"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982
Stephen King - 1982
(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)
"FRIO BRANCO"
Parte III
"Durante as duas semanas seguintes falei com a minha cliente exclusivamente através de telemóvel. A voz dela variava entre o exausto e o nervoso. Com o passar dos dias, comecei a achar isto normal e fiz o meu trabalho de casa, mas pouco lhe podia adiantar, já que ainda não sabia exactamente o que ela pretendia que eu fizesse. Havia no entanto um detalhe curioso. As conversas ficavam sempre a meio e ela não voltava a telefonar. E durante as conversas, enquanto a minha cliente falava, existia sempre um ruído de fundo estranho. Pareciam gatos famintos ou qualquer outra coisa de desagradável, estridente e indefinido.
Dois dias depois do último telefonema, chegou uma carta ao escritório. Quando a abri, ia cuspindo o chocolate quente pela sala inteira. Dentro do envelope, estava um cheque com a primeira provisão. Eram cento e cinquenta contos em moeda antiga, escritos numa letra cuidada. Olhei para o cheque durante vinte minutos, convicto de que seria um engano. Mas não. Estava lá o meu nome e a quantia por extenso. Acompanhando o fantástico cheque, vinha uma carta escrita na mesma caligrafia cuidada.
«Dr:
Junto envio-lhe a provisão para fazer face às despesas que tem com este caso, e agradeço-lhe o trabalho efectuado até este momento.
Espero que esteja dentro de valores razoáveis.
Aproveito no entanto esta missiva para lhe fazer um convite para passar alguns dias connosco na dita casa que meu pai pretende vender. Ele está um pouco diferente e diz que gostaria de nos reunir para passarmos alguns dias. Falei-lhe de si, e ele achou bem que viesse. Diz que gostava de falar consigo e eu preferia que estivesse presente no que poderá ser a discussão do testamento. Se puder contar com a sua presença, por favor tenha a bondade de me ligar para o meu telemóvel.
Com os melhores cumprimentos
Alexandra X»
Sem pensar, telefonei à minha cliente, aceitando e desfazendo-me em agradecimentos pelo convite. Se ela ia pagar-me cento e cinquenta contos de provisão, eu até trabalharia um bocadinho na horta da casa de família, se ela o quisesse. Estava cada vez mais curioso, mas também incomodado.
Naquela noite fui jantar fora com a minha namorada. Depois fomos ao cinema e terminámos a noite num hotel não muito caro. Estávamos deitados, exaustos pelo sexo e o dia a dia de doidos, quando ela me perguntou se e quando eu iria nesta estranha expedição. Eu disse-lhe que partiria dali a quinze dias. Ela sorriu e desejou-me boa sorte enquanto a sua mão esquerda voltou a encontrar algo no centro das minhas virilhas. Eu respondi quase imediatamente, embora, por um terrível segundo, tivesse julgado ver o rosto da minha cliente no vidro da janela. Não era água o que lhe escorria do rosto.
A casa da minha cliente e respectiva família ficava perto da Malveira da Serra, nas proximidades de Torres Vedras. Estava à espera de algo como a Quinta da Marinha, ou Aroeira, ou coisa que o valesse, mas não. A dita casa de férias estava situada na boca de um denso pinhal e junto a um pequeno regato que corria a cerca de cinquenta metros da casa. Tratava-se de um casarão imenso, com perto de 15 quartos, distribuídos entre dois pisos. Era relativamente novo, mas tinha sido construído segundo os padrões de estética dos velhos solares que ainda hoje se encontram espalhados um pouco por todo o país, maioritariamente recuperados e destinados ao turismo de habitação. Tinha um quintal imenso, no qual repousava uma piscina vazia em forma de lua crescente, demasiado parecida com uma bocarra aberta num sorriso demente e azulado. Existia também, mais atrás, um campo desportivo no qual se podia praticar quase tudo, desde basquetebol, o que não me soava nada mal, até futebol de cinco ou mesmo ténis. O bosque ficava por detrás, no sopé da pequena elevação onde se encontrava a casa. O vento soprava frio e uivante, assobiando com ar de poucos amigos enquanto carregava folhas mortas e agulhas de pinheiro.
Parei o meu Ibiza velhinho perto de alguns carros. Só dois deles equivaliam em dinheiro a uma década de salários, se eventualmente mos pagassem. Saí do automóvel com o saco onde estavam as minhas mudas de roupa, e fiquei especado a olhar para um Porshe Boxter S. Naquele preciso instante arrependi-me da decisão que tomara. Pensei seriamente em meter-me no carro e acelerar até Lisboa, mas tinha o cheque da minha cliente na carteira e não me conseguia forçar a devolvê-lo.
Entrei no portão e um indivíduo de compleição sólida fez-me um sinal. Tinha um ar afável e humilde, o que não encaixava bem dentro de um físico que denunciava uma força desmedida. No entanto, e apesar da aparência vigorosa, o cabelo farto que despontava de ambos os lados da cabeça era prematuramente grisalho. Ao dar o primeiro passo para dentro do quintal, um “golden retriever” correu na minha direcção num galope rapidíssimo. Fiquei paralisado enquanto ele me cheirava, fungando entusiástica e comicamente. O homem ao fundo fez-me um sinal, penso que para me acalmar, e segundos depois tinha o cão rendido aos meus afagos, como a língua pendente o comprovava. A pessoa em causa era uma espécie de faz-tudo. Podia ser o mordomo ou capataz ou uma coisa qualquer parecida, e cumprimentou-me calorosamente. Ao apertar-me a mão percebi que aquele homem era ainda mais forte do que aparentava. A mão que apertou a minha num cumprimento cordial assemelhava-se a um torno com dedos, mas o sorriso era aberto e simples.
Dois dias depois do último telefonema, chegou uma carta ao escritório. Quando a abri, ia cuspindo o chocolate quente pela sala inteira. Dentro do envelope, estava um cheque com a primeira provisão. Eram cento e cinquenta contos em moeda antiga, escritos numa letra cuidada. Olhei para o cheque durante vinte minutos, convicto de que seria um engano. Mas não. Estava lá o meu nome e a quantia por extenso. Acompanhando o fantástico cheque, vinha uma carta escrita na mesma caligrafia cuidada.
«Dr:
Junto envio-lhe a provisão para fazer face às despesas que tem com este caso, e agradeço-lhe o trabalho efectuado até este momento.
Espero que esteja dentro de valores razoáveis.
Aproveito no entanto esta missiva para lhe fazer um convite para passar alguns dias connosco na dita casa que meu pai pretende vender. Ele está um pouco diferente e diz que gostaria de nos reunir para passarmos alguns dias. Falei-lhe de si, e ele achou bem que viesse. Diz que gostava de falar consigo e eu preferia que estivesse presente no que poderá ser a discussão do testamento. Se puder contar com a sua presença, por favor tenha a bondade de me ligar para o meu telemóvel.
Com os melhores cumprimentos
Alexandra X»
Sem pensar, telefonei à minha cliente, aceitando e desfazendo-me em agradecimentos pelo convite. Se ela ia pagar-me cento e cinquenta contos de provisão, eu até trabalharia um bocadinho na horta da casa de família, se ela o quisesse. Estava cada vez mais curioso, mas também incomodado.
Naquela noite fui jantar fora com a minha namorada. Depois fomos ao cinema e terminámos a noite num hotel não muito caro. Estávamos deitados, exaustos pelo sexo e o dia a dia de doidos, quando ela me perguntou se e quando eu iria nesta estranha expedição. Eu disse-lhe que partiria dali a quinze dias. Ela sorriu e desejou-me boa sorte enquanto a sua mão esquerda voltou a encontrar algo no centro das minhas virilhas. Eu respondi quase imediatamente, embora, por um terrível segundo, tivesse julgado ver o rosto da minha cliente no vidro da janela. Não era água o que lhe escorria do rosto.
A casa da minha cliente e respectiva família ficava perto da Malveira da Serra, nas proximidades de Torres Vedras. Estava à espera de algo como a Quinta da Marinha, ou Aroeira, ou coisa que o valesse, mas não. A dita casa de férias estava situada na boca de um denso pinhal e junto a um pequeno regato que corria a cerca de cinquenta metros da casa. Tratava-se de um casarão imenso, com perto de 15 quartos, distribuídos entre dois pisos. Era relativamente novo, mas tinha sido construído segundo os padrões de estética dos velhos solares que ainda hoje se encontram espalhados um pouco por todo o país, maioritariamente recuperados e destinados ao turismo de habitação. Tinha um quintal imenso, no qual repousava uma piscina vazia em forma de lua crescente, demasiado parecida com uma bocarra aberta num sorriso demente e azulado. Existia também, mais atrás, um campo desportivo no qual se podia praticar quase tudo, desde basquetebol, o que não me soava nada mal, até futebol de cinco ou mesmo ténis. O bosque ficava por detrás, no sopé da pequena elevação onde se encontrava a casa. O vento soprava frio e uivante, assobiando com ar de poucos amigos enquanto carregava folhas mortas e agulhas de pinheiro.
Parei o meu Ibiza velhinho perto de alguns carros. Só dois deles equivaliam em dinheiro a uma década de salários, se eventualmente mos pagassem. Saí do automóvel com o saco onde estavam as minhas mudas de roupa, e fiquei especado a olhar para um Porshe Boxter S. Naquele preciso instante arrependi-me da decisão que tomara. Pensei seriamente em meter-me no carro e acelerar até Lisboa, mas tinha o cheque da minha cliente na carteira e não me conseguia forçar a devolvê-lo.
Entrei no portão e um indivíduo de compleição sólida fez-me um sinal. Tinha um ar afável e humilde, o que não encaixava bem dentro de um físico que denunciava uma força desmedida. No entanto, e apesar da aparência vigorosa, o cabelo farto que despontava de ambos os lados da cabeça era prematuramente grisalho. Ao dar o primeiro passo para dentro do quintal, um “golden retriever” correu na minha direcção num galope rapidíssimo. Fiquei paralisado enquanto ele me cheirava, fungando entusiástica e comicamente. O homem ao fundo fez-me um sinal, penso que para me acalmar, e segundos depois tinha o cão rendido aos meus afagos, como a língua pendente o comprovava. A pessoa em causa era uma espécie de faz-tudo. Podia ser o mordomo ou capataz ou uma coisa qualquer parecida, e cumprimentou-me calorosamente. Ao apertar-me a mão percebi que aquele homem era ainda mais forte do que aparentava. A mão que apertou a minha num cumprimento cordial assemelhava-se a um torno com dedos, mas o sorriso era aberto e simples.
O senhor desculpe o susto, mas este malandro não faz mal a ninguém. É o pior cão de guarda que já vi. Se os ladrões cá vierem e lhe derem uma bolacha ou um carinho, ele é capaz de os acompanhar no saque. Não é, meu malandro?! – disse, fazendo uma festa ao animal com um carinho sincero.
Eu peço desculpa, mas venho da parte da senhora Dona Alexandra.
Sim, uma das filhas do patrão. Eles foram todos almoçar lá abaixo à adega do Faria. O senhor é o Doutor Gabriel Gusmão? O advogado da dona Alexandra?
Sim, sou eu.
Desculpe perguntar, mas pensei que fosse mais velho.
“Tens razão amiguinho. Muita razão. Mas que posso fazer?”
É normal. Eu ainda sou novo na profissão, sabe?
Sim, imagino. Mas venha, não fique aí ao frio! Vamos instalá-lo e esperamos os dois pelos patrões.
Fiquei a gostar deste homem num ápice. Tinha aquela qualidade genuína que nenhuma palavra poderia dar mas que surgia em todas as que proferia e movia-se como alguém para quem nada no mundo parece difícil.
Abriu-me a porta e deixou-me à vontade no salão principal. O fausto exterior parecia pálido perante o desfile de riqueza que se vislumbrava no interior. Móveis antigos, uma lareira imensa, tudo com um toque ancestral mas não caduco. Cada passo dado ecoava por todo o lado, em estalidos que se perdiam na distância. A casa era enorme, quase desproporcionada para albergar qualquer família, por muito numerosa que fosse. Sem saber bem porquê, dei comigo a subir um lance de escadas em caracol, da qual uma diva do cinema poderia fazer uma cena de queda perfeita, e entrei num corredor superior, muito comprido, com portas de ambos os lados. Ao fundo, uma outra sala, com uma salamandra imensa, e o mesmo gosto irrepreensível nos móveis. Entrei num quarto, sem saber que viria a ser aquele onde pernoitaria, e parei a olhar para a cama de casal. Os lençóis de linho bordados à mão provavelmente custavam mais que a minha própria cama e isso deu-me uma imensa vontade de rir, a qual consegui conter. No meio da exploração ouvia uma espécie de ruído estranho, muito à distância, ou abafado. Pareciam gatos, ou portas perras que guinchavam, queixosas da falta de óleo. Toda a casa estava impecavelmente arrumada, mas tinha um ar de tristeza e desolação que a embaciava como uma névoa invisível e o ruído só aumentava essa noção de desconforto.
O meu amigo deu-me uma leve palmada nas costas. O susto fez com o que o meu coração disparasse, mas o meu amigo continuava tão afável como antes e tranquilizou-me. No entanto, e só por um segundo, pareceu-me ver um escurecimento no olhar. Uma tristeza, uma nuvem passageira, um esgar de resignação amarga. Acabei por ignorar sem mais aquela situação, pois tinha muito em que pensar. Algo que surgia como lógico e omnipresente, especialmente quando me sentei na minha cama de casal, bestialmente confortável e com lençóis que fariam carícias semelhantes a mãos informes.
O meu amigo deu-me uma leve palmada nas costas. O susto fez com o que o meu coração disparasse, mas o meu amigo continuava tão afável como antes e tranquilizou-me. No entanto, e só por um segundo, pareceu-me ver um escurecimento no olhar. Uma tristeza, uma nuvem passageira, um esgar de resignação amarga. Acabei por ignorar sem mais aquela situação, pois tinha muito em que pensar. Algo que surgia como lógico e omnipresente, especialmente quando me sentei na minha cama de casal, bestialmente confortável e com lençóis que fariam carícias semelhantes a mãos informes.
O que é que eu estava ali a fazer?
Os meus anfitriões demoravam-se e como não conseguisse sossegar, resolvi dar um passeio pela casa. Saí do quarto, trancando a porta sem saber muito bem porquê. Toda a habitação estava em silêncio, à excepção daquele ruído distante e dos estalos do soalho impecavelmente encerado, encimado por tapetes igualmente limpos e laboriosamente trabalhados. Desci as escadas e entrei no salão. Lá fora, o tempo fechara e a tarde prometia uma chuvada terrível. O céu estava tão plúmbeo que quase ameaçava cair e o vento soprava insistente. Olhei pela janela e vi somente prados onde alguns bovinos pastavam, além do bosque onde as árvores se abraçavam dançando ao sabor do vento.
O salão estava vazio. Sentei-me num dos sofás e saboreei a lareira acesa, que crepitava entusiasticamente. Do lado esquerdo, iluminada pelas difusões luminosas e irregulares do lume, estava uma enorme estante repleta de livros magnificamente encadernados. Tive uma tentação quase irresistível de pegar em alguns deles, mas a minha educação tocava o gongo mental e, assim sendo, limitei-me a olhar para as lombadas. Edgar Allan Poe, Defoe, Swift, Camus, Shakespeare, Garcia Marquez, H.P. Lovecraft, todos se ombreavam silenciosos em versões luxuosas das suas obras. Algumas delas ainda escritas ou traduzidas em português antigo, algumas delas primeiras traduções adquiridas a alfarrabistas e bibliotecas antigas e infelizmente desmanteladas. Passei os olhos por não sei quantos autores, sentido o calor da lareira e maravilhando-me com a multiplicidade dos exemplares, até que encontrei uma série de livros negros, sem inscrição na lombada. Eram todos aparentemente iguais e ocupavam uma fileira da estante, como soldados eximiamente alinhados. Mais uma vez fui tentado pela minha curiosidade e achei-me novamente detido, não pela minha consciência, mas pela voz do meu amigo informando-me que o almoço estava pronto e que os patrões iriam demorar. Afastei-me da estante num salto e assenti em acompanhá-lo. Tinha o estômago a dar horas. Algo mais estava diferente. Só quando descemos para a cave, que dava para a garagem e para uma janela de onde se podia ver toda a extensão da paisagem para além do campo de jogos, é que percebi de onde vinha aquele meu desconforto. O ruído aumentara ligeiramente de volume, como se estivesse mais perto, e havia como que um aumento da atmosfera opressiva da casa. A tristeza densificara-se e a atmosfera parecia pesar, como uma melodia minimalista e magoada.
Almocei sozinho numa sala totalmente mobilada com nogueira escurecida. Tudo estava no lugar, arrumado e limpo. Não havia um grão de pó em cima das prateleiras e ainda se notava um pouco do aroma do óleo de cedro. O meu amigo informou-me de que os seus patrões ainda demorariam, pelo que não havia outra alternativa senão comer algo antes que a fraqueza levasse a melhor. O tempo lá fora escurecera de tal forma que se tornou necessário acender as luzes para que eu acertasse com o garfo na comida e não na magnífica toalha de mesa bordada. Ao contrário de tudo o resto, as luzes deixavam muito a desejar, pelo menos em termos de eficiência. Era uma luz amarelenta, débil, que mais parecia cobrir as coisas com um pó dourado e luminoso que propriamente lançar-lhes claridade. Os cantos das divisões permaneciam numa espécie de penumbra indefinida, como focos de escuridão geometricamente colocados na casa.
Enquanto devorava uma fantástica sopa de peixe, seguida de um bacalhau à lagareiro igualmente magnífico, o som do meu mastigar era o único que se fazia ouvir, para além do vento uivante lá fora, do gotejar da chuva e aquele outro ruído estranho, que pé ante pé, ficara novamente mais audível, mas ainda assim imperceptível quanto à sua origem ou possibilidade de identificação. Comecei então a experimentar um desconforto que aumentava gradualmente. Por alguma razão estranha, senti-me sorumbático sem qualquer justificação para tal, já que no máximo estava assustado com a minha futura tarefa, mas não triste. Levantei-me o mais depressa possível da mesa. Aquele malfadado ruído começava a dar-me cabo da cabeça. O meu amigo ouviu-me levantar e perguntou-me com amabilidade se eu desejava mais alguma coisa. Abanei com a cabeça, perguntando de poderia dar uma volta pela casa, ao que este assentiu usando o seu sorriso generoso.
Mas vou-lhe pedir que não entre nos quartos que têm as portas fechadas. Os patrões não gostam, pode ser?
Sim, com certeza. Muito obrigado.
Ele voltou a desaparecer pela porta da rua. Ouvi o cão que latia alegremente e, no instante seguinte, o semi-silêncio retornou novamente. Resolvi levantar-me e começar a expedição à casa, bem como ao terreno circundante. Obedecendo a uma lógica elementar, resolvi começar de cima para baixo. O andar cimeiro era constituído unicamente pelos quartos, uma ou duas salitas de transição e o sótão. Era óbvio que nem sequer sabia o que estava a fazer, mas qualquer coisa servia para me manter ocupado e fugir à estranha plangência que parecia toldar-me os movimentos e a capacidade de pensar. Subi a escada que conduzia ao meu quarto e entrei no corredor. Estava invulgarmente escuro, já que a luz que emanava das janelas era a proveniente de um sol encoberto por um mar de nuvens. Acendi a luz e tive a mesma pequena desilusão que tinha tido na sala de jantar. As lâmpadas vomitavam a mesma luz fraca e doentia. Os cantos da casa permaneciam escuros, juntos por uma espécie de extensão escura que os unia, já que a luz não conseguia iluminar os rodapés. As paredes exibiam réplicas e serigrafias de quadros famosos. Uma delas, o “Filósofo em Meditação”, de Rembrandt, era um dos meus favoritos de sempre e naquele lugar ficava fantasticamente apropriado. A luz que entrava naquela casa era algo parecida com a cor vislumbrável no dito quadro, semelhante a uma neblina que tocava os objectos ao de leve mas nunca os chegava a iluminar. As sombras nunca pareciam estáticas, mas surgiam como desenhos criados com mestria, ondulando num cenário que parecia quase vivo. A atmosfera era bisonha e simultaneamente bela, possuidora de um aspecto solene, antigo e até venerável. Passei por alguns corredores, olhando para outros quadros, igualmente cópias de telas famosas. Vi um quadro de Cargaleiro e outro de Paula Rego, mas não consegui distinguir se seriam originais ou cópias, acabando por decidir que provavelmente esta gente teria dinheiro para comprar o artigo genuíno. Mas era o quadro de Rembrandt que não me saía da cabeça, talvez porque me sentisse dentro dele. Nadava naquela atmosfera onde podia sentir uma certa solidão amarga e uma profundidade de pensamentos que moldavam o isolamento, tornando batimentos cardíacos num ensurdecedor concerto de percussão. Penso que se pode determinar o estado de solidão e silêncio quando ouvimos o tamborilar do nosso próprio coração. Andei mais um pouco. Abri portas de quartos, contra a indicação do meu amigo, mas ele também não precisaria de saber deste meu pequeno pecadilho. Não vi nada de especial, a não ser algumas camas desarrumadas e roupas em cima de cadeiras. No entanto, ao abrir uma das portas fechadas, verifiquei que um dos quartos estava às escuras. Pensei que alguém estaria a dormir naquela divisão e tive o ensejo de fechar a porta imediatamente. No entanto o frio que emanava da divisão indicava claramente que ninguém seria capaz de dormir ali. Dei um passo em frente, e a penumbra era total. O ar estava invadido por um aroma estranho que se situava algures entre o adocicado e metálico. A opressão invisível que sentia na casa parecia um pouco mais acentuada naquele espaço, mas talvez fosse a minha imaginação a funcionar. Tacteei a parede em busca do interruptor, e tive um instante de surpresa. A parede estava molhada e tremendamente fria, como se tivesse chovido dentro daquele quarto. Chovia lá fora, é certo, mas não caía uma única gota do tecto, nem existia qualquer janela aberta que permitisse tal encharcamento das paredes. Com algum esforço consegui encontrar um interruptor, e a mesma luz morta fez-se presente. Era um quarto normal, perfeitamente arrumado. Entrei para o observar e verifiquei algo que me desconcertou imediatamente. As paredes estavam de facto encharcadas. Fios de água escorriam em cascatas mínimas banhando todas as quatro paredes. Examinei este fenómeno anormal e, pela primeira vez, a minha mente começou a rejeitar a normalidade no cenário. Senti que os meus testículos diminuíam de tamanho e que o sangue acelerava, tentando fazer uma corridita com o coração que começara adiantado. A água escorria em gotas, mas o chão estava completamente seco, bem como o tecto. Os cantos da divisão permaneciam escurecidos, mas o mais engraçado é que a água brotava das paredes e, por alguma razão que nem sequer vou tentar explanar, era novamente como que absorvida pelas mesmas. Não havia uma única gota no chão."
(...)
(to be continued)
