ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, agosto 18, 2008

"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982

(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

"FRIO BRANCO"

Parte III
"Durante as duas semanas seguintes falei com a minha cliente exclusivamente através de telemóvel. A voz dela variava entre o exausto e o nervoso. Com o passar dos dias, comecei a achar isto normal e fiz o meu trabalho de casa, mas pouco lhe podia adiantar, já que ainda não sabia exactamente o que ela pretendia que eu fizesse. Havia no entanto um detalhe curioso. As conversas ficavam sempre a meio e ela não voltava a telefonar. E durante as conversas, enquanto a minha cliente falava, existia sempre um ruído de fundo estranho. Pareciam gatos famintos ou qualquer outra coisa de desagradável, estridente e indefinido.

Dois dias depois do último telefonema, chegou uma carta ao escritório. Quando a abri, ia cuspindo o chocolate quente pela sala inteira. Dentro do envelope, estava um cheque com a primeira provisão. Eram cento e cinquenta contos em moeda antiga, escritos numa letra cuidada. Olhei para o cheque durante vinte minutos, convicto de que seria um engano. Mas não. Estava lá o meu nome e a quantia por extenso. Acompanhando o fantástico cheque, vinha uma carta escrita na mesma caligrafia cuidada.

«Dr:
Junto envio-lhe a provisão para fazer face às despesas que tem com este caso, e agradeço-lhe o trabalho efectuado até este momento.
Espero que esteja dentro de valores razoáveis.
Aproveito no entanto esta missiva para lhe fazer um convite para passar alguns dias connosco na dita casa que meu pai pretende vender. Ele está um pouco diferente e diz que gostaria de nos reunir para passarmos alguns dias. Falei-lhe de si, e ele achou bem que viesse. Diz que gostava de falar consigo e eu preferia que estivesse presente no que poderá ser a discussão do testamento. Se puder contar com a sua presença, por favor tenha a bondade de me ligar para o meu telemóvel.
Com os melhores cumprimentos

Alexandra X»

Sem pensar, telefonei à minha cliente, aceitando e desfazendo-me em agradecimentos pelo convite. Se ela ia pagar-me cento e cinquenta contos de provisão, eu até trabalharia um bocadinho na horta da casa de família, se ela o quisesse. Estava cada vez mais curioso, mas também incomodado.
Naquela noite fui jantar fora com a minha namorada. Depois fomos ao cinema e terminámos a noite num hotel não muito caro. Estávamos deitados, exaustos pelo sexo e o dia a dia de doidos, quando ela me perguntou se e quando eu iria nesta estranha expedição. Eu disse-lhe que partiria dali a quinze dias. Ela sorriu e desejou-me boa sorte enquanto a sua mão esquerda voltou a encontrar algo no centro das minhas virilhas. Eu respondi quase imediatamente, embora, por um terrível segundo, tivesse julgado ver o rosto da minha cliente no vidro da janela. Não era água o que lhe escorria do rosto.

A casa da minha cliente e respectiva família ficava perto da Malveira da Serra, nas proximidades de Torres Vedras. Estava à espera de algo como a Quinta da Marinha, ou Aroeira, ou coisa que o valesse, mas não. A dita casa de férias estava situada na boca de um denso pinhal e junto a um pequeno regato que corria a cerca de cinquenta metros da casa. Tratava-se de um casarão imenso, com perto de 15 quartos, distribuídos entre dois pisos. Era relativamente novo, mas tinha sido construído segundo os padrões de estética dos velhos solares que ainda hoje se encontram espalhados um pouco por todo o país, maioritariamente recuperados e destinados ao turismo de habitação. Tinha um quintal imenso, no qual repousava uma piscina vazia em forma de lua crescente, demasiado parecida com uma bocarra aberta num sorriso demente e azulado. Existia também, mais atrás, um campo desportivo no qual se podia praticar quase tudo, desde basquetebol, o que não me soava nada mal, até futebol de cinco ou mesmo ténis. O bosque ficava por detrás, no sopé da pequena elevação onde se encontrava a casa. O vento soprava frio e uivante, assobiando com ar de poucos amigos enquanto carregava folhas mortas e agulhas de pinheiro.
Parei o meu Ibiza velhinho perto de alguns carros. Só dois deles equivaliam em dinheiro a uma década de salários, se eventualmente mos pagassem. Saí do automóvel com o saco onde estavam as minhas mudas de roupa, e fiquei especado a olhar para um Porshe Boxter S. Naquele preciso instante arrependi-me da decisão que tomara. Pensei seriamente em meter-me no carro e acelerar até Lisboa, mas tinha o cheque da minha cliente na carteira e não me conseguia forçar a devolvê-lo.
Entrei no portão e um indivíduo de compleição sólida fez-me um sinal. Tinha um ar afável e humilde, o que não encaixava bem dentro de um físico que denunciava uma força desmedida. No entanto, e apesar da aparência vigorosa, o cabelo farto que despontava de ambos os lados da cabeça era prematuramente grisalho. Ao dar o primeiro passo para dentro do quintal, um “golden retriever” correu na minha direcção num galope rapidíssimo. Fiquei paralisado enquanto ele me cheirava, fungando entusiástica e comicamente. O homem ao fundo fez-me um sinal, penso que para me acalmar, e segundos depois tinha o cão rendido aos meus afagos, como a língua pendente o comprovava. A pessoa em causa era uma espécie de faz-tudo. Podia ser o mordomo ou capataz ou uma coisa qualquer parecida, e cumprimentou-me calorosamente. Ao apertar-me a mão percebi que aquele homem era ainda mais forte do que aparentava. A mão que apertou a minha num cumprimento cordial assemelhava-se a um torno com dedos, mas o sorriso era aberto e simples.

O senhor desculpe o susto, mas este malandro não faz mal a ninguém. É o pior cão de guarda que já vi. Se os ladrões cá vierem e lhe derem uma bolacha ou um carinho, ele é capaz de os acompanhar no saque. Não é, meu malandro?! – disse, fazendo uma festa ao animal com um carinho sincero.

Eu peço desculpa, mas venho da parte da senhora Dona Alexandra.

Sim, uma das filhas do patrão. Eles foram todos almoçar lá abaixo à adega do Faria. O senhor é o Doutor Gabriel Gusmão? O advogado da dona Alexandra?

Sim, sou eu.

Desculpe perguntar, mas pensei que fosse mais velho.

“Tens razão amiguinho. Muita razão. Mas que posso fazer?”

É normal. Eu ainda sou novo na profissão, sabe?

Sim, imagino. Mas venha, não fique aí ao frio! Vamos instalá-lo e esperamos os dois pelos patrões.

Fiquei a gostar deste homem num ápice. Tinha aquela qualidade genuína que nenhuma palavra poderia dar mas que surgia em todas as que proferia e movia-se como alguém para quem nada no mundo parece difícil.
Abriu-me a porta e deixou-me à vontade no salão principal. O fausto exterior parecia pálido perante o desfile de riqueza que se vislumbrava no interior. Móveis antigos, uma lareira imensa, tudo com um toque ancestral mas não caduco. Cada passo dado ecoava por todo o lado, em estalidos que se perdiam na distância. A casa era enorme, quase desproporcionada para albergar qualquer família, por muito numerosa que fosse. Sem saber bem porquê, dei comigo a subir um lance de escadas em caracol, da qual uma diva do cinema poderia fazer uma cena de queda perfeita, e entrei num corredor superior, muito comprido, com portas de ambos os lados. Ao fundo, uma outra sala, com uma salamandra imensa, e o mesmo gosto irrepreensível nos móveis. Entrei num quarto, sem saber que viria a ser aquele onde pernoitaria, e parei a olhar para a cama de casal. Os lençóis de linho bordados à mão provavelmente custavam mais que a minha própria cama e isso deu-me uma imensa vontade de rir, a qual consegui conter. No meio da exploração ouvia uma espécie de ruído estranho, muito à distância, ou abafado. Pareciam gatos, ou portas perras que guinchavam, queixosas da falta de óleo. Toda a casa estava impecavelmente arrumada, mas tinha um ar de tristeza e desolação que a embaciava como uma névoa invisível e o ruído só aumentava essa noção de desconforto.
O meu amigo deu-me uma leve palmada nas costas. O susto fez com o que o meu coração disparasse, mas o meu amigo continuava tão afável como antes e tranquilizou-me. No entanto, e só por um segundo, pareceu-me ver um escurecimento no olhar. Uma tristeza, uma nuvem passageira, um esgar de resignação amarga. Acabei por ignorar sem mais aquela situação, pois tinha muito em que pensar. Algo que surgia como lógico e omnipresente, especialmente quando me sentei na minha cama de casal, bestialmente confortável e com lençóis que fariam carícias semelhantes a mãos informes.

O que é que eu estava ali a fazer?

Os meus anfitriões demoravam-se e como não conseguisse sossegar, resolvi dar um passeio pela casa. Saí do quarto, trancando a porta sem saber muito bem porquê. Toda a habitação estava em silêncio, à excepção daquele ruído distante e dos estalos do soalho impecavelmente encerado, encimado por tapetes igualmente limpos e laboriosamente trabalhados. Desci as escadas e entrei no salão. Lá fora, o tempo fechara e a tarde prometia uma chuvada terrível. O céu estava tão plúmbeo que quase ameaçava cair e o vento soprava insistente. Olhei pela janela e vi somente prados onde alguns bovinos pastavam, além do bosque onde as árvores se abraçavam dançando ao sabor do vento.
O salão estava vazio. Sentei-me num dos sofás e saboreei a lareira acesa, que crepitava entusiasticamente. Do lado esquerdo, iluminada pelas difusões luminosas e irregulares do lume, estava uma enorme estante repleta de livros magnificamente encadernados. Tive uma tentação quase irresistível de pegar em alguns deles, mas a minha educação tocava o gongo mental e, assim sendo, limitei-me a olhar para as lombadas. Edgar Allan Poe, Defoe, Swift, Camus, Shakespeare, Garcia Marquez, H.P. Lovecraft, todos se ombreavam silenciosos em versões luxuosas das suas obras. Algumas delas ainda escritas ou traduzidas em português antigo, algumas delas primeiras traduções adquiridas a alfarrabistas e bibliotecas antigas e infelizmente desmanteladas. Passei os olhos por não sei quantos autores, sentido o calor da lareira e maravilhando-me com a multiplicidade dos exemplares, até que encontrei uma série de livros negros, sem inscrição na lombada. Eram todos aparentemente iguais e ocupavam uma fileira da estante, como soldados eximiamente alinhados. Mais uma vez fui tentado pela minha curiosidade e achei-me novamente detido, não pela minha consciência, mas pela voz do meu amigo informando-me que o almoço estava pronto e que os patrões iriam demorar. Afastei-me da estante num salto e assenti em acompanhá-lo. Tinha o estômago a dar horas. Algo mais estava diferente. Só quando descemos para a cave, que dava para a garagem e para uma janela de onde se podia ver toda a extensão da paisagem para além do campo de jogos, é que percebi de onde vinha aquele meu desconforto. O ruído aumentara ligeiramente de volume, como se estivesse mais perto, e havia como que um aumento da atmosfera opressiva da casa. A tristeza densificara-se e a atmosfera parecia pesar, como uma melodia minimalista e magoada.

Almocei sozinho numa sala totalmente mobilada com nogueira escurecida. Tudo estava no lugar, arrumado e limpo. Não havia um grão de pó em cima das prateleiras e ainda se notava um pouco do aroma do óleo de cedro. O meu amigo informou-me de que os seus patrões ainda demorariam, pelo que não havia outra alternativa senão comer algo antes que a fraqueza levasse a melhor. O tempo lá fora escurecera de tal forma que se tornou necessário acender as luzes para que eu acertasse com o garfo na comida e não na magnífica toalha de mesa bordada. Ao contrário de tudo o resto, as luzes deixavam muito a desejar, pelo menos em termos de eficiência. Era uma luz amarelenta, débil, que mais parecia cobrir as coisas com um pó dourado e luminoso que propriamente lançar-lhes claridade. Os cantos das divisões permaneciam numa espécie de penumbra indefinida, como focos de escuridão geometricamente colocados na casa.
Enquanto devorava uma fantástica sopa de peixe, seguida de um bacalhau à lagareiro igualmente magnífico, o som do meu mastigar era o único que se fazia ouvir, para além do vento uivante lá fora, do gotejar da chuva e aquele outro ruído estranho, que pé ante pé, ficara novamente mais audível, mas ainda assim imperceptível quanto à sua origem ou possibilidade de identificação. Comecei então a experimentar um desconforto que aumentava gradualmente. Por alguma razão estranha, senti-me sorumbático sem qualquer justificação para tal, já que no máximo estava assustado com a minha futura tarefa, mas não triste. Levantei-me o mais depressa possível da mesa. Aquele malfadado ruído começava a dar-me cabo da cabeça. O meu amigo ouviu-me levantar e perguntou-me com amabilidade se eu desejava mais alguma coisa. Abanei com a cabeça, perguntando de poderia dar uma volta pela casa, ao que este assentiu usando o seu sorriso generoso.

Mas vou-lhe pedir que não entre nos quartos que têm as portas fechadas. Os patrões não gostam, pode ser?

Sim, com certeza. Muito obrigado.

Ele voltou a desaparecer pela porta da rua. Ouvi o cão que latia alegremente e, no instante seguinte, o semi-silêncio retornou novamente. Resolvi levantar-me e começar a expedição à casa, bem como ao terreno circundante. Obedecendo a uma lógica elementar, resolvi começar de cima para baixo. O andar cimeiro era constituído unicamente pelos quartos, uma ou duas salitas de transição e o sótão. Era óbvio que nem sequer sabia o que estava a fazer, mas qualquer coisa servia para me manter ocupado e fugir à estranha plangência que parecia toldar-me os movimentos e a capacidade de pensar. Subi a escada que conduzia ao meu quarto e entrei no corredor. Estava invulgarmente escuro, já que a luz que emanava das janelas era a proveniente de um sol encoberto por um mar de nuvens. Acendi a luz e tive a mesma pequena desilusão que tinha tido na sala de jantar. As lâmpadas vomitavam a mesma luz fraca e doentia. Os cantos da casa permaneciam escuros, juntos por uma espécie de extensão escura que os unia, já que a luz não conseguia iluminar os rodapés. As paredes exibiam réplicas e serigrafias de quadros famosos. Uma delas, o “Filósofo em Meditação”, de Rembrandt, era um dos meus favoritos de sempre e naquele lugar ficava fantasticamente apropriado. A luz que entrava naquela casa era algo parecida com a cor vislumbrável no dito quadro, semelhante a uma neblina que tocava os objectos ao de leve mas nunca os chegava a iluminar. As sombras nunca pareciam estáticas, mas surgiam como desenhos criados com mestria, ondulando num cenário que parecia quase vivo. A atmosfera era bisonha e simultaneamente bela, possuidora de um aspecto solene, antigo e até venerável. Passei por alguns corredores, olhando para outros quadros, igualmente cópias de telas famosas. Vi um quadro de Cargaleiro e outro de Paula Rego, mas não consegui distinguir se seriam originais ou cópias, acabando por decidir que provavelmente esta gente teria dinheiro para comprar o artigo genuíno. Mas era o quadro de Rembrandt que não me saía da cabeça, talvez porque me sentisse dentro dele. Nadava naquela atmosfera onde podia sentir uma certa solidão amarga e uma profundidade de pensamentos que moldavam o isolamento, tornando batimentos cardíacos num ensurdecedor concerto de percussão. Penso que se pode determinar o estado de solidão e silêncio quando ouvimos o tamborilar do nosso próprio coração. Andei mais um pouco. Abri portas de quartos, contra a indicação do meu amigo, mas ele também não precisaria de saber deste meu pequeno pecadilho. Não vi nada de especial, a não ser algumas camas desarrumadas e roupas em cima de cadeiras. No entanto, ao abrir uma das portas fechadas, verifiquei que um dos quartos estava às escuras. Pensei que alguém estaria a dormir naquela divisão e tive o ensejo de fechar a porta imediatamente. No entanto o frio que emanava da divisão indicava claramente que ninguém seria capaz de dormir ali. Dei um passo em frente, e a penumbra era total. O ar estava invadido por um aroma estranho que se situava algures entre o adocicado e metálico. A opressão invisível que sentia na casa parecia um pouco mais acentuada naquele espaço, mas talvez fosse a minha imaginação a funcionar. Tacteei a parede em busca do interruptor, e tive um instante de surpresa. A parede estava molhada e tremendamente fria, como se tivesse chovido dentro daquele quarto. Chovia lá fora, é certo, mas não caía uma única gota do tecto, nem existia qualquer janela aberta que permitisse tal encharcamento das paredes. Com algum esforço consegui encontrar um interruptor, e a mesma luz morta fez-se presente. Era um quarto normal, perfeitamente arrumado. Entrei para o observar e verifiquei algo que me desconcertou imediatamente. As paredes estavam de facto encharcadas. Fios de água escorriam em cascatas mínimas banhando todas as quatro paredes. Examinei este fenómeno anormal e, pela primeira vez, a minha mente começou a rejeitar a normalidade no cenário. Senti que os meus testículos diminuíam de tamanho e que o sangue acelerava, tentando fazer uma corridita com o coração que começara adiantado. A água escorria em gotas, mas o chão estava completamente seco, bem como o tecto. Os cantos da divisão permaneciam escurecidos, mas o mais engraçado é que a água brotava das paredes e, por alguma razão que nem sequer vou tentar explanar, era novamente como que absorvida pelas mesmas. Não havia uma única gota no chão."
(...)
(to be continued)
"Keep me past the gate
I've worn the world without a word
And I don't care too much for what they say
Grip my smothering end
Another day will pass again
Keep My fire alive for I'm not afraid
Can I make them understand
Who in the world would have thought this
God I'll never know your plans
Doin what i got to
What I Got to hang on
Cause I'm doin what I got to
What I got to hang on
Hanging on by a thread this is what
I got So hang on to this"

Travis Meeks - DOTN

(não prestem atenção ao vídeo, e ouçam só à música)

domingo, agosto 17, 2008

Regresso.

"Pessimismo da inteligência, optimismo da vontade."

Agora, mais do que nunca.

Negativista nunca, mas talvez partidário de uma certa forma estranha de lucidez, não sei. Também me estou completamente nas tintas.

O programa segue dentro de momentos.

quarta-feira, julho 30, 2008


Muita, muita, muita atenção a isto...
Talvez a melhor graphic novel de sempre... finalmente em filme...
Alan Moore é rei!





sexta-feira, julho 25, 2008

"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982
(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)
inquieto.)
"FRIO BRANCO"
Parte II
"A Paula saiu em passo rápido. Não consegui evitar um olhar para o corpo dela. Tive um segundo de vergonha de mim próprio, apertei a gravata um pouco e esperei que a senhora entrasse na sala. Estava desconfortável e atemorizado.
A mulher que entrou na minha sala tinha mais ou menos vinte e seis ou vinte e oito anos. O cabelo, negro e já penteado, caía em cascata pelo tronco. Era alta, esguia, tremendamente elegante, e vestia um fato que custara mais dinheiro do que aquele que eu ganharia durante a totalidade do meu estágio. Tinha um rosto muito bonito e os olhos estavam injectados de sangue. Não era preciso ser Sherlock Holmes para ver que estivera a chorar, ou que dormira muito pouco, ou ambos. Era uma mulher linda, e no entanto, algo nela não resultava. Talvez fosse a expressão de tristeza, ou os olhos vivazes, estilhaçados por pequenos capilares de sangue. Os trejeitos eram bruscos, embora nunca deselegantes. Deixei cair a teoria do choro e depressa entendi que se tratava de falta de sono. Eram olhos de quem não dormia há muito. E havia algo de gozo também.
Abriu a mala que trazia e colocou uma carta em cima da mesa. Como esperasse que eu a lesse de imediato, olhou para mim com a expectativa dos olhos atentos, embora cansados. Fingi ignorar esta intenção e cruzei as mãos, em atitude própria de quem sabe o que estava a fazer, e não de um miúdo imberbe e inseguro. Era um “bluff” engraçado, mas uma pergunta mais elaborada poderia desfazer-me como um tiro dado num castelo de cartas. Ela antecipou-se e começou a falar sem que eu lhe desse qualquer deixa, o que por mim era óptimo.

Esta é uma carta do meu pai. Como poderá ver, é acintosa o suficiente para embaraçar-me, mas se não a puder mostrar ao meu advogado, não posso mostrá-la a ninguém. Chamo-lhe a atenção para o facto de aí estar uma menção quanto à venda de determinados objectos, incluindo a casa de família utilizada para férias. Se a puder ler, agradecia-lhe.

Fiz como ela me pediu e abri o sobrescrito. Olhei para o timbre na carta e engoli em seco. Ali não se tratava de dinheiro, mas sim de um largo rio de riqueza! Jorrava como uvas a cair de uma cornucópia mágica, embora através de meios ou intenções bem menos romantizadas. Chamar-lhe-ei família X, pois não me parece boa política revelar o nome. E também ninguém iria crer-me, pelo que assim não arrisco ser réu em questões de direitos de personalidade.
Senti-me terrivelmente tentado a mandá-la bater na porta ao lado, mas estava demasiado curioso para resistir a ler a carta. Era um arrazoado de cinco páginas, elaborado e brutal. Qualificar aquela carta como acintosa era um benevolente eufemismo. Tratava-se sim de uma agressão feroz, em forma de palavras escritas. A caligrafia era cuidada, o que me indicava que fora escrita com absoluta e paradoxal calma, tal era o conteúdo. Este pensamento fez-me estremecer um pouco, mas a carta causava um efeito semelhante ao das reportagens sensacionalistas, demasiado repugnantes para não serem vistas até à sua conclusão. Após a leitura, pousei a carta na mesa e mais uma vez pensei seriamente em mandá-la para a sala ao lado. O Salgado adorava estas merdas. Confusões e dramas mexicanos no escritório. Eu não. Nem sequer sabia como lidar com aquilo.

É horrível não é?

É de facto muito... dura.

E reparou na parte relativa à disposição dos bens?

Sim
– disse mentindo. Tinha passado por esse parágrafo aos atropelos. - Mas terei de analisar um pouco melhor, pois há implicações que devem ser estudadas antes de dar uma opinião.

Com certeza.

Minha senhora… posso perguntar-lhe uma coisa?

Os seus honorários estão cobertos, asseguro-lhe. É só fazer as suas contas. Se for necessária alguma provisão, eu passo já um cheque.

É muito amável da sua parte, mas a questão que lhe queria colocar não era essa.

Ela lia-me a surpresa na cara. Gaita, eu tinha ali uma oportunidade de fazer algum dinheiro, e ia pôr tudo a perder com uma pergunta idiota. Mas tinha de a fazer. Tinha mesmo de a fazer.

Qual é a sua questão então?

Porquê eu? Porquê um estagiário?

Por duas razões muito simples. Em primeiro lugar, porque ainda não sabe ser devidamente ganancioso, e perdoe-me esta minha expressão.

“Estás perdoada querida, acredita-me!” – pensei para comigo.

Em segundo lugar, porque sei que dedicará toda a sua energia a este caso. Se bem adivinho, não deve ter muitos outros. Preciso de alguém que não se desvie ou distraia com outros clientes. Se correr bem, garanto-lhe que terá acesso a outros ambientes e clientela mais variada.

“Isso é tudo muito bonito, mas o Salgado é que pode não gostar nada da graça se eu asnear com este caso.” – tornei a cogitar.

Bem, farei o melhor que sei. Mas necessito de algumas informações, por favor.

Todas as que necessitar. Tenho aqui números de telefone no caso de precisar de falar com algumas pessoas e as moradas para correspondência.

Enquanto ela falava fui remoendo tudo aquilo. Um pai, provavelmente desnorteado, anunciava depredar o património correspondente a uma futura herança e chegava mesmo a ameaçar a integridade física dos filhos. Tinha dinheiro a rodos e provavelmente dava-se com pessoas de um calibre que faria o meu patrono parecer um pedinte. Qualquer pessoa lhe poderia ter dito que o pai nunca poderia denegar-lhes o direito a suceder, porquanto eram herdeiros legitimários, quase inatacáveis aos olhos da lei civil. Eu era tão verdinho que desconhecia como se faziam metade destas coisas, pelo menos em termos práticos. Mas não era isso que me preocupava. Era o outro aspecto. O teor da carta, aqueles olhos raiados de sangue, os gestos nervosos, a tristeza misturada com um subtil e paradoxal gozo estampados na face da minha cliente.
Terminámos a conversa e ela apertou-me a mão antes de sair. Estremeci perante o toque gelado da pele, ainda que esta exalasse um perfume delicioso. Sorriu-me com sinceridade e saiu. Pouco depois arrumei as acções de condomínio e saí do escritório. Tinha de dar uma volta para arejar as ideias."
To be continued...

quinta-feira, julho 24, 2008


A propósito de uma conversa com uma amiga:
A sinceridade é uma lâmina de dois gumes, e, em meu ver, não deve confundir-se com a propensão para chegar junto a outros, e muito menos com o esquema de protecção de vulnerabilidades ao qual, bem vistas as coisas, ninguém escapa mesmo. Bem sei que deve haver por aí um ou outro artista que nunca sentiu qualquer necessidade de se defender seja de quem ou do que for, e tiro-lhe o chapéu. Não sei é até que ponto esse fenómeno lhe será positivo, porque o primeiro rebentamento pode acabar por ser atómico, onde quase toda a gente começou com bombinhas de Carnaval. O olhar descoroçoado deve ser uma constante a qualquer pessoa que já alguma vez deu a mão a alguém, e nessas matérias, embora uns bem mais que outros, somos todos praticantes e destinatários. Excepto talvez aqueles dois ou três felizardos.
A sinceridade, a meu ver, surge como uma condição necessária para se estabelecer contacto minimamente sustentável. (A sinceridade minimamente regrada, bem entendido, porque se dizemos a alguém que acabamos de conhecer o que pensamos sobre o magnífico decote que exibem, assim, a ferros e sem aquecimento, a coisa poderá certamente correr mal.) A sinceridade a que me refiro é aquela que assenta em contar a história o mais certeira e honestamente possível. Não confundir com contar todas as histórias, dar o flanco imediatamente, por-se a jeito. Falo sim de dizer realmente o que se pensa acerca de qualquer coisa, sem ser necessário discorrer de forma académica sobre as opções éticas ou estéticas.
Há uma história bem ilustrativa disto, contada pelo homónimo que inspira este blog e que diz o seguinte:
"Certa ver, um entrevistador perguntou-me se eu escrevia sem guião, sem montar a história previamente a escrevê-la. E eu disse-lhe que as minhas histórias eram situacionais, um fóssil, pré-existente, que se vai desenterrando com um pincel, deixando ver o que na realidade lá está. Sou um firme crente, disse-lhe, que as histórias já existem, e que se trata apenas de as desenterrar sem tentar partir os ossos todos do fóssil no processo de desenterrar.
Ele disse que não acreditava em mim, e eu disse-lhe que isso não me chateava, desde que ele acreditasse que eu realmente acreditava no que tinha dito."
- S King - On Writing - 1997
No fundo é isto mesmo. A sinceridade surge como condição necessária para o que se revela. Não significa que todos estejam em condições de revelar tudo a outros. O fóssil desenterra-se com algum cuidado, mas sempre assente na lógica do entusiasmo da revelação, e no que realmente se vai mostrando. É aquilo. O esqueleto. Não no armário, mas na porta entreaberta, que vai oscilando, e em cujo espelho interno nos vamos revendo e mostrando a quem decide olhar.
A sinceridade não é o coração aberto indiscriminadamente. É sim o único caminho para ter a possibilidade de realmente o abrir.



quarta-feira, julho 23, 2008

A ideia da generalização sempre me pareceu errada, e na verdade quanto mais cruzo caminhos com outras pessoas, mais essa noção ganha consistência.
Existe uma espécie de fio condutor que me atrevo a defender e sobre o qual reflito, mas tenho plena consciência que as diferenças intrínsecas a cada um dos conjuntos de valores e coerências complexas que vou encontrando são, por si só, pequenos mundos. E somos déspotas desses pequenos mundos, creio, na medida em que os vamos regendo conforme aquele instante parece verdadeiro e coincidente com o que a voz profunda nos vai ditando.
As originalidades não findam. As pessoas encontram e encontram-se nas mais variadas formas de suster o que lhes parece fundamental. Reagem humanamente porque o seu quadro surge pintado das matizes que, à beira de todas as formas de auto-consciência, lhes parecem adequadas.
A ideia da diferença sempre me foi cara, mas ganhou e ganha a cada dia uma dimensão mais apurada. Não creio, (nem hoje, nem nunca), no relativismo absoluto. Há para mim alguma perspectiva sempre defensável e comprovável de bem e mal, de humanidade e desumanidade, de certo ou errado. Mas é no esforço de construção e aproveitamento das diferenças de abordagem que vivem aquelas coisas que nos acompanham, e aquelas que morrem por serem margens sem sequer projectos de ponte.
As pessoas que me têm vindo a ensinar cada vez mais coisas destas sabem quem são, e por isso mesmo, apesar de nem sempre ser agradável (como se alguma vez o pudesse ser), sabem que é inestimável. A fé é também mais pequena, mas contra isso...
Síndrome de culpa católica (para um agnóstico é a osmose em conceito mais estranha do mundo), dialecto urso, vozes de gatos, felizes ditaduras da vontade, diferenças acérrimas, isolamentos ao olhar, segredos emocionais, planaltos de conforto interno, seja lá o que for. Vou recolhendo o que posso, o que me dão, e afinal de contas, o melhor que posso fazer é sempre o melhor que puder fazer.
Mesmo com o pessimismo debaixo do braço, ainda há surpresas debaixo do sol.


"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982

(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

(Nota II (prévia) - Esta é uma modesta e pouco subtil homenagem ao mestre E.A. Poe, e ao fascínio irreprimível que a obra dele ainda hoje me causa. Pelo que invoca, pelas cores que dá às suas paisagens, aos seus personagens, aos locais onde estes se contorcem. Acho que todos temos mestres, e eu tenho alguns, mas este é talvez aquele que melhor representa o que muitas vezes me vai passando pela cabeça quando resolvo escrever alguma coisa. Tenho um especial carinho por esta porque foi a primeira história que escrevi em formato de conto, relembrando exactamente as pequenas mas narrativas de Poe que tanto me fazem sonhar acordado e inquieto.)


"FRIO BRANCO"

“I am above the weakness of seeking to establish a sequence of cause and effect, between the disaster and the atrocity.

Edgar Allan Poe.


Parte I

"Acordei em Lisboa, como em todos os outros dias. Aliás, como vivo nos subúrbios, tenho a sorte de não ouvir os carros a passar quando o dia ainda nem sequer despertou. Levantei-me e tomei um banho à pressa, escorregando no chão da casa de banho e quase esmagando o nariz contra o lavatório. Mal tive tempo para pentear o emaranhado castanho a que tenho o desplante de chamar de cabelo antes de comer duas torradas e beber um chocolate quente, porque não suporto café. Saí de casa à pressa, com a gravata a dançar ao vento.
Cheguei ao escritório e a secretária sorriu-me com o mesmo ar de sempre. A Paula era uma mulher nova, de vinte e sete anos, bonita o suficiente para gerar comentários nas mijas colectivas do escritório, mas tinha um ar estranho, aluado por vezes. Eu gostava dela. Tratava-me com a candura que os meus supostos formadores deveriam ter. Por vezes, ficava admirado com a sua facilidade em dominar aspectos processuais que a mim me escapavam de todo.
Fiquei surpreso em saber que não havia recados para aquele dia. O meu patrono tinha ido para Braga, oficialmente para tratar de uma escritura, mas mais tarde vim a saber que tinha outros negócios a tratar. Ia lá cerca de quatro vezes por mês, e a facturação da deslocação nunca aparecia. Ao passar pela sala de espera, vi uma cliente nova sentada numa das cadeiras de madeira já algo vetusta. Tinha o cabelo desgrenhado, provavelmente pela acção do vento, mas vestia de forma elegante. Olhei para os sapatos e mala, e vi que havia ali dinheiro em caixa para um dos meus colegas mais velhos. Ela olhou para mim e sorriu desafectadamente. Tive um impulso de simpatia e sorri para ela de modo pouco profissional, avançando para a minha sala em passo acelerado. Cruzei a porta e sentei-me na minha cadeira giratória que guinchava como um roedor após o estalido da ratoeira. Tinha uma pequena sala, e sentia-me suficientemente isolado. Era a única coisa boa daquele estágio. Aquela sala. Olhava pela janela e podia ver o rebuliço da cidade, mas sempre em silêncio, já que os vidros eram duplos. Impediam o frio e o som, o que para mim era óptimo. Olhei para as acções de condomínio e lancei-me ao trabalho.
Em Lisboa, existem dois tipos de advogados estagiários. Aliás, três. O grupo minoritário, é aquele que consegue uma colocação numa pequena sociedade, sem grandes tubarões, que consegue fazer o seu trabalho, aprende com o patrono, e equilibra o resto da sua vida. O segundo, são os escravos a soldo, miseravelmente pagos, fazem de tudo um pouco, e não têm horas para nada. Ou trabalham nos grandes escritórios, onde são tratados como máquinas sem direito a qualquer manifestação de vida exterior que não seja o empregador, ou trabalham para um qualquer filho da mãe que tem ali durante dois anos um escravo que necessita da nota de estágio. Fazem aquele esforço monumental em nome de uma possível carreira ou posição num escritório, mas muitos acabam por levar um pontapé no rabo depois do final da escravatura encapotada e disfarçada de formação. Nem as empresas de trabalho temporário conseguem oferecer tão bons negócios. E finalmente existe o terceiro tipo, o “office-boy” que lida com toda a espécie de trampa do escritório e faz os recados, poupando ao patrono o dinheiro a gastar com serviço externo. Conhece as repartições públicas em Lisboa em menos de dois meses, e nunca lida com nada de importante. O patrono limita-se a dar duas palavritas de quando em vez, reclama se alguma coisa está mal feita, e nunca paga seja o que for. Eu pertencia a este último grupo e nas divisões menores.
Estava no meio das minhas acções de condomínio (que novidade, um tipo que faz demasiado barulho a altas horas e organiza umas festas com gajas e alguma droga. Garrafas que voam pela janela, elevadores vandalizados…enfim), quando a Paula bateu à porta.

Doutor, está aqui uma senhora para falar consigo.
Fiz sinal para que entrasse e fechasse a porta.
Senhora? Que senhora?

Aquela que estava ali fora sentada.

Para mim? Mas ela não quer falar com um advogado sénior?

Diz que quer falar consigo.

Comigo? Mas eu sou estagiário! Disse-lhe isso?

Disse sim senhor, mas a senhora ainda assim quer falar consigo.

E disse mais ou menos o que queria?

Não senhor. Perguntou por si e não disse mais nada. Chegou muito cedo, penso que até antes de mim.

Olhei para o relógio e vi que eram dez da manhã. A Paula chegava sempre às nove, via o correio e atendia quem chegasse. Eu só entrava às dez. Naquele dia chegara um pouco antes, mas por mero acidente. A 2ª Circular tivera outro daqueles momentos de calma rodoviária, tão raro quão inexplicável.

Bem, mande entrar. Vou ver o que ela pode querer comigo. Em dez segundos deve estar a sair da sala e ir em busca do Doutor Salgado.

Ele já cá estava e, aparentemente, ela não o quis ver.

Mas que estranho...

Posso mandar entrar?

Com certeza..."
(...)
To be continued...

sexta-feira, julho 18, 2008

"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982

(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

"FOME"

Parte III

(...)
"Quando tinha 22 anos, a velha máxima da excepção que confirma a regra quase se verificou. Quase. Surgiu a mulher mais complicada de comer que alguma vez conheci. E não porque a sua virtude estivesse cheia de ferrolhos. Ela era algo parecida comigo, e isso era um problema. Uma mulher lindíssima, mas cheia de cautelas e armas, multiplicando os problemas. Testámo-nos até à infinidade das nossas capacidades, laureando o conhecimento mútuo com provas de acesso a locais onde supostamente ninguém tinha acedido antes. Era um pouco como jogar ao cabo de guerra, mas ao contrário – ninguém puxava a corda, a competição estava na capacidade que cada um tinha de a ir largando cada vez mais. Era uma prova de curiosidade, medo e orgulho, mas apesar da ferocidade da contenda, a superioridade emocional dela acabou por ser o seu calcanhar de Aquiles. À custa de tanto evitar algo, a sua curiosidade sofreu uma mutação invulgar, e por isso mesmo, violenta.
Estou a ouvir um ruído estranho. Mas o sol ainda brilha. Não entendo, sinceramente. É demasiado cedo! Mas sei que me estou a enganar de qualquer forma. Seja de que forma for, será sempre demasiado cedo. E este não é um caso daqueles em que eu possa dizer que com o apetite dos outros posso eu bem. Das outras. Estou a tremer. Aterrado. Porque é que não fujo? Porque seria inútil. E já agora, para onde? Além disso, este falso senso de propósito é a única coisa que me está a impedir de brincar de outra forma com as facas da cozinha. Isso e o medo da dor, claro. A nobreza de espírito há muito que comprou um bilhete só de ida. Com dentes à porta, é salve-se quem puder.
Como dizia, as coisas complicaram-se.
O problema com os cínicos convictos que eu conheci até hoje é sempre o mesmo. Quando se enamoram não há qualquer espécie de filtro ou deferência. É uma doença que os come de dentro para fora, como um parasita transformador. Há quem diga realmente que o amor é sempre assim, mas como um descrente observador, tenho de discordar. Há gradações, e também pode haver saúde mental numa viagem de montanha russa. Ou então simplesmente não sei como é. Pensem nisso. Eu não tenho tempo agora.
A verdade é que ela simplesmente se deu a grandes trabalhos para infligir danos e negar o óbvio. Quando as coisas atingiram um ponto inimaginável para mim, e aparentemente também para ela, tudo se emaranhou. Acho que as pessoas julgam que coisas destas só ocorrem na mente febril de tipos que viram demasiados filmes estranhos, mas a verdade é que basta abrir um jornal, ouvir uma história mais negra do colega de trabalho da mesa ao lado, e chegamos à conclusão que coisas estranhas acontecem todos os dias. Escabrosas, feias, bonitas, improváveis. Mas ocorrem.
Talvez aquilo que ela tenha feito se enquadre nessa noção. A realidade acabou por comê-la, com a minha colaboração é certo, mas a verdade é que os dentes afiados nem sequer eram meus. Triturada pela antítese do que até então tinha sido a sua normalidade, ela acabou por tirar a própria vida. E talvez até tivesse uma beleza própria a noção da morte por amor. Só que para tipos como eu e ela, aquelas são noções que não passam da folha de papel, impressas numa espécie de código de conduta daqueles que se reconhecem e qualificam à distância como ementas de um mau restaurante. Ela acabou simplesmente por morrer de inanição. Pelo reconhecimento de algo que não era seu, que lhe mordia com a vontade de quem persegue sangue pelo cheiro, bem como a coloração e o efeito. Ela não morreu por amor, mas pela novidade, pela inadaptação do seu instinto de sobrevivência a algo que não era de todo obediente. Acho que ela tinha uma noção muito própria acerca da saciedade do amor. Arrisco até dizer que teria sido muito pior conviver com as mutações da paixão, conceito esse arredio de um modo de viver expectante, observador, e pleno de um controlo que afinal não existia. Ela culpava a sua refeição, a fonte de alimento daquela coisa desusada e invisível. Uma universal e mortal indigestão
Não é fácil - ainda que alguém como eu se pudesse por então à margem emocional de muita coisa - ser a causa de morte de algo ou alguém. Mesmo que o tiro destinado a nós seja na realidade endereçado a uma noção aleatória e combinada de estímulos, regados a mistério. Se pensarmos que os únicos poetas que entenderam minimamente o conceito ficaram malucos para além da resgatável, então a explicação apresenta-se a si mesma. É um maremoto, e quando ocorre, nem uma casca de noz nos dão. Somos completamente engolidos. Comidos. E venho sempre dar aqui, já viram.
É o medo. O céu já é mais púrpura que vermelho. A noite vem já ali, a passos rápidos, com botas de sete léguas.
Olho pela janela e vejo o causador do barulho precoce. Um “labrador” castanho-escuro, cheio de energia. Olha para mim através da janela e abana a cauda afectuosamente, baixando a orelhas em afeição motivada pelo desejo de brincadeira. Que sorte! Para ele é apenas a noite quente que se instala, acalmando um pouco o calor abrasador que se abate sobre o manto de pelo durante todo o dia.
Mas dizia… ah sim….
A partir daí as coisas descambaram.
Mentir, respirar e caminhar eram apenas reflexos. Acho sinceramente que nunca disse duas frases seguidas e feitas de honestidade a qualquer uma das mulheres que por alguma razão me despertaram o interesse e cobiça em cerca de dez anos. O momento agonizante do fim da sensualidade era uma espécie de carimbo gelado não da realidade, mas do que eu conseguia fazer da mesma. Era insuportável e ainda assim era necessário caminhar adiante. Não havia como controlar os acessos de adrenalina. Conseguir. Chegar lá, ter apenas a noção de que era capaz, daquilo que havia logrado. Resistências caídas por terra. Viciante como qualquer espécie de poder, por mais mesquinho que seja.
Com o passar do tempo as lágrimas e ressentimentos não passavam de gotas de chuva tépida em cima de um guarda-chuva de aço. É assustadora a facilidade com que me fui tornando imune, agora que penso nisso. Naquela altura era tudo um gozo, uma imensa montanha russa, uma infinda e íngreme pista de neve. Fui devorando. Comendo. Durante aquilo que me pareceu uma eternidade, embora fosse isso que talvez me esperasse.
Estou a passar a língua pelos dentes. E vejo que ainda estão planos. Não vai demorar muito mais tempo. O céu já está negro. O “labrador” está quase invisível agora, a não ser pela dentição esbranquiçada da qual pende a língua naquela respiração sempre ofegante. Ouvi um ruído. Algo que arranha o chão enquanto se arrasta um bocadinho. O som de unhas em madeira.
O cheiro aparece então. Alfazema e carne crua, parece-me, mas isso é porque a língua já sangra devido a um pequeno corte na boca. As comensais começam a aparecer. Nada de atrasos elegantes quando se tem fome.
Algo passou terrivelmente depressa. De uma parede para a outra. Num salto impossível. Tenho quase a certeza que está algo no chão, a não ser que este tenha ganho vida. Uma delas levanta-se. O rosto perfeito está ornamentado por uma boca escancarada da qual emergem duas presas afiadas o suficiente para cortar madeira como se fosse papelão velho. Os olhos são estranhamente meigos, langorosos.
Estou a escrever só com uma mão agora. Quase me custa quando aperto a minha mão e sinto a laringe esmagar-se num estalido desagradavelmente húmido. Ela não grita. Morre com os olhos em sofrimento surdo, mas de alguma forma triunfante. O sorriso que exibe é quase insuportável de contemplar.
Duas agulhas enormes no ombro. Sinto qualquer coisa explodir na articulação, e depois a dor impensável. Mais quatro, duas em cada perna, na zona dos gémeos. Depois a humidade, a sensação de algo dolorosamente molhado.
Os meus dentes emergiram. Mas já não servem de nada.
Outros dentes, na mão…esquerd
Est a tnr aina escrvr…
A minha costla… n consgn..sangue…
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F….



Lisboa – Carnaxide - 16-02-2004

quinta-feira, julho 17, 2008

"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982


(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

"FOME"

Parte II

"Dizia eu que a noção de comer me é familiar.
E começou de forma feliz, no seio de uma família simpaticamente instalada na vida. Nasci depois de uma irmã que me foi instruindo o mais que pôde. Fê-lo de forma intermédia entre um certo desencanto e uma esperança mal ocultada, mas tudo pleno de eficácia. Designava-se muitas vezes como uma cínica auto-romantizada à força. Beneficiei da sua experiência, mas foi o que pude observar no seu ambiente que me foi nutrindo o espírito e possibilitou ter um percurso voraz junto das mulheres que fui conhecendo ao longo da vida.
Roubei o primeiro beijo a uma menina lindíssima, dois anos mais velha que eu. Na altura tinha oito, e recordo-me que prometi um enorme chocolate em troca daquele beijo. Quando ela abriu o papel amarrotado do Jubileu e encontrou apenas uma tira de tijolo embrulhada na prata, presenteou-me com uma expressão que fui vendo muitas vezes ao longo dos tempos. Um misto de ressentimento e surpresa real. Talvez a mesma fácies que apresenta a vítima de um furto. O despojamento surge sempre como injusto, embora para mim esta noção fosse inexistente. Afinal, e por muito que isso esteja nas traseiras da mente de muita gente, poucos pedirão desculpa ao bife quando o está a cortar, verdade? E se pedirem, não é ainda pior?
Ao ter demonstrado esta teoria à minha irmã pela 700ª vez, cerca de um mês antes dela comer o marido, esta disse-me simplesmente que as coisas balanceavam entre os motivos que nos levavam a fazer qualquer coisa e a forma como colocávamos esses motivos em prática. E retornando sempre ao conceito do comer, não era porque se debicava uma febra de porco que se concordava com a forma da matança. Ela recusava-se, entre outras coisas, a aceitar todas e quaisquer formas de obter um resultado final. Eu não. Especialmente no que dizia respeito às duas definições possíveis. Exactamente essas. Claro que as coisas iam bem mais longe, e nada é assim tão pragmático, mas o conceito diz a verdade sobre si mesmo, e eu cá… bem eu julgo que isso se passa relativamente a tudo e todos.
A minha adolescência deve ter andado à margem da maioria das definições que dela se fazem. Sendo um tipo bonito, provindo do seio de uma família com algum dinheiro, a maioria das angústias que definem o resto da nossa vida passaram-me um pouco ao lado.
A faculdade de amar existente na adolescência está, na minha modesta opinião, ligada a um conceito bipartido. A dificuldade e intangibilidade dos nossos objectos de desejo e a nossa própria competência enquanto seres de sedução. Simplificando, ama-se aquilo que parece mais distante de nós, mais complicado e intangível, e sofre-se porque nunca nos julgamos capazes, mesmo que nunca o admitamos. No fundo, uma função alimenta a outra e fornece o material de que a depressão adolescente é feita – a intencionalidade da impossibilidade. É o mais estúpido e o mais recorrente comportamento com que me deparei desde sempre. E o pior é que, em muitos casos, não se fica pelos anos do armário.
A minha situação privilegiada sempre me permitiu investigar com as mãos aquilo que os outros perguntavam à distância. Acho que para além dos meus atributos, que sejamos horrivelmente honestos, eram muitos, talvez fosse a minha estranha impassibilidade perante os movimentos à minha volta que me ia dando vantagem. Estava-me completamente borrifando se esta ou aquela rapariga me davam atenção, se os tipos fixes me chamavam para perto deles ou não. A verdade é que isso, aliado a tudo o resto que já mencionei, funcionavam como um boomerang no meu processo socializante.
A força de uma mentira depende da convicção com que a depositamos no outro e a sua credibilidade intrínseca. Posteriormente divide-se essa credibilidade em dois factores para que a mentira resulte. Ou tem de ser de tal forma absurda que ninguém teria a coragem de a mencionar como sendo um facto real, ou está de tal forma escorada numa credibilidade do senso comum que a argumentação corroborativa se assemelha a um colete à prova de bala. Vá lá, quantos de nós já não pensaram que aquilo que alguém nos dizia era tão quimérico que ninguém se atreveria a tentar vendê-lo a não ser que, que por alguma alta improbabilidade da vida, tivesse realmente acontecido? Creio que essa teoria pode designar-se precisamente por comer o outro. Ou comer o outro para depois o vir a comer. E foi nela que me tornei proficiente.
Durante a adolescência comi mais raparigas que a maioria das colónias de hormonas dessa altura se atreveria a imaginar. E digo-o nos mais variados sentidos e significados do conceito. A angústia incrementada pela ansiedade sexual era também uma miragem para mim, o que fazia do sonho movido a anseio a representação material de um vazio amoral ou melhor, emocionalmente isento.
A promessa de amor era algo que, dados os meus atributos, se reduzia à competência dos argumentos e determinação em plantar a dúvida. Além disso, a publicidade deste tipo de feitos não reverbera contra o autor dos mesmos. Por estranho e complicado que pareça, aplica-se aqui a mesma ideia que por exemplo se encontra nos meios de comunicação social. Qualquer publicidade é boa publicidade. E no fundo torna-se tudo uma espiral, uma caldeirada de influências, sentimentos contraditórios, orgulhos e curiosidades. Quanto mais cresce essa ideia de alguém que simplesmente não sucumbe, a quantidade de candidatos a abater o dragão acompanha esse incremento. É a velha história do rei da montanha, segundo a cartilha das regras da atracção.
Eu era simples e eficiente. A tudo o que tinha somava o alheamento, que desesperava a tendência que algumas pessoas têm para o exercício do poder em qualquer espécie de relacionamento. Algumas apaixonaram-se realmente. Outras tinham o pé preso na bola de ferro ferrugenta do orgulho. Existem mulheres que simplesmente não gostam de perder. Só isso. O ponto a que vão para o provar, por um lado, ou desmentir, por outro, ainda hoje me surpreende. Quando a luz desaparecer definitivamente, acho que terei todas as provas necessárias.
"
(...)

to be continued

terça-feira, julho 15, 2008

Vem aí o Dark Knight. O calor parece que resolveu dar as caras. O trabalho (felizmente) é muito porque apetece fazer muito. Estou prestes a retomar as histórias deixadas a meio num período conturbado e confuso.
Não estou de volta ao blog, como de resto seria natural, exceptuando pelo facto de o ter utilizado ultimamente para divulgar o meu trabalho, coleccionador advertido e consciente de rejeições editoriais.
Foram tempo de percepção, de visão relativa a muitas realidades e o encaixe de cada uma delas de formas, por vezes, tudo menos prazenteiras ou optimistas. Talvez seja a progressão do tempo e das lógicas, mas salvo raros e insistentes marcos cimentados cá no burgo mental, as coisas parecem-me mais feias, menos plenas de cores e brilhos.
E é cada vez mais arriscado e inútil transpor o que está encerrado, pelo simples facto de que na esmagadora maioria dos casos não passa de eco demasiado educado, feito de assentimentos simpáticos. A exposição criteriosa confunde-se com sobrevivência, e talvez não devesse ser assim. Sei lá.
Nada de novo a Oeste, no fundo.
Até já.
"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982
(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)
"FOME"

“Choose rather to punish your appetites than be punished by them. “

Tyruis Maximus

Dedicado a Richard Matheson e Stephen King
Parte I
"A noite está finalmente a chegar. Olho para as paredes e posso ver as sombras que se alongam. Os cantos começam a ficar escuros e os sons estão mais altos, como intrusos madrugadores dentro de uma casa silenciosa. O cheiro a erva seca denuncia a presença do Verão e as gotas de suor que secam na minha testa indicam uma trégua do sol ardente. Mas não há trégua de espécie alguma.

Não faço a mais pálida ideia da razão pela qual ainda me dou ao trabalho de martelar nestas teclas. Deveria, e estou, atente-se, aterrado. Lá fora o silêncio desaparecerá em breve. O crepúsculo belo e sanguíneo dará lugar à escuridão. E nesse momento, começará aquele que pode ser um final longo e arrastado. Cada noite é uma incógnita, e cada minuto um veículo de fugacidade que quase enlouquece.

É uma tendência estranha aquela que os resistentes têm para escrever ou deixar algum testemunho. Acho que a ficção que contactam leva-os a pensar que alguém surgirá das brumas do desespero e os salvará, fazendo daquele documento uma espécie de tratado da resistência e coragem. Claro que nesse enredo, a obra em questão também dá um rio de dinheiro considerável, mas isto já sou eu a ser um pouco mais cínico. E estou sem força, ou tempo para ser cínico, ou para ser qualquer outra coisa. Quando há medo, toda a sofisticação se reduz à insignificância que pode ou não ter. É um pouco como a ideia que se pode ter de amor real, carnívoro e intenso, aquele que não permite veleidades elegantes e espirituosas, tão próprias do cinismo. Aí somos todos ridículos, já lá dizia sempre o mesmo poeta. Mas ele já está morto, safo de tudo isto, e eu nunca soube muito acerca de amor. Soube muito acerca de devorar, de consumir, de ir em busca de cada pessoa que se colocava a jeito. E, por pura sorte, a ideia que mais me surgia na mente era comer.
Segundo um dicionário respeitado, o conceito de “comer” tem variadíssimos significados, como se pode ver. Oriundo na nossa língua do vocábulo Latino comedere, comer, além de ser um verbo transitivo, significa:
introduzir alimentos no estômago pela boca;
mastigar e engolir;
enganar;
ludibriar;
gastar em comida;
dissipar;
acreditar em mentiras;
absorver;
submergir;
carcomer;
corroer;
delir;
apanhar pancada;
possuir alguém sexualmente;
tomar alimento;
ter ou causar comichão;
amofinar-se;
afligir-se;
consumir-se;
mortificar-se;
comida;
alimento;
iguarias;
cada uma das refeições do dia.
— com os olhos: observar com desejo; invejar; cobiçar;
— e calar: calar-se; não reagir.

Não necessitaria de olhar para esta lista para saber que comer significa todas estas coisas. Mas algumas foram mais assíduas no meu passado que outras, embora aquelas que vejam sublinhadas sejam parte dessa história.
Ouvi algo a restolhar lá fora. Restam, no máximo, mais umas três horas. Tenho de me apressar, por isso vamos ao que interessa.
As experiências científicas do último ano culminaram num erro que trouxe uma espécie de retorno perverso à noção de isolamento de um dos géneros humanos. Ou seja, a história daquele lugar onde só havia um homem, onde os animais falavam e ninguém comia carne. Pois, o que temos hoje em dia é uma coisa um pouco diferente. Tirando eu, e julgo que talvez haja para aí mais alguns perdidos, sei lá, só há mulheres. E desenvolveram um hábito terrível. Abreviando a minha ignorância, eis o que sucedeu. Devido a uma qualquer asneira ao nível da biotecnologia, alguém soltou um bichinho invisível que enfraquece os portadores de maiores níveis de testosterona, ou seja, nós, os homens, e dá uns apetites estranhos aos restantes, ou seja, elas. E elas, simplesmente, querem comer. Eu contar-vos-ia a história toda, mas sinceramente, além de não ter tempo, quem é que a ia ler de qualquer maneira? Será que elas conseguem ler? Quero dizer, parecem racionais o suficiente, mas são as hormonas, o cheiro. Quando a noite surge, os problemas começam. E vão começar.
Mas adiante.
(...)
to be continued

quinta-feira, julho 10, 2008


Uma história em dez partes, dez mentes, dez visões.
Este é o link para o regulamento, - http://vitaminay.blogspot.com/2008/05/desafio.html - e conforme o estipulado, eis a minha contribuição, com muitos agradecimentos pelo voto de confiança dado pela excelsa Helena. :)
Aquela manhã de nevoeiro disperso estava a acordar aos poucos. Tal como aqueles olhos que iam abrindo de mansinho, a medo, e ficaram focados na janela gigante que dava para a praceta onde permanecia uma estátua de um qualquer marquês. Pôs-se de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, e levantou um pouco a cabeça. Torceu todo o corpo para a esquerda e só então conseguiu lembrar-se do que tinha acontecido. (ÿpslon, vitaminaY)
A memória chegava-lhe em imagens difusas, ele sabia que situação onde se encontrava era mais do que uma manhã embaraçosa depois de uma noite que não quis passar sozinho. a cada expiração, a dor lembra-lhe da posição do seu corpo contorcido... os olhos a custo procuravam alguma familiaridade naquele quarto-jaula, param no preciso instante em que o pé toca em algo, foca uma mulher, Leonor, uma imagem difusa da noite anterior, também atada, contorcida, de olhos fechados, a começar a murmurar repetidamente…- “como fomos capazes…como fomos capazes…”(indigente andrajoso, indigente andrajoso)
As lágrimas não demoraram a jorrar-lhe dos olhos. a disposição de todos os objectos naquele quarto fazia prova do caos da noite anterior: o cinzeiro que não chegava para tantas beatas, as lâminas de barbear usadas e dispostas numa fila metodicamente organizada, os restos do sangue debaixo do abajour carcomido pelo cortejo de lâmpadas acesas nos últimos dias. Ele tentava aligeirar o nó que feria os seus pulsos em vão e as cordas marcavam cada vez mais as veias onde o sangue corria descontroladamente. Cheio de culpa e náuseas, ele não conseguia parar de imaginar como seria possuí-la neste cenário desolador. Uma e mais outra vez.(M., borboletas na barriga)
Foi a última imagem nítida que teve. Se à nitidez, como ao branco para os esquimós, se podem atribuir inúmeras tonalidades, aquela com que se via a tomar de assalto o corpo quase sem vida que se punha a jeito pela proximidade serviu perfeitamente de passagem para o espaço onde nos entretemos enquanto estamos no vai não vai para ir fazer companhia a morfeu. Esse espaço em que o inconsciente começa a tomar conta da vida regrada e, durante umas horas, nos permite o voo livre, foi onde tudo começou a ficar mais claro. O zapping mental que o assolou, os fotogramas em flashes acelerados temperados com a sensação típica da maceração dos vapores alcoólicos e químicos que ainda lhe inundavam a maior parte do cérebro, conduziu-o a uma inesperada epifania. "preciso de sair já daqui"- pensou. não teve tempo de equacionar a fuga. Com um som estridente de grilhões, abriu-se a porta do quarto...(jc, numb)
..., e conseguiu vislumbrar uma sombra. Parecia tenebrosa. Por outro lado, medonhamente familiar. Conseguindo ultrapassar a dificuldade de focar em contraluz, apercebe-se e grita arregalando os olhos em pedido de auxílio e susto:- Pai! - gritou ele, visivelmente assustado e esmagado com o tráfico de flashbacks que estavam a vir à memória, sentido ter cometido o erro fatal, sem se lembrar concretamente a razão de estar ali no meio daquele turbilhão de recordações rápidas.- Pai, as correntes não! Por favor, pai! Não, pai! - entre gritos casados com expulsão trágica de cuspo descontrolado no discurso de misericórdia de quem sente o maior aperto da vida - Pai, eu não queria ter estado com a Leonor, pai - justifica-se ele, num tom de claro desespero, acompanhado de início de choro, a decorrer para a compulsividade.- Eu não sei o que fazer mais de ti, meu filho..., filho?! - suspirando o homem forte e alto, demonstrando uma calvíce digna dos 54 anos - nem isso te posso chamar. Por isso trago-te aqui alguém que não sabes quem é, mas que te conhece muito bem.(Amélia, Bichísses em Sério)
Queria não olhar para aquela figura que tinha assomado à porta. Não queria crer que o meu pai a tinha trazido até ali.- Não! Ela não! – murmurava entre soluços sentidos e sofridos, fruto da agonia ímpar que estava a sentir .-Ela nunca me quis! Porquê agora?- Sussurava segurando a cabeça com as mãos.Os dedos crispados arrancavam pequenos fios de cabelo, de onde escorriam gotas de um suor inundado pelo sofrimento.Tudo era irreal à sua volta, a insanidade tomava conta do seu ser. Contorcia-se na tentativa de se libertar daquele estado de impotência máxima, em que os seus movimentos eram tolhidos pela cordas que o aprisionavam violentamente.-Leonor! Não me deixes aqui sozinho! – balbuciava enquanto olhava para o corpo inerte que jazia ao seu lado.De repente um som estridente chamou-o à realidade, e um grito saíu-lhe da garganta, seca e dilacerada pela dor:- Cobardes! (Ju, ascoisasqueuacho)
… Sempre foste um cobardolas! Olha para mim! Olha-me nos olhos, meu cabrão de merda! Foi para isto? Responde-me, foi para isto?, vociferava Luís, cujos olhos raiados de revolta enfrentavam, agora, os de seu pai. Este, impávido, fechou silenciosamente a porta deixando quem houvera trazido dentro daquele quarto… (M&M, A Amante do Sr. Eng.º)
Nao era a sua mae. Ela havia morrido ha muitos anos, quando ele ainda era pequeno. Esteve muito tempo doente. Sem nunca se saber o porque. Seria da falta de amor? Seria da pancada que levava daquele com quem se casara? Seria profunda tristeza? Quem o pai trouxera era a avo. Aquela de quem Luis tanto gostara mas que preferira sempre olhar para o lado. De certa forma, ela abandonara-o e Luis nunca se sentira confortavel com isso. - Leva-a daqui! Ela e nojenta! - gritava Luis com uma forca vinda das entranhas. - Eu disse-te que ele nao me ia querer aqui - disse aquela mulher alta, pintada, de cabelo grisalho longo, apanhado - Vamos embora daqui. Eu nao mereco isto.(Angelo, Angelo no pais das maravilhas)
Acordou lavado num suor que lhe colava o corpo aos lençóis brancos, e percebeu que tudo não passara de um pesadelo. Um pesadelo ridículo e sem fundamento como tantos que tinha tido quando era criança.Olhou-se ao espelho, e ali na penumbra, podia jurar que tinha visto o rapaz do espelho esticar o braço, tocar-lhe no ombro e dizer em tom condescendente – “és sempre o mesmo!”Se o contasse, iam julgá-lo louco!Definitivamente não era um assunto a falar com a Leonor.A Leonor?Lembrou-se de repente do papel que tinha encontrado na tarde anterior, que era amarelo e tinha anotações escritas à pressa pela letra dela. Anotações com horários de partidas e chegadas, e até com alguns preços.Agora que caía em si pensava que realmente Leonor tinha partido, e que não tinha havido sequer oportunidade para uma despedida.Para onde teria ela ido? (Helena - http://rosa-rosae-rosarum.blogspot.com/2008_06_01_archive.html )
A Leonor era uma combinação de morte. Morte de medos, de cautelas, de bom senso, de tudo quanto significasse equilíbrio para o objecto de desejo que ela escolhesse. A Leonor tinha dentes, eles mordiam e as chagas resultantes eram explicadas com uma sinceridade tão desarmante quanto afiada. A Leonor não queria saber, ou queria saber quando queria. Falava de liberdade e exalava esse perfume mesmo quando os abraços eram nus. Era como tocar no num cheiro trazido pelo vento. E foi assim que ela desapareceu. Envolta na mesma lógica de sonho desconfortável, simplesmente foi. Foi na naturalidade que a caracterizava, como o sabor a excitação depois de um sonho vívido, quase como que deixando saudades de algo que provavelmente nunca existiu. (Stephen King - http://estacoesdiferentes.blogspot.com )
E assim finda a experiência "decapartida".
Obrigado pela oportunidade!
E uma vez que me foi pedido, dou-lhe o seguinte Título - "Despertares..."
"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982

(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

PART III
"We entered her apartment. It smelled of old books and aromatic herbs. The floor continued its shrieks, and there were very tall windows cutting through the walls.
She lighted up a red blood candle, and said nothing as she threw her tongue down my throat and disposed of my clothing. My blood boiled in a flash and we didn’t even make it to the bed. We fucked each other’s brains out in a way I never experienced in my short and boring life. She simply let go of everything and held nothing back, at far as her libido was concerned.
I had never given the deserved importance to a voice until that moment. The silence, apart from the sounds indicating pleasure, was complete. We didn’t share one word, and that confused me at some point. After the orgasm, in that necessary and sadistic pause that nature gave to some men, things would come out of the pleasure delirium country, and they were bound to get strange and awkward. Someone’s going down on you and you simply say nothing? I mean, how it the hell are going to spill cum of someone’s sheets and not say a word to them? I know it seems small stuff, but hell, it started to scare me a little bit. Men get scared of women, and especially around situations that totally diverge from what is (wrongfully, I know) deemed normal. And since she was the one who was controlling things, the discomfort increased.

She smiled at me during intercourse, and oral sex, and everything you can imagine. That same bizarre smile that felt like a bitter almond amongst the most perfect cream topped ice cream. Her eyes got bigger, and I saw myself going round and round in my head, feeling every inch of her skin and warmth, and still something inside me just wouldn’t shut down. Like an insistent fire alarm, away from the flames that might consume it.
At some time, like all women are capable of, (at least those who I honestly think that are willing to enjoy and understand sex – it’s real power, make no mistake about it…), she decided that it was time for me to cum, and her thighs gripped my waste as she rode harder. Her hair started to fly around the room, and her voice came out in a long and tone variable moan.
In about two seconds my genitals warned my brain that final impact was near, and closing fast. Something like a hot avalanche climbing the mountain started to brew in my crotch, and in a few seconds, hell was broken loose, and all was quiet again. Orgasms are the shortest and most effective previews of and idea or threat of heaven, if there is one. That’s how I see them, I mean. But surely you’ve heard about it. Or have done it, I hope.
As I tried to catch my breath, I sensed a terrible pain on the right side of my body, and my skin felt wet. I looked and saw that something’s handle was coming out of my ribs. Blood poured out into the floor like a fluid made out of dark melted roses.
I looked up and she was standing. There was another smile on her face this time. And within the pain and horror, I guess I saw a compassionated smile. Like the ones your mother gives you when she realizes that you are really coming down with something.
She was naked, and she was smiling, and she was holding a large bladed knife on her right hand. Her eyes were bloodshot, but the smile never disappeared. I was screaming now, and kept on screaming as she slowly started to cut my throat. Her smile endured, and never shifted.
I was still screaming when my friend grabbed my forearm. But apparently nobody heard a thing. I was sweating, and drops fell down my forehead and neck, reaching my upper back. I couldn’t see, but the itching in my eyes told me that they were filled with little crooked red lines, as if I emerged from a four hour crying session.
He asked me if I was okay, because I looked like Hamlet after a chat with his dad. I nodded, lying through my teeth. Somehow I was still looking at her, sitting across the table. She was smiling. A wonderfully warm and slightly perverted grin as she looked at me.
The dinner ended shortly after that. I reached for the street and filled my lungs with the night air. It felt very good. The lights and people walking the streets filled me with relief, like a bed side reading light just after a long nightmare.
They all exited the restaurant, said goodbye to Mr. António, a very nice man, with a waste the size of a circus tent, and flocked around the bar doors. She found me and I got the first look without that smile. It was a pleased gawk, that I didn’t quite understand. She seemed as relieved as I was.
We didn’t hook up that night. I was baffled and scared, and so tired that it seemed as if I had done the marathon or bare feet.
I reached home and fell on the bed, completely worn-out. As expected, I had a lot of bad dreams, but somehow I never woke up. My mind put up a fight against my intents to wake up. And when I did, the sun was already half way through its daily journey in a summer’s day.
My birthday friend called me around two o’clock, and told me that my other friend, the female smiling one, had asked about me. I dismissed his intentions to play the Cupid in ten seconds, and somehow he understood my feelings on the matter. Ana had told him that almost all the other pretenders had done the same thing. It hit me as something too weird to be filed as coincidence in that suspicious and fearful region of my brain. But since I never believed in love at first site, I never got the chance to miss the imaginary touch of someone who had loved and killed me wearing the same smile. Time took it away like calm sea waves slowly destroy a sand castle, and it became one of those strange memories that you recall in a late night chat with really close friends.

The love of my life called me two years after that, and it took me a while to recall who she was. She told me her name and a distant bell start to toll. The sound brought me fear and also a strange curiosity. When she asked if we could get a cup of coffee I didn’t even hesitate, and even if I live to be one hundred years old I’ll never find out why. It seemed stupid to ignore such a strong premonition, or bad feeling to be honest, but I did it anyway. Like those kids that finally convince themselves that the noise in the closet has nothing to do with the eerie shadows that sometimes appeared on the bedroom walls, I decided to meet fear head on.
We met, talked, and kept doing so for quite some time. We fell in love in exactly one month, give or take. Her smile was every bit as unusual as I recalled it, but this time her voice joined the party. She spoke like she stared. A bright sense of humour, joined by good hearted sarcasm and a sexual tension that she could master like no one I ever met. She looked beautiful to me, and most times she said a lot of right things.
Nevertheless, and even after a considerable sum of years, I guess that she has an inner place that’s off limits to everyone, even me. I perceived her world as a foundation to that inexplicable weirdness, which she never lost, and will never loose. You can argue that shit like that happens to everyone. Every person that has loved another in any possible way will tell you that he or she thinks that they will never completely know theirs lovers. But this was different. With her, it was like something securely locked, and with no chance of sharing.
I had a pretty good guess two years ago, just before we moved in together. I was doing research for a new novel, ( Not that I have published anything yet, but some kind of dumb stubbornness can be almost inspiring I guess), and came across some old newspapers from the a public library’s archives. It was a small piece, telling the sad fate of a young man who was found dead with his throat cut open and completely naked.
And then I realised one thing. Hundreds of things, actually, but this one stuck to my brain like a bug on fly paper. It wriggled ferociously, but remained there nonetheless.
The love of our lives creates the illusion of attainable perfection. It appears as a demonstration of our ability to feel something for another human being. It is illogic in some of its elements, and pretty explainable in others. It dwells in fear and risk, and casts a shadow of impending death, for love might be nurtured, but its health is not always related to the care it receives.
I think that the love of our lives saves us. It’s about the most heard cliché to ever leave the mouth of someone truly in love, and generally they’re right. Well, I know it is wishful thinking most of the time, but isn't it like that with almost anything that's important?
But mine…
Oh well. It’s complicated, maybe your most wild garden variety paranoia. The one that gets you a membership card that grants access to a place where people drool, see things and walk trough a tunnel where generally there in no way out.
But still… I am convinced. And the reason why I didn’t investigate further becomes obvious, I guess.
The love of my live didn’t just save me.
She spared me."


The End

Carnaxide -19-02-2004


terça-feira, julho 01, 2008

"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982


(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

Part II

"A lot of our mutual friends were there, and also a lot of people that I never saw, which was good. Generally we never get to know a lot of new people in our daily routine, so that scenario suited me just fine. And for someone without any kind of relationship for almost a year, give or take, it seemed even better. It’s hard to know women in a big town like Lisbon, and it’s no use making a big effort. It all comes down to chance and wishful thinking.
It’s common place to say that the love of our life emerges like Poseidon out of the sea. We are supposed to feel a big bang, and all sorts of theories about love at first site and how the flirt was always different with that person are created. Late night drunk stories are created, and that’s one of the first things that grandchildren hear when they stop long enough to hear a story. Well, I got nothing of the sort. I noticed a brunette with dark eyes on the other side of the table, and find myself surprised by the fact that she was smiling at me. Later on that smile would prove to be the reason for every third of my written words , but at that time it just seemed… different. As if she poured light from her face. There was something wild in her gaze tough. More strange than wild I guess, but disquieting nonetheless.

The chattering went as usual in such parties. We giggled, some risked a political discussion that turned a bit sour five minutes later, almost every single person flirted, or at least looked around to see if there was any chance of enticement. Experience tells me that although we put great hopes in such get-togethers, generally we wind up taking what’s most available. It’s kind of a previous investigation. We snoop around and find a scent. From there on we never know where that lead will take us, and the games begin.
Suddenly the noise seems too loud. Crowds can do that to me, somehow. Throw me in a state of absence within the confusion, like I’m playing a cameo role. Especially when I’m focused on something that sparks and gets my attention.
We kept on exchanging looks, lingering in our respective seats, chatting with other people. Our eyes, however, always returned to a strategic point. And she smiled. A little crooked, but smart and shinny smile. She had a quiet way about herself, al least apparently, but I wondered what was hidden inside that unruffled poise. I guess everyone feels that when they’re about to meet someone they begin to fancy, but it seemed somehow different this time. When she got up and went to the bathroom, I stared at her breasts, and hoped she didn’t notice. My birthday friend slapped me in the back and told me that the girl in question was unattached, but apparently wasn’t all there from time to the time. He called her odd, but I could sense in his words that she was probably a nut case, which explained the intensity and mixed nature of that wild smiling gaze. She was a classic semi nut case, and that somehow only allured me to go a little further. She seemed to have something to say, and also very nice breasts. That was my first mental picture of her nakedness. Many more would eventually follow, with the most variety of results you can imagine. But let’s not go there.

The party went on and soon it was over. We decided to go to a club and dance for a while. We continued our eye contact, but no word was spoken for quite sometime. I thought we chose to do it that way, but that wasn’t really true. I later found out that we had no choice, at least as far as beginnings are concerned.
That’s why we approached each other on the dance floor, tried to do something that remotely resembled care free dancing, and decided to toss away words. We had a few drinks and left the place. My birthday friend told me she had a screw loose, but I didn’t care. Love, or what stands for a beginning of the concept, or any of it’s bigger or lesser forms, is defined by the embrace shared by the lack of complete logic and fearlessness. I never believed, as I said, in the so called love at first site. I guess I’m still trying to determine if it exists at a third or a tenth sight, or at all. But the freedom to feel is exactly that. We each give our definition to something so omnipresent, and usually ( and luckily) it’s incomplete. At that time I didn’t know what was happening, but I had no need for that enlightenment. Some things are best left unsaid, especially if you are not sure of what you’re doing.
We went to her place. She lived alone in a lovely old building, lost inside the Bairro Alto. The stairs creaked bellow my feet, and seemed to complain about that kind commotion at four a.m. The elevator had stop working the week before, so we climbed the five floors in a hasty pace. Her silence started to get to me, but the excitement was too good to be questioned, even if I had no idea of where I was going."
(to be continued)