ESTAÇÕES DIFERENTES
Stephen King - "Different Seasons"
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quinta-feira, janeiro 31, 2008
quarta-feira, janeiro 30, 2008
“If pain could have cured us we should long ago have been saved.”
George Santayana
SIDDHI
O Gabriel era um contador de histórias. Tirando a recorrência a Ravenna, ou o esquecimento da sua própria narrativa pessoal, ele era, e é, um poço de histórias, feitas de recorrências aparentemente triviais. Eu arrisco-me a dizer que ele as colecciona, como alguém que empresta a espaços inúmeras vidas, fazendo da sua a colagem de pequenos roubos. E normalmente tinha uma ideia de que o Verão potenciava o nascimento dessas histórias. O calor fazia coisas estranhas às pessoas, dizia ele. O corpo toma uma consciência multiplicada de si mesmo. Perceber tudo ao mesmo tempo enquanto estamos perdidos na canícula pode ser complicado e perigoso, já que a miríade de sensações eleva-se a milhões de pequenos pensamentos.
Existem muitas pessoas que teimam em definir a importância das histórias. Criam uma espécie de padrão de qualidade das narrativas que vão bebendo ao longo dos dias. No entanto esse padrão era aplicado de forma mais rigorosa aos contadores, relatores ou inventores de histórias. Existem pessoas que conseguem cativar um interesse quase hipnótico mesmo quando lêem a lista de compras a fazer no hipermercado. Outras podem fazer do seu relato da versão inédita do Ovo de Colombo algo tão interessante como ver as ervas crescer.
Gabriel tinha um pouco dos dois. E penso que tal sucedia devido ao amor que tinha a histórias, a acontecimentos e narrativas. A ideia de progressão deixava-o menos ligado ao absurdo existencial que lhe ia arrancado vida desde a viagem, como uma anestesia que simplesmente dava a noção de chegada a um qualquer lado. A imobilidade deixava-o aterrado. Por isso tinha sempre algumas histórias para contar quando nos encontrávamos. Entrecortava-as com relatos sempre da mesma mulher, mas acho que consigo desculpar-lhe essa reincidência. Afinal de contas, as doenças crónicas nunca desaparecem realmente, e a fazê-lo, nunca é por vontade do hospedeiro.
E que me contava ele?
Numa rua perdida de Lisboa vivia uma mulher que supostamente via coisas. Ao contrário de tantas outras que alegam tais situações ou capacidades, esta mulher vivia aterrada pelo que via. Coisa terrivelmente dolorosas que escolhiam as piores alturas para aparecer, plenas da clareza de um filme em tela branca.
Chamava-se Branca. O problema é que esta mulher via toda a sequência de eventos, que aparentemente não tinham qualquer relação entre si, mas que em conjugação dariam origem às situações que chegavam a tirar-lhe noites inteiras de sono. O calor aumentava esta capacidade, como um balão cheio de ar quente que ganha os céus com muito mais velocidade e percorre toda a terra. Além disso, Branca transpirava imenso, o que só aumentava a consciência da sua presença no seu meio ambiente. Era como tocar e pensar tudo ao mesmo tempo, numa incessante passagem de slides.
Tinha uma vida o mais convencional possível. Bancária de profissão, vivia sozinha depois de ter acordado um dos namorados à unhada, em consequência de um sonho que viria a causar-lhe a primeira depressão ou pré esgotamento, como lhe chamara o psicólogo. Regava as plantas que tinha na varanda, alimentava um papagaio falador, enfim, deambularia na felicidade contida da sua normalidade, como ela dizia, se ao menos não tivesse os apagões. Os apagões eram momentos, na sua esmagadora maioria numa fase de pré sono, que se caracterizavam por uma viagem sensorial e psíquica tão intensa que ela se sentia com se saísse do próprio corpo e entrasse em todo o lado. Ou talvez pudesse mesmo, quem poderia saber? Tão depressa podia ser uma maçaneta gentilmente apertada e rodada para abrir a porta correspondente como o joelho esfolado de um miúdo que trepava a uma árvore. Ou coisas muito piores, daquelas que deixam marcas fumegantes nas portas de entrada do pensamento, e fazem temer qualquer espécie de sono ou perda de consciência que levasse a sonhar.
Um piscar de olhos foi o tempo que esta mulher levou a ser considerada absolutamente maluca. Eu cá estou a pensar bem no assunto e não tenho dúvidas de que lhe colocaria o carimbo na testa e em seguida despachá-la-ia para uma das alas do Miguel Bombarda. De rajada mesmo. Não é bonito de se dizer, mas é o que se arranja.
O Gabriel, por seu lado, acompanhou esta história a par e passo. Falou com a mulher durante cerca de uma semana, recolheu elementos, fez entrevistas, compilou uma pequena biografia. Em casa não havia nenhuma bola de cristal, nem símbolos profanos ou zodiacais espetados na parede como posters de cinema ou postais de viagem ampliados. Era uma casa escura, na qual Gabriel sentira um cheiro estranho, indefinível. Era o cheiro a tristeza quente, dizia ele. O encarceramento e melancolia, num claro contraste com o sol ofuscante que castigava a cidade. Contou-me que ela lhe relatara descrições minuciosas de assassinatos hediondos, com pormenores que levam o mais impassível dos estômagos a registar um veemente protesto. Ou actos de crueldade mais simples mas tremendamente eficazes, que ecoavam em pedaços desconexos na cabeça dela. Era como fazer um zapping lento pelos piores canais que se pudessem imaginar. Fazia-o com um olhar cansado, como quem carrega um fardo às costas por demasiado tempo e exibia olhos demasiado velhos para a idade do rosto. Eram tão claros que provavelmente desapareceriam debaixo da luz solar, ou facilmente se confundiriam com a água de uma qualquer piscina límpida onde mergulhasse.
Metódico e curioso como era, Gabriel resolveu ir à polícia judiciária para obter informações. Sabia que o mais provável seria que ninguém ventilasse fosse o que fosse, e que até poderia colocar-se em sarilhos, mas resolveu ir lá à mesma. Como previra, deu bom os burros na água, apesar da cordialidade da responsável pelas relações públicas da instituição. Informação absolutamente confidencial. E mais não disseram. Gabriel nunca mais voltou a falar com a mulher, mas guardou os elementos que recolhera, decidido a escrever um artigo sobre o assunto. No entanto a história entrou na gaveta e lá ficou.
No Verão seguinte, para além das notícias de uma seca avassaladora, um dos jornais televisivos do horário nobre deu cobertura a uma peça relativa ao assassinato de uma mulher.
Branca fora morta com dois tiros no peito por um homem que invadira a casa. Segundo o que Gabriel apurara, estava tudo partido. Mesas viradas ao contrário, janelas estilhaçadas, e o corpo deitado no chão no centro da sala. Uma das balas havia varado o coração, matando-a imediatamente, mas toda ela estava marcada por equimoses derivadas de um espancamento longo e determinado. O caso foi rapidamente esquecido pela opinião pública, mas Gabriel acompanhou-o até ao fim. Desde a prisão ao final do processo judicial. E foram as declarações do assassino que o deixaram sem pinga de sangue, numa batalha plena entre aquilo que ele chamava o cepticismo seguro e a coincidência demasiado extrema para não ser suspeita. Julgo que são perguntas que todos já fizeram a si mesmos numa determinada ocasião, por mais que o neguem.
Parece que o assassino havia perdido a filha de quinze anos na semana anterior. Fora violada e morta por dois homens perto de Alcântara. Metida dentro do carro e levada para um barracão, expirou após longa horas de sevícias que eu nem sequer consigo imaginar. Ou talvez nem queira, sinceramente. Há coisas que não se querem cá dentro por muito tempo, e a estarem, é bom que não lhes toquemos muitas vezes. Eles ainda não haviam sido capturados na altura. Nunca chegariam a sê-lo. Abandonaram o corpo num banco de jardim e evaporaram-se.
Parece que na véspera dos acontecimentos, Branca terá telefonado ao pai da rapariga. O número aparecera-lhe num dos apagões, assim como tudo o resto. Terá tentado avisá-lo, contando o que vira, mas como seria de esperar, recebera pela história um compreensível riso e resposta torta. O pai da rapariga terá dito que não queria comprar nada, e provavelmente, porque raios é que ela não escolhia outro número de telefone para torrar a paciência? Voltou a ligar e levou outra resposta ainda mais rude.
Alguns dias após a morte da rapariga, o pai, completamente descontrolado, tendo conseguido obter a morada da mulher que lhe telefonara através do registo telefónico, dirigiu-se à casa da Branca e uma vez lá, espancou-a até que ela revelasse o que sabia. Branca obviamente não sabia de nada. Vira os acontecimentos como um pesadelo, e recordava-se razoavelmente da cara dos assassinos, mas pelos vistos não tinha quaisquer outros nomes ou localizações. As coisas não funcionavam como o serviço nacional de informações telefónicas. Não adiantava pedir. Não era assim que funcionava. Recordava-se igualmente do sol radioso que espicaçava a cor das árvores que ocultavam o barracão. E o calor. Ao que parece, o desesperado pai ter-lhe-á feito uma ultima pergunta, após a qual disparou a arma duas vezes, matando-a imediatamente. Após dizer isto em audiência, caiu em pranto, e supostamente perdera o resto dos berlindes que tinha na às voltas na cabeça.
Gabriel culminou esta história com uma noção que por acaso partilho, mas que não me deixa nada descansado. Triste e perplexo sim, mas não sereno.
Ela sabia os nomes dos violadores. Sabia que os podia identificar tão bem como o fizera com o número de telefone do pai ou o rosto da rapariga que morrera. Mas Branca achou que era já demasiado. Dissera a Gabriel, aquando da conversa que ambos haviam tido, que os apagões pareciam aumentar de intensidade e frequência, como bombinhas de Carnaval que rapidamente passavam a granadas e que lhe estilhaçavam a cabeça. Sozinha e excluída, meio enlouquecida pelo que supostamente poderia ver, ela achara que era tempo de acabar.
Quando Gabriel acabou de relatar esta que era apenas uma de muitas histórias que ia partilhando comigo, eu fiquei a pensar numa outra coisa. Para mim, a amiga Branca engendrara as coisas muito mais cedo do que se pensava. A dor fora longe demais e que de alguma forma o correio nunca chegaria com a carta de envelope ensolarado, por isso, porquê perder tempo? Para Branca o Verão no qual morrera não fora diferente de nenhum dos outros. O calor era uma forma de estar mais acordada, electrificada por uma consciência que nunca pedira, desafiando a velha noção de que o sol brilhava da mesma forma para todos. Não estou certo de que acredito na história. E acho que nunca estarei. O Gabriel não tem dúvidas. Acho que entendo porquê, mas não vemos a mesma sombra debaixo do sol.
Lisboa - 29-01-2004
terça-feira, janeiro 29, 2008
Banda Sonora - Aqui
segunda-feira, janeiro 28, 2008
A crítica assemelha-se ao acto de respirar. Cedo ou tarde lá vai ter de aparecer uma. Existir é, num momento ou noutro, chatear os cornos a alguém que, por mais ou menos razões, resolve implicar connosco. Certo é que, ou merecemos ou não merecemos, e a coisa fica por aí. É pacífico. Por mais pacholas que possamos ser para alguém, existem uns quantos fígados que até fervem quando entram em contacto com a nossa presença. É inevitável.
Atiramos o precioso óbvio, mas...
quinta-feira, janeiro 24, 2008
segunda-feira, janeiro 21, 2008
And, in parting from you now,
Thus much let me avow
You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?
All that we see or seem
Is but a dream within a dream."
E.A.Poe
Saved by the classics....
sexta-feira, janeiro 18, 2008
Simplesmente tem fases, e alternâncias.
Então fecho os olhos e vejo a lua prateada a tingir-se de vermelho. Vejo a singularidade de cada momento, através da música que a silhueta toca, percebo com uma pungência terrível aquilo que me escapa e que simultaneamente me faz feliz e sorumbático. A pequenez e a imaginação capaz de delinear aquele contorno.
Ouço e percebo ao deleitar-me com o som.
E acolho a vida como a posso ter."
Ela aprendeu a definir escolha e defesa.
Ambos aprendemos o que não conseguíamos compreender. Aquilo que surgiu como uma espécie distorcida de ansiedade sem amor, de curiosidade sem real esperança, de vivência sem futuro. Um laço atado pelo rápido discorrer do tempo, e criador de um prazer tão mais pequeno que um medo dormente. E no entanto, maior que o mundo inteiro, era um mundo em si, para mim e creio que para ela, totalmente novo."
quinta-feira, janeiro 17, 2008
Tem, assim de repente, 16 anos...

segunda-feira, janeiro 14, 2008
"The Ballad Of Peter Pumpkinhead"
Peter Pumpkinhead came to town
Spreading wisdom and cash around
Fed the starving and housed the poor
Showed the Vatican what gold's for
But he made too many enemies
Of the people who would keep us on our knees
Hooray for Peter Pumpkin
Who'll pray for Peter Pumpkinhead?
Oh my!
Peter Pumpkinhead pulled them all
Emptied churches and shopping malls
Where he spoke, it would raise the roof
Peter Pumpkinhead told the truth
Peter Pumpkinhead put to shame
Governments who would slur his name
Plots and sex scandals failed outright
Peter merely said
Any kind of love is alright
But he made too many enemies
Of the people who would keep us on our knees
Hooray for Peter Pumpkin
Who'll pray for Peter Pumpkinhead?Oh my!
Peter Pumpkinhead was too good
Had him nailed to a chunk of wood
He died grinning on live TV
Hanging there he looked a lot like you
And an awful lot like me!
But he made too many enemies...
Of the people who would keep us on our knees
Hooray for Peter Pumpkin
Who'll pray for Peter Pumpkin
Hooray for Peter Pumpkinhead
Oh my oh my oh!
Doesn't it make you want to cry oh?”
Crash Test Dummies - Cover de "The Ballad Of Peter Pumpkinhead" dos XTC
sexta-feira, janeiro 11, 2008

quarta-feira, janeiro 09, 2008
Black then white are all I see in my infancy.
red and yellow then came to be, reaching out to me.
lets me see.
As below, so above and beyond, I imagine
drawn beyond the lines of reason.
Push the envelope. Watch it bend.
Over thinking, over analyzing separates the body from the mind.
Withering my intuition, missing opportunities and I must
Feed my will to feel my moment drawing way outside the lines.
Black then white are all I see in my infancy.
red and yellow then came to be, reaching out to me.
lets me see there is so much moreand beckons me to look through to these infinite possibilities.
As below, so above and beyond, I imagine
drawn outside the lines of reason.
Push the envelope. Watch it bend.
Over thinking, over analyzing separates the body from the mind.
Withering my intuition leaving all these opportunities behind.
Feed my will to feel this moment urging me to cross the line.
Reaching out to embrace the random.
Reaching out to embrace whatever may come.
I embrace my desire to
feel the rhythm, to feel connected
enough to step aside and weep like a widow
to feel inspired, to fathom the power,
to witness the beauty, to bathe in the fountain,to swing on the spiral
of our divinity and still be a human.
With my feet upon the ground I lose myself
between the sounds and open wide to suck it in,
I feel it move across my skin.I
'm reaching up and reaching out,
I'm reaching for the random or what ever will bewilder me.
And following our will and wind we may just go where no one's been.
We'll ride the spiral to the end and may just go where no one's been.
Spiral out. Keep going, going...
Lateralus - Tool - Maynard James Keenan