ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, julho 18, 2008

"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982

(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

"FOME"

Parte III

(...)
"Quando tinha 22 anos, a velha máxima da excepção que confirma a regra quase se verificou. Quase. Surgiu a mulher mais complicada de comer que alguma vez conheci. E não porque a sua virtude estivesse cheia de ferrolhos. Ela era algo parecida comigo, e isso era um problema. Uma mulher lindíssima, mas cheia de cautelas e armas, multiplicando os problemas. Testámo-nos até à infinidade das nossas capacidades, laureando o conhecimento mútuo com provas de acesso a locais onde supostamente ninguém tinha acedido antes. Era um pouco como jogar ao cabo de guerra, mas ao contrário – ninguém puxava a corda, a competição estava na capacidade que cada um tinha de a ir largando cada vez mais. Era uma prova de curiosidade, medo e orgulho, mas apesar da ferocidade da contenda, a superioridade emocional dela acabou por ser o seu calcanhar de Aquiles. À custa de tanto evitar algo, a sua curiosidade sofreu uma mutação invulgar, e por isso mesmo, violenta.
Estou a ouvir um ruído estranho. Mas o sol ainda brilha. Não entendo, sinceramente. É demasiado cedo! Mas sei que me estou a enganar de qualquer forma. Seja de que forma for, será sempre demasiado cedo. E este não é um caso daqueles em que eu possa dizer que com o apetite dos outros posso eu bem. Das outras. Estou a tremer. Aterrado. Porque é que não fujo? Porque seria inútil. E já agora, para onde? Além disso, este falso senso de propósito é a única coisa que me está a impedir de brincar de outra forma com as facas da cozinha. Isso e o medo da dor, claro. A nobreza de espírito há muito que comprou um bilhete só de ida. Com dentes à porta, é salve-se quem puder.
Como dizia, as coisas complicaram-se.
O problema com os cínicos convictos que eu conheci até hoje é sempre o mesmo. Quando se enamoram não há qualquer espécie de filtro ou deferência. É uma doença que os come de dentro para fora, como um parasita transformador. Há quem diga realmente que o amor é sempre assim, mas como um descrente observador, tenho de discordar. Há gradações, e também pode haver saúde mental numa viagem de montanha russa. Ou então simplesmente não sei como é. Pensem nisso. Eu não tenho tempo agora.
A verdade é que ela simplesmente se deu a grandes trabalhos para infligir danos e negar o óbvio. Quando as coisas atingiram um ponto inimaginável para mim, e aparentemente também para ela, tudo se emaranhou. Acho que as pessoas julgam que coisas destas só ocorrem na mente febril de tipos que viram demasiados filmes estranhos, mas a verdade é que basta abrir um jornal, ouvir uma história mais negra do colega de trabalho da mesa ao lado, e chegamos à conclusão que coisas estranhas acontecem todos os dias. Escabrosas, feias, bonitas, improváveis. Mas ocorrem.
Talvez aquilo que ela tenha feito se enquadre nessa noção. A realidade acabou por comê-la, com a minha colaboração é certo, mas a verdade é que os dentes afiados nem sequer eram meus. Triturada pela antítese do que até então tinha sido a sua normalidade, ela acabou por tirar a própria vida. E talvez até tivesse uma beleza própria a noção da morte por amor. Só que para tipos como eu e ela, aquelas são noções que não passam da folha de papel, impressas numa espécie de código de conduta daqueles que se reconhecem e qualificam à distância como ementas de um mau restaurante. Ela acabou simplesmente por morrer de inanição. Pelo reconhecimento de algo que não era seu, que lhe mordia com a vontade de quem persegue sangue pelo cheiro, bem como a coloração e o efeito. Ela não morreu por amor, mas pela novidade, pela inadaptação do seu instinto de sobrevivência a algo que não era de todo obediente. Acho que ela tinha uma noção muito própria acerca da saciedade do amor. Arrisco até dizer que teria sido muito pior conviver com as mutações da paixão, conceito esse arredio de um modo de viver expectante, observador, e pleno de um controlo que afinal não existia. Ela culpava a sua refeição, a fonte de alimento daquela coisa desusada e invisível. Uma universal e mortal indigestão
Não é fácil - ainda que alguém como eu se pudesse por então à margem emocional de muita coisa - ser a causa de morte de algo ou alguém. Mesmo que o tiro destinado a nós seja na realidade endereçado a uma noção aleatória e combinada de estímulos, regados a mistério. Se pensarmos que os únicos poetas que entenderam minimamente o conceito ficaram malucos para além da resgatável, então a explicação apresenta-se a si mesma. É um maremoto, e quando ocorre, nem uma casca de noz nos dão. Somos completamente engolidos. Comidos. E venho sempre dar aqui, já viram.
É o medo. O céu já é mais púrpura que vermelho. A noite vem já ali, a passos rápidos, com botas de sete léguas.
Olho pela janela e vejo o causador do barulho precoce. Um “labrador” castanho-escuro, cheio de energia. Olha para mim através da janela e abana a cauda afectuosamente, baixando a orelhas em afeição motivada pelo desejo de brincadeira. Que sorte! Para ele é apenas a noite quente que se instala, acalmando um pouco o calor abrasador que se abate sobre o manto de pelo durante todo o dia.
Mas dizia… ah sim….
A partir daí as coisas descambaram.
Mentir, respirar e caminhar eram apenas reflexos. Acho sinceramente que nunca disse duas frases seguidas e feitas de honestidade a qualquer uma das mulheres que por alguma razão me despertaram o interesse e cobiça em cerca de dez anos. O momento agonizante do fim da sensualidade era uma espécie de carimbo gelado não da realidade, mas do que eu conseguia fazer da mesma. Era insuportável e ainda assim era necessário caminhar adiante. Não havia como controlar os acessos de adrenalina. Conseguir. Chegar lá, ter apenas a noção de que era capaz, daquilo que havia logrado. Resistências caídas por terra. Viciante como qualquer espécie de poder, por mais mesquinho que seja.
Com o passar do tempo as lágrimas e ressentimentos não passavam de gotas de chuva tépida em cima de um guarda-chuva de aço. É assustadora a facilidade com que me fui tornando imune, agora que penso nisso. Naquela altura era tudo um gozo, uma imensa montanha russa, uma infinda e íngreme pista de neve. Fui devorando. Comendo. Durante aquilo que me pareceu uma eternidade, embora fosse isso que talvez me esperasse.
Estou a passar a língua pelos dentes. E vejo que ainda estão planos. Não vai demorar muito mais tempo. O céu já está negro. O “labrador” está quase invisível agora, a não ser pela dentição esbranquiçada da qual pende a língua naquela respiração sempre ofegante. Ouvi um ruído. Algo que arranha o chão enquanto se arrasta um bocadinho. O som de unhas em madeira.
O cheiro aparece então. Alfazema e carne crua, parece-me, mas isso é porque a língua já sangra devido a um pequeno corte na boca. As comensais começam a aparecer. Nada de atrasos elegantes quando se tem fome.
Algo passou terrivelmente depressa. De uma parede para a outra. Num salto impossível. Tenho quase a certeza que está algo no chão, a não ser que este tenha ganho vida. Uma delas levanta-se. O rosto perfeito está ornamentado por uma boca escancarada da qual emergem duas presas afiadas o suficiente para cortar madeira como se fosse papelão velho. Os olhos são estranhamente meigos, langorosos.
Estou a escrever só com uma mão agora. Quase me custa quando aperto a minha mão e sinto a laringe esmagar-se num estalido desagradavelmente húmido. Ela não grita. Morre com os olhos em sofrimento surdo, mas de alguma forma triunfante. O sorriso que exibe é quase insuportável de contemplar.
Duas agulhas enormes no ombro. Sinto qualquer coisa explodir na articulação, e depois a dor impensável. Mais quatro, duas em cada perna, na zona dos gémeos. Depois a humidade, a sensação de algo dolorosamente molhado.
Os meus dentes emergiram. Mas já não servem de nada.
Outros dentes, na mão…esquerd
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A minha costla… n consgn..sangue…
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F….



Lisboa – Carnaxide - 16-02-2004

quinta-feira, julho 17, 2008

"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982


(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

"FOME"

Parte II

"Dizia eu que a noção de comer me é familiar.
E começou de forma feliz, no seio de uma família simpaticamente instalada na vida. Nasci depois de uma irmã que me foi instruindo o mais que pôde. Fê-lo de forma intermédia entre um certo desencanto e uma esperança mal ocultada, mas tudo pleno de eficácia. Designava-se muitas vezes como uma cínica auto-romantizada à força. Beneficiei da sua experiência, mas foi o que pude observar no seu ambiente que me foi nutrindo o espírito e possibilitou ter um percurso voraz junto das mulheres que fui conhecendo ao longo da vida.
Roubei o primeiro beijo a uma menina lindíssima, dois anos mais velha que eu. Na altura tinha oito, e recordo-me que prometi um enorme chocolate em troca daquele beijo. Quando ela abriu o papel amarrotado do Jubileu e encontrou apenas uma tira de tijolo embrulhada na prata, presenteou-me com uma expressão que fui vendo muitas vezes ao longo dos tempos. Um misto de ressentimento e surpresa real. Talvez a mesma fácies que apresenta a vítima de um furto. O despojamento surge sempre como injusto, embora para mim esta noção fosse inexistente. Afinal, e por muito que isso esteja nas traseiras da mente de muita gente, poucos pedirão desculpa ao bife quando o está a cortar, verdade? E se pedirem, não é ainda pior?
Ao ter demonstrado esta teoria à minha irmã pela 700ª vez, cerca de um mês antes dela comer o marido, esta disse-me simplesmente que as coisas balanceavam entre os motivos que nos levavam a fazer qualquer coisa e a forma como colocávamos esses motivos em prática. E retornando sempre ao conceito do comer, não era porque se debicava uma febra de porco que se concordava com a forma da matança. Ela recusava-se, entre outras coisas, a aceitar todas e quaisquer formas de obter um resultado final. Eu não. Especialmente no que dizia respeito às duas definições possíveis. Exactamente essas. Claro que as coisas iam bem mais longe, e nada é assim tão pragmático, mas o conceito diz a verdade sobre si mesmo, e eu cá… bem eu julgo que isso se passa relativamente a tudo e todos.
A minha adolescência deve ter andado à margem da maioria das definições que dela se fazem. Sendo um tipo bonito, provindo do seio de uma família com algum dinheiro, a maioria das angústias que definem o resto da nossa vida passaram-me um pouco ao lado.
A faculdade de amar existente na adolescência está, na minha modesta opinião, ligada a um conceito bipartido. A dificuldade e intangibilidade dos nossos objectos de desejo e a nossa própria competência enquanto seres de sedução. Simplificando, ama-se aquilo que parece mais distante de nós, mais complicado e intangível, e sofre-se porque nunca nos julgamos capazes, mesmo que nunca o admitamos. No fundo, uma função alimenta a outra e fornece o material de que a depressão adolescente é feita – a intencionalidade da impossibilidade. É o mais estúpido e o mais recorrente comportamento com que me deparei desde sempre. E o pior é que, em muitos casos, não se fica pelos anos do armário.
A minha situação privilegiada sempre me permitiu investigar com as mãos aquilo que os outros perguntavam à distância. Acho que para além dos meus atributos, que sejamos horrivelmente honestos, eram muitos, talvez fosse a minha estranha impassibilidade perante os movimentos à minha volta que me ia dando vantagem. Estava-me completamente borrifando se esta ou aquela rapariga me davam atenção, se os tipos fixes me chamavam para perto deles ou não. A verdade é que isso, aliado a tudo o resto que já mencionei, funcionavam como um boomerang no meu processo socializante.
A força de uma mentira depende da convicção com que a depositamos no outro e a sua credibilidade intrínseca. Posteriormente divide-se essa credibilidade em dois factores para que a mentira resulte. Ou tem de ser de tal forma absurda que ninguém teria a coragem de a mencionar como sendo um facto real, ou está de tal forma escorada numa credibilidade do senso comum que a argumentação corroborativa se assemelha a um colete à prova de bala. Vá lá, quantos de nós já não pensaram que aquilo que alguém nos dizia era tão quimérico que ninguém se atreveria a tentar vendê-lo a não ser que, que por alguma alta improbabilidade da vida, tivesse realmente acontecido? Creio que essa teoria pode designar-se precisamente por comer o outro. Ou comer o outro para depois o vir a comer. E foi nela que me tornei proficiente.
Durante a adolescência comi mais raparigas que a maioria das colónias de hormonas dessa altura se atreveria a imaginar. E digo-o nos mais variados sentidos e significados do conceito. A angústia incrementada pela ansiedade sexual era também uma miragem para mim, o que fazia do sonho movido a anseio a representação material de um vazio amoral ou melhor, emocionalmente isento.
A promessa de amor era algo que, dados os meus atributos, se reduzia à competência dos argumentos e determinação em plantar a dúvida. Além disso, a publicidade deste tipo de feitos não reverbera contra o autor dos mesmos. Por estranho e complicado que pareça, aplica-se aqui a mesma ideia que por exemplo se encontra nos meios de comunicação social. Qualquer publicidade é boa publicidade. E no fundo torna-se tudo uma espiral, uma caldeirada de influências, sentimentos contraditórios, orgulhos e curiosidades. Quanto mais cresce essa ideia de alguém que simplesmente não sucumbe, a quantidade de candidatos a abater o dragão acompanha esse incremento. É a velha história do rei da montanha, segundo a cartilha das regras da atracção.
Eu era simples e eficiente. A tudo o que tinha somava o alheamento, que desesperava a tendência que algumas pessoas têm para o exercício do poder em qualquer espécie de relacionamento. Algumas apaixonaram-se realmente. Outras tinham o pé preso na bola de ferro ferrugenta do orgulho. Existem mulheres que simplesmente não gostam de perder. Só isso. O ponto a que vão para o provar, por um lado, ou desmentir, por outro, ainda hoje me surpreende. Quando a luz desaparecer definitivamente, acho que terei todas as provas necessárias.
"
(...)

to be continued

terça-feira, julho 15, 2008

Vem aí o Dark Knight. O calor parece que resolveu dar as caras. O trabalho (felizmente) é muito porque apetece fazer muito. Estou prestes a retomar as histórias deixadas a meio num período conturbado e confuso.
Não estou de volta ao blog, como de resto seria natural, exceptuando pelo facto de o ter utilizado ultimamente para divulgar o meu trabalho, coleccionador advertido e consciente de rejeições editoriais.
Foram tempo de percepção, de visão relativa a muitas realidades e o encaixe de cada uma delas de formas, por vezes, tudo menos prazenteiras ou optimistas. Talvez seja a progressão do tempo e das lógicas, mas salvo raros e insistentes marcos cimentados cá no burgo mental, as coisas parecem-me mais feias, menos plenas de cores e brilhos.
E é cada vez mais arriscado e inútil transpor o que está encerrado, pelo simples facto de que na esmagadora maioria dos casos não passa de eco demasiado educado, feito de assentimentos simpáticos. A exposição criteriosa confunde-se com sobrevivência, e talvez não devesse ser assim. Sei lá.
Nada de novo a Oeste, no fundo.
Até já.
"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982
(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)
"FOME"

“Choose rather to punish your appetites than be punished by them. “

Tyruis Maximus

Dedicado a Richard Matheson e Stephen King
Parte I
"A noite está finalmente a chegar. Olho para as paredes e posso ver as sombras que se alongam. Os cantos começam a ficar escuros e os sons estão mais altos, como intrusos madrugadores dentro de uma casa silenciosa. O cheiro a erva seca denuncia a presença do Verão e as gotas de suor que secam na minha testa indicam uma trégua do sol ardente. Mas não há trégua de espécie alguma.

Não faço a mais pálida ideia da razão pela qual ainda me dou ao trabalho de martelar nestas teclas. Deveria, e estou, atente-se, aterrado. Lá fora o silêncio desaparecerá em breve. O crepúsculo belo e sanguíneo dará lugar à escuridão. E nesse momento, começará aquele que pode ser um final longo e arrastado. Cada noite é uma incógnita, e cada minuto um veículo de fugacidade que quase enlouquece.

É uma tendência estranha aquela que os resistentes têm para escrever ou deixar algum testemunho. Acho que a ficção que contactam leva-os a pensar que alguém surgirá das brumas do desespero e os salvará, fazendo daquele documento uma espécie de tratado da resistência e coragem. Claro que nesse enredo, a obra em questão também dá um rio de dinheiro considerável, mas isto já sou eu a ser um pouco mais cínico. E estou sem força, ou tempo para ser cínico, ou para ser qualquer outra coisa. Quando há medo, toda a sofisticação se reduz à insignificância que pode ou não ter. É um pouco como a ideia que se pode ter de amor real, carnívoro e intenso, aquele que não permite veleidades elegantes e espirituosas, tão próprias do cinismo. Aí somos todos ridículos, já lá dizia sempre o mesmo poeta. Mas ele já está morto, safo de tudo isto, e eu nunca soube muito acerca de amor. Soube muito acerca de devorar, de consumir, de ir em busca de cada pessoa que se colocava a jeito. E, por pura sorte, a ideia que mais me surgia na mente era comer.
Segundo um dicionário respeitado, o conceito de “comer” tem variadíssimos significados, como se pode ver. Oriundo na nossa língua do vocábulo Latino comedere, comer, além de ser um verbo transitivo, significa:
introduzir alimentos no estômago pela boca;
mastigar e engolir;
enganar;
ludibriar;
gastar em comida;
dissipar;
acreditar em mentiras;
absorver;
submergir;
carcomer;
corroer;
delir;
apanhar pancada;
possuir alguém sexualmente;
tomar alimento;
ter ou causar comichão;
amofinar-se;
afligir-se;
consumir-se;
mortificar-se;
comida;
alimento;
iguarias;
cada uma das refeições do dia.
— com os olhos: observar com desejo; invejar; cobiçar;
— e calar: calar-se; não reagir.

Não necessitaria de olhar para esta lista para saber que comer significa todas estas coisas. Mas algumas foram mais assíduas no meu passado que outras, embora aquelas que vejam sublinhadas sejam parte dessa história.
Ouvi algo a restolhar lá fora. Restam, no máximo, mais umas três horas. Tenho de me apressar, por isso vamos ao que interessa.
As experiências científicas do último ano culminaram num erro que trouxe uma espécie de retorno perverso à noção de isolamento de um dos géneros humanos. Ou seja, a história daquele lugar onde só havia um homem, onde os animais falavam e ninguém comia carne. Pois, o que temos hoje em dia é uma coisa um pouco diferente. Tirando eu, e julgo que talvez haja para aí mais alguns perdidos, sei lá, só há mulheres. E desenvolveram um hábito terrível. Abreviando a minha ignorância, eis o que sucedeu. Devido a uma qualquer asneira ao nível da biotecnologia, alguém soltou um bichinho invisível que enfraquece os portadores de maiores níveis de testosterona, ou seja, nós, os homens, e dá uns apetites estranhos aos restantes, ou seja, elas. E elas, simplesmente, querem comer. Eu contar-vos-ia a história toda, mas sinceramente, além de não ter tempo, quem é que a ia ler de qualquer maneira? Será que elas conseguem ler? Quero dizer, parecem racionais o suficiente, mas são as hormonas, o cheiro. Quando a noite surge, os problemas começam. E vão começar.
Mas adiante.
(...)
to be continued

quinta-feira, julho 10, 2008


Uma história em dez partes, dez mentes, dez visões.
Este é o link para o regulamento, - http://vitaminay.blogspot.com/2008/05/desafio.html - e conforme o estipulado, eis a minha contribuição, com muitos agradecimentos pelo voto de confiança dado pela excelsa Helena. :)
Aquela manhã de nevoeiro disperso estava a acordar aos poucos. Tal como aqueles olhos que iam abrindo de mansinho, a medo, e ficaram focados na janela gigante que dava para a praceta onde permanecia uma estátua de um qualquer marquês. Pôs-se de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, e levantou um pouco a cabeça. Torceu todo o corpo para a esquerda e só então conseguiu lembrar-se do que tinha acontecido. (ÿpslon, vitaminaY)
A memória chegava-lhe em imagens difusas, ele sabia que situação onde se encontrava era mais do que uma manhã embaraçosa depois de uma noite que não quis passar sozinho. a cada expiração, a dor lembra-lhe da posição do seu corpo contorcido... os olhos a custo procuravam alguma familiaridade naquele quarto-jaula, param no preciso instante em que o pé toca em algo, foca uma mulher, Leonor, uma imagem difusa da noite anterior, também atada, contorcida, de olhos fechados, a começar a murmurar repetidamente…- “como fomos capazes…como fomos capazes…”(indigente andrajoso, indigente andrajoso)
As lágrimas não demoraram a jorrar-lhe dos olhos. a disposição de todos os objectos naquele quarto fazia prova do caos da noite anterior: o cinzeiro que não chegava para tantas beatas, as lâminas de barbear usadas e dispostas numa fila metodicamente organizada, os restos do sangue debaixo do abajour carcomido pelo cortejo de lâmpadas acesas nos últimos dias. Ele tentava aligeirar o nó que feria os seus pulsos em vão e as cordas marcavam cada vez mais as veias onde o sangue corria descontroladamente. Cheio de culpa e náuseas, ele não conseguia parar de imaginar como seria possuí-la neste cenário desolador. Uma e mais outra vez.(M., borboletas na barriga)
Foi a última imagem nítida que teve. Se à nitidez, como ao branco para os esquimós, se podem atribuir inúmeras tonalidades, aquela com que se via a tomar de assalto o corpo quase sem vida que se punha a jeito pela proximidade serviu perfeitamente de passagem para o espaço onde nos entretemos enquanto estamos no vai não vai para ir fazer companhia a morfeu. Esse espaço em que o inconsciente começa a tomar conta da vida regrada e, durante umas horas, nos permite o voo livre, foi onde tudo começou a ficar mais claro. O zapping mental que o assolou, os fotogramas em flashes acelerados temperados com a sensação típica da maceração dos vapores alcoólicos e químicos que ainda lhe inundavam a maior parte do cérebro, conduziu-o a uma inesperada epifania. "preciso de sair já daqui"- pensou. não teve tempo de equacionar a fuga. Com um som estridente de grilhões, abriu-se a porta do quarto...(jc, numb)
..., e conseguiu vislumbrar uma sombra. Parecia tenebrosa. Por outro lado, medonhamente familiar. Conseguindo ultrapassar a dificuldade de focar em contraluz, apercebe-se e grita arregalando os olhos em pedido de auxílio e susto:- Pai! - gritou ele, visivelmente assustado e esmagado com o tráfico de flashbacks que estavam a vir à memória, sentido ter cometido o erro fatal, sem se lembrar concretamente a razão de estar ali no meio daquele turbilhão de recordações rápidas.- Pai, as correntes não! Por favor, pai! Não, pai! - entre gritos casados com expulsão trágica de cuspo descontrolado no discurso de misericórdia de quem sente o maior aperto da vida - Pai, eu não queria ter estado com a Leonor, pai - justifica-se ele, num tom de claro desespero, acompanhado de início de choro, a decorrer para a compulsividade.- Eu não sei o que fazer mais de ti, meu filho..., filho?! - suspirando o homem forte e alto, demonstrando uma calvíce digna dos 54 anos - nem isso te posso chamar. Por isso trago-te aqui alguém que não sabes quem é, mas que te conhece muito bem.(Amélia, Bichísses em Sério)
Queria não olhar para aquela figura que tinha assomado à porta. Não queria crer que o meu pai a tinha trazido até ali.- Não! Ela não! – murmurava entre soluços sentidos e sofridos, fruto da agonia ímpar que estava a sentir .-Ela nunca me quis! Porquê agora?- Sussurava segurando a cabeça com as mãos.Os dedos crispados arrancavam pequenos fios de cabelo, de onde escorriam gotas de um suor inundado pelo sofrimento.Tudo era irreal à sua volta, a insanidade tomava conta do seu ser. Contorcia-se na tentativa de se libertar daquele estado de impotência máxima, em que os seus movimentos eram tolhidos pela cordas que o aprisionavam violentamente.-Leonor! Não me deixes aqui sozinho! – balbuciava enquanto olhava para o corpo inerte que jazia ao seu lado.De repente um som estridente chamou-o à realidade, e um grito saíu-lhe da garganta, seca e dilacerada pela dor:- Cobardes! (Ju, ascoisasqueuacho)
… Sempre foste um cobardolas! Olha para mim! Olha-me nos olhos, meu cabrão de merda! Foi para isto? Responde-me, foi para isto?, vociferava Luís, cujos olhos raiados de revolta enfrentavam, agora, os de seu pai. Este, impávido, fechou silenciosamente a porta deixando quem houvera trazido dentro daquele quarto… (M&M, A Amante do Sr. Eng.º)
Nao era a sua mae. Ela havia morrido ha muitos anos, quando ele ainda era pequeno. Esteve muito tempo doente. Sem nunca se saber o porque. Seria da falta de amor? Seria da pancada que levava daquele com quem se casara? Seria profunda tristeza? Quem o pai trouxera era a avo. Aquela de quem Luis tanto gostara mas que preferira sempre olhar para o lado. De certa forma, ela abandonara-o e Luis nunca se sentira confortavel com isso. - Leva-a daqui! Ela e nojenta! - gritava Luis com uma forca vinda das entranhas. - Eu disse-te que ele nao me ia querer aqui - disse aquela mulher alta, pintada, de cabelo grisalho longo, apanhado - Vamos embora daqui. Eu nao mereco isto.(Angelo, Angelo no pais das maravilhas)
Acordou lavado num suor que lhe colava o corpo aos lençóis brancos, e percebeu que tudo não passara de um pesadelo. Um pesadelo ridículo e sem fundamento como tantos que tinha tido quando era criança.Olhou-se ao espelho, e ali na penumbra, podia jurar que tinha visto o rapaz do espelho esticar o braço, tocar-lhe no ombro e dizer em tom condescendente – “és sempre o mesmo!”Se o contasse, iam julgá-lo louco!Definitivamente não era um assunto a falar com a Leonor.A Leonor?Lembrou-se de repente do papel que tinha encontrado na tarde anterior, que era amarelo e tinha anotações escritas à pressa pela letra dela. Anotações com horários de partidas e chegadas, e até com alguns preços.Agora que caía em si pensava que realmente Leonor tinha partido, e que não tinha havido sequer oportunidade para uma despedida.Para onde teria ela ido? (Helena - http://rosa-rosae-rosarum.blogspot.com/2008_06_01_archive.html )
A Leonor era uma combinação de morte. Morte de medos, de cautelas, de bom senso, de tudo quanto significasse equilíbrio para o objecto de desejo que ela escolhesse. A Leonor tinha dentes, eles mordiam e as chagas resultantes eram explicadas com uma sinceridade tão desarmante quanto afiada. A Leonor não queria saber, ou queria saber quando queria. Falava de liberdade e exalava esse perfume mesmo quando os abraços eram nus. Era como tocar no num cheiro trazido pelo vento. E foi assim que ela desapareceu. Envolta na mesma lógica de sonho desconfortável, simplesmente foi. Foi na naturalidade que a caracterizava, como o sabor a excitação depois de um sonho vívido, quase como que deixando saudades de algo que provavelmente nunca existiu. (Stephen King - http://estacoesdiferentes.blogspot.com )
E assim finda a experiência "decapartida".
Obrigado pela oportunidade!
E uma vez que me foi pedido, dou-lhe o seguinte Título - "Despertares..."
"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982

(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

PART III
"We entered her apartment. It smelled of old books and aromatic herbs. The floor continued its shrieks, and there were very tall windows cutting through the walls.
She lighted up a red blood candle, and said nothing as she threw her tongue down my throat and disposed of my clothing. My blood boiled in a flash and we didn’t even make it to the bed. We fucked each other’s brains out in a way I never experienced in my short and boring life. She simply let go of everything and held nothing back, at far as her libido was concerned.
I had never given the deserved importance to a voice until that moment. The silence, apart from the sounds indicating pleasure, was complete. We didn’t share one word, and that confused me at some point. After the orgasm, in that necessary and sadistic pause that nature gave to some men, things would come out of the pleasure delirium country, and they were bound to get strange and awkward. Someone’s going down on you and you simply say nothing? I mean, how it the hell are going to spill cum of someone’s sheets and not say a word to them? I know it seems small stuff, but hell, it started to scare me a little bit. Men get scared of women, and especially around situations that totally diverge from what is (wrongfully, I know) deemed normal. And since she was the one who was controlling things, the discomfort increased.

She smiled at me during intercourse, and oral sex, and everything you can imagine. That same bizarre smile that felt like a bitter almond amongst the most perfect cream topped ice cream. Her eyes got bigger, and I saw myself going round and round in my head, feeling every inch of her skin and warmth, and still something inside me just wouldn’t shut down. Like an insistent fire alarm, away from the flames that might consume it.
At some time, like all women are capable of, (at least those who I honestly think that are willing to enjoy and understand sex – it’s real power, make no mistake about it…), she decided that it was time for me to cum, and her thighs gripped my waste as she rode harder. Her hair started to fly around the room, and her voice came out in a long and tone variable moan.
In about two seconds my genitals warned my brain that final impact was near, and closing fast. Something like a hot avalanche climbing the mountain started to brew in my crotch, and in a few seconds, hell was broken loose, and all was quiet again. Orgasms are the shortest and most effective previews of and idea or threat of heaven, if there is one. That’s how I see them, I mean. But surely you’ve heard about it. Or have done it, I hope.
As I tried to catch my breath, I sensed a terrible pain on the right side of my body, and my skin felt wet. I looked and saw that something’s handle was coming out of my ribs. Blood poured out into the floor like a fluid made out of dark melted roses.
I looked up and she was standing. There was another smile on her face this time. And within the pain and horror, I guess I saw a compassionated smile. Like the ones your mother gives you when she realizes that you are really coming down with something.
She was naked, and she was smiling, and she was holding a large bladed knife on her right hand. Her eyes were bloodshot, but the smile never disappeared. I was screaming now, and kept on screaming as she slowly started to cut my throat. Her smile endured, and never shifted.
I was still screaming when my friend grabbed my forearm. But apparently nobody heard a thing. I was sweating, and drops fell down my forehead and neck, reaching my upper back. I couldn’t see, but the itching in my eyes told me that they were filled with little crooked red lines, as if I emerged from a four hour crying session.
He asked me if I was okay, because I looked like Hamlet after a chat with his dad. I nodded, lying through my teeth. Somehow I was still looking at her, sitting across the table. She was smiling. A wonderfully warm and slightly perverted grin as she looked at me.
The dinner ended shortly after that. I reached for the street and filled my lungs with the night air. It felt very good. The lights and people walking the streets filled me with relief, like a bed side reading light just after a long nightmare.
They all exited the restaurant, said goodbye to Mr. António, a very nice man, with a waste the size of a circus tent, and flocked around the bar doors. She found me and I got the first look without that smile. It was a pleased gawk, that I didn’t quite understand. She seemed as relieved as I was.
We didn’t hook up that night. I was baffled and scared, and so tired that it seemed as if I had done the marathon or bare feet.
I reached home and fell on the bed, completely worn-out. As expected, I had a lot of bad dreams, but somehow I never woke up. My mind put up a fight against my intents to wake up. And when I did, the sun was already half way through its daily journey in a summer’s day.
My birthday friend called me around two o’clock, and told me that my other friend, the female smiling one, had asked about me. I dismissed his intentions to play the Cupid in ten seconds, and somehow he understood my feelings on the matter. Ana had told him that almost all the other pretenders had done the same thing. It hit me as something too weird to be filed as coincidence in that suspicious and fearful region of my brain. But since I never believed in love at first site, I never got the chance to miss the imaginary touch of someone who had loved and killed me wearing the same smile. Time took it away like calm sea waves slowly destroy a sand castle, and it became one of those strange memories that you recall in a late night chat with really close friends.

The love of my life called me two years after that, and it took me a while to recall who she was. She told me her name and a distant bell start to toll. The sound brought me fear and also a strange curiosity. When she asked if we could get a cup of coffee I didn’t even hesitate, and even if I live to be one hundred years old I’ll never find out why. It seemed stupid to ignore such a strong premonition, or bad feeling to be honest, but I did it anyway. Like those kids that finally convince themselves that the noise in the closet has nothing to do with the eerie shadows that sometimes appeared on the bedroom walls, I decided to meet fear head on.
We met, talked, and kept doing so for quite some time. We fell in love in exactly one month, give or take. Her smile was every bit as unusual as I recalled it, but this time her voice joined the party. She spoke like she stared. A bright sense of humour, joined by good hearted sarcasm and a sexual tension that she could master like no one I ever met. She looked beautiful to me, and most times she said a lot of right things.
Nevertheless, and even after a considerable sum of years, I guess that she has an inner place that’s off limits to everyone, even me. I perceived her world as a foundation to that inexplicable weirdness, which she never lost, and will never loose. You can argue that shit like that happens to everyone. Every person that has loved another in any possible way will tell you that he or she thinks that they will never completely know theirs lovers. But this was different. With her, it was like something securely locked, and with no chance of sharing.
I had a pretty good guess two years ago, just before we moved in together. I was doing research for a new novel, ( Not that I have published anything yet, but some kind of dumb stubbornness can be almost inspiring I guess), and came across some old newspapers from the a public library’s archives. It was a small piece, telling the sad fate of a young man who was found dead with his throat cut open and completely naked.
And then I realised one thing. Hundreds of things, actually, but this one stuck to my brain like a bug on fly paper. It wriggled ferociously, but remained there nonetheless.
The love of our lives creates the illusion of attainable perfection. It appears as a demonstration of our ability to feel something for another human being. It is illogic in some of its elements, and pretty explainable in others. It dwells in fear and risk, and casts a shadow of impending death, for love might be nurtured, but its health is not always related to the care it receives.
I think that the love of our lives saves us. It’s about the most heard cliché to ever leave the mouth of someone truly in love, and generally they’re right. Well, I know it is wishful thinking most of the time, but isn't it like that with almost anything that's important?
But mine…
Oh well. It’s complicated, maybe your most wild garden variety paranoia. The one that gets you a membership card that grants access to a place where people drool, see things and walk trough a tunnel where generally there in no way out.
But still… I am convinced. And the reason why I didn’t investigate further becomes obvious, I guess.
The love of my live didn’t just save me.
She spared me."


The End

Carnaxide -19-02-2004


terça-feira, julho 01, 2008

"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982


(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

Part II

"A lot of our mutual friends were there, and also a lot of people that I never saw, which was good. Generally we never get to know a lot of new people in our daily routine, so that scenario suited me just fine. And for someone without any kind of relationship for almost a year, give or take, it seemed even better. It’s hard to know women in a big town like Lisbon, and it’s no use making a big effort. It all comes down to chance and wishful thinking.
It’s common place to say that the love of our life emerges like Poseidon out of the sea. We are supposed to feel a big bang, and all sorts of theories about love at first site and how the flirt was always different with that person are created. Late night drunk stories are created, and that’s one of the first things that grandchildren hear when they stop long enough to hear a story. Well, I got nothing of the sort. I noticed a brunette with dark eyes on the other side of the table, and find myself surprised by the fact that she was smiling at me. Later on that smile would prove to be the reason for every third of my written words , but at that time it just seemed… different. As if she poured light from her face. There was something wild in her gaze tough. More strange than wild I guess, but disquieting nonetheless.

The chattering went as usual in such parties. We giggled, some risked a political discussion that turned a bit sour five minutes later, almost every single person flirted, or at least looked around to see if there was any chance of enticement. Experience tells me that although we put great hopes in such get-togethers, generally we wind up taking what’s most available. It’s kind of a previous investigation. We snoop around and find a scent. From there on we never know where that lead will take us, and the games begin.
Suddenly the noise seems too loud. Crowds can do that to me, somehow. Throw me in a state of absence within the confusion, like I’m playing a cameo role. Especially when I’m focused on something that sparks and gets my attention.
We kept on exchanging looks, lingering in our respective seats, chatting with other people. Our eyes, however, always returned to a strategic point. And she smiled. A little crooked, but smart and shinny smile. She had a quiet way about herself, al least apparently, but I wondered what was hidden inside that unruffled poise. I guess everyone feels that when they’re about to meet someone they begin to fancy, but it seemed somehow different this time. When she got up and went to the bathroom, I stared at her breasts, and hoped she didn’t notice. My birthday friend slapped me in the back and told me that the girl in question was unattached, but apparently wasn’t all there from time to the time. He called her odd, but I could sense in his words that she was probably a nut case, which explained the intensity and mixed nature of that wild smiling gaze. She was a classic semi nut case, and that somehow only allured me to go a little further. She seemed to have something to say, and also very nice breasts. That was my first mental picture of her nakedness. Many more would eventually follow, with the most variety of results you can imagine. But let’s not go there.

The party went on and soon it was over. We decided to go to a club and dance for a while. We continued our eye contact, but no word was spoken for quite sometime. I thought we chose to do it that way, but that wasn’t really true. I later found out that we had no choice, at least as far as beginnings are concerned.
That’s why we approached each other on the dance floor, tried to do something that remotely resembled care free dancing, and decided to toss away words. We had a few drinks and left the place. My birthday friend told me she had a screw loose, but I didn’t care. Love, or what stands for a beginning of the concept, or any of it’s bigger or lesser forms, is defined by the embrace shared by the lack of complete logic and fearlessness. I never believed, as I said, in the so called love at first site. I guess I’m still trying to determine if it exists at a third or a tenth sight, or at all. But the freedom to feel is exactly that. We each give our definition to something so omnipresent, and usually ( and luckily) it’s incomplete. At that time I didn’t know what was happening, but I had no need for that enlightenment. Some things are best left unsaid, especially if you are not sure of what you’re doing.
We went to her place. She lived alone in a lovely old building, lost inside the Bairro Alto. The stairs creaked bellow my feet, and seemed to complain about that kind commotion at four a.m. The elevator had stop working the week before, so we climbed the five floors in a hasty pace. Her silence started to get to me, but the excitement was too good to be questioned, even if I had no idea of where I was going."
(to be continued)

quinta-feira, junho 26, 2008

Amigos, terão certamente muito mais que fazer, mas para as poucas almas que têm a gentileza de ir lendo o que aqui escrevinho, queria apenas referir que tenho andado, e continuarei, numa roda vida de trabalho, que implica o arranque de um projecto e simplesmente exaure todas as reservas de tempo que tenho.

Nessa óptica, continuarei, por ora, apenas a divulgar mais alguns contos da colectânea que escrevi, adiantando apenas que recebi no outro dia mais uma carta simpática (e esperada diga-se) de rejeição.

Mas ainda assim, não me envergonho destas histórias. Gosto delas. Nasceram do que eu considero fundamental para mim - honestidade e simples desejo de contar uma história por entre coisas que me atormentam e levam a que queira falar sobre elas.

Um grande bem-haja para todos.

Até já.

"It is the Tale, not he who tells it."

Stephen King - 1982

(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

"O SORRISO"

“Do you want me to tell you something really subversive? Love is everything it's cracked up to be. That's why people are so cynical about it. It really is worth fighting for, being brave for, risking everything for. And the trouble is, if you don't risk anything, you risk even more.”
– Erika Jong – 1942-(…)

Part I

"The love of our lives, if we are allowed to have one, walks around in real people’s land. She wears shoes, although we sense that she probably steps on the floor in a light and tender way. Breathes, exhaling a little cloud of vapour if the weather is cold, and makes us think some unspeakable things about her mouth. Her body occupies space, even if we think that she might cross the gaps between rain drops. She touches things that have no life, but although we think that those things will somehow come alive, they stay the same way. Be that a rock wall or a dead tree.
On the other hand, if we are cynical enough, we imagine that the love of our lives is simply a combination of factors in a given time. In those cases, she becomes the incarnation of all the items on that imaginary and improbable list, and if one is true to one’s scornful doctrine, we soon find that the perfection that we never wanted does not exist anyway. And it is sad to accept a certain kind of mute and pungent truth, we doubt is in fact the main course for the soul’s everyday life.
The story of the love of my life is somehow peculiar because it happened to me. Or it might be peculiar by the nature of the facts, I don’t know. We know that love stories from other people generally sound like those dreaded slide sessions from someone’s vacation. Given enough time and I find myself trying not to puke after 50 pictures of people standing beside monuments and natural wonders, but if the illustration is followed by a good story, we cling on to it. I know I do, and I heard some love stories that were in fact gripping.
It all began in one of those dull weekends where the weather is trapped between clouds that give no rain and a sun that allows no trips to the beach. We call it helmet weather, because the sky just seems to shut us in. I'd just begun to work on a new book, although none of my previous three had seen the light on a library or bookstore shelf. I recognize that writing was not a choice, and became an exercise in stubbornness. I just thought I had something to say even if I didn’t possess that warped talent that allows you to say whatever the main literary tendency thinks is valid. I just had stories on my head, looked around and saw stuff I didn’t like, on one hand, and stuff that made want to keep on breathing, in the other.
A friend called me that afternoon, and he asked if I would like to have dinner with him and some of his friends. He was one of those friends that persistently tries to hook you up with someone, even if in their good hearted nature, the match is improbable, if not impossible. I hesitated because I thought about working on my novel later on, but since there was no publisher waiting for my work to be done, ( ha! Like there’s a chance that there ever will be…) I thought what the hell, and went along.

I arrived at the restaurant a little early, so I walked around the town, watching the sun set as it drew funny pictures on the recently cleaned buildings of the Rossio Square. It was midsummer, and the heat didn’t back down much, even at dusk. People were more undressed than ever. Women were wearing those kind of clothes ruthlessly effective when it came to catch one’s eye. There were people on the street and the city was alive, brewing with the thirst for summer’s enchantments. There were a lot of tourists, speaking in every language you might think of. The beggars and people who sold all kind of useless junk just rallied and emerged for their night shift. Cars went by like animals roaring against the intense heat. Sweating was not an option, but rather inevitability in progress.

I walked around and gazed at my watch. It was time to go.


It was a beautiful little Italian place in Artilharia 1, and there he was, embracing his girlfriend. Ana was a tall, beautiful woman, with sharp eyes that never smiled with the rest of the face. She danced like a disco freak, and was prone to small cruelty, but I guess she really liked him, and that was enough for me. She apparently liked me also. I never understood why, since I got into a confrontation with her in a regular basis, and always stood my ground, even if the argument got ugly. I guess some people cant live without new grounds to conquer, even if those grounds are a simple resistance to an otherwise effective charm or sex appeal. Like many women I knew, she simply cared about those who seemed to care less about her. With the exception of my friend, or so I wish to believe. Or chose to. Whatever.

(to be continued)








quarta-feira, junho 25, 2008

A mermaid found a swimming lad,
Picked him for her own,
Pressed her body to his body,
Laughed; and plunging down
Forgot in cruel happiness
That even lovers drown
William Yeats


Volto a este poema por três razões:

Porque o acho de uma beleza absoluta;

Porque o tempo que tenho nesta fase só isto permite;

E porque é uma completa verdade, universalizável em mais contextos e pessoas do que gostaria admitir ou conhecer...

segunda-feira, junho 23, 2008

O problema com os vendavais é a sua já renomadíssima imprevibilidade.
E quando estamos no epicentro de toda a comoção confusa, por vezes leva tempo a sair.
Mas como dizia Mark Twain, os boatos sobre a minha morte foram um tanto exagerados.
See you in a little while...



sexta-feira, junho 13, 2008

"It is the Tale, not he who tells it." - Parte III
S King 1982

"Branca"

Parte 4




" Senti-me inexplicavelmente rendido. Olhava para aquela mulher e nada mais havia que uma erupção infinda de um sentimento nascido havia passado já mais de quinze anos.

Tinha onze anos e o corpo ameaçava crescer a qualquer momento. O cabelo era feito de um castanho luzidio e tinha um sorriso alvo livre de qualquer marca de vida. Eu tinha dez anos e senti algo perfeitamente inaudito. Algo que não tinha entrada no mundo masculino da pré-puberdade. O afloramento daquilo que é reconhecido como o amor de rapazinho. O chamamento nada subtil das feromonas, (que curiosamente já se vendem em embalagens como catalizador de atracção sexual à dose). A idealização e reconhecimento da perfeição de algo. A primeira e talvez a única real noção de amor que temos durante a vida inteira. Contra todas as expectativas, a rapariga perfeita viria a partilhar um beijo comigo. Um beijo algo tímido, pouco mais que um roçar de lábios. Até hoje, não tinha qualquer noção de algo remotamente parecido. Aquele beijo foi o despoletar da mais intensa e excruciante rendição de sentimentos que viria durante a vida inteira, até aquele momento. Tudo isto era misturado com uma ganância e apetite sexual que causava dor física e por alguma razão inexplicável, aquela sensação achava-se multiplicada milhares de vezes. Algo tão arrasador que tolhia-me cada movimento.

E agora acho-me aqui.

Estou nu, e vejo que aquela mulher eras tu. A minha cliente eras tu. E és absolutamente perfeita.

E a cada segundo o cheiro vai-me deixando mais dormente e mais concentrado na tua perfeição. Doem-me os pulsos. Olho para eles e estão com uma coloração roxa que não faz adivinhar nada de bom. Mas esqueço tudo. As imagens da piscina não importam nada. Já nem me lembro bem delas. As da máquina fotográfica são ainda mais enevoadas. O teu contorno parece esbater tudo até ao imperceptível.

O sabor dos teus beijos, o sexo, parece tudo uma imensa primeira vez de um primeiro toque onde tudo é perfeito e tudo se rende. É insuportável, é maravilhoso. Apetece-me morrer e cristalizar o momento.

A tua língua sai da boca ocasionalmente, lambendo o sorriso. Tem um formato estranho, parece bífida. Mas é obvio que o delírio de estar aqui contigo é de tal forma avassalador que qualquer alucinação é sustentável. Sorris e só vejo isso mesmo. Dói-me a visão e arrasa-me o toque em sequência. As luzes do dia ficam lá fora, mas aqui há intermitências. São os pirilampos dentro da máquina fotográfica. Soltam-se um a um. O cheiro permanece como uma manta anestésica que tudo cobre.

Beijas-me mais uma vez.

Estás nua.

Sentas-te em cima de mim, fazemos amor novamente. Há algo a serpentear em cima da cama mas nem vejo o que é. Só tu existes.

Olhas para mim directamente, e dás-me um beijo que desta vez tem o odor da casa. Os olhos lacrimejam mais uma vez. Tudo é uma maravilhosa queda, dor e prazer misturados numa parafernália que parece insustentável.

Olhas-me novamente e…

…Amor, o que vais fazer com essa faca?"


FIM

Lisboa - 05-02-2004

segunda-feira, junho 09, 2008


A história de Pedro e o Lobo tem uma sabedoria realmente ímpar. Há algo nos velhos contos, nas velhas morais que, devidamente adaptadas, acabam por ter alguma lógica quase imbatível, porque existem poucas coisas irrefutáveis, se é que existe alguma.

Nos dias que correm a medida da tristeza dos outros, e dos efeitos da solidão inter-pares parece-me, com demasiada frequência, mal avaliada. E isso porque talvez vivamos numa era em que se grita demasiadas vezes pelo Lobo.
Os anti-depressivos são os smarties fashion de uma lógica em espiral, onde vejo pessoas assentarem em escoras externas e não reforo de alicerces. Não faltasse o dinheiro, e já muitíssima gente tería importado os gurus ou os terapeutas para cada semana em que as coisas corressem menos bem. Os lobos que aparecem assemelham-se a cães, mas da pradaria, pequenitos, felpudos e com dentes fortes, é um facto, mas para roer oleaginosas.
Qualquer merdita parece motivo para encharcamento em andas químicas, e com isso estraçalham-se muito boas tentativas de furar lógicas de solidão. As pessoas que realmente sentem na pele os efeitos de uma tristeza ou impacto sensível, encolhem-se, em medo, em vergonha, porque muitos deles simplesmente não sabem definir o que os come internamente, de forma a poderem parecer "complexos" e não correrem o risco de não passar de "malucos".

E depois surgem os problemas.
Os problemas sérios. Aqueles que efectivamente podem encurralar a pessoa dentro de si mesma até que a roda do hamster finalmente lhe rebente o coração em esforço. Surgem as questões acerca das invisibilidades, dos ecos, das excentricidades que não passam de genuínas formas de ansiar empatia. Grita-se lobo. E morre-se. Em carne ou pior, no resto.
cada um quebrará o condicionamento da forma que melhor sabe. Alguns deles inclusive fá-lo-ão, lamentavelmente, pela violência sobre si ou sobre outros.

Talvez, sei lá eu, baste criar uma linguagem. Uma espécie de molde para laços que se desejam fortes, e perguntas suficientes para que sejam vários a querer responder como quem aprende. Mas julgo que urge olhar. Ver um bocadinho. Trautear uma mesma música e olhar nos olhos como quem, se ainda não vê, está à espera de o fazer.

Grite-se Lobo. Se for real, nem é necessário fazê-lo a plenos pulmões.
Acho eu.





"It is the Tale, not he who tells it." - Parte III
S King 1982
"Branca"
Parte 3
"Depois do quarto toque a porta da vivenda abriu-se. Não consegui ver ninguém do lado de lá. A transpiração aumentou desta vez devido a algo que não o calor. As palmas das minhas mãos não cessavam de suar e ignoro se os pássaros e cigarras cantavam, mas era provável que o fizessem.
Saltei o portão, que estava trancado e aproximei-me da porta de entrada. A relva estava impecavelmente tratada. Os ladrilhos de tijoleira que atravessavam o relvado até à porta estavam limpos ao ponto de parecerem novos. Acima de mim dois pássaros descreviam elipses, encantados com o Verão.
Depois apareceu o cheiro. Um cheiro terrível porque era dolorosamente nauseabundo, delicioso e indefinível. Ainda por cima contrastava com o aroma da estação, onde se adivinhava o calor que se colava a tudo e a toda a hora.
Entrei e a escuridão do corredor fez-se imediatamente sentir. Um arrepio, apesar da temperatura. E o cheiro. Bolas, o cheiro era algo como eu nunca sentira, ou imaginara sentir. Era repulsivo, mas ao mesmo tempo tinha algo de magnético.
A luz indicou-me a saída para a piscina. Chamei por alguém, mas debalde. Não se ouvia um único som. A pessoa que abrira a porta simplesmente desaparecera.
O terreno que circundava a casa estava pleno de árvores. De ciprestes a castanheiros, passando por um maravilhoso salgueiro, tudo estava ladeado de um tapete de relva, alguma dela já amarelecida devido ao implacável brilho do sol. A piscina ficava situada após um ligeiro declive relvado, recebendo toda a plenitude da luz solar. Quando vi o cenário da piscina fiquei parado, sentindo apenas o calor na face e aquele cheiro. As árvores permaneciam caladas em cumplicidade bem como os pássaros. Aliás, parecia que havia entrado dentro de uma gigantesca garrafa de plástico, deixando o mundo lá fora.
Dentro e à volta do rectângulo de água estavam corpos. Homens. Mortos há algum tempo, pensava eu. Alguns deles boiavam numa água avermelhada e nojenta, outros secavam o sangue ao sol, em olhares parados e corpos destruídos. Era mais ou menos quinze, ou assim me recordo antes do estômago protestar e lançar toda a comida do dia no tapete verde. Podia jogar-se golfe dentro daquela casa, e provavelmente alguém deveria fazê-lo.
Fiquei parado, sem reacção, olhando através das arvores em direcção ao céu. Continuava a não ouvir-se nada. Virei-me e pensei em correr o mais depressa possível, mas olhei para cima. À janela, envolta numa branca e diáfana camisa de dormir estava ela. Acenou-me como quem cumprimenta um recém-chegado, e sorria, ao que me parece. O cheiro aumentou de intensidade, a ponto de mais parecer uma rajada odorífera capaz de trazer lágrimas aos olhos. O medo começou a instalar-se levemente, mas confesso que nem prestei atenção, tal era a ansiedade em vê-la. Sinceramente, nem perguntei porquê. Tinha de a ver, simplesmente.
Entrei dentro da casa. Nem percebi que o sol parava exactamente nas janelas, sendo que nenhum dos seus raios se projectava no solo da imensa habitação. A luz solar simplesmente não entrava, limitando-se a alumiar debilmente como uma lâmpada velha. Era como entrar num imenso caixote com janelas, que mantinha a escuridão cá dentro e a luz lá fora.
Subi as escadas e lá estava ela. No meio da escuridão vi-a deslocar-se para o quarto, e arrastava atrás de si uma cauda, possivelmente da camisa de dormir. Mas parecia estar a mover-se. Que estranho…
Abri a porta do quarto e ela acolheu-me com um sorriso terrível. Os olhos eram límpidos e os dentes de uma brancura irreal. A nudez, absolutamente perfeita, parecia estar viva, como uma estátua esculpida ao milímetro e dotada de vida. O cheiro era agora uma miscelânea infecta, sensual, e absolutamente indefinível. Algures entre excrementos frescos e o mais doce dos óleos de amêndoa, misturados com milhares de outras fragrâncias. Tinha lágrimas a escorrer pelas faces devido à irritação que o estranho odor causava aos meus olhos, mas essa não era a única razão."
to be continued...

quarta-feira, junho 04, 2008

"It is the Tale, not he who tells it." - Parte II
S King 1982


"Branca"

Parte 2


"(...)
Era fim-de-semana. Passava já das duas da tarde quando acordei. A minha memória fotográfica, que muito me ajudara no ofício de taxista licenciado, levou-me a entrar no meu Mini e ir em busca da casa da cliente da noite anterior.
Vista à luz do sol a casa mais parecia um palacete. Era um paralelepípedo de dois andares, rodeado por um jardim que permitiria a realização de pequenas provas de MotoCross ou futebol. Estava pintado de um cor-de-rosa muito leve, e tinha imensas janelas. Um formigueiro nas mãos indicou-me que era tempo de ir procurar o carregador o quanto antes. Ou então falar com o meu amigo Mário que seria certamente capaz de arrancar as imagens do cartão.
Reparei no carro que estava estacionado à porta, mas este podia pertencer à casa em questão como a qualquer outra. Tinha no entanto duas pequenas amolgadelas no pára-choques e um pneu meio vazio. Fiz um comentário interno e machista e lancei-me ao caminho.
Cheguei a casa do Mário cerca de vinte minutos depois. Estava a descarregar alguma música da net. Agarrou na máquina, ligou-a ao computador e fez-me uma descrição completa das suas funcionalidades mesmo sabendo que eu só entenderia um terço da informação. O ecrã reflectia o sol ardente que castigava o dia. Sentia as gotas de suor na testa. O cheiro a seco estava por toda a parte e aquela inexprimível sensação de espaço que o Verão trazia propagava-se a cada centímetro da cidade.
Esta ideia desfez-se num esgar de horror quando o Mário começou a mostrar as fotografias que ainda não tinha visto. Se a perspectiva que eu tinha era de que as coisas se aprestavam a correr mal, depois de ver estas imagens tudo foi transportado para um outro nível. Um bicho feio e espinhoso começou a bambolear-se dentro do meu estômago. O Mário arregalava os olhos em descrédito. Era o cenário de um pesadelo sádico e não pude deixar de pensar que havia dado as minhas costas àquela mulher, completamente descansado da vida.
Sai disparado de casa do Mário, levando a máquina e sem lhe dar quaisquer explicações. Meti-me no Mini e só por milagre não parti o motor durante a viagem para casa da minha cliente. Não sabia exactamente o que ia fazer, mas isso não constituía qualquer forma de argumento dissuasor.
Cheguei à porta de casa e vi o portão fechado. O carro continuava no mesmo sitio, e não se via vivalma. O ar propagava um ruído de água chapinhada à distância, que provavelmente viria da piscina construída no quintal. Toquei à porta e a princípio ninguém respondeu. Voltei a tocar com mais veemência, despertando a atenção dos cães das vivendas adjacentes. Ninguém veio à janela. Era uma tarde incandescente de Sábado, e o rádio já avisara acerca da enchente que as praias haviam tido."
(...) to be continued

terça-feira, junho 03, 2008

Um momento de inspiração, entre muitos, de um amigo.

Vale mesmo a pena ler com atenção
aqui

Nuno, só falta a narrativa.

Para quando?
"It is the Tale, not he who tells it." - Parte I
S King 1982


Embora saiba quais os riscos de me atrever a escrever histórias, e por essa mesma lógica, a escrever seja o que for, a verdade é que se há nem que seja um pormenor que gosto nas histórias que escrevo, tenho sempre o impulso de as exteriorizar. Poderia dizer que escrevo só para mim, mas a verdade é que embora seja um impulso, que o é, uma mania, na qual se tornou, e uma necessidade, com a qual já nem argumento, há um desejo de ser lido, de passar alguma coisa, de tentar chegar a alguém. Um desejo de expressão, sei lá. Qualquer coisa menos a ocultação. Porque essa já existe e tenho milhentos pedaços de histórias que morreram porque inexplicavelmente já não era minhas.
No meio do caos, da ansiedade, do medo, nascem algumas coisas. E sejam boas ou más, porque sei que uns poderão gostar e muitos simplesmente poderão detestar, uma coisa sei que são. Honestas. Não há flores. Vendo o peixe ao preço que o compro. É o que temos.
E como me disse uma grande amiga, ser lido é uma ambição honesta para quem escreve. Seja ou não, eu tenho-a. Ainda que a duras penas.
Por tudo isso e como este blog é um veículo de escrita que uso há tanto tempo, vou dar algum tempo de antena às minhas histórias, usando esta minha casa como se a mesma tivesse paredes de vidro transparente para deixar ver algo a quem passa.
Por isso mesmo, aqui fica, em jeito de folhetim, a primeira parte da primeira dessas pequenas aventuras pela folha de papel.

(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)




"Branca"

Parte 1

"Ainda que me mate, mesmo assim confiarei Nele.” - Job 13:15
"Eram cerca de quatro da manhã e o calor que fazia dentro do táxi roçara há muito o insuportável. Era uma noite quente e húmida, daquelas que provocam as manchas nos lençóis, sejam elas de sangue, suor ou lágrimas. O tempo perfeito para que tudo descarrilasse, para que as iras se agigantassem e as pessoas perdessem um pouco a noção do que as rodeava. Estávamos em meados de Julho e a cidade incendiada sofria a queda dos corações mudos por pequenos crimes.

Já tinha tido a minha quota parte de marados naquela noite. Dois bêbados, uma menina rica que chorava baba e ranho por entre o inchaço que tinha na face, e um filósofo que me fez dar três voltas ao Restelo antes que a bebedeira lhe permitisse localizar a casa.

A minha penúltima cliente daquela noite era uma mulher muito bonita. Tinha a pele mais impecavelmente bronzeada que alguma vez vira. A noite estava tão quente que mesmo no escuro consegui ver as gotas de suor que lhe escorriam pelos braços. Senti a cobiça num impulso e invejei o percurso descendente das gotas. Duas palavras certeiras e penso que a minha teoria da ausência de paixão à primeira vista iria pelos ares, mesmo depois de cinco anos de pragmatismo na faculdade. Era daquelas pessoas que apenas se vêm uma ou duas vezes na vida. Parecera-me na altura a mulher mais bela do mundo, com toda a inacessibilidade que isso acarretava. Fiquei mudo. Ela pouco falava, mas fazia-o com toda a graça que o corpo já adiantara.
Deixei-a à porta de uma vivenda no Restelo, recebi uma gorjeta digna de nota e fiquei alguns minutos parado. A voz metralhada da colega da central que indicava-me destinos e clientes à espera, mas eu permanecia estático. Perguntei-me onde viera parar e segui abadonei o local pouco tempo depois, ainda meio dormente.
Foi quando retornei à zona de Alcântara que reparei.
As ruas estavam pejadas de gente em férias, entrando ou saindo das portas apinhadas das discotecas. As mulheres nas suas indumentárias reduzidas, os homens perdidos nos olhares ansiosos e expectantes. Estava a olhar para um atrasado mental que seguia atrás de mim com bichos-carpinteiros na buzina e no banco de trás vi algo que cintilava. Parecia uma caixa de metal. Lancei a mão e toquei-lhe. Era uma máquina fotográfica digital que, a julgar pela aparência, não deveria ter mais de duas semanas. Nao precisei de mais que três segundos para reconhecer uma qualidade e preço impensáveis. Concluí que pertencesse à minha última cliente e num ápice apoderei-me da máquina. Poderia muito facilmente ter voltado a casa da senhora e devolvido o aparelho, mas era demasiado fácil, estava demasiado à mão e naqueles dias a hipótese de conseguir alcançar uma máquina daquelas era tão quimérica como arranjar um emprego para o qual efectivamente estudara. Não me orgulho do que sucedeu, mas também não penso que, dadas as mesmas circunstâncias, agisse de qualquer outra forma. Sempre tinha tido uma tendência para os pequenos furtos, aqueles que surgem com a ocasião. Umas vezes por necessidade, mas a maioria por pura impulso. E o antigo brocardo acerca de ladrões e ocasiões acabava por bater certo.
Era o meu último turno da noite, e seguiam-se dois dias de descanso, que coincidiam com o fim-de-semana pela primeira vez em cinco meses. Ainda por cima tinha uma máquina nova. Caraças, se a vida por vezes não era boa!
Naquela mesma noite pus-me a inspeccionar a máquina. Ainda tinha bateria, embora eu soubesse que acabaria por ter de comprar um carregador. Mas uma bateria de lítio de ultima geração dá muitos pontapés antes de morrer efectivamente.
Quando lá percebi minimamente como a coisa funcionava, cheguei à conclusão de que a máquina estava plena de fotografias e dois filmes pequenitos em formato digital. Dizer que estava curioso era um eufemismo. Além disso, a imagem daquela mulher estava constantemente a saltitar dentro da minha cabeça, em meio a pressentimentos. No entanto, como nunca fui de ligar a essas coisas, resolvi chegar a casa e tentar ver algumas das fotografias, temendo a todo o instante que a bateria pudesse terminar.
E assim foi.
Deitado na cama, por volta das seis e picos da manhã, a máquina ainda tinha energia suficiente para mostrar o seu conteúdo através do LCD brilhante. O que vi a principio agradou-me, já que se tratava daquelas fotografias que nos dias de hoje percorriam a Internet numa velocidade alarmante. A minha cliente resolvera fazer um espectáculo privado e erótico e nunca esperaria que alguém pudesse ver aquelas imagens. Mas conforme fui avançando no número de fotografias, a curiosidade e excitação foi dando lugar a uma coisa bem mais desconfortável. Parece que os parceiros sexuais começaram a fartar-se dos rituais do costume, passando para práticas mais complicadas e perigosas. Numa das fotografias a minha cliente empunhava um segmento de arame farpado com mais ou menos um metro e meio de comprimento. Na seguinte, uma faca na mão esquerda e uma corda na mão direita. Depois uma cama e um homem amarrado com um sorriso idiota, e provavelmente ébrio, estampado na cara. Quando premi o comando para ver a fotografia seguinte, a máquina deu o último suspiro e apagou-se definitivamente. A bateria de lítio havia lutado com bravura, mas tinha chegado a hora.
Senti um arrepio próprio daquela sensação que obtemos quando algo não corre bem, ainda que não saibamos porquê. É um vento frio quando nem sequer há brisa. Uma picada na imaginação que se assemelha ao inicio de uma terrível dor de dentes.
Escusado será dizer que só adormeci quando o cansaço conseguiu levar a melhor sobre todas as outras inclinações do espírito. Mas para grande azar meu, os sonhos com a continuidade das fotografias foram os piores que eu poderia imaginar.
E para além deles…"
(to be continued...)

segunda-feira, junho 02, 2008

Perante algumas pessoas dou comigo a não saber o que fazer. E não sei porque na dimensão daquilo que essas pessoas representam para mim, acho-me pequeno, parcelar e de alguma forma sempre expectante. Bebo deles porque dos poucos que trazem um elemento do inevitável à minha vida, encontro-me a mim e conto, sem remédio, tudo o que me vai fazendo às custas do que sou forçado a esconder em muitos casos, e bem fundo.
E se não sei o que fazer, também me resta confessar o óbvio de uma inacção, embora essa inacção saia das pequenas declarações dos vários tipos de amor com que a minha incapacidade os brinda indirectamente. Tenho pé, mas porque eles acabam por ser areia nos casos em que a água já passa suavemente o limite do lábio inferior. Tenho as minhas coisas pequenas, estúpidas, incompletas, teimosas, tementes, e do ponto onde os posso ver lá caminham, passo a passo, junto aos meus rastos, tentanto não fazer muito caso dos meus estragos.
Não sei o que fazer com vocês, partidos nas morfologias de amor de que me acho capaz, sempre demasiado pequeno e vocês sempre demasiado grandes, completos, a pairar sobre o meu país que é o meu corpo e aquilo que desculpo como palavras.
Não sei o que faça, mas ainda que não explique porque não posso colocar os vossos olhos, teimoso e confuso no meu cimento, temo apenas não conseguir ser grato senão para dentro, onde as coisas mordem e comem, e ainda, assim, não se grita o suficiente. Ou de todo.
Não sei o que fazer-vos.
Feliz e infelizmente.



Nada como começar o dia com uma carta de rejeição de uma editora.
Vai para o arquivo onde as colecciono.
Ainda que não surpreenda, custa sempre. Era bom que não custasse, mas não tenho essa sorte em ser tão estóico.
Bem, agora vou voltar ao teclado.
Tenho histórias em atraso.