(Ante Scriptum - post grandito - se quiser, e entendo perfeitamente que o faça, passe adiante. O programa recomeça dentro de momentos.)
Bem, em primeiro lugar devo dizer que este foi de facto um ano do caraças em filmes. O ultimo dos cinco escolhidos que me falta é justamente expiação, o qual, sem saber bem porquê, fui deixando para último lugar na cronologia de visionamento. Mas penso que já posso fazer a minha análise pessoal, uma vez que de entre os cinco, a não ser que algo me vá espantar absolutamente, deverá ocupar o lugar de lanterna vermelha.
O meu maior problema é, digamos assim, "classificá-los", precisamente porque este foi um ano de filmes tão intrinsecamente diferentes uns dos outros que cada um deles é de facto uma experiência em si mesmo, e em meu ver, conceptualmente divergente dos restantes, o que resulta numa riqueza de temporada cinematográfica de fazer salivar. Que grande ano este. Que grandes filmes. Que ausência de fórmulas! Como é que é possível que "No Country For Old Men" possa ter sido metido no mesmo saco do "Gladiador" (ou-filme-do-Esteves-Gaivota-situado-no-tempo-do império-romano-matas-me-a-família-mato-os-a-todos!!)? Bem, louvo a academia por um gesto e encolho os ombros com o outro. Mas fico imensamente feliz com um ano em que nem a comédia nem emoção mais selvagem tenham ficado de fora, tudo com olhares tremendamente inspirados.
Assim sendo:
MICHAEL CLAYTON
Para começar, grande Clooney. Grande interpretação. Uma performance cheia, mas tão cheia de uma contenção subtil que só os olhos e aquela máscara de estoicismo(?) poderiam fazer o filme. E julgo que é esse um dos grandes trunfos. O desencanto subtil com que o filme acomanha o trajecto de um Clooney em fato escuro mas muito longe do design e coolness de Ocean, mas perfeito no retrato de um ser humano apertado por todo o lado, e de quem aparentemente toda a gente depende. Há algo na subtileza do filme que faz lembrar uma situação onde qualquer pessoa poderia gritar, digamos o realizador, lançado naquilo que muitos justificariam um histronismo narrativo, e no entanto, pertante tudo o que acontece, alguém fala com a mesma ira e peso nas costas, mas sem evangelizar de forma alguma. Michael Clayton arrepia porque Tilda Swinton parece real, porque tudo aquilo parece real, especialmente o corte de relacionamentos e a terra de ninguém emocional onde tanta gente parece viver. A honestidade e simplicidade deste conto do facilitador conquistou-me. Vénia á elegância triste deste filme.
THERE WILL BE BLOOD
Que Daniel Day Lewis é um actor de outra galáxia, já era quase vox populi. Mas o homem lá se vai transcendendo, e Daniel Plainview é provavelmente a sua obra prima de composição. O homem petróleo, aparentemente negro, repelente mas necessário(?) como Plainview, que nos deixa o filme inteiro a tentar decidir se o detestamos, se o entendemos, ou se simplesmente nos rendemos à incapacidade natural de qualificar personagem tão rica e tenebrosa como esta, é o triunfo de Lewis, mas também da câmara suave e contida de Anderson. P.T. Anderson assina aqui aquele que poderá muito bem vir a ser um clássico. Um filme com uma tal voz própria e um registo de tal forma original que, tal e qual como a fabulosa cena final, deixa-nos hesitantes entre o horror, a compreensão, ou a total confusão perante o mundo em que vivemos, especialmente se nadarmos no charco das obsessões e as lógicas do sucesso. O sucesso a todo o preço é aqui retratado numa lógica impiedosamente clara, e no entanto, não há um grama de evangelização nos fotogramas. Há sim uma interpenetração de danos e hipocrisias, salvaguardadas por algo que parece ser amor paternal (mas que se vem a abater-se sob o peso da tal panóplia de obsessões), e que parece deixar todos os personagens emersos na confusão que se mostram incapazes de resolver. Planos maravilhosos ( por vezes lentos, concedo) e uma sensação de crescimento anormal, o sucesso que se devora e engorda a si mesmo, e tudo sob a magia de Lewis, absolutamente magistral. Os outros vão igualmente bem, mas o homem é de facto um scene stealer, e aqui, tirando o registo de Paul Dano (atenção a este rapazito... Já em Little Miss Sunshine o moço deu cartas, e sem falar uma carrada de tempo) , todos parecem desaparecer quando Lewis resolve falar com uma voz que me fez lembrar um registo distorcido e mimetizado da voz de Sean Connery.
Tem ainda, no meio de toda uma panóplia de negros, algumas cenas de hilariedade confessa. A cena da "conversão" de Plainview na Igreja merecia ser por si uma curta metragem. O fabuloso e desconcertante final, idem, algures entre a risada sincera e o horror.
Enfim, um filme de fôlego, enorme, pessoal, belo, horrendo e idiossincrático. Paul Thomas Anderson tirou um magnífico coelho da cartola.
JUNO
Desde "Hard Candy" que fiquei de olho em Ellen Page. Pequenita, de olhos penetrantes, e um talento assombroso, quer-me parecer que vai ser a estrela que Rachel Evan Hunter ainda não conseguiu ser, mesmo após o filme "Thirteen".
Mas associada a esta actriz está o magnífico argumento que conseguiu levar a estatueta para casa, e merecidamente. Diablo Cody, ex-sripper, tão tresloucada como a personagem que criou neste argumento (vejam uma entrevista dela e digam lá se não é a "Juno" com mais dez anos), escreveu uma pérola de ternura e emoção sem resvalar uma única vez que seja para o campo lastimável do delicodoce, do queridinho (argh). O humor é de primeira água, o pai e a madrasta são assombrosos e toda a narrativa se desenrola com uma inteligência e economia na abertura da barragem emocional que toca verdadeiramente.
Este argumento prova, mais uma vez, que se pode escrever sobre temas emocionais e íntimos com inteligência e sem fórmulas que não sejam honestidade e sentido de humor ao contar uma história. A premissa básica poderia ser banal, mas não há um instante de banalidade neste filme, começando pela banda sonora e acabando na forma real e humana como os protagonistas lidam com as emoções que os atrapalham, os fazem engasgar e dizer algumas coisas o melhor que sabem, e transmitir coisas que realmente sucedem ou que podemos facilmente reconhecer. E o humor é mesmo do melhor, especialmente nas cenas entre Juno e o casal "adoptivo", tudo filmado com um descaramento maravilhoso próprio da disfuncionalidade que em certa medida, talvez só exista na lógica comparativa entre vidas. Não é um claro "feel good movie", porque nada se cristaliza numa imobilidade bonitinha. Como diz o pai de Juno, o máximo que podemos fazer é ter alguma sorte, e depois logo se verá. E é mesmo assim.
Ellen Page e Diablo Cody, e claro, Jason Reitman criaram uma gema na linha de Miss Sunshine e quejandos. Mas de todos as tragicomédias indie, é talvez a minha preferida sendo claramente o filme que (subjectivamente) mais me tocou. Tenho assim muita dificuldade em compará-lo com o primeiro da lista, que é igualmente arrebatador, mas por outros motivos... ou talvez os mesmos?
NO COUNTRY FOR OLD MEN
E chegamos ao topo do pódio, (ok, talvez dividido com Juno). Há quem diga que este filme é premiado como filme do ano porque a academia resolveu mudar a lógica de reconhecimento. Por mim tudo bem, porque este ano premiou-se o génio, a originalidade e qualidade. E os Cohen, de quem sou fã de longa data ( Blood Simple e Brother Where Art Thou são material de revisitação frequente) tiraram a furiosa história de Cormac McCarthy da página e mostraram exactamente o que está no coração da mesma, desde os personagens ao subcontexto. Na linha de Blood Meridian e The Road, esta não é uma história de redenção ou luz, mas também não cai no niilismo absoluto. É apenas o retrato de um mundo onde infelizmente, o mal é real e não recai em qualquer lógica de influência ambiental, mas sim de uma génese interna. É também um conto negro acerca daqueles que são deixados à sua sorte, e dos que os predam. Uma história onde o mal-estar surge desde o primeiro segundo, e a violência nunca se torna uma torta na cara para inebriar. Surge natural a partir de certa altura, e a referência a Cigurh na comparação à peste bubónica parece particularmente feliz, já que ele se abate sobre as suas vítimas sem que muitas destas façam ideia do porquê da sua inamovibilidade assassina. Até o assassino com princípios rígidos acaba por fugir aos mesmos a certa altura.
É um filme sem música, o que aumenta a claustrofobia operada através da tensão ou a aridez implacável de tudo o que vai acontecendo ou do que se vai observando. A realização parece artesanal, como se cada plano tivesse sido superiormente escolhido para anteceder um outro. A fotografia é também muito boa, a qual, associada ao silêncio, faz com que a manta de incómodo se vá instalando como uma corrente eléctrica fraca que não nos deixa relaxar. E sinceramente, se há coisa que não me pareceu minimamente, é que o filme tenha sido de alguma forma lento ou mesmo parado.
É também um filme estranhamente belo. Como a desolaçao do deserto o conseguirá ser no crepúsculo.
E depois... que dizer do elenco que já não tenha sido dito.
Entreguem 50 Oscares a Bardem, porque ele os merece todos. Esta interpretação é das coisas mais espantosas que já vi. Reparem na expressão dos olhos do homem, caraças! Até parece que ele consegue controlar as próprias olheiras e os globos oculares raiados de sangue. A composição do personagem é arrepiante, e Xavier Bardem deixa sair um jorro de negro em cada aparição, roubando claramente as cenas. Só não as roubaria se as tivesse de partilhar com Tommy Lee Jones, que está igualmente soberbo. As linhas do rosto sulcado que parecem estar ao comando dele e contam em si mesmas uma história, o olhar, a voz, tudo pleno de uma emoção tão infectada mas ao mesmo tempo tão contida, que não nos deixa nunca fugir para a confortável noção de que eles estão só ali a fingir até que alguém grite "corta"!!!!
Enfim, uma obra prima.
E esperemos que o pai do Xerife Bell não esteja completamente certo...
Enfim, a academia resolveu premiar os miolos, conteúdo e a emoção real este ano.
Não ficava assim feliz desde que Peter Jackson ganhou com a sua obra prima do intransponível "Lord of The Rings"
Salvé!