ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, outubro 29, 2007





Este senhor, juntamente com um outro que pode considerar-se o seu predecessor, (um homem de cabelo e barba profusa de nome Sir Allan Moore) é, em meu ver, um dos expoentes máximos de criatividade nos tempos que correm, e responsável por aquela que, talvez emparelhada com "Watchmen", é a melhor obra de Banda Desenhada que li até hoje - a monumental obra em dez volumes chamada "Sandman".


Neil Gaiman é daqueles autores que simplesmente abraçou a sua visão com inegável qualidade, e mostrou que o preconceito idiota relativamente ao fantástico, que tanto grassa pela chamada "inteligencia cultural", não pass

a disso mesmo - uma idiotice afectada.



Li várias coisas dele e nunca me deixou mal. Neverwhere e Anasi Boys são dois livros deliciosos (tenho Stardust e American Gods na lista), e Sandman é uma obra prima, tudo envolto num género onde o amor, a contradicção, a violência, a morte, as verdades e angústias humanas estão presentes, ainda que os protagonistas transcendam muito essa característica.


A "Devir" começou há uns tempos a traduzir e publicar esta série, e aconselho seriamente a todos os cépticos a pegar nesta obra e deixar-se ir. Season of Mists é particularmente belo, mas toda a obra é esplendorosa.


E aí está Neil Gaiman, a ler um poema seu, e a mostrar que a sua criatividade nada deve aos estilos designados "sérios", porque a criatividade não se esgota no real, mas nas demonstrações do que é humano, seja lá onde estas se encontrem.


Enjoy!



sexta-feira, outubro 26, 2007



Finalmente...

Há uns anos, quando li a auto-biografia do Stephen King, conheci uma das suas maiores influências, com a qual já me havia cruzado, sem saber.

Richard Matheson foi o argumentista do primeiro filme de Stephen Spielberg, o inquietante "Duel", passado nas estradas desertas dos EUA onde um camião, cujo condutor nunca se vê persegue um automóvel durante centenas de quilómetros.

Fui em busca das suas obras e li duas - "Hell House" e este magnífico "I Am Legend", que agora recebe uma transposição cinematográfica que espero que lhe faça justiça. O livro é, para mim, uma pequena e perturbadora jóia, com o melhor título de sempre. É daqueles que me acompanhará para sempre.

Recomendo sem reservas.

Espero que este filme lhe faça justiça. E para já, parece prometer...



quinta-feira, outubro 25, 2007



Este gajo já é o dos actores que mais admiro e gosto, especialmente desde o "Usual Suspects" e do meu filme preferido de sempre, "American Beauty".

E depois ainda consegue fazer isto.



Não sendo exclusivo da Direita (ele há muitos esquerdistas em pensamento social que são completamente herméticos em termos de definição de qualidade na cultura), é inegável que os "pensadores" dessa ala, que se autodenominam "liberais", devem ter alguma agrura com a vida. Folheio e leio alguns artigos da revista "Atlântico", e texto após texto, encabeçado claro por Vasco Pulido Valente, ninguém gosta de nada, tudo é medíocre, quem se atrever a sair dos cânones absolutamente subentedidos (mas nunca definidos) do que é qualidade na cultura é imediatamente enxovalhado, como um qualquer ignorante que se atreveu a não ficar quieto e embevecer-se com os "mestres".


Este tipo de atitude sempre me deixou perplexo, porque em bom rigor, raramente há uma definição clara e precisa (e como os homens de direita adoram o pragmatismo...) do que é essa qualidade, esse bom versus o suposta e obviamente mau. A revista Atlântico parece uma tertúlia de mal dispostos, embevecidos com a sua própria consonância de tom e opinião, arrasando tudo o que esteja fora do "código".

O diálogo é mais ou menos assim:


"Philip Larkin é uma maravilha..."

"Phillip Roth é um autor maior"

...

"e já agora porquê?" (atenção que também gostei do pouco que li do senhor) - pergunta alguém genuinamente interessado.


E quando surge a pergunta, surgem os tais olhares desdenhosos, como se essa percepção tivesse de ser imediata e estupidamente óbvia. Não se argumenta a razão pela qual se gosta da obra, ou porque se lhe atribui qualidade. Não. A qualidade é algo que supostamente brota antes de existir, como uma evidência já colada ao conceito. E quem não vê, ou gostaria de saber porquê, deve ser encaminhado para a saída, ou para a sala onde o copo de whisky não custa 20€.


Eu tenho algumas questões :


O que vem a ser um "escritor ou autor maior"?


Como é que se define exactamente o que é arte séria?


Agradecia contributos para o esclarecimento.


Grato.



P.S. - Há tempos, numa revista, li um texto de João Pereira Coutinho (numa Maxmen, exposta no WC de casa de um amig, o que não deixa de ser irónico para alguém que sabe o que é qualidade, pelos vistos em tudo...) que este gostava de Stephen King - Tive um choque! Aliás dois - o 1º foi verificar que alguém que dispara em todas as direcções pudesse gostar de algo escrito por um autor designado como "popular" (que é um perfeito disparate, porque o homem sabe escrever); o 2º foi sentir uma ponta de afinidade com o cronista, coisa que era absolutamente inesperada e improvável. Enfim...

quarta-feira, outubro 24, 2007


Existem filhos da puta com os quais eu só gostaria de estar sozinhbo dentro de uma sala, com um taco de baseball....


Este
imbecil seria um deles...
Que tristeza de mundo este em que vivemos, em que se dá cobertura num museu para uma atrocidade destas...
Photo by TheOne85Ca
Se há coisa que o meu percurso de vida, claramente cheio para uns e incipiente para tantos outros, me mostrou, é que a questão do Amor é complexa, e sobretudo, originadora de irracionalidades que nada têm a ver com a beleza de conseguir isolar alguém perante tantos outros seres humanos mais ou menos semelhantes entre si. Essa irracionalidades fazem parte de esquemas fragmentados, onde o senso de posse, a teimosia das memórias e a curiosidade pelos desenvolvimentos nunca levados a cabo podem prender pessoas durante vidas inteiras. Não são pedras na engrenagem, mas desvios, que a deixam funcionar, embora coxa.


Seria muito engraçado, para mim bem entendido, pensar que tais coisas prendiam essas pessoas aos objectos da sua afeição devota porque estas lhes deixavam um legado afectivo perene, (daqueles que em muitos casos são escarnecidos por uma realidade demasiado pragmática nas suas premissas de realismo), mas a conclusão que tiro surge-me muito menos bonita que isso. Esses sentimentos, entranhados que estão em algumas naturezas humanas, creio que prendem a pessoa a si mesma. Prendem-na a uma espécie de teimosia não pela pessoa, não pelo sentimento (não raras vezes trágico mas inegavelmente belo), mas pela planificação, pela lógica, pelo que se foi moldando às atitudes e opiniões mais imediatas. Uma espécie de memória de amor ou projecto que mais funcionava como antecâmara definidora da própria estrutura da personalidade. Uma planta da pessoa, sendo aquela realidade um quarto estranho mas antigo, o qual o arquitecto se recusa a apagar.


A natureza do Amor, como a vejo, é absolutamente polifórmica. Acentuando ainda mais o óbvio, creio mesmo que não existem duas experiências iguais, porque cada um saberá que portas abre, e quem ou que deixa instalar-se. Mas não deixo de verificar que para algumas pessoas que vou encontrando, a lógica do pré-delineado, (do amor que não poderia viver porque ao afogá-lo em tudo quanto era incompatibilidade mas o sujeito ainda assim espera que lhe cresçam guelras) traz a surpresa de uma solidão teimosa. Aquela que assenta no guião da história, e não admite cortes, morrendo um bocadito de cada vez quando a consciência lhe reporta que o quotidiano já não qualifica como alicerce. A pessoa do plano escapa, e com ela, as cordas que deveriam partir-se acabam simplesmente por enredar ainda mais sujeito, que se canibaliza.


Vejo pessoas que mascaram isto de Amor perene. E não pensem que não acredito em histórias de Amor com pernas longas e pulmões de maratonista. Muito pelo contrário. Mas também creio que por entre as naturais desconformidades (uma pessoa que não nos irrite um pouco ou não nos dê vontade de gozar um bocadito não pica outras regiões, garanto-vos - mas a palavra chave é um pouco...) o elemento de união tem de ser encontrado nas coisas simples, e essas serão muito mais férreas que as tais linhas da planificação. Aquelas que, infelizmente, enredam algumas pessoas nos seus supostos projectos, e fazem daqueles que se atrevem a entrar, reféns de uma expectativa que nestes casos particulares, é apenas um adiar. E é fácil enredar. O conforto de um controlo acaba por saber a retribuição, se bem que de forma absolutamente enviesada, e porque não dizê-lo, injusta.


Qualquer forma de Amor tem uma dimensão violenta. Uma dimensão onde a pessoa se coloca numa perspectiva de medição consigo mesmo, e crescimento consequente. O Amor tem também, pela multiplicidade de formatos, coisas estranhas, escondidas, por vezes feias, que mergulham na central reactiva e criam o mito do controlo externo. Para estas pessoas de quem falo, essa faceta violenta assenta numa teimosia inimaginável, exercida perante a sua criação de uma realidade que ainda que lhes tenha escapado, as prende pelo que acham que esta afinal lhes deve. E no Amor, como todos sabemos, não há dívidas. Há a maravilhosa capacidade para sermos melhores, por vezes mais livremente estúpidos, e para constituir marcos num percurso de vida.


No Amor não há planos. Especialmente nada mais resta senão a ideia de que deveria ter sido assim. Uma ideia que se estende como um calendário perpétuo. Uma morte externa provocada pela ilusão de algo que, a todo o custo, essas pessoas acham que deveria viver, ainda que sem coração.


Em meu modesto ver, isto não é Amor.


Poderia dizer que é decisão, auto-conhecimento, vontade ferro em ideias fixas. Mas a única coisa que me surge é a teimosia endógena que na presença mascara-se de indiferença calculada, e na ausência irreversível é dor que deixa marca. Daquelas que perduram no tempo e na estrutura.


Pessoalmente falando, comigo ficam (ou eu fico com aqueles) aqueles (poucos) que geram a liberdade para que eu me permita - nem que seja à força - vê-los assim. E embora também tenha tido as minhas plantas e planeamentos, foi o incêndio de que padeceram que me permitiram olhar para tudo como uma maravilhosa potencialidade para a qual tenho a sorte de poder contribuir.
Tudo o resto parecem-me arrogâncias de quem se acha no direito de corrigir o que a natureza já teimou em provar como erro. E exercem-na perante si próprios, o que é pior, já que dificilmente têm a quem pedir responsabilidades ou mesmo justiça.



Not everything is fair in love and war, but a lot of things seem gladly and wonderfully possible...








Há uns meses, com a cabeça cansada, consegui intrujar uma amiga para ver um filme que já se adivinhava ser uma inanidade mental chamada Epic Movie. Foi, e confesso-o abertamente, o único filme que me obrigou a sair da sala antes que terminasse. Era tão profundamente idiota e inane que chegava a ser insultuoso. Mas essa bosta fumegante, à falta de outra qualificação que me ocorra, teve direito a onze salas de cinema, só na região da Grande Lisboa.

E depois, filmes como este "Black Snake Moan" um musical de moral duvidosa ( cheio de alma e talvez até algo sexista), com banda sonora excelente (arrepia a pele) e actuações fantásticas, para formar um conjunto que, em meu ver, só reforçou minha vontade de um dia ver um daqueles bares do Mississipi, vão directamente para DVD. Posso estar enganado, e talvez uma qualquer sala obscura de Portugal o tenha passado, mas é absolutamente idiótico que a política de distribuição ignore este e outros filmes ( que é feito de "Bubba Ho-Tep" ou o mais recente "Once"?? - DVD com eles, está visto).

É apenas mais uma página do episódio a que as distribuidoras nos têm habituado neste cantinho. E a Medeia, de que sou cliente e assinante do cartão de cinema, resolveu arranjar uma forma ainda mais criativa de cortar custos. Além de ter o staff mínimo porque uma cabecinha pensadora resolveu que deixaria de existir lugares marcados ( a ideia da reserva de bilhetes torna-se, obviamente, obsoleta), acharam por bem desligar o A/C das salas, o que fez com que, quando fui ver o " O Reino", a experiência cinematográfica fosse ainda mais radical, já que fazia o mesmo calor dentro da sala que na Arábia Saudita, palco da fita em causa.

E depois admiram-se que a pirataria aumente...

segunda-feira, outubro 22, 2007



Há pouco tempo deparei-me com uma situação que, em bom rigor, me deixou perplexo, para não dizer irritado. Irritado com a burrice, com o movimento contra-evolutivo, com a lógica de posicionamento social que só contribui para que as pessoas estacionem num miserabilismo e um culto á infelicidade por razões de tradição, ou ordem social, ou seja lá o que for. Irritou-me porque provém de mulheres, porque provém de um grupo que infelizmente sofre, em Portugal, os efeitos do flagelo da violência doméstica, assuma ela a forma de que assumir. Sim, porque dias e dias de estilhaçamento de auto-estima e humilhação são bem mais graves que um par de galhetas, embora tudo envolva um universo de desrespeito pela pessoa que tem, e muito bem, sido denunciado.


Mas não é preciso mergulhar nos cenários de terror que envolvem pancada, ferimentos, mortes, marca psíquicas que duram décadas a atenuar.


Falemos apenas na mais comum das formas de condicionamento. Aquela que assenta num longo processo de persuasão, onde a pessoa é levada a crer que tudo o que lhe acontece tem um elemento de justificação, ondeé criada a ideia de que a sua incapacidade é merecida, e que o papel que lhe cabe deve ser levado a cabo com estoicismo silencioso.


Casais, (embora em Portugal isto seja manifestamente superior no caso do conjuge homem) nos quais um dos elementos exerce a subjugação, o tolher das capacidades de reacção e autodeterminação, nas liberdades de exercício de desejos, aspirações. Questionar é um erro, porque a cartilha já existe, e é bem determinada, etc, etc...


Mas o que me espanta não é isto. Infelizmente, esta é uma realidade feia, inadmissível, mas frequente. O que espanta são as mulheres que defendem este condicionamento. Aquelas que acham que as filhas ou noras devem aceitar este estado de coisas como uma pré-determinação comportamental associada a qualquer compromisso. Aquelas que exercem censura forte, quase sempre apoiada numa lógica de moralidade bacoca cheia de vacas sagradas onde não se toca "porque é assim mesmo", e que passam muitas vezes a sua herança de infelicidade contínua para os descendentes, como uma forma de contaminação.


São estas que não entendo. São aquelas que, embora esclarecidas (sim, porque não vamos cair no erro de julkgar que isto se passa ao nível das classes sociais designadas de média-baixa ou baixa), persistem numa ideia de moralidade onde a autodeterminação da pessoa, a sua felicidade, o seu direito ao respeito e à forma de estar que as faz feliz são mariquices caprichosas perante a sacralidade da "familia" nuclear tradicional. Desde que a aparência se mantenha, essas pessoas pouco se importam com o destino real daqueles que são forçados a mantê-la, ainda que isso signifique, em muitos casos, uma morte social, um processo de destruição de auto-estima e respeito, e, em última análise, a tão propalada violência.


Essas mulheres (e homens claro) que defendem tal status quo deveriam ter vergonha na cara. E têm-na, mas apenas para salvar a face, mesmo que por trás da pele tudo apodreça.


Enfim...



Por mais que possa pensar que existe uma lógica inerente a todas as pessoas que julgo conhecer mais ou menos bem, existem alguns que simplesmente me trocam as voltas. E fazem-no com um cobertor de naturalidade que me deixa perplexo, porque em bom rigor há uma naturalidade na forma como levam a sua conduta que torna qualquer obervação crítica um misto de ilegitimidade e desnecessidade.


Não há mal nenhum em necessitar de pessoas. Em sentir que elas fazem parte de nós, que são parte fundamental para arquitectar o desenvolvimento do dia a dia, e para conseguir executá-lo da melhor forma possível. Aliás, até me parece desejável.


Toda a gente tem a sua vida. A pressão quotidiana, que chega a atingir patamares idióticos tais são as exigências da casa perfeita, o carro porreiro, as roupas fashion, os amigos "certos", os detalhes, as experiências, as histórias para contar, as vivências para "empatizar" ou invejar, chegam a um ponto em que o discurso desentranhado desta realidade parece ser a única coisa em que se pode confiar. Porque esta espécie de barulho vivencial torna impossível que as pessoas se ouçam, que as angústias saiam cá para fora, que os disparates e as preciosidades possam ser confiadas a mais do que um gato pingado tão perdido como nós. O núcleo nevrálgico da nossa forma de ser é, por natureza, impassível de ser popularizado. É da natureza das empatias serem escassas, mas rejeito claramente a ideia da redução à unidade. Ninguém deveria ser obrigado a falar consigo mesmo ou com o espelho, ou com um tipo sentado numa cadeira que simplesmente aceita profissionalmente um desmontar que deveria ser passível de partilhar com algumas pessoas.


Há, parece-me, uma espécie de vergonha visceral em colocar as fragilidades na balança. Em fazer perguntas reais, em querer dar um passo adiante e escapar aos horrores existenciais que assolam qualquer pessoa, mesmo que não os saiba identificar. Uma batalha sem um centro de comando ou estratégia é carnificina, e ninguém se comanda estritamente sozinho. E no entanto, existem aqueles que lançam a mão, que deitam a escada, que até fazem um primeiro movimento. Existem aqueles que se queixam da superficialidade e escravidão ao conveniente de todos os dias, os que fazem uma vénia à real necessidade de saber com quem se conta num dia plúmbeo onde o frio parece vir de dentro.

E fazem-no. Exibem as críticas, esgrimam com os justos pedidos, porque claramente, quem não chora não mama. Como diz o meu pai, "quem quer bolota, trepa", e isso é tão mais verdade no que diz respeito às pessoas.


Mas depois... ficam-se. Quando há uma pungência momentânea, há a acção, a iniciativa, mas que depois simplesmente cai uma ausência de percepção pelo detalhe, pelo gesto, pelo forjar de real proximidade, pelo que não é expectável, pelo que, fugindo à expectativa, a acabara por superar. Obviamente que cada um será mais do que livre em gerir os seus quotidianos, e as pressões avassaladoras que os atravessam. Mas ao reclamar-se uma espécie de foco de atenção, uma justa necessidade de proximidade feita nem que seja de uma palavra certa ou a verificação de um esforço fora da zona de conforto, deve estar-se pronto para a dar.


Vejo isto constantemente. A cada dia, a cada passo. E de uma certa forma, embora sejamos todos culpados disto, a certa altura (eu já o fiz várias vezes), é na percepção do erro que começa a vontade de mudar ligeiramente, e ao mudar, de chegar ao outro e dizer-lhe com a maior simplicidade que a conversa conveniente e brincalhona deve mudar, e é tempo de agir sobre aquilo que nos vai queimando, e em consequência, queimando a voz.


No fundo, perante um objectivo, convém não caminhar no sentido contrário.

Ainda que por aparente inépcia ou inocência.

Não funciona, e as ilhas perdem superfície.

quinta-feira, outubro 18, 2007



É olhando para génios como este que um tipo se sente pequenito...

(cortesia da Fipas)




Adoro esta bonecada, nada a fazer...

Talvez um dia a programação para os putos os deixe de estupidificar e nivelar por baixo...

E talvez o Senhor da Lapónia também apareça...

Definitivamente há gente com demasiado tempo livre...




Mas sempre há o magnífico original...




E claro, a melhor e mais conhecida versão...



Tendo em conta que provavelmente a política de distribuição cinematográfica em Portugal deverá ter deixado o filme "Into the Wild" (de Sean Penn), escorregar despercebidamente para o mercado DVD, ou talvez o venha a distribuir meses depois, como "Rescue Dawn que felizmente estreia na semana que vem, foi por um acaso que me deparei com esta história. É curioso como ela prova a imensidão de coisas em que sou ignorante, mas primeiro Eddie VEdder e depois este artigo de Jon Krakauer, puseram-me em contacto com a história de Christopher McCandless.


Como dizia alguém relativamente ao livro, que espero poder ler em breve, bem como ver o filme, não há grande suspense. McCandless abandonou o mundo gregário e morreu sozinho, num autocarro abandonado nos confins do Alaska, aparentemente envenenado por plantas tóxicas que inadvertidamente terá comido, ou pura e simplesmente de fome. Não era a primeira vez que o fazia, mas desta vez aventurara-se numa das mais extensas e rudes paisagens naturais munido de alguns livros, um pacote de arroz, um guia de plantas comestíveis e um insuficiente equipamento de campismo.


A reflexão que desperta, e que alimentou mesmo alguma polémica, prende-se obviamente com as verdadeiras motivações para o seu acto - idealismo ou estupidez suicida (sendo este ultimo termo utilizado por alguns jornalistas e locais do Alaska).


No que me diz respeito, e após ler o livro e ver o filme com certeza que terei as ideias mais arrumadas quanto às possiveis motivações, as questões surgem precocemente, e assentam na motivação. Que teria levado McCandless a rejeitar qualquer gregariedade? A assumir o risco de que a terra o poderia sustentar e permitir uma continuidade do seu profundo desejo de equilíbrio com algo menos confuso e desestruturante que a confusão social em que vivia(mos) emerso?


Como renunciar ao toque, ao som de outra voz, às ideias, aos livros, aos filmes, ao amor, abraçando toda a ausência de uma natureza feroz, embora bela? Tentando interiorizar ou criar empatia com tal estado de alienação volitiva, escapa-se-me a força de vontade necessária, e no entanto está criada a curiosidade quanto às motivações, que em alguns aspectos, serão com certeza válidas. Aposto algum dinheiro em como qualquer um de nós gostaria de alguns dias no Alaska, sozinhos, tentando arumar um puzzle social e afectivo que se fragmenta de forma diferente cada vez que aparentemente o montamos.


McCandless terá morrido fiel à sua ideia, ou o derradeiro pedido de socorro terá funcionado como um instante de dúvida crucial? Terá sido a solidão ou as bagas tóxicas que o terão matado? Qual a fome que prevaleceu? Terá sido o cansaço pela ausência que tornou a sobrevivência mais difícil (impossivel, como se viu), ou apenas uma má avaliação do menu natural à disposição?


Fica a curiosidade que espero matar em breve, e a ideia de que por vezes talvez a sociedade expurgue pela pressão aqueles que tentam encontrar-lhe algum fio condutor para além dos movimentos em massa e as lógicas ferozmente adaptativas. Se McCandless foi intencionalmente ao encontro da morte, ninguém sabe, mas que foi à procura de algo, isso parece-me altamente defensável, ainda que ele próprio não soubesse bem o que seria.


Pensando bem, algum de nós o saberá quando andamos pelo nosso próprio Alaska?

Duvido...


quarta-feira, outubro 17, 2007

Embora seja necessariamente polémico, especialmente para os defensores dos mecanismos insondáveis da chamada "arte séria" este artigo levanta questões muito pertinentes e lança bases para uma discussão séria e produtiva sobre o que vem a ser a literatura que vale a pena. Além disso, servirá também para identificar o conceito aplicável às alminhas iluminadas que constroem ou depõem os autores "maiores", como se a arte de colocar palavras num contexto fosse o privilégio de um Olimpo inacessível.
Com todo o devido respeito com quem tenha opiniões diferentes, acho que há mundo e qualidade para além de Lobo Antunes e quejandos. Existem mais formas de fazer arte com a palavra.

Não concordo com tudo o que é dito no referido artigo, mas deixo uma passagem julgo ser significativa, e que, nem que seja só por isso, leva à reflexão.

"The dualism of literary versus genre has all but routed the old trinity of highbrow, middlebrow, and lowbrow, which was always invoked tongue-in-cheek anyway. Writers who would once have been called middlebrow are now assigned, depending solely on their degree of verbal affectation, to either the literary or the genre camp. David Guterson is thus granted Serious Writer status for having buried a murder mystery under sonorous tautologies (Snow Falling on Cedars, 1994), while Stephen King, whose Bag of Bones (1998) is a more intellectual but less pretentious novel, is still considered to be just a very talented genre storyteller.

Everything is "in," in other words, as long as it keeps the reader at a respectfully admiring distance. This may seem an odd trend when one considers that the reading skills of American college students, who go on to form the main audience for contemporary Serious Fiction, have declined markedly since the 1970s. Shouldn't a dumbed-down America be more willing to confer literary status on straightforward prose, instead of encouraging affectation and obscurity?

Not necessarily. In Aldous Huxley's Those Barren Leaves (1925) a character named Mr. Cardan makes a point that may explain today's state of affairs.


"Really simple, primitive people like their poetry to be as ... artificial and remote from the language of everyday affairs as possible. We reproach the eighteenth century with its artificiality. But the fact is that Beowulf is couched in a diction fifty times more complicated and unnatural than that of [Pope's poem] Essay on Man."


terça-feira, outubro 16, 2007


“Yes. Her condition says she shouldn’t be. It says that she’s flying off somewhere in pink elephant’s land, but I think something’s going on.”


I also did, but I kept it to myself. I played a lot of hide and seek when I was a kid.
Sofia twitched her neck, and her eyes opened a little more. I could see tiny trickles of salty water around the irises, but they stayed that way. I guess that for the first time since I got there, she was really gone.


“I think she likes you. It’s not common, especially around men. I take it as a good sign.”


“I do to. She’s a good talker, or perhaps I simply love to hear myself talk.”


“Perhaps, but she’s calm around you. I think it has done her some good.”


That pleased me. I don’t know exactly why. All that talk about listening was sincere, but the chances that I might be seeing some kind of reaction coming from someone with a mind that became somehow similar to a turnip was very plausible. And wishful thinking on a guilty mind works like a charm, when compensatory rest is just around the corner. But one thing was certain. That kid intrigued me, and I genuinely liked that apparently conscious look on an otherwise paralysed face.


“I’ll be back!” – I said.
Subscrevo...


Se bem que levada ao extremo, a constância é apenas morte adiada...
Itinerário Afectivo

Mais uma excelente ideia de um amigo que tem muitas delas.


Quando tiver tempo, farei o meu, que me arrisco a que seja muito mais chato e longo.
Prestando atenção à ideia vertida aqui por um amigo, a conclusão que ele tira é absolutamente justa e arrisco-me a dizer, temível.
Temível porque coberta de razão, porque em certa medida as auto-análises levam, pelo menos a mim, a não raros instantes de vergonha, de incerteza, de análise e conclusão efectiva sobre uma carradaria de coisas que vão faltando.
E isso não seria um problema tão grande se eu não sublimasse a conclusão dele e achasse a sua ideia certeira tão aplicável não só a escritos lançados aos anónimos, mas às pessoas a quem acharia que o podia dizer...



Há dias deparei-me com algumas situações complicadas. Não comigo, mas com pessoas que observo, com coisas que me chegam ao entendimento de forma certamente diferente daquela com que atingirão outros. E como obviamente, por uma questão de respeito pela privacidade, não posso dissertar muito directamente sobre elas (embora vontade não me faltasse), existem algumas coisas que são suficientemente abastractas para se poder falar sobre elas sem correr tais riscos.


Existem efectivamente pessoas que me parecem pensar em termos de rua de sentido único. A má avaliação que fazem da sua própria dinâmica inter-relacional leva-as a concluir sempre pela falta do outro lado, que por sua vez justifica a inércia do seu. É uma espécie, parece-me, de antecipação retributiva, o que não me parece fazer qualquer sentido.

Deparei-me com uma espécie de ressentimento suave e terrivel, que mais assemelho a uma infecção lenta. As ideias parecem multiplicar-se e acrescentar espessura à muralha inerte e amofinada.


Claro que quem está fora, não racha lenha. Mas os factos são sempre factos, e as inexistências tornam-se os conceitos mais fáceis de analisar. Está lá, ou não está. Faz-se o mea culpa ou não. Age-se ou para-se. Levanta-se o cu, ou alapamo-lo em frente ao discorrer dos pequenos ressentimentos, dos pequenos crimes, das pequenas faltas, de mão cansada e estendida.


Nada funciona em piloto automático, por muito que se deseje. E a paragem prolongada é gangrena, ainda que o silêncio pareça promissor. Afinal de contas, da ausência só se pode passar à presença, mas o fim da inércia pode significar o reatar de uma vida que não aquela de quem parou e simplesmente espera.


As pessoas têm de ser mexidas. E por muito teimosa que seja a expectativa em ver como oadversário vai jogar a bola para o nosso campo, subir à rede é corajoso e nobre, nem que seja pela coragem pouco efectiva que demonstra. E na afeição, semos também produto daquilo que a nossa maluqueira nos permite, mesmo que falhemos.


Onde as intenções contam, as acções fazem a diferença. E nada disso o traduz melhor que os pequenos gestos, a inventividade, e algo de provocador.


A receita para a morte do conforto é fazer. Nem que seja mal.

Um arroz queimado com um sorriso quente sabe muitíssimo melhor que um "crepe suzette" a fumegar numa sala gelada.

Foto - Phil Artez


"I'm looking California, and feeling Minnesotta..."