A discriminação de género existe. Infelizmente é uma realidade à qual é impossível escapar no campo da verificação dos factos, e está tão enraizada em alguns comportamentos quase automáticos, que todos os dias se verificam, mesmo contra o abanar de cabeça poiliticamente correcto. Claro que não vale a pena sermos mais papistas que o papa, julgo eu, e achar que todas as acções devem pautar-se por uma suposta rectidão impoluta, que os maus instintos podem ser completamente erradicados. Que diabo, eu gosto de ver o Willie E. Coyote levar com as bigornas e as catapultas na cabeça, e dificilmente o gostaria de ver na realidade, mas adiante.
No entanto a denúncia de discriminação de género é cada vez mais visível, felizmente, mas também conhece certos fenómenos que retiram alguma da coerência a tão justos protestos. A descriminação sexual está, no meu modesto ver, associada ao poder. É claramente uma decorrência do "can do", e é manejado pelas mulheres com o mesmo à-vontade que durante séculos foi reputado aos homens. Não é uma prerrogativa de género, mas de personalidades.
Os exemplos que vou dar podem parecer prosaicos, mas a verdade é que assentam na mesma premissa de diferenciação entre géneros com base em estereótipos (subtil é certo, mas contundente). As mulheres estão cada vez mais a mostrar um dente afiado para o paternalismo e sexista, o que me parece, em certa medida, próprio daqueles miúdos que quando crescem, enchem a marmita dos supostamente mais pequenos, apenas porque agora já podem.
1 - Ginásios "Pilates" só para mulheres. Ok, o conceito, segundo me explicaram, tem a ver com a quebra de inibições. Mas caraças, está baseado na ideia de que os homens vão exclusivamente para o ginásio para reparar nas mulheres, o que assenta que nem uma luva na concepção tontinha da unidireccionalidade masculina. E se isto não é discriminatório ou qualificativo do todo pela parte, eu não sei o que será.
2 - Confesso que só vi 2 episódios da série "The L word", e por isso posso estar a pecar por precipitação, mas os que vi estão plenos de uma carga condescendente e mesmo agressiva para com o género masculino, com momentos verdadeiramente infelizes que em nada desdenhariam os animais de carga dos balneários e a sua concepção unidimensional da mulher. Num desses episódios, uma dela diz que, perante ter de montar um armário, depara-se com uma das poucas alturas em que detesta ser lésbica. E isto é apenas a ponta do iceberg porque na série em questão os homens que aparecem são pouco mais que uns patetas alegres perdidos no universo da progesterona e colagénio.
Isto somado ao facto de que uma das caracteristicas que é tão apontada aos homens é a sua insistência e fixação no exterior, mas protagonistas da série em causa não só são quase todas umas brasas irrepreensíveis (Mulher- real Dove, my ass! Pois pois, claro...), como a realização insiste e de que no sexo. Aquela malta parece que não faz mais nada senão dar o corpo ao manifesto.
3 - Quanto ao "Donas de Casa Desesperadas", santa Maria!!! Aí os homens são ainda mais tapadinhos, desde cornos (bem) mansos a meninos da mamã, passando por psicopatas. Esta série, mais uma vez, das poucas vezes que vi, tem ao menos a virtude de conseguir ri-se de si mesma. Mas ainda assim, enfim...
Claro que são exemplos prosaicos, de subtilezas na análise comportamental que passam muito ao lado de outros factos reais e aterradores ligados à discriminação de género, mas servem apenas para demonstrar que pé ante pé se dá azo ao brocardo - "é nas costas dos outros que vemos as nossas". Seria engraçado, se não fosse meio preocupante que com o mesmo tipo de poder social e económico, as mulheres conseguem exercer o mesmo paternalismo chauvinista que supostamente era exclusivo dos homens.
Julgo que no mínimo, dá para reflectir...
Disclaimer - quando se fala em mulheres, falam-se em algumas mulheres. Como nem todos os homens são ou foram machistas, nem todas as mulheres serão sexistas. Mas existe em muita, crescente e subtil quantidade, infelizmente.