O melhor momento de Humor natalicio de produção nacional.
Brilhante!
Quando o Herman era o Herman...
ESTAÇÕES DIFERENTES
"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."
Stephen King - "Different Seasons"
Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com
Stephen King - "Different Seasons"
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quarta-feira, dezembro 19, 2007
terça-feira, dezembro 11, 2007

Os relatos sobre os comportamentos disfuncionais entre casais dão que pensar. Especialmente no campo sexual, porquanto leva a reflexões complicadas. Reflexões que entram pela lógica da relação, pelo partilhar de espaços, pela descoberta mútua, pelo ensinamento do corpo e a percepção do outro através de coisas tão básicas e essenciais como o cheiro ou os movimentos típicos.
A verdade é que ouço todo o tipo de histórias. De mulheres pouco interessadas em sexo, de homens sempre cansados, de relações que se vão defrontando com problemas derivados, quero eu crer, não do conhecimento mútuo, mas da entrada nas vivências quotidianas, e dos seus efeitos. O elemento confiança e partilha parece ter aí uma espécie de campo minado, pois aos que vão conhecendo, mostra-se a dimensão daquilo que não se reveste necessariamente de mistério ou sofisticação. Ao aceder ao nosso básico, as imperfeições sobem como uma espécie de crachá brilhante, e torna-se impossível que este não ofusque o olhar de quando em vez.
Mas se pensarmos, as disfunções sexuais, as incompatiblidades, a montanha russa dos interesses mútuos não se colocam nunca nos relatos de situações limitadas no tempo ou na disponibilidade. Também é um mito que a aventura não assuste ou intimide, porque bem vistas as coisas, a percepção de alguém novo, de um calor de corpo que não conhecemos, de um cheiro que não nos é familiar, coloca toda a espécie de ansiedades em jogo, o que acaba por poder provocar problemas "funcionais".
Mas a verdade é que a mais das vezes cavalga-se sempre na lógica da descoberta, e a disfuncionalidade fica de fora quando a confiança é sempre limitada. Talvez alguns considerem que isso é uma espécie de opção instintiva, de ganhos e perdas necessários a qualquer fenómeno relacional.
Nunca generalizando, a verdade é que conheço cada vez mais casos em que a convivência sã ( ou não) ganha um poder considerável sobre as pulsões. Mas a verdade é que elas vêm ao de cima, mais cedo ou mais tarde. Podem ou não concretizar-se, mas é a capacidade de equilibrar os variados instintos que safará a pessoa. O contra-balanço, porque é inegável que o amor progride na sua dupla face de fenómeno ternurento com dentes.
Em consequência, multiplicam-se os relatos, especialmente de mulheres (que são os que mais me intrigam e interessam), que expressam em alto e bom som a dureza da sua condição face à sua auto-determinação e ganho social. E algumas dessas histórias parecem demasiado caricatas para serem reais, mas a expressão nos olhares e o tom das palavras parecem deixar pouca margem para dúvidas. A sua frustração emerge, não raras vezes, como a manifestação do inegável poder sexual que assombra o homem desde a antiguidade, e como tal, escora-se na força de uma emocionalidade sexuada, que é bem mais complicada de satisfazer devidamente. E quem é quem para poder negar aquilo que cada um acha satisfatório? Há uma margem de tolerância ou parcimónia? De selecção de argumentos e atributos da pessoa? Brincando, diria que o tamanho interessa sempre, não importa o que me digam as visadas. Mas também interessa o tamanho do interesse instilado, da variação das perspectivas, da criação de caminho para caminhar, passo a redundância, ao que se junta um pouco de sorte. E aí todos são responsáveis, perdedores ou vencedores. Perguntar e exigir não são petulâncias. São rações de sobrevivência.
As disfunções, às quais chamaria apenas desencontros parciais e cronológicos, surgem-me muitas vezes como pecados de preguiça, mas também é certo que a natureza pessoal de cada um pode ser mais ou menos consentânea com a capacidade e vontade de retirar várias águas da mesma fonte, e sempre frescas e correntes.
Ao estagnar, surge o cheiro, e nada sobrevive.
Fácil?
Claro que não!
Possível?
Parece que sim...
segunda-feira, dezembro 10, 2007

É complicado quando a nossa natureza combate o que deveriam ser os nossos instintos. Especialmente quando essa natureza abarca em si genuinidades que se mordem entre si, como irmãos conflituosos mas de essência necessariamente conjunta.
Resta-me então amar o que posso, da forma que me é possível, sentir que viajo, e agradecer dando aquilo que me surge natural, conquistado sem rendição.
Pé ante pé, cá vem, e lá vai.
Estou cá, sou eu, e no meio que fica entre este e aquele espaço mais além, estou, não mais pedra, mas mudando em pulsações entre o toque da carne, as palavras do que tenho o descaramento de chamar de alma, e a herança ígnea.
O mistério nunca somos nós, mas aquilo que provocamos em quem poderia fazer, ser e dar tantas outras coisas a tantos outros.
E no entanto.
Cá estamos. Naturalmente presentes, e sensíveis.
A todos aqueles que ainda que se julguem idos, permanecem, e aos que estando, ainda mais entram.
Siga.
Tirando o facto de que há um álbum novo dos Puscifer (MJK está definitivamente a passar-se, mas nada do que ele faz tem o mínimo de banalidade) e que vêm aí os Ashes Divide, o que são grandes notícias para os amantes, como eu, dos saudosos Perfect Circle, hoje é um dia estranho. A meio caminho da vida útil da quadra, vejo que o espírito generalizado tarda a instalar-se. E isto não seria para mim uma perplexidade que não achasse que tal situação contamina grande parte das atitudes e das lógicas com que me confronto no dia a dia.
Os míudos passam a vida a dizer-me que isto de crescer é uma seca, o que, em meio ao terrorismo ocasionalmente saudável que são as mentes livres das criancinhas, parece ter alguns argumentos a favor. Vejo muito cansaço, muita manutenção de lógicas vivenciais, muita procura por algo que vai sendo minado por um cansaço subtil mas omnipresente.
Tenho a perfeita noção, talvez porque esteja doente e o dia não esteja assim a correr grande merda, que isto não passam de maus fígados de uma tarde demasiado parada devido à paralisação antecipativa de grandes mudanças, mas a verdade é que o entusiasmo tarda, derivado talvez da paralisia urbana que observo à minha volta, relativa, claro está, aos fenómenos de puerilidade que a espaços julgo tão necessário. O estritamente adulto parece-me seco, cinzento e perdido numa amálgama de coisas inertes, de sequências, dos dias que se seguem uns aos outros como dominós demasiado roídos por dentes entediados.
Mas, claro está, há um audiobook no carro, e talvez a noite precoce traga os brilhos das cores de encontro ao cenário que se pinta de escuro. Em casa há embrulhos para fazer, acompanhado a filmes (que não há treino hoje), algo quente numa chávena, e a ideia de que existem um ou outro par de malucos que também vêem coisas onde elas não estão, e deixam-se enlevar num espírito que, nos dias de hoje, reúne um estranho e organizado concenso detractor.
Isto é só um mau dia com expectativa de gripe.
Passando, passa tudo.
Espero.
quinta-feira, dezembro 06, 2007
No outro dia, quanto seguia de carro, ouvia um programa na rádio (estatal) chamado conversas de raparigas, o qual me causou alguma estranheza, confesso.
Primeiro porque no painel se ouvia uma voz masculina e profundamente afectada, para quem tudo era uma seca. Tudo. E depois porque o tom que sobressaiu de alguns membros da tertulia radiofónica foi tradutor de uma ideia que, à falta de melhor termo, me parece idiota, como tudo o que se torna moda porque sim.
Tornou-se cool falar mal do Natal. Maldiga-se aquele que caia na piroseira de gostar da quadra, de achar piada às cores, ao escuro, ao nevoeiro, à comida e a mimar um pouco aqueles de quem gosta. O que fica bem é denunciar o mercantilismo, achar que a atitude enfadada a relembrar velhos tempos (que provavelmente para alguns eram be piores que estes) e assumir uma nostalgia quase cínica pelas couves e o caldo de galinha de outros tempos.
Tornou-se sofisticado pôr todos os rituais em causa, porque, de certa forma, é no esclarecimento da era moderna que se produz a magnífica ideia de que tudo é uma seca. Tudo é enfadonho, e ai daquele que por acaso até sentir um calor qualquer no espírito com as decorações citadinas de Natal.
Sinceramente não percebo, e tenho uma teoria já anteriormente referida por muitas pessoas, estou certo. E esta assenta na falta de capacidade de suportar o peso da culpa. Como alguém me disse, as ausências constantes e absolutas não podem ser compensadas com uma aparição anual, por muito bom que seja o bacalhau. Mas parece-me que são precisamente aqueles que tanto denunciam o quão "un cool" é a quadra natalícia que mais parecem surgir com uma consciência pesada. São aqueles que não perdem tempo algum realmente a escolher algo para alguém especial, seja no Natal seja durante o ano. Ou são outros que nao tensão que a quadra inflige, que sucumbem perante os descasos que não quiseram colmatar no seu comportamento anual.
Claro que toda a gente tem direito e legitimidade para gostar ou não da quadra, mas falha-me entender este tom demolidor relativo à mesma, muitas vezes numa tentativa de denúncia que não tem de facto essa aplicabilidade generalizadora. Há quem, felizmente, possa e queira sentir-se bem nest altura, ou deveria dizer, sentir-se melhor. E para os que apanham a seca há umas viagens muito baratas para destinos tropicais, ou o interior de casa com qualquer electrodoméstico que não seja a a televisão, ou qualquer livro sem menção ao mês de Dezembro.
E assim agrada-se a todos. O cool, e os absolutamente bregas, como eu, que já montei a árvore e leio o Cântico de Natal do Dickens, anualmente, desde há vinte anos. Por falar nisso...
"Marley was dead: to begin with. There is no doubt whatever about that. The register of his burial was signed by the clergyman, the clerk, the undertaker, and the chief mourner. Scrooge signed it: and Scrooge's name was good upon 'Change, for anything he chose to put his hand to. Old Marley was as dead as a door-nail.(...)"
segunda-feira, dezembro 03, 2007

«Pais e Educadores Reforçam campanha contra "A bússola dourada", filme que promove ateísmo entre crianças
WASHINGTON DC, 30 Nov. 07 / 12:00 am (ACI) .
A Liga Católica dos Estados Unidos lançou uma campanha para advertir dos perigos do novo filme "A bússola dourada" (The Golden Compass) que se estréia na próxima semana e que pretende "conduzir aos crianças ao ateísmo".
O filme, interpretado por Nicole Kidman e Daniel Craig, é a adaptação do primeiro de três livros intitulados "Os Reinos do Norte", no qual o poder está nas mãos do "Magisterium" (alusão ao Magistério da Igreja) que deveria ser uma espécie de "ordem religiosa que sufoca a individualidade e controla as almas das crianças , atitude contra a qual se erige a menina Lyra Belacqua, possuidora da bússola dourada" que contém a verdade suprema.
Conforme explica o Presidente da Liga Católica dos Estados Unidos, Bill Donohue, Pullman promove assim o ateísmo e busca "denegrir a cristandade aos olhos das crianças" com sua trilogia intitulada "Fronteiras do Universo". Por essa razão exorta aos cristãos a "afastar-se deste filme, porque sabe que o filme incitará a ler os livros: Pais ingênuos que levam seus filhos a ver o filme podem ser impulsionados a comprar os três livros como presente de Natal".
O segundo livro, "A Faca Subtil" é mais "explícito no seu ódio ao cristianismo que o primeiro, e a terceira entrega ("A luneta âmbar") é mais flagrante" destaca Donohue, quem também explica que o filme está apoiado na menos ofensiva das três obras.
Ante esta agressão à fé católica, a Liga põe à disposição dos fiéis o relatório "A bússola dourada: propósitos desmascarados", que se pode adquirir na Internet.»
O filme, interpretado por Nicole Kidman e Daniel Craig, é a adaptação do primeiro de três livros intitulados "Os Reinos do Norte", no qual o poder está nas mãos do "Magisterium" (alusão ao Magistério da Igreja) que deveria ser uma espécie de "ordem religiosa que sufoca a individualidade e controla as almas das crianças , atitude contra a qual se erige a menina Lyra Belacqua, possuidora da bússola dourada" que contém a verdade suprema.
Conforme explica o Presidente da Liga Católica dos Estados Unidos, Bill Donohue, Pullman promove assim o ateísmo e busca "denegrir a cristandade aos olhos das crianças" com sua trilogia intitulada "Fronteiras do Universo". Por essa razão exorta aos cristãos a "afastar-se deste filme, porque sabe que o filme incitará a ler os livros: Pais ingênuos que levam seus filhos a ver o filme podem ser impulsionados a comprar os três livros como presente de Natal".
O segundo livro, "A Faca Subtil" é mais "explícito no seu ódio ao cristianismo que o primeiro, e a terceira entrega ("A luneta âmbar") é mais flagrante" destaca Donohue, quem também explica que o filme está apoiado na menos ofensiva das três obras.
Ante esta agressão à fé católica, a Liga põe à disposição dos fiéis o relatório "A bússola dourada: propósitos desmascarados", que se pode adquirir na Internet.»
O disparate completo está aqui. O artigo e as palavras de Donahue seriam rísiveis, se a sua ridicularia não fosse perigosa. É disparate atrás de disparate, próprio de quem nao tem ideias para combater ideias, mas sim a censura e dogmas como resposta à discordância com a cartilha.
Não só o teor de todo site é assustador (para além de involuntariamente cómico) , como de resto faz lembrar aquilo que os católicos não gostam de relembrar, que ainda hoje em dia existe algo impensável, ainda que em conceito, designado "Index Librorum Prohibitorum."
Este index vigorou até 1966 enquanto parte da lei canónica, mas que ainda assim, tendo sido banido como norma, permaneceu como sustentáculo de referência moral contra o que será supostamente conhecimento passível de ferir as ideias pré-feitas da doutrina católica. Nessa data, a Congregação para a Doutrina da Fé cessou a publicação desse Index, mas afirmou que o conceito subjacente ao mesmo ainda serviria como "guia moral para relemebrar as consciências dos fieis para que estes evitem ler aquilo que pode ser perigoso para a fé e a moral", podendo a Igreja emitir um Admonitium ou um aviso aos fiéis sobre a suposta periculosidade de um determinado livro. Referências aqui.
Eu sempre pensei que o verdadeiro perigo fosse a ignorância e a ingerência na liberdade de pensamento individual, mas estou certamente errado. Ou segundo estes moços, herético, o que já não me chateia nada. Se Cristo realmente existir, eu pergunto-me se ele estará realmente preocupado com o que eu leio, se isso representar pensamento ou o impulso para crescer e aprender, com o contributo de ideias novas, e a capacidade de perguntar para avançar. Se realmente for essa a posição dele, não contém comigo para o pão e vinho.
Estes amigos da Liga Católica Americana (que se diz protectora dos direitos civis.. hum... censura, direitos civis... há aqui qualquer coisa que não joga...), que já antes perseguiram o desgraçado do Harry Potter (com os resultados que se viu - JK Rowling deve uma boa fatia do seu pecúlio aos irados do Vaticano, com certeza. A ironia faz bem ao sangue e estes moços, melhor do que ninguém, deveriam saber que Deus não dorme...), resolveram agora virar-se para a saga de Phillip Pullman, começar a descascar na suposta "anti-religiosidade" que a obra encerra, e a óbvia censura que deve ser feita à mesma. Sobre a manutenção pelo menos do espírito do Index, ler por exemplo aqui a propósito da antiga polémica Dan Brown...
Se eu já tinha vontade de ler as obras, confesso que a mesma redobrou. Porque aquilo que qualquer religião organizada ataca tão ferozmente é normalmente interessante e faz pensar. Pensar nem que seja no que levará instituições que já deveriam ter crescido a continuarem ataques pífios e ridículos à liberdade de pensamento, enfiando a carapuça cada vez que alguma obra supostamente ataca uma religião de massa. Dir-se-ia mania da perseguição, ou outra coisa mais sinistra, em meu ver. Pullman agradecerá. Quanto mais a Igreja descascar nas suas obras, mas elas se venderão, o que em meu ver parece um tiro no pé, mas enfim. A verdade é que argumentação para tais virulentos ataques é, normalmente, pouco menos que ridícula.
A verdade é que as religiões de massas, de cariz ainda profundamente dogmático, continuam a dar contínuos passos atrás, e se de facto é verdade que até partilho de muitos valores das designadas religiões "principais" - Amor ao próximo, exercício da bondade, etc - a liberdade de pensamento é algo que deveria ser sagrado, embora para muitos na comunidade religiosa, continue a ser sacrílego.
E assim não me parece que cheguem lá...
sexta-feira, novembro 30, 2007
Reconhecendo, por alguma estranha e antiga razão, que esta época faz de mim um idiota ainda mais crente do que é habitual, a verdade é que não se trata da diminuição de algum pessimismo, mas a capacidade de equilibrá-lo com algo de inexplicável e positivo nas pequenas coisas.
Coisas que não sei definir, e até me embaraçam um pouco, mas para quem já leu vinte vezes o Conto de Natal, já não há lugar para vergonhas. Espero sempre que corra melhor. E de quando em vez, lá acontece.
Coisas que não sei definir, e até me embaraçam um pouco, mas para quem já leu vinte vezes o Conto de Natal, já não há lugar para vergonhas. Espero sempre que corra melhor. E de quando em vez, lá acontece.
quarta-feira, novembro 28, 2007
E eis que chegamos ao final do ano. Não, ainda não vou dissertar sobre o Natal, nem entupir o blog com referências à quadra, as quais certamente irritarão algumas pessoas mais avessas ao período do ano em causa (embora o vá fazer, claro!).
Mas é chegado um tempo, juntamente com o frio tardio, onde as consciências para várias coisas se intensificam. Os temidos balanços, as falhadas tentativas de despreocupação, a intensificação dos ganhos, a hiperbolização das perdas.
E é curioso verificar, três anos após mudar de perspectiva de vida, que a ideia da maturidade e do alcance das coisas no pico da vida alternam entre a materialidade e a fragilidade ilusória. Há de facto, muito mais confusão, infantilidade e desadequação do que eu julgava. Sinceramente. Recordo uma faixa do Springsteen, a qual ouvia insistentemente há mais de 15 anos, e trauteava o refrão com a ausência de percepção exacta daquilo que ele lá dizia. "Andar como um homem", dizia ele, referindo-se a um trejeito involuntário que indicava uma condição. A condição de quem supostamente sabe o que faz, e fá-lo no lugar que lhe é devido pela forma como o ganhou.
E no entanto, passados esses anos, decorridas as vivências, os conflitos, as perdas e as lógicas contraditórias daquilo que a ilusão nos alimenta como evidente, ainda recordo essa música com perplexidade. Junto-a, talvez, ao que o Alan Ball disse no filme da minha vida.
"Janie's a pretty typical teenager. Angry, insecure, confused. I wish I could tell her that's all going to pass, but I don't want to lie to her."
A verdade é que, pelo menos em parte, este chapéu servirá a todas as pessoas que conheço. Em muitos casos, o chapéu cabe-lhes integralmente, com uma dose visível de desnorte e sofrimento pessoal num tempo onde me parece que se confunde capacidade e autonomia com desenrascanço a todo o custo.
Vejo as ideias que as pessoas tinham, e a tentativa de fazer algum sentido das mesmas, ainda que mais pareçam estar a tentar correr numa passadeira que anda no sentido contrário ao da passada. E olham à volta, conscientes de que o impacto do que provocam, e não só, parece dançar enlevado numa arbitrariedade que arranca dores de injustiça e incompreensão confusa.
Nesta época do ano, os sofrimentos agudizam-se, bem como as emoções. Por boas e más razões, creio eu, mas sobretudo porque é uma época que se quer de ganho pessoal. Não há sucesso material que suporte as tensões de uma certa forma de solidão nesta altura. Especialmente a solidão acompanhada.
E lá está. Correr atrás do prejuízo, manter a cabeça à tona, e tentar pelo menos perceber metade do que se vai passando. Faz-se malabarismo com os acontecimentos, somos pobres e ricos, anjos e safardanas, vitimas e carrascos, e por vezes perante um mesmo olhar, que se transmuta com a evolução simbiótica estabelecida connosco.
Mas sinceramente, aquilo que mais me parece ver em jeito de mágoa, ainda que suave, nos rostos dos que vou acompanhando mais de perto, é a surpresa perante o abortar do plano. Aquele plano que foi vendido enquanto a vida eram letras e numeros em folhas de papel, triunfos para o futuro. Em que seríamos, provavelmente, estrelas de rock, empresários ainda com mais charme do que dinheiro ou elementos de uma familia que não sofreria as erosões do mundo que a vai puxando como um boneco de trapos cheio de areia que a certa altura se rompe.
Afinal de contas, as pessoas também se magoam, os amores também acabam, a estabilidade também se desmorona, a mudança também existe.
A inércia carregada de emoção pode atenuar-se com uma pergunta certeira e bem intencionada, mas no fundo, ainda que forçada, é inacção.
E custa ver isso em quaisquer olhos que realmente nos digam alguma coisa ao coração.
Eu... eu ainda ando a ver se me entendo com esta coisa de andar de um homem...
terça-feira, novembro 27, 2007

"I wanted you to see what real courage is, instead of getting the idea that courage is a man with a gun in his hand. It's when you know you're licked before you begin but you begin anyway and you see it through no matter what. You rarely win, but sometimes you do."
Harper Lee, To Kill a Mockingbird
Idem...
sexta-feira, novembro 23, 2007

Como já o fizeram muitos, certamente, a frase de Sartre surge-me hoje invertida, ou pelo menos, conjugada.
O Inferno somos nós. Ou talvez sejamos todos. Ou talvez isto não passe mesmo de um curso de água feito de correntes desencontradas, onde uma mesma folha anda de um lado para o outro, erraticamente, tentando apenas manter-se à tona.
As previsões normalmente não servem, e abarcam uma possibilidade que a realidade se encarrega de mostrar com dentes afiados.
Esse Inferno é feito das corridas adiante, das visões acerca de destinos, das marcas de emoções e eventos passados, dos desejos de fuga, das fugas efectivas. Forma-se a partir dos efeitos das nossas acções sobre os outros. Das consequências da importância que ganhamos, e como isso altera outros estados, outras formas, outros destinos.
Mas no fundo somos nós. As opções, as facilidades produzidas pelos estados de graça da integração. São os efeitos das pressões, dos cartões de acesso e visita, dos deveres julgados existentes, do silêncio da voz interna que já se sabe que não fará completo sentido. E na despreocupação aparente do passar dos dias, os pequenos crimes entre as pessoas infectam. E na marcha, topam-se os que mancam.
Ver alguém na queda, a meros metros do topo das chamas, silencia. Perdemos a noção do que devemos dizer, precisamente porque sabemos que não há nada a fazer. Porque em certa medida, a dimensão do sofrimento e destino alheio retira-nos qualquer legitimidade para proferir seja o que for, pela horrível ineficácia de que acabamos por padecer. Os juízos anteriores reforçam-se, mas a censura finda perante a dimensão do dano emergente.
E não temos um Vergílio para retirar de lá seja quem for...
Enfim, dia triste e grave...
quinta-feira, novembro 22, 2007
quarta-feira, novembro 21, 2007
Ronda Byrne e os carros desportivos de cor vermelha.
Estou já a visualizar o meu barco nas Bahamas... comigo lá dentro, não me posso esquecer... e o título de propriedade em cima da mesa onde está o cognac e as chaves do meu Aston Martin...
Estou já a visualizar o meu barco nas Bahamas... comigo lá dentro, não me posso esquecer... e o título de propriedade em cima da mesa onde está o cognac e as chaves do meu Aston Martin...
terça-feira, novembro 20, 2007
Perfection, of a kind, was what he was after,
And the poetry he invented was easy to understand;
He knew human folly like the back of his hand,
And was greatly interested in armies and fleets;
When he laughed, respectable senators burst with laughter,
And when he cried the little children died in the streets.
W.H. Auden
("emprestado" do sempre excelente Modus Vivendi )
Sou um homem mais à esquerda, e isso é incontroverso, nem que seja para mim, mas a eleição democrática de Chavez não limpa os efeitos da sua ditadura supostamente democratizada. E não entendo a simpatia silenciosa de alguma esquerda por posturas como estase governantes como estes. Sinceramente.
And the poetry he invented was easy to understand;
He knew human folly like the back of his hand,
And was greatly interested in armies and fleets;
When he laughed, respectable senators burst with laughter,
And when he cried the little children died in the streets.
W.H. Auden
("emprestado" do sempre excelente Modus Vivendi )
Sou um homem mais à esquerda, e isso é incontroverso, nem que seja para mim, mas a eleição democrática de Chavez não limpa os efeitos da sua ditadura supostamente democratizada. E não entendo a simpatia silenciosa de alguma esquerda por posturas como estase governantes como estes. Sinceramente.
terça-feira, novembro 13, 2007

Confessando a minha profunda ignorância em termos de designação de peças de vestuário, só há alguns dias é que descobri o que eram "leggings" (em sei se isto está correctamente soletrado, mas enfim...)
Leggings = Collants sem pés, que como o próprio nome indica, se cola às pernas e zona genital feminina como se de uma collant se tratasse. Normalmente, dizem-me as almas caridosas mais informadas, usa-se com tunicas ou camisolas que ficam abaixo da linha do rabo, supostamente para cobrirem o perfeito delinear do mesmo e da zona da vulva, zonas que ficam completamente delineadas por um tecido completamente "coleante".
Até aqui, nada a assinalar.
Mas foi a conversa tida acerca deste tipo de vestuário, numa noite do passado fim de semana que me deixou algo surpreso.
Estava com um grupo de amigos, e passou uma moça (que por acaso nem vi), a qual supostamente levaria umas collants sem pés ( ok.. doravante leggings...) só que a camisola acabava onde normalmente acabam as camisolas. Acima ou a meio da zona do rabo.
Leggings = Collants sem pés, que como o próprio nome indica, se cola às pernas e zona genital feminina como se de uma collant se tratasse. Normalmente, dizem-me as almas caridosas mais informadas, usa-se com tunicas ou camisolas que ficam abaixo da linha do rabo, supostamente para cobrirem o perfeito delinear do mesmo e da zona da vulva, zonas que ficam completamente delineadas por um tecido completamente "coleante".
Até aqui, nada a assinalar.
Mas foi a conversa tida acerca deste tipo de vestuário, numa noite do passado fim de semana que me deixou algo surpreso.
Estava com um grupo de amigos, e passou uma moça (que por acaso nem vi), a qual supostamente levaria umas collants sem pés ( ok.. doravante leggings...) só que a camisola acabava onde normalmente acabam as camisolas. Acima ou a meio da zona do rabo.
E foi então que um dos meus amigos comentou que não percebia a razão pela qual a moção não teria acabado de se vestir antes de sair de casa. Não é que não gostasse de ver, mas não achava que fossem maneiras de andar por aí, o que facilmente levou a concluir que para a mulher dele a indumentária em questão não seria equacionável, ainda que ele gostasse de ver.
Como imaginarão, aquilo redundou numa pequena troca de ideias, entre brincadeiras e coisas ditas de forma mais séria, mas uma noção ficou. Uma desconfortável noção do que é "decente" e o que não é, especialmente se aplicado à respectiva cara metade, ou à restante população feminina, numa lógica anacrónica do que é bom para as outras mas não para a minha.
E dou comigo um bocado assustado porque estas observações, esta coisa que parece sair dos anos 50 é proferida por homens da minha geração, e mais novos, os quais, supostamente, deveriam ter uma postura mais aberta, moderna e sobretudo, actualizada. É algo que me arrepia a pele pensar que alguem faz um raciocínio do que é agradável quando verificado noutras mulheres, mas inadequado à moralzinha lá da casa. Esta espécie de bourka amenizada deixa-me perplexo, e o que é pior, parece que faz parte de um subentendido generalizado, no qual, felizmente, muitas mulheres se borrifam completamente.
Nunca entendi o raciocínio do homem querer esconder a mulher, seja atrás de trapos mais grossos, silêncios ou falsos recatos. Caraças, se eu gosto de ver a cara metade de minissaia, porque raios haverei eu de me importar que ela a use? Se gosto de ver o decote, porque não deverá ela usá-lo? Claro que há um limite de bom senso para tudo, mas sinceramente, desde quando é que a indumentária deve ser medida consoante a insegurança do outro, ou a lógica da bourka? Nunca entendi os tipos que se chateiam de cacete quando a mulher leva uma roupa mais descapotável. Ora que diabo, não gostamos de ver? Se passa uma mulher bonita, não olhamos? Porque raios é que há tipos que julgam que ao colocar mais pano na roupa a mulher ficará de alguma forma "controlada"? Pior, que é que quer alguém controlado???
Sinceramente, sempre fui apologista do velho brocardo popular que demonstra que o que é bonito deve ver-se. E se olhar não arranca qualquer pedaço, porque me haverei eu de privar do prazer de ver a mulher que está comigo no explendor da sua beleza? Mas quem é que acha que ao colocar biombos vai evitar seja o que for, se tiver de acontecer?
É a pior forma de utilização conceptual do "for your eyes only", até porque a nudez nunca está em causa, e sentir a provocação da beleza da mulher que nos acompanha, é uma etapa da valorização que lhe podemos fazer. Representa também o orgulho que temos na integralidade da pessoa, e porque não a gostaremos de ver bonita e sensual ao nosso lado? E se isso projectar para fora, não é apenas uma consequência de se ser quem é, e a diversidade que nos leva a ver e prestar atenção a quem nos rodeia?
Não vi as leggings da moça, mas sinceramente, até gostaria de ter visto.
Porque sentir que podemos passar pelos outros sem mais nada, é como que admitir que o mundo nos trespassa como se fossemos vento invisível, e isso parece-me algo triste e até mesmo enfadonho.
Espanta-me que algumas pessoas (muitas pelos vistos) ainda herdem uma noção de moralidade e conveniência que assenta apenas em mecanismos bacocos de domínio, e em meu ver, anacrónicos e inaceitáveis para quem é alvo deles.
Se é bela, que se veja, especialmente se esse bela se sentir bem assim. Ainda mais se essa beleza é também criada para agradar e mimar quem a acompanha. Se uma mulher deseja realmente estar bonita para nós, é demasiada sorte para não se aproveitar. Sinceramente.
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