ESTAÇÕES DIFERENTES
Stephen King - "Different Seasons"
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sexta-feira, fevereiro 29, 2008
Concordância em género, número e grau.
Excelente...
quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Foto by YU
Como qualquer forma de acrimónia que anda de mãos dadas com o magnetismo, o sexo gera muitos subtemas, que em bom rigor, servirão em muitos casos para extrapolar a discussão para os (des) entendimentos. E entre géneros, eles são fartos.
A propósito de uma conversa em corrente de mail, a qual, lamentavelmente, até deu pouco feedback para o que se estaria à espera, falava-se do empurrão """"subtil"""" do homem à cabeça mais ou menos arisca da moça que partilhe nudez e fluidos com eles em dada ocasião.
Falava-se, como já se falou tantas vezes, da relutância em sentir a mão "condutora", e a lógica de escolha e à-vontade que daí advém.
Bem, até aí, é pacífico. A malta faz o que quer, como quer, e a consensualidade lá vai ditando os compassos ritmados do tango. No entanto, a verdade é que há uma lógica neste tipo de observação que faz alguma espécie. E faz espécie porque parece direccionada ao homem, ao ser masculino que supostamente parece querer exercer alguma pressão pouco sofisticada neste momento. Os comentários que se suguem caminham no trilho da generalização supostamente divertida dos pensamentos com a "cabeça de baixo" e a pouca sofisticação da sexualidade masculina, e blá, blá, blá.
Esta lógica não só é uma treta generalizante, e como tal, torta à nascença, como acaba por ter dois gumes. A verdade é que as queixas acerca da falta de iniciativa oral por parte dos homens reverberam por todo o lado, mas raras são as corajosas (na minha experiência pessoal) que relatam qualquer episódio de "condução da cabeça" do parceiro, optando por queixas silenciosas ou testemunhos que ficam bem em talk-shows acerca da adaptabilidade no seio de uma troca, seja ela mais ou menos plena de envolvência emocional.
Qual é o problema aqui?
Simples.
Em primeiro lugar, qualquer movimento condicionador da iniciativa leva a perguntas desconfortáveis. Se nos primeiros passos de descobrimento do outro isso se pode justificar, (se bem que a iniciativa na lógica do vale tudo menos tirar olhos pode aniquilar essa coisa do cuidado...) quando está estabelecido, e por sorte, conjugada uma série de vontades e rituais, a chatice da falta de iniciativa só é superada pelos gestos condicionadores dessa mesma inércia. E atenção que não estou a falar de gestos rituais onde as pessoas gostam de brincar mais a bruta, fingindo que são obrigadas a fazer alguma coisa. Falo do gesto porque a pessoa que supostamente deveria receber essa dádiva já entendeu, de alguma forma, que a coisa não vai lá sem lembrete. E pior que isso, só emitir mesmo o lembrete, seja por palavra ou trejeito.
Em segundo lugar, a verdade é que se a queixa feminina existe quanto a inércia idêntica, é porque se reconhece que a falta de iniciativa chateia, talvez até mais do que o toque do sino a lembrar que é hora de descer uns quantos meridianos no corpo. E se há esse reconhecimento, então o que será pior? A mão na cabeça, ou o queixume silencioso quanto à ausência daquilo que deveria surgir sem ter de se pedir? Aliás, a iniciativa é tão importante, que um dos gozos magistrais é precisamente a competição divertida e saudável, expressa no "agora sou eu.. não não, sou eu, não desculpa, mas sou eu..." e por aí fora.
Isto leva também a reflectir sobre aquela dualidade entre a suposta e constante predisposição masculina, que é o Matusalém das falácias, face à má reacção feminina perante a ausência de tal apetite ininterrupto, quando as moças estão dispostas. A verdade é que a ideia de sofisticação no sexo prende-se com os mecanismos que criam a ansiedade e vontade associada, a vulga "pica", e não nos actos propriamente ditos. Achar que duas pessoas podem foder como se bailassem no palco do São Carlos é, em meu ver, uma visão distorcida da perda de controlo que tanta falta faz à saúde intrínseca de qualquer relação sexual. Parece performance e concentração, quando o que se quer é escorregar sem conseguir reganhar equilíbrio.
Claro está, e salvo melhor opinião, cada um gostará do que gosta, o que leva a concluir algo muito simples. São as empatias que marcam o passo. E se a coisa necessita recorrentemente da mão na nuca ou do queixume da inércia feito piada sexista, então a empatia padece de um grave estado de saúde. A mão na cabeça ou a sugestão verbal, se recorrente, significa algo mais que a simples condenação de um gesto. Sinceramente, até acho que aquilo que chateará muitas mulheres que o sintam talvez seja o facto de terem de ser lembradas, e não o gesto em si. É talvez no facto de ser exposto o seu "esquecimento" que reside o desagrado. Ninguém gosta de lembranças acerca dos seus esquecimentos intencionais. Especialmente na comunicação não verbal deste calibre, que salvo novidades absolutas, deveria ser precedida de todas as pistas.
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
Ele – Nem por isso. Sou admirador do Sebastião Salgado, conheço a foto que toda a gente conhece do Steve McCurry, mas o meu conhecimento em fotografia fica por aí.
Ela – São muito bons. Mas estes são fotógrafos mais complicados. Mais polémicos. Um deles, a Cox, retratou a ultima ceia substituindo Cristo por uma mulher negra nua.
Ele – Estou a ver que a coisa não pode ter ficado pacífica.
Ela – E vês bem. A senhora tem uma ala própria, de acesso restrito num dos museus onde tem trabalho exposto permanentemente. Parece que a correspondência de ódio e ameaças não pára. Até o presidente da câmara de Nova Iorque ameaçou interditar o trabalho dela.
Ela – Exacto. Recordas-te ou viste o “Intimidade”?
Ele – O filme?
Ela – Sim. Sabes de certeza qual é. Aquele em que a protagonista, a Kerry Fox, faz sexo
oral real ao colega de cena?
Ele – Ah, sim, já sei. Pois… ouvi falar qualquer coisa acerca disso.
Ela – Foram feitas muitas entrevistas. Os tablóides ingleses começaram a tocar a corneta
e as histórias começaram a vir ao de cima. Há uma entrevista do Linklater… o namorado… a um jornal inglês, onde o tipo tenta explicar como é que se lida com a mulher a ter sexo real à frente das câmaras.
E conta uns episódios engraçados.
Sabes o que é que ela disse ao namorado, quando ele lhe perguntou porque é que ela
queria arriscar-se a fazer o tipo de cenas de sexo que o realizador lhe pediu para retratar no filme?
Ele – Não faço ideia…
Ela – Porque, como actriz e mesmo cinéfila, nunca fizera aquilo antes. Espero que a ti te explique muita coisa.
Ele – Entendo. Mas ainda assim, como seriam as conversas daquele casal depois da estreia do filme…
Ela – Sim, é complicado, mas por vezes para se fazer certas coisas, há uma escolha legítima, em meu ver. É uma afirmação, mais nada. Um modo de vida. Ela como artista, escolheu fazer as coisas assim e correr o risco. Ele aceitou. Não é qualquer um que o faz.
Ele – É o teu caso?
Ela – Sim. Isso choca-te? A violência que viste é encenada mas o sexo é real. As fotografias não funcionavam se o sexo não fosse real. Exactamente como naquele filme. A emoção surge, nesse contexto, na reprodução do sentimento que se quer causar. E eu quero abanar o barco, digamos
assim. É caso para dizer que neste momento tens de fazer perguntas muito complicadas ao que chamas de moralidade própria.
Ele – Para já acho-a suficientemente elástica, mas porquê exactamente?
Ela – Para saberes se valeu a pena vir aqui. Agora estou a ser provocadora, eu sei, mas quem anda à chuva…
No fundo, é tudo encenação. Arte. Trabalho.
Os verdadeiramente curiosos dão os melhores modelos, sabias? São os únicos entusiastas, na minha opinião.
Ele – Bem, não sei…ahmn…. Se é tudo trabalho,
onde é que fica a emoção para causar o tal impacto da
arte que falaste?
Ela – Isso só descobrirás por ti próprio."
terça-feira, fevereiro 26, 2008


Esperamos sempre alguma coisa de alguém, assim como esperam de nós. E ainda bem, acho eu. Que mundo seria este onde as pessoas simplesmente não conseguissem criar uma qualquer espécie de laço mutualista ou cúmplice. A liberdade de acção é sagrada, mas o descaso hedonista (faço quando me apetecer mesmo e viva o velho), leva a coisas complicadas como o espaço vazio na necessidade. A mim já me chamaram generoso, mas eu tenho-me apenas por normal. Por alguém que faz o que é normal, quando o que está em causa é afeição entre as pessoas.
O cuidado que se tem com alguém revela a atitude que se tem com a maioria das coisas na vida. E esse cuidado cria amizades, amores, laços intemporais, porque certa forma de sorriso ou surpresa, nenhuma naturalidade ensina aos que se julgam verdadeiramente próximos. Por isso sim, acho que a gratidão e a acção espontânea criam um senso de singularidade e união num mundo cada vez mais umbiguista e escondido. E posso exigir das pessoas apenas que elas tenham cuidado comigo e com outros. Não que gostem de mim ou percam tempo a fazer-me seja o que for. Mas se gostam, têm de ter (algum) cuidado, alguma atenção. Não há laço que sobreviva sem que nos coloquemos um pouco na pele do outro, e façamos nascer quase do nada a vontade de lhe fazer alguma coisa. E se isso não podemos exigir, o que concordo, elegemos. Mas aqueles a quem fazemos bem, e que se revêem agradados nesse bem, a inércia não pode ser resposta, nem o descuido. Daí a ontologia da exigência e a selecção dos realmente importantes.
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
E no meio do espalhafato divertido, há ali um cérebro pulsante e grau "zero" de medo relativo qualquer julgamento. No bullshit whatsoever, isso é no mínimo, admirável. Neste caso, muito divertido.
Pedrada no charco, definitivamente.
E se já tencionava ver "Juno" desde que o "Rotten Tomatoes" falara sobre o mesmo, ( já há uns tempitos atrás - maravilhosos idiotas os responsáveis pelas nossas distribuidoras), agora é que vou mesmo!
sexta-feira, fevereiro 22, 2008
É um documentário sobre aves aquáticas, mas é simultaneamente tão mais do que isso. Sobre o respeito, luta e beleza intrinseca à vida, muito destacada da racionalidade de que tanto nos orgulhamos. Por vezes, nem sei bem porquê...
Maravilhoso.
Dez anos após a primeira exibição deste filme, os seus "feitores" sentraram-se a uma mesa e produziram esta deliciosa entrevista a quatro vozes. Para mim falta ali o autor da história, Stephen King, mas ok, passa.
Apenas uma nota pessoal. Morgan Freeman poderia ler a lista telefónica e a voz hipnotizaria à mesma. (Recomendo vivamente a sua versão do belíssimo "Marcha dos Pinguins". )
Enjoy!
quinta-feira, fevereiro 21, 2008
Quando te peguei naquilo que tinhas como mão, percebi que havia pouco a fazer. Não havia morte. Havia pouca ausência de silêncio. Que quer isso dizer. Falo das poucas palavras, das coisas pequenas que deixavas sair a espaços, permeada com a percepção da tua incapacidade. Até o toque dos teus dedos, como uma miúda que tacteia no escuro, era medroso. Era inseguro porque à teimosia das tuas perguntas estava associada a tua nova resolução, ainda que o rio que deixavas correr pela cara abaixo desmentisse tudo como uma empolada resolução de ano novo.
Os teus olhos não eram os mesmos, mas não por causa do inchaço. A tua confusão era a minha confusão, e os abraços possiveis mais ameçavam parecer-se a encontrões na rua, dados pelos desnorteados que seguram demasiadas coisas em braços delgados.
Olhei e vi apenas o longo discorrer do conforto, permeado pelas ansiedades que já não te reconheço como tuas. Depois, multiplico-te pela número de coisas em caras que vejo, e reconheço-te, já cansado, por toda a parte. Identifico-te num alinhamento de criminosos suaves de todos os dias, percebo que as perguntas são inúteis, e sei-te como a medida de controlo do meu sangue. Aquele que ainda bombeia, percebendo-te como a cerca de madeira podre que espera pelo Verão e a pintura das felicidades adiadas.
E entendo ainda menos aqueles que se queixam de tal facto, mas passeiam alegremente na savana. Que diabo. As pintas e os dentes são auto-demonstrativos não? Se colocam o corpito de gazela curiosa ao alcance das fauces, não estará tudo dito?
quarta-feira, fevereiro 20, 2008
Parece que já terá sido tudo dito sobre este filme, mas este é de facto um filme diferente. Traz algo, incomoda, fascina, coloca-se debaixo da pele. Lewis é um actor absolutamente magistral. Os maneirismos são de tal forma espantosos que a transformação parece total e originária, ou seja, uma não transformação, mas como que o teletransporte de Plainview para as cenas em que alguém grita "Acção". É um filme sobre a obsessão mas também sobre as lógicas que assistem ao desenvolvimento dessas obsessões, especialmente com a metáfora consumidora do sucesso. A assustadora personagem de Daniel Plainview representa, até mesmo na deformação suave do seu corpo e expressão, as consequências da obsessão pelo conseguir, em meio a todas as complexidades que claramente o lançam na espiral de insanidade, culminada numa cena final que ficará na história.
"Eu simplesmente não suporto que mais ninguém tenha sucesso" - Daniel Plainview.
Está tudo dito, portanto...