
Por mais que possa pensar que existe uma lógica inerente a todas as pessoas que julgo conhecer mais ou menos bem, existem alguns que simplesmente me trocam as voltas. E fazem-no com um cobertor de naturalidade que me deixa perplexo, porque em bom rigor há uma naturalidade na forma como levam a sua conduta que torna qualquer obervação crítica um misto de ilegitimidade e desnecessidade.
Não há mal nenhum em necessitar de pessoas. Em sentir que elas fazem parte de nós, que são parte fundamental para arquitectar o desenvolvimento do dia a dia, e para conseguir executá-lo da melhor forma possível. Aliás, até me parece desejável.
Toda a gente tem a sua vida. A pressão quotidiana, que chega a atingir patamares idióticos tais são as exigências da casa perfeita, o carro porreiro, as roupas fashion, os amigos "certos", os detalhes, as experiências, as histórias para contar, as vivências para "empatizar" ou invejar, chegam a um ponto em que o discurso desentranhado desta realidade parece ser a única coisa em que se pode confiar. Porque esta espécie de barulho vivencial torna impossível que as pessoas se ouçam, que as angústias saiam cá para fora, que os disparates e as preciosidades possam ser confiadas a mais do que um gato pingado tão perdido como nós. O núcleo nevrálgico da nossa forma de ser é, por natureza, impassível de ser popularizado. É da natureza das empatias serem escassas, mas rejeito claramente a ideia da redução à unidade. Ninguém deveria ser obrigado a falar consigo mesmo ou com o espelho, ou com um tipo sentado numa cadeira que simplesmente aceita profissionalmente um desmontar que deveria ser passível de partilhar com algumas pessoas.
Há, parece-me, uma espécie de vergonha visceral em colocar as fragilidades na balança. Em fazer perguntas reais, em querer dar um passo adiante e escapar aos horrores existenciais que assolam qualquer pessoa, mesmo que não os saiba identificar. Uma batalha sem um centro de comando ou estratégia é carnificina, e ninguém se comanda estritamente sozinho. E no entanto, existem aqueles que lançam a mão, que deitam a escada, que até fazem um primeiro movimento. Existem aqueles que se queixam da superficialidade e escravidão ao conveniente de todos os dias, os que fazem uma vénia à real necessidade de saber com quem se conta num dia plúmbeo onde o frio parece vir de dentro.
E fazem-no. Exibem as críticas, esgrimam com os justos pedidos, porque claramente, quem não chora não mama. Como diz o meu pai, "quem quer bolota, trepa", e isso é tão mais verdade no que diz respeito às pessoas.
Mas depois... ficam-se. Quando há uma pungência momentânea, há a acção, a iniciativa, mas que depois simplesmente cai uma ausência de percepção pelo detalhe, pelo gesto, pelo forjar de real proximidade, pelo que não é expectável, pelo que, fugindo à expectativa, a acabara por superar. Obviamente que cada um será mais do que livre em gerir os seus quotidianos, e as pressões avassaladoras que os atravessam. Mas ao reclamar-se uma espécie de foco de atenção, uma justa necessidade de proximidade feita nem que seja de uma palavra certa ou a verificação de um esforço fora da zona de conforto, deve estar-se pronto para a dar.
Vejo isto constantemente. A cada dia, a cada passo. E de uma certa forma, embora sejamos todos culpados disto, a certa altura (eu já o fiz várias vezes), é na percepção do erro que começa a vontade de mudar ligeiramente, e ao mudar, de chegar ao outro e dizer-lhe com a maior simplicidade que a conversa conveniente e brincalhona deve mudar, e é tempo de agir sobre aquilo que nos vai queimando, e em consequência, queimando a voz.
No fundo, perante um objectivo, convém não caminhar no sentido contrário.
Ainda que por aparente inépcia ou inocência.
Não funciona, e as ilhas perdem superfície.