conversa assenta em factores que, a considerar a pessoa como inteligente e bem humorada, se tornam desnecessários. A conversa do bandido, o andar à volta, o toque (ups) acidental, o mascarar da personalidade numa espécie de oleosidade conceptual, acabam por redundar num prolongar desnecessário do processo de "obtenção" de alguma coisa. A conversa do bandido não é flirt. É apenas uma espécie de modelo normalizado de desonestidade simpática que vai testando por eliminatória até encontrar uma de duas variáveis - a) a mulher inteligente que até engraçou com o gajo e não quer perder mais tempo, fingindo que engole as patranhas, ou, b) a burrice que acha reais os encómios rebuscados e por vezes constrangedores de tão formatados (e clichê) que são, confundindo estratégia primária com um olhar especial ou "individualizado".


Nesta lógica, a conversa do bandido, o flirt trapalhão, standartizado, preguiçoso para nada mais serve que esgotar a paciência a uma pessoa, a qual rapidamente indulgencia o autor porque lhe acha piada ao corporal, ou simplesmente condescende e quando tem de ir, desaparece. Se for este o caso, não sei porque raio não vão essas pessoas logo directamente ao assunto. Mais vale. Nos casos da conversa do bandido, mais vale passar adiante e avaliar hipóteses. Aturar uma conversa dessas parece-me algo semelhante a um(a) amante cheio de vigor físico, mas sem jeitinho nenhum, que apesar de durar tempos e tempos, não traz mais nada senão canseira e uma sequência de desilusões, já que a partir de certa altura espera-se que algo melhor venha, mas, desgraça, só continua o marasmo e a sensaboria.
Além disso, a conversa do bandido, em meu modesto ver, só inferioriza a destinatária porquanto a toma por simplória, à qual apenas meia duzia de larachas basta. E gostaria tanto de dizer que conheço poucos casos em que isso acontece, e que nunca vi mulheres muito inteligentes a engolir patranhas no mínimo risíveis. Mas a verdade é mais triste.

Mas outra coisa é o flirt propriamente dito. A conversa, o conhecimento, o jogo, a piada, a sinceridade educada, o atrevimento bem humorado. Isso é outra conversa. E deve ser uma longa conversa. Passar isto adiante é simplesmente retirar todo e qualquer potencial à troca posterior, seja ela o one night stand ou coisa mais prolongada. O sexo é (também e muito) psiquíco. Está na capacidade que o outro adquire de estabelecer uma dualidade, ou seja, deixar-nos curiosos e deliciosamente desconfortáveis ao mesmo tempo. E qualquer espécie de toque será sublimado se a mente se encontrar oleada e sempre carregada por estímulos que derivam da real tentativa de conhecer alguma coisa sincera e única acerca da pessoa em causa. É, no fundo, isso que fará com que a pessoa se sinta especial, porque o interlocutor não tem merdas, respeita a pessoa, e tem mais que fazer do que lhe servir meia dúzia de piropos requentados que nem eficácia "batanete" têm. No fundo, o flirt cria a sensação de curiosidade e semeia alguma afeição. Dure ela o que durar, desde que seja genuína, ganhará o respeito próprio porque acaba realmente por ser algo derivado do interesse que alguém ganha perante nós. E ignorar isto é, em meu modesto ver, estar cada vez mais longe da percepção de coisas no sexo oposto que são do mais divertido e esclarecedor que se possa pensar. A intenção pode ser clara, mas todo o contacto deverá ser uma tentativa de conhecer melhor alguém, e não uma espécie de formulário imaterial para simplesmente aliviar hormonas.


A título de "disclaimer", nada tenho contra as coisas rápidas, ou fugazes que, pela sua natureza assim o tenham de ser. Por vezes mais vale um momento único do que um prolongamento de chatices e incompatibilidades.
Mas nada serve sem a criação do interesse através da revelação do que somos, com a sinceridade q.b., mas sempre despida dos mecanismos subreptícios, as falsas flores, lacinhos e romantismos. Cheiram mal antes mesmo de apodrecerem, o que acontece rapidamente.

O que se passa com o romance?
Bem...
A mesma coisa que sucede com muitas outras coisas, como a leitura, a evolução, a curiosidade intelectual, etc. A malta quer a coisa rápida, eficaz, indolor e incómoda ao mínimo, esquecendo que o sabor de algumas vitórias e conquistas surge precisamente num paralelo com o velho brocardo aplicável ao acto de viajar.
"Getting there is half the fun!"

Certo Luna?
Para mim é. Aliás, sempre foi.
Obrigado pela desculpa dada para me pronunciar sobre o tema.

quinta-feira, maio 31, 2007

Noutros tempos disse:

"As coisas mais importantes ficam realmente guardadas porque de alguma forma se tornam imateriais quando saem. Como qualquer viajante não poliglota, a transmissão dos pragmatismos acontece, mas todo um universo de expressão é solto como uma espécie de canto de ave involuntário, que aguarda um ouvinte enamorado de composições ainda sem pauta. Acabo por ser aquilo que conforma a minha capacidade de gostar, porque é através dela que todo o meu universo psicossexual, ético e ontológico se filtra na construção da pessoa. Descaio para a rendição perante o que julgo melhor no mundo."(*)

Noves fora nada, ainda é mais ou menos isto...



(*) Recordando a ideia adiada de uma tatuagem.
As estrelas não brilham por necessidade.

Brilham porque podem.

Porque conseguem.


A beleza das manifestações amorosas também está no esforço não de criação, mas de recriação das mesmas.

O melhor naquilo que somos capazes de sentir, é a construção que operamos em nome da afeição, do amor, como um derivativo a jorro criativo e não a gotas de hesitação.

É com os ensinamentos do que o fazem com a graça suave de quem domina a estrutura emocional que aprendemos a ser um pouco mais nós.

Aprendemos a perguntar, porque os sorrisos que provocamos surgem como um mistério que ainda por cima de transmuta em apetite.

Amor é também apetite, não na asserção talvez mais frequente e imediatista, mas reflectida no anseio pela criatividade do outro.

Nos trejeitos, nas formas de estar, nos detalhes, na capacidade de provocar por um detalhe conhecido pelo próprio, mas tão unicamente exteriorizado pelo amante.

Espelham-nos com generosidade.

Aprendizagem e modos de sermos melhores do que talvez até sejamos.

Sorte.

É preciso é correr.
Nem que não se saiba para onde, algumas vezes, mas há que pôr um pé adiante do outro, respirar as neuroses e perceber que no turbilhão das coisas, existem instantes nos quais o melhor é nem parar para reflectir.
Minuto, hora, segundo, dia. Passa, passa, passa, massacra, tumulto.
Damos por segunda-feira quando é sexta, e o sono já não chega, a satisfação do descanso é apenas mais uma espécie de recusa de subsídio de alma perante o chão que gira veloz.
É preciso é correr. Adiantar. Esperar, ansiar pelos instantes que felizmente se tornarão irrepetíveis por serem únicos e não por sigularidade.
Coração. Bate. Barulho. Insónia.
Espera, tique taque do relógio, olhos, cores, vermelhos, castanhos.
Altos e baixos, a voz da perspectiva, a lógica da velocidade.
Gritos.
É preciso é correr.
Saber que o chão parece nunca mais acabar e ainda assim ouvir a chuva de passos provados na dores dos pés.
Luz do sol, beijos, pára, anda. Fica, vai. Desenvolve, resume.
Toma. Dá cá.
Correr. Vermelho.
É preciso é correr.
Estelar.

Agitar o sangue nos passos porque estar vivo é tropeçar nas perguntas quando já, em corrida, tentámos começar a responder.
Relógio.
Siga.
Corre.
Não sou info-excluído....

Sou mesmo é
info-estúpido ou info-ingénuo...
Sou de esquerda.
Moderada, é certo, mas acho que sempre deixei transparente a minha tendência esquedizante/social.
Mas a verdade é que o que se passa na Venezuela é chocante, e não vejo os representantes da esquerda elevando a voz a um claro atropelo à liberdade de expressão e um notório exercício de autoritarismo como foi o encerramento do canal de televisão no país referido, e as ameaças efectuadas a um outro.
Isto não é esquerda. Isto é puro totalitarismo, conotado com alguma suposta ideologia social. Reputar isto de exercício legítimo de democracia, é como dizer que o Putin é um pluralista...
Gostaria de ver mais vozes do "meu" lado a condenar veementemente esta situação inaceitável.

Ainda relativamente a este acórdão , gostaria apenas de fazer alguns esclarecimentos:
a) Não sou penalista. Logo, como qualquer jurista, não emiti nem pretendo emitir opiniões de especialista. Como tal, e após ler a dita decisão, e quando o tempo mo permitir, colocarei aqui o que julgo ser uma análise mais aprofundada, na medida das minhas limitações, relativamente ao que considero ser uma má ou perigosa valoração do STJ no caso vertente. Mas cometi um erro, e como tal, peço desculpas. A valoração da situação concreta da criança influenciou a morfologia da decisão, mas não foi elemento único. Se o dei a entender, as minhas sinceras escusas. Analisando, vê-se que influencia, mas não determina exclusivamente a posição tomada.
b) Não sou autista, o que me leva obviamente a rever constantemente as coisas que digo ou faço, porque acho que faz parte da evolução como pessoa perguntarmo-nos constantemente quem somos e como fazemos as coisas que fazemos. Admito, e será provável que tenha cometido erros de pormenor, precisamente porque não sou penalista, mas tenho obviamente a obrigação de os rever. Ou melhor, de esclarecer a minha visão, coisa que espero poder fazer o quanto antes.
c) Na óptica do dito supra, esclareço que são dois elementos que estão na base da reavaliação da medida da pena:
  • O elemento atenuante presente na qualificação precendente como crime continuado, sendo que discordo com ambos
  • As chamadas circunstâncias de prevenção especial, que estão mal fundamentadas, apoiando-se apenas numa lógica de evitar o chamado "alarme social" e estigmatização.

No entanto, no primeiro julgo que está clara, ainda que indirectamente, a relevância da tal diferenciação entre crianças mais novas e mais velhas, o que continuo a achar que não faz sentido pelo explicado antes. Mas como disse, tentarei, mais tarde, explicar com mais minúcia o que deixo seguidamente, fundamentando com outros elementos, pedindo desde já desculpas por alguns erros que os especialistas possam detectar.

Quero apenas reiterar que não efectuei este comentário como jurista somente, mas também como cidadão que se preocupou com esta situação. Quem sou eu para criar doutrina seja sobre o que for...

Assim sendo, e salvo melhor e mais douta opinião, são estas as minhas conclusões preliminares, a desenvolver posteriormente:

1 - Quer na determinação da ilicitude no crime continuado (concordando com a Lisa - aplicar este elemento a crimes contra as pessoas é idiótico quase - é como dizer, por outras palavras "no fundo eles estavam era a pedi-las...") onde a única coisa que encontro como atenuação está na parte final do nº 2 do art., ou seja, a continuação da criação da situação susceptível de levar à prática do crime, o que equivale a dizer, mais uma vez na óptica do STJ (segundo me parece), que a suposta não resistência do menor criou este quadro, já que o arguido não se sentiu suficientemente "repelido" para que a culpa continuasse a ser "elevada". Seja como for, acho este raciocínio do STJ, perigoso, e no fundo, ainda que indirectamente, vai beber às supostas capacidades do menor de 13 anos, que por razões anteriormente explicadas, não me parece procedente e dificilmente justificável.

2 - Então se formos à questão da gravidade diminuída das circunstâncias de prevenção geral, o argumento parece-me ainda mais coxo. O medo do STJ é pela propagação da histeria popular em volta da pedofilia ou pederastia? Bem, um arguido que pratica vários crimes, (sic) "dois deles na pessoa do menor BB, um na pessoa do menor CC e o último na pessoa do menor DD", não está a revelar um padrão? As especiais necessidades de prevenção geral não se encontram mais que encontradas face á pena anteriormente aplicada? Ou considera o tribunal que uma pessoa com um comportamento reiterado como este não deve preocupar a comunidade onde vive? Será como diz o tribunal - "a sua primariedade, a sua integração familiar e, de acordo com a própria decisão condenatória, a sua estigmatização no meio em face deste processo, apesar de anteriormente se poder considerar que o arguido estava plenamente integrado socialmente" (...) ou "Por outro lado, no que concerne às necessidades de prevenção geral positiva, há que ponderar o facto de que a natureza deste tipo de crime é susceptível de causar alarme social, sobretudo numa época em que os processos de pedofilia têm relevância mediática e a sociedade está mais desperta para esse flagelo. Por conseguinte, as necessidades de prevenção geral positiva são relevantes, pois que (…) a reposição da confiança dos cidadãos nas normas violadas e a efectiva tutela dos bens jurídicos cuja protecção se visa assegurar pela incriminação deste tipo de condutas assim o impõe". Ora, concedendo embora em que as necessidades de prevenção geral positiva são relevantes, não se pode concordar, todavia, com a relevância que acabaram por adquirir.
Parece claro que o STJ se limitou a justificar essa atenuação com o argumento de que a conduta não justifica alarme social? A alguém que praticou três crimes (ok dois na forma tentada). Não há aqui um padrão? Uma necessidade de especial prevenção? Eu considero que sim, logo discordo do argumento simplista do acórdão que se limita a dizer "o quantum é excessivo" e pronto. É excessivo porquê? Dois anos e meio a menos porquê? Bem...

Discordo, mas não disse, como não digo (sem ironias - mas quem sou eu perante o STJ???) que está tecnicamente errado. O busilis da questão não é técnico, mas está sim assente em questões de valoração, nas quais discordo da tomada de posição do STJ, achando-a algo perigosa.

Claro que apercebendo-me da provável incompletude científica e técnica para fundamentar juridicamente a situação, espero que no entanto seja suficiente para emitir uma opinião.

Um obrigado sincero a todos por enriquecerem a discussão.
Um blog também é isto. Felizmente. :)

quarta-feira, maio 30, 2007

As pessoas que me conhecem sabem que eu e o Paulo Portas pouco temos em comum. Ou nada mesmo. Mas o desacordo não é sinónimo de autismo, e como não me revejo nessa postura, tenho de aplaudir as palavras do senhor relativamente a esta palhaçada sem limites que são as provas de aferição, e principalmente, o descaso com que foi abordado o problema dos erros de português.
Gostaria de saber quem foi o idiota, o brilhante estratega pedagógico que achou justificável fazer-se provas sem avaliação, e pior, que deu instruções para que os erros de português não fossem tidos em conta para efeitos da avaliação (que não avalia ninguém - salsada total!!!) dos alunos. Mas desde quando é que se deve aceitar que os alunos escrevam mal, desde que apanhem o sentido do texto? Mas é a ortografia despicienda? Será que se grunhirmos em direcção ao conceito da resposta, ela também conta?
A questão da "passagem" obrigatória até ao 9º ano já é um disparate do tamanho de um prédio. Motivar miúdos que acham que passam independentemente do que façam é algo que somente a malta do gabinete é que pode achar exequível. Mas permitir que os alunos escrevam de forma errada, que soletrem mal, que cometam toda a espécie de enormidades à nossa querida língua, que é já tão atacada nestes tempos é uma estratégia cujos proveitos dificilmente consigo perspectivar. Quem beneficiará com isto? Será o tradutor que espetou no ecrã de cinema que o assassino do filme em questão seria um "prevertido"? Este idiota deverá continuar a ser incompetente e a multiplicar pontapés destes na semântica?
A avaliação é uma condição indispensável da pedagogia, em meu modesto ver. Obviamente que os conteúdos devem ser ministrados de forma competente, e de maneira a chegar a todos nas melhores condições possíveis, mas deixar que os erros, as falhas e as asneiras passem incólumes é perpetuar uma cultura de miserabilismo e incompetência, com custos muito altos para... os alunos e futuros profissionais.
É de facto uma educação de faz-de-conta, onde a malta vê as asneiras, mas como são bem intencionadas, nem nos preocupamos em corrigir e voltar a ensinar, consolidando a aprendizagem.
E se este tipo de opções continuar, a nossa fraca capacidade para competir e responsabilizar no campo das qualificações e saberes tenderá com certeza a eternizar-se.
Tenham paciência!!!

Como jurista que sou, e devido a anos de treino na matéria (que valem o que valem), não vou pronunciar-me com todo o possível conhecimento de causa para o qual é necessário ler o acórdão em causa, respectiva fundamentação jurídica e a correspondente aplicação da mesma à matéria de facto apurada e revista (já que se trata de decisão do STJ). Se algum amigo magistrado quiser ter a gentileza de enviar o acórdão, pois muito se agradece, pedindo desde já desculpas por qualquer conclusão que pareça precipitada ou necessariamente mal informada.
No entanto, e com a (pouca) informação que possuo, penso que é possível retirar algumas conclusões sobre todo o enquadramento.
A fazer fé nas notícias veiculadas ontem e hoje, o STJ terá reduzido a a pena aplicada pelo crime de abuso sexual de menor, por achar relevante a diferença de desenvolvimento e discernimento entre uma criança de 13 anos e uma outra de 4, 5 ou mesmo 9 ou 10. Isolando esta última questão, ou seja, a diferença entre estágios de evolução da criança, subscrevo inteiramente. Há de facto diferenças cruciais entre as idades referidas, em todos os campos do desenvolvimento psíquico e físico.
Mas onde tenho mais reservas e resistências será na "valoração" dessa diferença, ou na conclusão pelo maior manancial de capacidades detidas pela criança de 13 anos, como fundamento para uma redução de pena pela prática de um acto de abuso sobre um menor. A verdade é que se a moldura penal estabelece como limite os 14 anos, será porque o legislador não quis estabelecer uma diferenciação abaixo dessa moldura, por considerar que são sujeitos especialmente vulneráveis e como tal, merecedores de maior protecção à luz da lei penal, por um lado, e maior reprovação do ordenamento jurídico, por outro.
E é aqui que a porca torce o rabo, como diz o brocardo popular.
E sinceramente, julgo que há aqui pouco de discussão técnico-jurídica. Há sim um problema de valoração, tendo em conta os condicionalismos da sociedade e a sua evolução. Julgo que o STJ lançou, sob a capa de uma análise técnica e provavelmente fundamentada, um sinal perigoso, e que dificilmente será explicável à opinião pública. Como dizia um magistrado na televisão ontem, este é um daqueles casos em que os magistrados deveriam descer do púlpito e explicar muito bem o que querem dizer com a decisão que proferiram. E esse sinal perigoso pode decompor-se, em meu modesto ver, da seguinte forma:
a) É um Acórdão do STJ. Embora não seja com certeza um acórdão de uniformização jurisprudencial, mas será com certeza utilizado uma e outra vez para fundamentação de decisões, recursos, acusações, etc.
b) Envia uma discutível mensagem que consiste na valoração de supostos comportamentos de expressão voluntarística da criança que são, em meu ver, contra a propria teleologia da norma, que pretende proteger a criança do que pode ser a imposição de poder e influência de alguém mais velho, que condiciona a expressão livre da tal vontade, e como tal, consiste numa forma de coacção da mesma.
c) Mal explicado perante a opinião pública leiga, poderá redundar numa espécie de ideia de "exculpação" de determinados comportamentos, considerando-os "menos graves", num universo tremendamente escorregadio e emocional como é o abuso sexual de menores. Os juízes do STJ terão com certeza muita dificuldade em explicar perante muitos pais, irmãos e familiares a razão que pode levar a valorar o comportamento de suposta anuência de uma criança de 13 anos num cenário de abuso sexual de menor. Claro que o exercício e aplicação da justiça não se deve compadecer com pressões da opiniao pública, mas aqui o problema estravasa em muito a questão da reacção genérica. É, em meu ver, a gravidade de uma observação e qualificação de um comportamento como menos grave, relativamente a crianças e o repensar do nível de protecção às mesmas.
d) O necessário "entroncamento" com a questão da imputabilidade. Porque, e segundo me parece, se o que está em causa é a capacidade da criança de 13 anos poder determinar a sua vontade de alguma forma, levando a que o desvalor da atitude do abusador seja atenuado, entao como ficamos na questão da imputabilidade dos menores de 16 anos? Será que a vontade destes releva para umas coisas e não para outras? Será que serão inimputáveis para responder em certos termos por homicídio (em meu ver qualificado), como no caso do transsexual sem-abrigo que foi morto à pedrada, mas serão "capazes" no sentido de já possuirem qualquer noção de auto-determinação de vontade relativa à sua conduta sexual, especialmente se for com adultos?
Julgo, salvo melhor opinião, que não é possível deixar de questionar esta forma de avaliação desiquilibrada do que é, ou não, a capacidade de formular (materialmente) uma vontade juridicamente relevante.
Das duas catorze:
  • Ou a vontade do menor é relevante para efeitos penais, e como tal, a lei aplicável terá de ter em conta a sua capacidade de determinar os seus comportamentos face ao ordenamento jurídico e correspondentes normas;
  • Ou a sua vontade é irrelevante, porquanto se julga que a pessoa em formaçao ainda não tem a capacidade de formular juízos que devam ser autonomamente valorados como juridicamente relevantes, porquanto essa capacidade de auto-determinação não existe em razão da idade.
  • Se o STJ julga que uma criança de 13 anos é já capaz de perceber e expressar a sua conduta sexual de forma juridicamente relevante (o que parece ter sido tido em conta pela atenuação da pena), então também será pelo menos discutível a revisão do conceito de inimputabilidade dos menores de 16 anos, especialmente em tantos casos de violência como os que vemos hoje em dia.

Na minha modesta opinião, a criança até aos 14 anos continua a merecer especial protecção, e como tal, a valoração especial e graduada consoante a idade (0 aos 14) deveria, quanto muito, acarretar uma agravação da pena para idades mais tenras, mas julgo no mínimo discutível que uma decisão como esta possa simplesmente retirar desvalor ao acto de abuso por considerar que a criança é menos vulnerável aos actos que lhe são infligidos, como se fosse "mais capaz" de se defender ou de se auto-determinar, ou como se os danos pudessem de alguma foma ser menos gravosos ou traumatizantes.

Diz o STJ que não é "certamente a mesma coisa praticar alguns dos actos com uma criança de cinco, seis ou sete anos ou com um jovem de 13 anos, que despertou já para a puberdade e que é capaz de erecção e de actos ligados à sexualidade que dependem da sua vontade”." (sic)

Sim, talvez não seja, mas a verdade é que a partir do momento em que se começam a consagrar em decisões superiores a gradação do desvalor nestes termos, valora-se a suposta capacidade e estado evolutivo do menor, inserindo um elemento esquizofrénico na normal, ou seja, que existe uma protecção especial a crianças abaixo dos 14 anos, mas que há crianças com direito a protecção mais exiegente que outras. Se fosse esse o espírito da norma e legislador, então julgo que teriam sido criadas outras divisões, outras molduras penais, outras lógicas de protecção para diferentes classes etárias de menores.

E rever uma decisão, subtraindo gravidade ao acto por razão da maior capacidade da criança, é de uma certa forma dizer que abaixo dos 14 anos, umas estão mais preparadas para o abuso que outras. Em meu ver, crianças são crianças, e como tal, (nunca deixando longe a questão imputabilidade) deve ser muito bem pensado e esclarecido em que termos a vontade daquelas é relevante, e em quais a protecção deve ser pensada e reforçada. Esta é, repito e em meu modesto ver, uma decisão perigosa.

Mas vejamos o acórdão, e o que trará de mais esclarecedor.

terça-feira, maio 29, 2007

Nota para distribuidoras de cinema em portugal, e quem seja responsável pelas traduções dos filmes:

1 - Que raios ver a ser "Fodão-se e morram"? Fodão-se????? Mas que raio de tempo verbal é este??????

2 - Que vem a ser um "prevertido" ? Terá alguma relação com o verbo "preverter", o qual já agora também não sei o que quer dizer? Ou será que os tradutores poderão deixar de dizer tanta asneira, a qual vai pervertendo o ritual cinematográfico e o prazer que lhe está associado? O David Fincher daria cambalhotas no ar se visse isto na tradução do seu Zodiac...

Sinceramente, por vezes não há pachorra. Pior que isso só mesmo os atrasados mentais que comem pipocas com a boca aberta, os idiotas que não entendem o que significa desligar a porra do telemóvel, e os artolas que comentam o filme como se fossem o Gabriel Alves num derby.
No fundo, são tudo exemplos de desrespeito.
E depois dizem que há menos pessoas nas salas...
Enredados nos pragmatismos, falta-nos o fôlego e a percepção correcta para avaliar senão o mais imediato. E falhamos, em detalhes e acções. Pelo simples esforço de cruzar a esquina e clarear a vista, agir mais ponderadamente e falhar o menos possível.
É nos rostos dos que não vejo, dos que me vão falhando que vejo a destruição higiénica do meu tempo, e a antecipação dos instantes de ultrapassagem.
Mas há sempre alguém mais teimoso.
E costumo ser eu.
Dementia Preacox.

Mais umas semanas como esta, e passa a figurar no meu boletim de saúde...

segunda-feira, maio 28, 2007

Lá vou a concurso.

Com letras minhas.

Medo...




Existem momentos históricos.
Talvez sejam imbuídos da subjectividade própria do que se torna único e irrepetível para cada um de nós, mas ter a sorte de passar por tal instante é algo que não se esquece, algo que marca como um ferrete quente, mas sem dor. Ou pelo menos sem a dor negativa, porque certos instantes de beleza, de intensidade e reencontro com coisas que fizeram cada pedacito da nossa vida, são bem capazes de descascar a nossa pele e isso nunca é indolor. O encontro com o que nos identifica sem qualquer objectividade feita de letras, porque a emoção que sobra não permite tais veleidades.
O concerto de Dave Matthews foi todo ele um reencontro com coisas pessoais, escondidas, íntimas, estruturais e, a espaços, incompreensíveis devido à sua essencialidade nos anos que o precederam. Posso isolar dezenas de momentos fulcrais, por vezes apenas num detalhe, onde o Sr. Matthews meteu o bedelho e fez a diferença. E julgo que existem poucas coisas tão compensadoras como ter a experiência mais intensa possível à custa de algo que se entrelaça na estrutura do que somos, e a potencia em prazer e senso de auto conhecimento.
Existem livros da vida, canções da vida, filmes da vida, quadros, paisagens, enumerem quantas quiserem. Existem coisas, fenómenos, que exercitam aquela parte de ansiedade e pertença e nos fazem procurar e estremecer perante a sua presença e acção.
Foram mais de três horas de concerto, de excelência, de uma candura e entrega, e que diabo, de talento que chega a atemorizar e chatear de tão imenso que é. Três horas pelas quais esperei mais de oito anos e muitas audições dos trabalhos da banda em todos os suportes audiovisuais.
Mas é nestes instantes em que temos a sorte de perceber que o invulgar e o único tem algumas expressões finitas. É nessa finidade que fica um calendário inteiro de memórias, uma espécie perseguição ao tigre na floresta do poente, ou ao fogo fátuo que faz parte de cada apetite que a nossa imaginação se atreve a construir.
Esperei oito anos para ouvir o "Crash" e o "So Much to Say". Sabia, como sei, as letras de cor, a sequência dos acordes, e os instantes em que eles me surgiram ao longo desses anos. Mas não o sabia tão grande, tão imenso, tão completo. Não sabia que o raio do homem cantava tão bem ao vivo como em estúdio, que ver a sua criatividade em discurso directo é pensar 500 vezes em como será ele capaz de imaginar um tão imenso e excelente reportório.
Já vi muitos concertos no Atlântico, mas posso dizer que nunca vi a sala assim. A apoteose foi constante, o plateia estava cheia até às paredes mais distantes e existiam pessoas encostadas ao bares mais afastados. 3 encores. Gravedigger num deles, que lançou a sala em direcção aos céus.
Voltem ou não a Portugal, o que deve ser provável, tal era o estarrecimento da banda, a verdade é que ali aconteceu história.
E como é que se agradece rendido a uma pessoa que não nos conhece, e que no entanto, tanto bem nos fez e faz na vida?
Thanks Dave....

quarta-feira, maio 23, 2007


Vejo-me mal preparado para a morte.

Em geral.

A morte das coisas, das ideias, das pessoas, dos laços. Em conceito, a morte parece-me obscena, ilegítima, profundamente arbitrária.

A ideia da irrecuperabilidade é um dos grandes paradoxos do carácter dinâmico da vida que temos, porque entronca na sua contradicção, ou seja, o desejo de evoluir.

Eu sempre tive um tremendo problema como armazenador. Guardo papéis, objectos, recordações, bilhetes de cinema ou quaisquer outros espectáculos em lindas caixas artesanais.

A ideia da morte em conceito, do fim como mecanismo arbitrário tendente à marcha da evolução da vida parece-me parca desculpa para insultar a finidade.

E no entanto, é na expressão máxima dos instantes únicos, que jamais se repetem, que reside a maior magia de todas as formas de expressão. A criação, ainda que reproduzida, nasce apenas uma vez, e essa unidade de tempo e espaço é que a torna singular, bela e terrível.

Julgo que tenho um coração preparado para jamais trair a memória dos conceitos bons, e aceitar o máximo que consegue relativamente ao facto de simplesmente ter uma vida.

As cores vermelhas, as estrelas, as luzes bailarinas, as letras, e demais recortes que os meus olhos nunca dão o merecimento da exacta excelência que possuem, ensinaram-me a ver dessa e outras formas.

Por isso estou mal preparado para a morte.

Alheia.

Sou egoísta o suficiente e idiota de sobremaneira para julgar que a ilusão de infinidade de que beneficio o é mesmo...

Atenção Gatos Fedorentos, Contra-Informação e quejandos. A RTP poderá estar a um passo de instaurar qualquer espécie de processo, (não disciplinar porque provavelmente funcionam em regime de prestação de serviços, sem subordinação jurídica) ou de retaliação por "bocas" lançadas ao primeiro-ministro.

Aquilo que se está a passar com o professor suspenso é produto da mais asquerosa forma de exercício de poder, e lambe-botismo por parte de uma directora que com certeza tem objectivos altos em termos de carreira política. É de uma tal ridicularia e desplante, que o Ministério da Educação, à boa maneira do regime blindado em si mesmo, nega qualquer intervenção no caso, nem que seja para o necessário esclarecimento de partidos políticos e pessoas em geral.

Além de ser um atentado absurdo à liberdade de expressão, (quantos mails não circularão com bocas e comentários aos membros do Governo), é uma expressão do mais básico exercício da prepotência, na lógica de baixar a bola aos dissidentes e discordantes. Penso em toda a espécie de rábulas, nacionais e internacionais (pense-se no Daily Show do Jon Stewart, ou o Leno), feitas aos políticos, algumas delas mesmo agressivas, e depois olho para isto, e surge um riso consternado e cansado.

Seria cómico se não fosse asqueroso.

Seria risível, se não fosse perigoso.

O autarca de Vila Nova da Rabona parece cada vez mais vestido de pele real...

Por vezes sinto que o melhor mesmo é correr a música do TN que está aí ao lado, e ficar assim.
Ela diz mesmo tudo.

terça-feira, maio 22, 2007

Dá efectivamente muito que pensar. A cassete dos "imperativos do mercado" tem mais buracos que um queijo suíço...
Não sou economista, e tento apenas informar-me o mais possível, na perspectiva de um leigo que no entanto tenta raciocinar e chega à conclusão que dificilmente se explicam cortes de pessoal numa empresa onde os administradores ganham 300 vezes o que ganha o operacional mais básico na estrutura produtiva. Como alguém me disse, a empresa que tem máquinas com 20 anos, mas um conselho de administração com Audis TDI à porta, não pode explicar-se com imperativos de mercado.
O Presidente do Banco de Portugal não pode vir falar de rigidez de legislação laboral, e de necessidade de contenção salarial, e depois encomendar alguns BMW série 7 ( + ou - 20 000 contos cada) para se transportar de um lado para o outro.
As contradicções estão à vista. E são imensas.
Considero apenas triste e de uma hipocrisia tremenda falar-se em condicionantes de mercado quando o mesmo pode claramente ser regulado, e a ganância do lucro sem contrapartidas de evolução ou progresso ser controlada pelos árbitros - os Estados. Se existirem regras, a selvajeria não se generaliza.
Se afinal de contas não passamos mesmo de factores de produção, de simples elementos na roda dentada, então a ideia de competência e profissionalismo rapidamente é substituída por qualquer pessoa que possa ser espremida o mais possível, pagando o menos possível. E isto parece-me, no mínimo, perigoso e anacrónico, próprio de outras eras negras da história social.
Acredito numa economia de mercado, no valor da concorrência, da competência e profissionalismo, mas nunca a todo o custo, e jamais sem regras. Os árbritos devem ser rigorosos e as regras são para cumprir, porque o sucesso deve ser sempre obtido com as pessoas, e não à custa delas, porque cedo ou tarde, a pressão é demasiada, e algo vai estalar e a derrocada é inevitável. Não entreguem o peixe, mas sim as canas, e que os fiscais vigiem os rios. Assim será mesmo através do valor e trabalho que as pessoas chegarão a algum lado, e não pela eficácia da sua implacabilidade competitiva.
"Nenhuma força de mercado impõe que um administrador tenha que ganhar um salário de 12 milhões de dólares por ano – nem sequer de 2 milhões; mas os conselhos de directores e as comissões de compensação corporativas formadas por amigalhaços podem assumir esta generosidade à custa dos trabalhadores. E é este mesmo grupo de fabricantes de decisões, em conjunto com os funcionários políticos que eles apoiam e subsidiam, que afirmarão enganadoramente, por exemplo, que são as forças do mercado, a pressão inflacionária, e a potencial perda de postos de trabalho que os obrigam a bloquear as tentativas para aumentar o ridículo salário mínimo nos Estados Unidos de 5,15 dólares por hora, e que se mantém há uma década.(...)
Stephen J. Fortunato Jr. - Membro do Supremo Tribunal de Justiça de Rhode Island. Os seus ensaios e análises têm sido publicados no Georgetown Journal of Legal Ethics, no Harvard Law Journal, no In These Times e noutras publicações.

segunda-feira, maio 21, 2007

A natureza dos diários pessoais, sejam eles de que espécie forem, resume-se sempre a um encontro com coisas que desejamos externalizar, mas num monólogo recoberto com o anonimato possível.
Como qualquer outra forma de expressão, um blog, como o meu, e perante a idade que já tem, torna-se um receptáculo da própria pessoa, que ao ler-se, relembra as coisas mais ou menos certas que disse sobre alguma coisa, em certo dia.
Tenho andado afastado do meu diário porque a sua natureza esgotou-me, e porque farto da minha narrativa própria, lancei-me na imaginação de outras. Nestas sinto-me mais à vontade, enquanto inventor mentiroso, de boas ou más intenções, lançando pessoas que não existem de encontro a vivências que nem sei de onde vêm, deixando assim o meu diário ao sabor das suas ausências.
Mas seria ainda mais mentiroso, pelo menos mentiroso da má espécie (se é que existe uma boa), se dissesse que a exteriorização do meu quotidiano, (das coisas que afinal de contas estão apenas reduzidas à insignificancia da minha própria vida), não me estivesse a fazer falta.
Talvez porque escreva na lúcida perspectiva de que não tenho outra escolha. Talvez porque, como qualquer pulsão, ela possa surgir acerca de coisa alguma, ou ser afinal o produto de muitas coisas que nunca conseguirei explicar devidamente.
Mas é também o encontro com as pessoas que provoca o desabar da porta ou o estilhaçar da fechadura do diário.
E é por causa delas que a pulsão da escrita não obedece a critério algum de exactidão nos seus fundamentos, mas de escrita porque sim.
Acho que estão (re)abertas as hostilidades.
Acho...

quinta-feira, maio 17, 2007

E eis-me, a pedido de um amigo, a fazer parte ou a criar o chamado meme.

Confesso que ainda não agarrei bem a lógica do conceito, mas aguardo instruções, e sobretudo, esclarecimentos sobre este movimento, ideia ou conceito.
Bem, de volta á escrivaninha.
Até breve.

segunda-feira, maio 14, 2007


Olá Mãe.

É uma vergonha que tenha de esperar estes dias para escrever uma ou duas letras para ti. É igualmente uma vergonha que não transpareçam as motivações que surgem, e nunca se esgotam, muito menos num dia do ano.


É curioso pensar no decorrer do tempo. Longe vão as tardes dos Parodientes de Lisboa, dos Tulicreme, das invectivas pelo mudar do mundo e o decurso do relógio. Do olhar pela janela e a transformação do carreiro lamacento em estradas, paredes e fim de sossego.
Recordo também uma noite em Vila Praia de Âncora, em que vimos juntos o nascer do sol, mas não por amor à Natureza. Noite de resistência, essa, daquelas criadoras de laços, daquelas que desafiam a lógica e fundam a proximidade em coisas tão duras como betão armado.
Recordo as posições de força, as incongruências de emoção, os tropeções, os triunfos, as dificuldades, as realizações, os sustos, as surpresas. São passado feito facto contemporâneo, feito em gestos de cada dia.


Se hoje sou agnóstico, ou gosto de me julgar pelo menos como pensador livre, devo-o a um senso misto de educação com regras e simultânea faculdade de escolher e decidir. E durante muitos anos será das coisas que mais agradeço, porque à férrea noção de força pessoal, deste-me a escolher entre um ser imaterial e a adoração possível pelas coisas boas dos outros. E a escolha tornou-se óbvia.


A verdade é que não exponho vezes suficientes a importância dos teus detalhes, a sorte que possuo em trocar galhardetes contigo, na pouca ordem que vais ajudando a manter na minha vida a partir de certo momento crucial. É de facto um aparente paradoxo, mas perante aqueles que estão mais debaixo da nossa pele, a distância necessária para confissões afectuosas sem medo é extremamente complicada de criar ou manter.


Sorte é acaso. Mas a manutenção da mesma é trabalho e uma lição dura e valiosa sobre dedicação. Ter a sorte de ser recorrentemente filho e menos vezes adulto não acontece a muitos. Nem muitas vezes. E no entanto tenho a possibilidade de cair nessa rede com a frequência de quem faz do conceito de dedicação um tipo de material digno de ser leccionado.


Até a tua cabeça dura, a inflexibilidade da visão de quem ferreamente sustentou tanto peso tem todo o cabimento na pessoa que sempre nos foste mostrando. Feitio que nos contaminou, lógica de corda que não parte, resistência acima da tentação da comodidade.


As pessoas de quem mais gostamos, que são o pano de fundo dessa sorte, acabam por conhecer-nos nas ausências, pressentir os recortes de personalidade quando os baralhamos em formatos pouco nítidos. Uma mãe, das reais, faz-nos ter a percepção clara de que a vida que temos não pode senão respeito por um propósito. Tu deste-me sempre a crer que o melhor que podemos ser surge pelo melhor que conseguimos fazer. O senso de pertença que nos acolhe é tão instintivo que qualquer questão que lhe coloquemos desvirtua a sua natureza. E somos tão pequenos perante aquilo que nos é dado, que mais vale aceitar e entender como normalidade. E nisso sempre foste exímia.


É um aniversário, mas a tua força está estacionária.


É um passar de tempo, mas nada significa senão que pareces maior que ele.
É o teu dia, mas é mais um. Porque o cordão umbilical, mantido ao longo de todos estes anos (exceptuando a parvoíce da adolescência, mas temos de ser estúpidos durante uma fase da vida), é feito da solidez de algo que não tem nada a ver nem com sangue, nem com carne, nem com convenções gregárias de sociedade. Tem a ver com aquilo que tu, (de todas as formas, bem como esse senhor aí ao teu lado,) escolheste fazer.


Sou, assim como o meu irmão, produto da tua escolha em querer fazer uma pessoa de cada um de nós. Onde falhámos, a culpa é nossa, onde triunfámos, o empurrão foi teu. Porque quanto mais olho à volta, e vejo o que se passa, mais vejo os risco que impediste que corrêssemos, e nessa óptica, conseguimos emergir como homens. Homens que aceitam as suas contradições, mas não tropeçam nelas. Homens que entendem de onde vieram, e aceitam humildemente a dádiva em pertencer a essa origem. Uma origem feita de um escudo e nunca uma bolha, de uma lição e nunca uma ordem.


És ainda mais mãe do que a palavra denuncia.
Por isso este é um dia de muitos outros, onde és tão maior do que podes parecer.
Nunca serei adulto o suficiente para agradecer aquilo que fica nas entrelinhas onde o sangue é apenas um detalhe, e a tua vontade e feitos são tudo.


Obrigado…

FELIZ ANIVERSÁRIO…

quarta-feira, maio 02, 2007



Na sequência de um post escrito anteriormente, eis a voz e música por trás da voz de George Clooney, John Turturro e Tim Blake Nelson no filme "Brother Where Art Thou".

Não sou um fã de country music (embora goste de algumas coisas que andam ali na fronteira com os blues - Ryan Adams é fabuloso e claro está, há sempre o grande mestre e já desaparecido Johny Cash), mas esta música deixa-me incrivel e inexplicavelmente feliz, e macacos me mordam se sei exactamente porquê.


O mesmo pode ser dito do filme em causa.

Mistérios felizes, julgo eu.

P.S. - Esta canção foi escrita por um violinista/guitarrista/cantor do Kentucky chamado Richard "Dick" Burnett, o qual perdeu a visão devido a uma ferida provocada por uma espingarda no decorrer de um assalto em 1907. Na sequência deste incidente tornou-se músico profissional.

Cansadíssimo como ando, e ainda por cima carregando este céu plumbeo às costas o qual mais parece um cobertor de algodão molhado e sujo, algumas coisas ficam espartilhadas na dentada egoísta do tempo que nem por nada aceita esticar-se.
Espreguiça-se, mas ali fica, parco, em gotas para um sol de sede, e uma pessoa vê-se na contingência de tentar apagar dez fogos com duas vassouras e um balde furado.
E um tipo irrita-se com esta percepção de que provavelmente espreme o tempo para nada mais que cansaço.
Mas por outro lado, qualquer triunfo saberá sempre melhor.
Velha história da alternância.
As conversas sobre o tempo são tábuas de salvação. Um pouco à guisa daquela tábua que manteve a protagonista do Titanic à tona de água (embora sempre me tenha perguntado a razão pela qual não alternaram para que nenhum morresse gelado), têm no entanto algum préstimo. São desbloqueadores de conversa, por um lado, e pontes de comunicação, por outro. Dão jeito, em linguagem mais informal. São aqueles segundos que nos permitem a imaginação prodigiosa capaz de produzir algum discurso que conduza a conversa a algo que realmente interessa, ou que servem como plataforma para observar um par de olhos, um contorno, uma emanação da pessoa.
Claro que a conversa sobre o tempo tem uma premissa menos fácil de lidar. Aquela que nos diz que algo tem de suceder-lhe, sob pena do diagnóstico meteorológico não servir de antecâmara a algumas frases que façam a diferença, mas apenas a prática demonstrativa da limitação imaginativa de uma personalidade. E isso nós não queremos.
Até porque o tempo é feito de sol, de cores, de tendências, como qualquer pessoa que temos a possibilidade de ver e conhecer. É complexo, variado, e nunca surge da mesma forma em dias seguidos. E a conversa sobre ele pode apesar de tudo demonstrar a vontade de conhecer a forma como este afecta o nosso interlocutor, e dar-nos pistas sobre isso mesmo.
O tempo pode ser o reflexo do humor, e falar dele pode ser uma tradução de ideias e sensibilidades espelhadas no meio ambiente.
O tempo acaba por partir o ano em partes. E quem diz em partes, acaba até por fazê-lo em atitudes ou lógicas, porque também somos feitos do que nos rodeia. Não é por isso estranho que Robert Frost falasse em árvores e William Blake em tigres incendiados ao pôr-do-sol.
É o tempo.
O tempo tem muito mais virtualidades do que julgamos, mesmo em tópico de conversa. É um acesso, um caminho, uma forma.
O tempo é afinal de contas, o primeiro produtor de cores, de cenários, de enquadramentos. É um elemento vivo de tudo o que nos situa algures.