ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, março 31, 2008

A verdade é que a certa altura, mesmo quando estamos cobertos pela ideia de que fazemos o melhor que podemos, ou que estamos a tentar fazer alguma coisa, somos incapazes de qualificar algumas atitudes e ideias como as asneiras ou idiotices absurdamente profundas que são. A estupidez é tão imensa que ensurdece, e damos connosco a afogarmo-nos na própria parvoíce, como se as soluções para quaisquer buracos no asfalto pessoal pudessem resolver-se com ausência de gravidade a substituir cascalho e alcatrão.
A visão geral é nossa, e as tendências analíticas externas estão certas, porque a visão que se lhes apresenta é plena de argumentação. E cada um sabe o que vê, o que está assente em cada perspectiva, a mais das vezes escorada pela afeição que lhes causa tal reacção.
E ao ver o caleidoscópio, os fragmentos surgem como a mais antiga história do mundo, inevitavelmente estilhaçada como qualquer coração foi e será sempre. Vestir uma capita de optimismo assemelha-se a arrancar unhas à vez, e no entanto tentamos. Tenta-se sempre porque mesmo na estupidez que em silêncio lá vamos reconhecendo, existe um desespero parcial que fala sempre mais alto e que conduz a uma inevitabilidade.
Hoje de manhã enterrei um pequeno animal de estimação que morreu ontem no seu aquário. É a coisa mais insignificante do mundo e bordejará o ridículo, mas por vezes não conseguimos escapar à noção trazida pelos pequenos detalhes que iluminam a tristeza da nossa própria incapacidade em sermos aquilo que todos os esforços feitos almejam.
Tentamos e tentamos e a cada morte parcial construimos o contorno que projectará a sombra do que também somos.
Ao olhar para os olhos meio perdidos, que contavam aquelas histórias rocambolescas, eu percebi que era novo. Que a minha pele ainda era macia, a minha sujidade nova. Eu ainda esperava. Ainda olhava para as coisas com expectativa, com a ideia de que a mudança, mesmo em meio à grande dormência e cansaço em que eram mergulhados todos os meus dias, ainda seria possível, senão mesmo devida. Essa percepção acordou-me o medo e a tristeza, os quais, outrora fornos calcinados, ardiam agora em chama considerável.

quinta-feira, março 27, 2008

A propósito de algo que vi no outro dia, há uma perplexidade que nunca consegui afastar do meu reservatório de dúvidas existenciais onde ocasionalmente, por alturas de auto-análises menos benevolentes (que são muitas), acabo por ir beber.
Porque raio têm tantas mulheres a mania da queca de despedida, a última troca, o adeus carnal, whatever?
Sinceramente parece-me algo saído de uma outra coisa que também me faz confusão, como os velórios de caixão aberto. E antes que a ala moderada me lance calhaus lá do alto, a verdade é que aquilo que pode ser entendido perfeitamente como um último adeus ou uma relutância religiosamente direccionada em deixar alguém ir pareceu-me sempre um prolongamento excruciante de uma dor que já suficientemente grande e infelizmente, de certa maneira, sempiterna.
A queca de despedida, (e peço desculpa pelos termos menos próprios quando se fala de algo que para muitas mulheres me parece uma tentativa de dar algum sentido ao que já o perdeu ou colocar um laçarote cor-de-rosa em cima de algo que definitvamente já não disfarça o cheiro a podre), está nessa linha. É o prolongamento do que por vezes são agonias intensas de separação, de dúvidas acerca de decisões que a frio parecem claras como água mas no turbilhão da água a ferver mais parece o ataque de mil piranhas com fatos térmicos.
A queca de despedida é uma espécie de ilusão moribunda à qual se dá uma carrada de medicamentos paliativos, desenhando em papel que arde uma espécie de diagrama tosco do que antes era matéria e substancia e não um rabisco de destino que acabou por ir às urtigas.
A queca de despedida surge como uma tentativa de ir com uma boa recordação no saco, mas o que se leva é uma espécie de ataque da manada (será este o substantivo) de porcos espinhos com um caso sério de raiva. A intenção surge como o desejo de que o último momento se pareça com algo que define os contornos do que ficou afinal para trás, mas sinceramente, sempre me pareceu a glorificação de uma fraqueza perfeitamente natural, porque humana, mas à qual se dá uma dimensão supostamente decente e especial, quando afinal não passa de uma brincadeira, por vezes cruel, com carvão já quase ardido de umj lado, e não raras vezes incandescente do outro.
A queca de despedida pode ser, no fundo, profundamente injusta, porque pode assentar num pedido que uma das partes não está em estado de recusar, o que muitas vezes é o que deveria fazer.
De todo em todo parece-me algo de uma natureza cruel, inútil, e sinceramente, não entendo essa psicose na qual tudo tem de ficar num suposto bom termo, quando afinal de contas o que fica é a tristeza do pós sexo e para alguns a irrecuperabilidade de um amor que já morreu, ou que simplesmente não voltará. Parece-me um espancamento adicional ao invisual, para ser um bocadito menos clichê.
Seja como for, não entendo.
O meu amigo Jorge, que conhece a minha demanda contestatária à religião organizada (que não a fé, entenda-se claramente ), enviou-me estas duas pérolas. Christopher Hitchens dá, de uma forma brilhante, informada e contundente, uma rabecada à religião organizada ( e os católicos que percam a mania da perseguição porque não é só o Vaticano, mas há muito a dizer do outro lado da barricada dos adoradores) e aos seus efeitos, que por natureza são inegáveis, mas que de alguma forma são constantemente mascarados por discursos de desdramatização. A religião é, efectivamente, a maior fonte de ódio inter-civilizacional do mundo moderno, e talvez desde sempre, e normalmente está assente em dogmas que constituem uma constrição inaceitável à capacidade de pensar e questionar, como se os valores humanos estivessem de alguma forma ligados a um estaticismo de dogmas e supostas moralidades construídas sob um estigma de culpa milenar.
Tenho imenso respeito pela fé e a crença pessoal, mas nenhum pela religião organizada, responsável por coisas como decapitações públicas, limpezas étnicas, assassinatos de jornalistas e artistas, condenações morais e acções de boicote à teoria da evolução das espécies em detrimento do criacionismo, e claro, está, disparates como a condenação do desgraçado do Harry Potter, Phillip Pullman e a sua saga “His Dark Materials” e mais recentemente, à série Californication (isto porque a série tem demasiado sexo e drogas, o que pode chocar, em detrimento da paixão de Cristo de Gibson, que é o maior ensaio de porrada gore disfarçado de mitologia religiosa, e que foi recomendado a crianças por alimárias como César das Neves e quejandos…).
Em muitas coisas significa uma negação da natureza humana, e como tal, não posso aceitar, nem nunca aceitarei senão num ecletismo muito cuidadoso. Não me chateia nada a ideia de querer bem ao próximo, pelo contrário, mas tal não pode derivar de regras consolidadas meramente pela tradição, pelo tempo, pelo instituído, e pior que tudo, pela imutabilidade das ideias, como se nada evoluísse em função da própria dinâmica da natureza.

Disclaimer: Atenção que não digo que não hajam acções positivas (mesmo a nível mundial) levadas a cabo por tais organizações. Existem muitas pessoas abnegadas, válidas e generosas nessas organizações, até abertas à mudança, mas sempre afogadas pela ala maioritária encerrada no próprio dogma. No entanto, esse valor e positividade não pode, de forma nenhuma, escamotear a enorme responsabilidade pelos danos que causam em coisas como liberdade pessoal e agregação da diversidade. Não há compensação que chegue para justificar muito do que se passa. E muito do que muitos vão permitindo sem sequer se questionarem, são cúmplices.


Deixo-vos, no entanto, com quem diz muito mais e de forma absolutamente mais completa, brilhante, e claro está, corajosa.

1. Palestra no Canadá -
http://www.youtube.com/watch?v=PY8fjFKAC5k


2. Programa do Bill Maher -
http://www.youtube.com/watch?v=RIZS7jIy608


quarta-feira, março 26, 2008

Californication é a série que vai ocupando o pouquíssimo tempo que tenho para tal desde o "House" (varri as três séries num ápice à custa de muito tempo de sono), e estou banzado. Além de ser brilhante e arriscadinha para cacete, produz um manancial de matérias acerca do comportamento da mulher "nova-angelina" que me admira que tenha chateado mais os conservadores do que as feministas.
Pode ser que a coisa se componha lá para o fim, mas Hank Moody é o epíteto de que os bons rapazes são o sustentáculo do onanismo no mundo.
E tanto mais que haverá a dizer...
Esperemos até que a série acabe.
People, close or not, took me for morose on frequent occasions, and somewhat of a nut job, which became practical. Sometimes it’s really good to left alone because of your behaviour. But most of the times it’s simply a generic and practical form of rejection. One becomes accustomed to it, I guess, and after all, loneliness is a multipart concept. It is never built by a single element.
And that is why it might become so difficult to kill.
“Temos uma experiência familiar da ordem, da constância, da perpétua renovação do mundo material que nos rodeia. Todas as suas partes são frágeis e transitórias, os seus elementos agitados e migratórios, todavia ele subsiste. Está unido por uma lei de permanencia e, embora sempre a morrer, renasce a cada instante. A dissolução apenas dá origem a novos modos de organização; uma morte gera mil vidas. Cada hora, ao chegar é apenas um testemunho de quão passageiro e, no entanto, quão seguro e quão certo é o grande todo. É como uma imagem nas águas, sempre a mesma, embora as águas fluam constantemente. O sol entra no ocaso para tornar a despontar; os dias são engolidos pela escuridão da noite para dela nascerem tão novos como se nunca tivessem findado. A Primavera transforma-se no Verão, e, pelo Verão e pelo Outono, é transformada em Inverno, ainda mais confiante pelo seu regresso último, para triunfar daquela sepultura para a qual resolutamente se apressou desde a sua primeira hora. Lamentamos as flores de Maio porque se destinam a murchar; mas sabemos que Maio um dia obterá a sua vitória sobre Novembro pela revolução daquele círculo solene que nunca se detém,que nos ensina no cume da nossa esperança a ser sempre sóbrios e no mais profundo da desolação a nunca desesperar.”

John Henry Newman - “The Second Spring”


(Um padre... quem me conhece, saberá o porquê da profunda ironia...)
As escolhas em torno do amor e da auto-identificação não são nem bonitas, nem fáceis. Não são epifanias, nem colares de flores conceptuais que fariam qualquer flatulência desaparecer num aroma mítico capaz de colocar costureiros famosos em guerra aberta pela fórmula. Não são instantes em que o mundo pára, ou nos quais os contornos da nossa personalidade se abrem como um mapa perfeitamente claro à prova de perguntas idiotas a autóctones que, como eu, nunca sabem a merda dos nomes das ruas dos locais onde moram. Não são flashes de sorte milenar assim qualficados por uma capacidade aturdida de julgar que o mundo parou ali para nos dar uma visão da simplicidade de todas as explicações de encaixe.
São apenas verdades, plenas de tudo o que as caracteriza, com a força de algo cuja identificação conceptual é impassível de debate subjectivo. São o que são, com a puta da dimensão que possuem, e levam tudo à frente.
O amor é muitas vezes é uma guerra fraticida entre aparentes siameses fundidos numa só esquizofrenia feita de tempo, vivência e confusão que tempo algum parece mascarar.
E no entanto, lá vamos nós. Vivos. Temos de ver e ouvir, pelo menos, e viva o velho, que sorte teremos se for só isso que a laranja mecânica em forma de coração nos permitir ver.
Mas que merda esta da beleza real da pureza de alguns conceitos.
Porra.

terça-feira, março 25, 2008

“I consider myself a handicapped person in that I used to believe that everyone, uh, that their intention in the world was to learn more, to do better, to seek out the truth, and the older I get, I realize that’s not the case with most people. They’re pretty content with the way things are and to just kind of live day by day.”
MJK

E dizer mais para quê...?
Há dias em que a lógica de inclusão pode deixar-nos simplesmente doidos e no entanto não deixamos de acolher outros, nem que seja para saber onde nos posicionamos, ou onde nos posicionam e aceitar o positivismo como forma de estabelecer objectivos.
Torna-se necessário perseguir essa lógica não niilista e por vezes claudicar sob o peso de um “pessimismo da mente” mas tendo em conta um claro “optimismo da vontade”(*).
(*) A partir da ideia de Antonio Gramsci

quinta-feira, março 20, 2008

Embora seja um reflexo estúpido, e a bem dizer, inútil, algumas pessoas (present company included) julgam que se consegue ter uma atitude conciliadora na maioria dos casos. Atitude onde se consegue levar a lógica da inclusão ao ponto de sublimar as positividades para que as negatividades e inconsistências inter pares simplesmente se esboroem, ou pelo menos não sejam impeditivas de nada. Claro que isto é pior que pregar ao deserto, e a ilusão de que não haja um elemento de umbiguismo ao analisar a situação de cada um perante aquilo que é o quotidiano escolhido acaba por ser remada em lago seco.
É uma estupidez porque a lógica da liberdade pessoas permite fazer essas escolhas, bem ou mal fundamentadas na análise do outro é certo, e as consequências são próprias de um posicionamento único na vida que cada um tem e relativamente às pequenas e grandes escolhas que fazem. Pode custar que a inclusão, ou exclusão, sejam produto da autonomia de cada um, mas é um mistério que nasce na infância e perdura, para alguns, durante uma vida inteira.
Mais complicado é ainda achar que as formas de experienciar paixões (porque as paixões em si são gostos, e esses são mesmo de cada um) são partilháveis, ou que aquilo que por vezes faz uma diferença crucial na nossa vida pode ser entendido como tal por terceiros. Pior ainda é tentar dissertar acerca dessa importância, mencionando os homens ou mulheres em que nos tornamos em consequência desses eventos.
Triste é ter de remeter ao silêncio ou ao eco. Ter de achar no isolamentos dos pequenos milagres do gosto e preferência, a impossibilidade da universalização. Sentir que, afinal de contas, o entusiasmo que quase nos rasgou ao meio é uma experiência estético/anímica profundamente solitária, tem duas vertentes. Acirra o isolamento do que deveria ser o mais importante, e torna manca a inclusão.
Dizem que a vida nunca cessa de nos surpreender. Mas é curioso, penosamente curioso acrescento, verificar que as experiências mais singulares de cada um e as motivações que geram as paixões que por sua vez deram origem a uma personalidade são os elementos dissociativos. E coisas às quais voltamos quando a vida aperta, ou quando tudo e mais o céu parecem acizentandos, encontram esses fenómenos, esses amores internos, são (quase) a única presença de escuta activa.
No fundo, quase ninguém quer saber o que alguém realmente é, ou que pode ser, e sobretudo, porque se quer continuar a sê-lo.
E no entanto há tanta gente dizer o contrário...
Porque será?

terça-feira, março 18, 2008

“ Aqui em baixo, portámo-nos bem ontem, queremo-nos portar bem amanhã, mas nunca nos portamos bem hoje.”


Lewis Carrol - ”Alice no outro lado do espelho”

segunda-feira, março 17, 2008

Como de resto já nos tem vindo a habituar, a Pixar promete muito com este Wall-E.
Counting the days...


Hal Hartley não reúne consensos, acho eu.
Mas este filme e esta idéia subjacente são suficientes passa assombrar um período inteiro de vida. A quase toda a gente que conheci até hoje, acrescento...


quinta-feira, março 13, 2008

Alguns têm tabaco, outros bebida, outros psicólogos...
Entre outras coisas, tenho isto.
Estranho conforto, diziam-me há tempos.



À prova de Estação...
Vem aí o Verão...




"Aqueles" Amigos não são sobrevivência. São vida, e daí a sua raridade.
Constância ou não, omnipresença ou ausência frequente, são o sustentáculo de uma escolha que tem de se fazer. Alguma dedicação às pessoas é difícil, exige trabalho e uma grande capacidade e persistência. Exige uma crença simples, um gosto por gostar e é muitas vezes esta a particularidade mais difícil de manter verificável ou operacional. O desejo talvez se mantenha, mas a paciência morre e com ela a capacidade de agir. O marasmo é uma espécie de fatiota semi-colorida de normalidade, e cedo ou tarde, insuportável.

Essas pessoas, de quem nós gostamos, às quais temos alguma capacidade de dizer isso mesmo, (e cuja cortesia nos é efectivamente retribuída), são afinal o produto de uma escolha extremamente simples. Existem quando os temos e quando sentimos a sua falta. Não nos dão escolha e só os podemos ignorar até um certo ponto. São perigosos. São inconstantes. São necessários. São vida. Quando desaparecem, prenunciam algumas mortes emocionais enquanto metafóricas. Quando estão, são quase tudo o que resta.



A visão que cada um tem do que podem ser os seus limites é necessáriamente variada. Relaciona-se com a capacidade de contenção e a ausência final dessa mesma capacidade.
De uma certa forma, talvez se prenda com a opinião final, a última grande tirada destinada áquelas poucas vezes em que numa situação de risco real, podemos dizer aquilo que remoemos durante tanto tempo. É o bradar daquelas palavras que em cada momento no qual faz algo que se julga justificável, figuram como uma figura de bastidores. Talvez um ponto, que segreda as deixas que eu já se está cansado de conhecer, e ganham finalmente o vento do discurso directo.
Se é certo que são mais as ocasiões em que temos de ouvir, há momentos em que temos definitivamente de dizer.
For my readhead.


O Pedro ouvira muitas vezes as discussões entre os donos de cães e gatos. Uma espécie de compita em que se exultavam as qualidades, mas muito timidamente se enunciavam os respectivos defeitos. Era uma escolha, pronto. Uma espécie de perfilhamento pelas ditas características intrínsecas de cada animal.

Nunca tivera dúvidas.
Cães.
Porquê? Os olhos, a língua pendente, mas sobretudo a capacidade de mostrar afecto, algo que a etologia acabava por provar. Achava fascinante que a suposta qualificação de irracionalidade nos animais não os impedisse de sentir estados de alma, de afeição, aparentemente inacessíveis para o funcionamento cerebral não complexo a essencialmente traduzido em instinto. O simples facto de um animal intuir reacções e desenvolver uma afeição deixava-o curioso sobre a incondicionalidade que sobrevinha. Curioso e rendido.

Saiu para a rua com o papel na mão, sentindo o calor tão normalmente divorciado da pouca luminosidade a que o dia se permitia. Cruzou algumas ruas, cumprimentou alguns vizinhos mais idosos que contornavam o seu ócio da melhor forma possível através de sorrisos em rostos tristes e sulcados por milhares de sóis. Vislumbrou a praça do Martim Moniz, polvilhada de sombras diurnas e alguns andares apressados. Junto à esquina do hotel uma mãe puxava uma criança em pranto pelo braço. Ao lado das bancas, dois homens de camisa desfraldada discutiam o início da época de futebol que se seguiria.

Por todo o lado, em maior ou menor numero, deambulavam cães. Em passadas tristes ou mais animadas, com a marca da fome e maus tratos, ou bem alimentados à custa das generosidades do lixo ou gentes das cidades. Deitados ao sol, quando o havia, ou simplesmente abrigados da chuva, piscando os olhos debaixo do gotejar, era uma realidade tão omnipresente como a percepção das pedras da calçada debaixo dos pés.

Já na Praça da Figueira, uma senhora afectada passeava um cão relativamente grande. Andava como se escolhesse as lajes do pavimento, ignorada pelo amigo que a puxava entusiasmado pela trela. Reparou que a mulher tinha um rosto bonito, mas absolutamente glacial. Como se um dos inúmeros manequins presentes das vitrinas da Rua dos Fanqueiros houvesse ganho vida e passeasse por ali. Por alguma razão que desconhecia, Pedro resolveu segui-la. Tinha ainda algum tempo, e o fim de semana na Baixa, ainda por cima sob a ameaça de chuva, costumava ser calmo.
Aquela mulher parecia muito deslocada naquele lugar, cheia de uma irrealidade que ele não conseguia explicar. A mulher puxava levemente pelo animal, obrigando-o a voltar ao caminho com a paciência de quem corrige o andar titubeante de um filho. O céu plúmbeo fazia com a roupa clara que trazia brilhasse. Uma espécie de foco ambulante no meio de um cinzento fosco e triste de uma cidade desesperada por sol. A afectação no andar era de tal forma evidente, que quando Pedro a viu sentar-se na pastelaria Suiça e pedir um café, os dedos encaracolaram numa pose digna de qualquer caricatura que ele pudesse imaginar. A boca falava quase sem afastar os lábios, e ele perguntava-se como seria possível articular discurso com os maxilares colados. A suposta contenção elegante da boca normalmente traduzia-se numa entoação estranha da linguagem. Como ouvir alguém com problemas respiratórios.

O empregado voltou com a chávena e colocou-a na mesa. Não existiu um obrigado ou qualquer aceno que o indicasse. Havia uma expressão de incómodo generalizado, como alguém que se vira apanhado num chiqueiro gigantesco e evitava tocar no que fosse. Olhou para a chávena e chamou o empregado. Sem olhar para ele exigiu supostamente a troca do mesmo. Pedro achou que seria provavelmente por estar sujo ou fendido num dos rebordos. Mal sabia ele que era pelo facto do recipiente estar demasiado quente, o que, segundo ela, a impedia de segurar no mesmo. Veio a nova chávena. Ela tornou a não olhar para o empregado ou sequer esboçar algum gesto de agradecimento.

Pedro começou a ficar impaciente. Preparava-se para recomeçar a andar quando a mulher olhou para o pequeno cão e o afagou. O rosto desfez-se e apareceu algo parecido com uma luz em meio a tanta cera endurecida e programada. Ela nunca teria noção dessa mudança, e isso acabou por desgostá-lo um pouco. Ou alegrá-lo. Não sabia bem.
Estava na hora de andar em frente.
Já tinha visto tudo.