ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, setembro 04, 2008

Wall-E - Obra Prima
(atenção, alguns spoilers!!)

Quando há mais de um ano, por volta da exibição do igualmente assombroso Ratatouille, vi um pequeno trailer acerca de um pequeno robot que deambulava por uma paisagem desolada e aparentemente distópica, algo me cativou imediatamente a atenção. Havia algo naquele personagem. A começar pelo facto de ser feito de arestas, rectas e no entanto ser ao mesmo tempo ternurento sem cair no terrível quintal do "fofinho"
Cheguei a casa e andei com o You-Tube para trás e para a frente, à procura de Wall-E, o projecto da Pixar anunciado com cerca de um ano de antecedência. Se considerarmos que o sonho de Andrew Stanton começou há quatro anos, percebe-se que o homem deveria andar morto para deixar sair alguma coisa cá para fora, e em boa hora o fez. Esperei por 2008, pacientemente, como agora espero por "Watchmen", que se for minimamente fiel ao material de origem será um filmaço, pelo filme que traria este pequeno robot que olhava para o céu, exibindo um par de binóculos com mais alma do que metade dos actores que vi até hoje, e muitas das pessoas com quem me cruzei.
E eis que pelos sites de cinema e revistas, que sigo religiosamente, se anuncia a data de estreia de Wall-E e a net começa a ficar pejada de um ou dois trailers vistos até à exaustão, como se cada visionamento pudesse trazer algo de novo. E, como o filme completo, trazia. Fui vê-lo três vezes, e a cada visionamento há mais uma coisa a ver, mais um suspiro de maravilhamento perante aquilo que considero sem qualquer hesitação uma obra-prima, um rasgo de génio, originalidade e coração que colocará dificuldades à Pixar, por ter subido tão alto a fasquia de qualidade. O meramente simpático mas divertido Kung-Fu Panda é uma pálida sombra perto da saga deste robozinho chaplinesco com alma de herói.
Apesar de todas as promessas, esperava algo de bom, consciente do risco de queda de tais cavalos. Mas a cerca de vinte minutos de filme, estou embasbacado perante a brilhantez de uma história de metal puramente de carne e sangue, a subtileza visual e conceptualmente sublime de uma distopia com coração, e como a ausência de discurso em nada atrapalha este momento de inspiração.
A primeira metade do filme, antes da chegada à Axiom, é um deleite. Wall-E é um herói sensível, adorável, vivo, pulsante. Um coleccionador, uma personalidade que se maravilha com o mundo que o rodeia ainda que este mais pareça algo saído dos piores dias de Phillip K. Dick. Tem o seu mundo, o seu animal de estimação, e vive o impensável há setecentos anos, encontrando os despojos de um mundo que de alguma forma o deixou vivo, mas só, no meio de uma rocha quase morta de entulho e pó. O desenvolvimento da personagem é de tal forma brilhante que ao fim de dez minutos dei por mim a querer ver duas horas só da rotina diaria de Wall-E, dos seus trejeitos, do seu existir de olhar vivo.
Eva é uma outra maravilha. O seu voo de liberdade na chegada à terra denuncia um espírito livre no impensável do programado e friamente científico, e perante a devastação de um mundo de pó.
E depois ela vai-se. E ele vai atrás dela. E tomara que muitas histórias de amor pudessem ser contadas desta forma e não em deformações delicodoces e Sparkianas...
E a distopia desmonta-se através do optimismo próprio do fim de um sono macilento, com o sol lá do outro lado da janela.
A verdade é que tudo aqui é cinema. Desde os personagens às imagens, aos pormenores do enredo, á sucessiva humanização de tudo quanto parece próprio de uma linha de montagem, sendo "M-O" um hilariante exemplo disso. Muitas referências ao cinema, desde Chaplin a Kubrick, enfim, um tratado de qualidade. Muitas referências desde Chaplin a Kubrick, enfim, um tratado de qualidade.
Fui ver este filme três vezes, e, como disse acima, descobri algo a cada visionamento.
Este não é claramente um excelente filme de animação. É um excelente filme. Ponto.
Para mim, o filme do ano.
Enjoy...



quarta-feira, setembro 03, 2008

Em tempos julguei, sem sombra de dúvida, que os afectos eram ganhos. Quero com isto dizer que conquistávamos as pessoas com as nossas características, mas igualmente com a aplicação das mesmas numa lógica muito simples de dar e receber.
Nessa mesma altura (in)feliz, também julgava que a medida daqueles e daquilo que nos ia acompanhando estava directamente ligada, pelo menos em parte, ao que dávamos de humano, solícito e disponível a quem decidia assim fazer parte do nosso mundo. Era em parte a prática da "qualidade" da pessoa que lhe granjeava o afecto e, com os mais especiais, aquela cumplicidade ou incondicionalidade que faz toda a diferença.
Mas, e também em parte, estava enganado.
Para algumas pessoas nada disso é necessário. Talvez em certa medidas os afectos sejam mesmo aleatórios, e algumas pessoas simplesmente encantam, e outras não. Para alguns, a circunscrição da sua pertença parece surgir-lhes quase como que por feliz acidente, como se emanassem algo de inconsciente que lhes permitisse planar por cima de tudo.
No fundo isso não me chateia nada. Antes inspirar afeição que outras coisas.
Mas dá que pensar quando a nossa suposta conduta pode ser quase irrelevante na solidificação de uma pertença que a muitos custa o tempo de uma vida inteira que foge sem sucesso à solidão, e sem se saber muito bem porquê.
A mim pelo menos dá...



terça-feira, setembro 02, 2008

"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982


(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

"FRIO BRANCO"

Parte IV

Fugi daquele quarto o mais rapidamente possível. Apaguei a luz e, quando me aprestava para tirar a mão do interruptor, tive a nítida e aterradora sensação de que algo me tocara. Fora um toque tão leve e rápido como o cair de uma pena em cima da pele, mas suficiente para me fazer tropeçar no tapete que cobria todo o corredor e cair, batendo com a cabeça na parede. Levantei-me, esfregando a mesma, e fechei a porta (ou fora ela que se fechara sozinha?). Apesar do frio, tinha o rosto alagado em suor, o coração em corrida desenfreada e a estupefacção a fazer uma visita de cortesia à minha cabeça. E trazia um amigo. Era o medo, que fizera a sua primeira aparição. A casa pareceu-me então ainda mais escura, a luz ainda mais lúgubre. Resolvi dar por concluída a visita ao primeiro andar. Saí quase em passo de corrida, praguejando contra a minha imaginação, mas tendo a noção clara e indesejável de que algo havia efectivamente sucedido. Tinha ambas as mãos encharcadas, e um ligeiro pingo de suor começou a cair-me da curva do nariz. Num gesto ausente, limpei-o com as costas da mão, e um dos dedos perpassou-me pelos lábios, provocando uma ligeira surpresa. A água que escorrera das paredes e me encharcara as mãos era salgada e ligeiramente oleosa.
Enquanto descia para o salão, a campainha da porta tocou. Não havia vivalma em casa, e eu já não ouvia o cão lá fora. O meu amigo deveria ter-se ausentado. Estava dentro de casa de alguém, obviamente abastado, e sendo eu um relativo, senão total desconhecido para aquelas pessoas, a sua despreocupação era desconcertante. Eu poderia escapulir-me dali com meia casa às costas e ninguém daria por isso.
Enquanto pensava nestas coisas a campainha continuava a sua sinfonia de uma nota só. Quem quer que fosse que estivesse à porta estava determinado a ser atendido. Ou talvez fosse um dos membros da casa que tivesse antecipado o retorno do seu passeio e não tivesse chave para entrar. Foi aqui que tive a noção de que o meu amigo se havia evadido para algures. Desci as escadas e sentei-me na sala esplendorosamente confortável. O lume crepitava agora de forma mais suave tornando a sala quente e sonolenta. A campainha continuava o seu solo. O visitante não ia desistir. Resolvi dirigir-me à porta, tirando os sapatos para evitar que quem açoitasse a campainha daquela maneira se pudesse aperceber de uma qualquer presença dentro da casa. A porta tinha um daqueles orifícios oculares que permitia ver quem estava do outro lado. Pasmei-me um pouco ao ver um homem que deveria rondar os sessenta anos, de barba branca farta mas impecavelmente arranjada e cabelo branco algo longo e abundante. Tinha um olhar triste e os trejeitos denunciavam alguém extremamente cansado e amedrontado. Fiquei sem saber o que fazer e, no entanto, por razões que até hoje desconheço, resolvi abrir a porta e deixá-lo entrar. Olhou-me com estranheza espelhada num par de globos oculares mesclados de sangue e semelhantes a vidro branco opaco estilhaçado. Era alto e de compleição robusta, mas estava nitidamente magro. Os ossos malares saíam da pele, esticando-a, e os papos debaixo dos olhos muito abertos indicavam um padecimento qualquer. Num segundo, passou por mim e perguntou-me quem eu era. A voz era grave e troante. Tinha um toque de agressividade, própria de quem está constantemente na defensiva, mas era educada. Respondi, como havia respondido ao meu amigo, que realmente desaparecera. O homem olhou-me e sorriu com uma expressão terrível. Era apenas um sorriso de lábios. Nem sequer me lembrei de lhe perguntar quem era, ou porque tinha entrado sem que eu lhe desse sinal para isso. Mas também, a casa não era minha, o que ia dar ao mesmo.

Então o senhor é o advogado da minha filha...

Alarme. Uma campainha agora, mas dentro da minha cabeça... diante de mim estava o autor da carta que a minha cliente trouxera para que eu lesse. Era o tipo que proferira, por escrito, palavras amargas e ameaçadoras à própria filha. Abriu uma garrafa de “whisky” velho e encheu cerca de meio copo. O líquido faiscou de encontro ás chamas da lareira. Lá fora começava o ribombar dos primeiros trovões. O meu anfitrião movia-se bruscamente. Os gestos eram rápidos, como se temesse tocar demasiadamente nas coisas. Os olhos estavam sempre escancarados e era difícil fitar aquela expressão. Eram de um azul glacial e penosamente penetrantes.

Sente-se, por favor. Quer beber alguma coisa?

Sim, muito obrigado.

Encheu-me um copo, como fizera para si. Sorvi um golo e aqueci imediatamente. O sabor explodiu suavemente na boca, e senti-me um pouco melhor, desde a primeira vez que ali chegara. Olhei para a garrafa. James Martin 25 anos. Claro. Sentámo-nos um em cada sofá, com o “whisky” na mão, olhando para a vista que se perdia na orla do bosque e no céu cinzento e trovejante. Propus-me falar do que fora que me trouxera ali, mas ele não me deu essa oportunidade.

Diga-me, doutor...

Gabriel. Gabriel Gusmão.

Dr. Gabriel, já alguma vez teve medo?

Olhei para ele sem entender muito bem a que se referia.

Sim, penso que sim. Acho que todos nós já tivemos em algum momento das nossas vidas. É uma coisa normal.

Sim, mas eu não falo em passar numa rua e ver um cão que nos olha de uma forma esquisita e rosna. Ou um grupo de pessoas encostadas a uma esquina que...

O primeiro relâmpago fez a sua aparição e, poucos segundos depois, o trovão abriu as goelas.

... que nos olham de uma forma estranha e demasiado fixa. Eu falo de medo. Medo pela vida, medo por algo horrível e não concretizável pela imaginação mais fértil. Aquele medo que incapacita os movimentos e embranquece os cabelos? – disse, tocando nos seus.

Olhei para ele e senti uma mão invisível perscrutar-me por dentro. Comecei a tremer, talvez ainda antes de dar por isso. Mais um relâmpago. Um trovão. Desta vez muito mais alto. Os copos de cristal protestaram um pouco dessa vez. Dei um pulo no sofá. Tinha as palmas das mãos suadas e o estômago contorcido.

Bem, a esse ponto, talvez não.

Que sorte que você tem e nem sequer sabe. Acordar todos os dias e ver que nada mais tem a temer que o normal.

Olhei para o canto mais afastado da casa. Estava completamente escuro, como de resto pareciam estar todos os cantos de todas as divisões daquela pequena mansão. O meu anfitrião falava-me de medo, de passar os dias em antecipação e angústia, de olhar para trás de cada porta, desconfiar de cada ruído aparentemente inocente, e nunca pôr em causa o grito de alarme dos instintos. A sua voz ia ficando cada vez mais cansada, mas eu olhava somente para aquele canto. Ele não reparava, uma vez que olhava para o céu escuro lá fora, para a chuva que zurzia a terra e as árvores. Conforme ele ia falando, eu senti o aumento do tremor. As palmas da minha mão estavam agora suadas ao ponto de deixar marcas no copo de “whisky”. A sombra no canto parecia estar a aumentar. Poderia ter pensado que tal era consequência do passar do dia e do fenecer da luz solar, mas eram tretas a mais para descansar um só espírito, e além disso, o toque na mão e o sal na água que havia provado antes não me saíam da cabeça. Para ajudar ao sentimento de medo e paranóia, o ruído que ouvira desde que ali entrara estava agora mais audível. Era algo misturado, que reunia algo semelhante ao miar sofrido de um gato no período de cio e o desfazer de alguma coisa húmida e orgânica, como o separar de peças de carne húmida. Era o som mais horroroso que ouvira até então. A sombra naquele canto, e em todos os outros, aumentava de dimensão. Tentáculos negros emergiam do negrume oculto, e pareciam juntar-se em camadas. A sombra crescia, viva, em movimentos anti-naturais, como se algo com capacidade de se mover e de crescer resolvesse aumentar um pouco o espaço sob seu domínio.
Não tenho vergonha nenhuma de dizer que tremia por todos os lados. O meu anfitrião perdia-se a discorrer sobre o medo, e eu ouvia-o. Estava a perceber cada vez melhor o que ele queria dizer e senti que toda a segurança e normalidade do meu mundo estavam a desaparecer, como uma vela de encontro a uma chama forte que morre rápida e em agonia surda. O meu coração voltava aos solos de bateria. Quando os cantos escuros cessaram o seu crescimento, o ruído caiu igualmente para os bastidores, sendo ultrapassado pelo crepitar da lareira. O meu anfitrião fitava-me agora e vi pela primeira vez no seu rosto um sorriso parecido com uma emoção humana normal. Era um sorriso de cumplicidade, de candura, o que me fez entender. Entendi tão bem, que quase me levantei do sofá para correr dali para fora. Porque não o fiz, ainda hoje não sei.

O dia passou, mas nem sinal da restante família.
O meu amigo retornou ao fim da tarde, o que em termos de vigília solar significava já noite cerrada, e serviu-nos um jantar fabuloso. O anfitrião mal tocou na comida, tendo mordiscado meia fatia de carne de vitela e duas pequenas batatas. Emborcou uma garrafa de vinho só à conta dele e no entanto, quando se levantou, os seus gestos e equilíbrio permaneciam inalterados. Dirigimo-nos ao salão e continuámos a nossa conversa. Os temas diversificaram-se, passando pelo futebol, política, religião e outros. O meu anfitrião era um poço de cultura. Falava quatro línguas, entre as quais o russo, tocava dois instrumentos musicais, e era enciclopédico no seu saber. Eu ia conseguindo acompanhar, mas apenas quando ele não elaborava demasiado. Não mencionava o resto da família, e eu não perguntei. Estranhava muito, mas não perguntei. Conversámos até terminar o serão e dirigimo-nos para os respectivos quartos. Deitei-me e dormi que nem uma pedra, pelo menos enquanto a noite o permitiu.
Por volta das três horas da manhã, acordei de um pulo. Acendi a luz e apanhei um susto tremendo. Ao contrário daqueles que são momentâneos, este permaneceu como que parado no tempo, roubando-me a capacidade de raciocinar ou mover com a costumeira agilidade. Sentia como se de repente um capacete invisível e moldável me pressionasse para baixo. Aquele ruído estava agora mais audível e espalhava-se como uma doença, revelando em uníssono vários gatos em agonia e pés em cima de lama ensopada. Levantei-me obedecendo a um acto reflexo motivado pela estranheza. A noite estava furiosa, mas os trovões ouviam-se muito por detrás daquela parafernália de som. Saí do quarto, de pijama e ténis, uma vez que me esquecera de trazer chinelos. A sola de borracha chiava ligeiramente em contacto com o chão de madeira limpa e encerada, mas em meio aquela zoada nem sequer era audível. Premi o interruptor e a mesma luz combalida entrou em cena. Em meio à noite escura, era ainda mais débil e enjoativa.
Olhei para as janelas. A chuva caía em catadupa, embatendo violentamente nas janelas, sempre de mão dada com o vento. Soprei um pouco e o meu bafo desenhou uma pequena nuvem à minha frente, como se fumasse. Estava um frio de rachar. De morte.
Passei pelo quadro e ao contrário do que se passara na tarde anterior, não senti qualquer alívio ao fitá-lo, já que a tristeza imanente da pintura passou para mim. Experimentei um desânimo estranho e incomodativo. Todas as minhas reacções e muletas mentais começavam a fraquejar nitidamente, como se o peso que sentia no corpo e na respiração tivesse encontrado forma de chegar ao meu espírito. Cada vez que fechava os olhos via os cantos da casa a crescer em escuridão, alternando com o olhar faiscado de sangue do meu anfitrião e pensava na insanidade que não me permitira fugir a sete pés.
Desci as escadas e entrei na sala principal. Estava quase escura, à excepção das pequenas brasas que ainda ardiam na enorme lareira da sala, já moribundas. Tacteei as paredes em busca do interruptor, até que o encontrei, e a luz que emergiu era feita do mesmo brilho enfermo que existia por toda a casa. Procurei uma lanterna, para que pudesse iluminar melhor a sala e, porque não, os cantos. O som omnipresente estava lá, incontestado. Sentia tudo isto, mas em abono da verdade, não posso dizer que visse alguma coisa. Como não encontrasse qualquer lanterna ou uma vela que fosse, acendi um dos candeeiros que ficavam perto das mesas pequenas e resolvi perscrutar a estante repleta de livros. Ao lado de um antigo exemplar de “Wuthering Heights” estavam os misteriosos volumes pretos, magnificamente encadernados. Cada um deles deveria rondar as cem páginas A4. Sem pensar no que diria aos anfitriões, caso algum destes me apanhasse a remexer nos seus livros em plena madrugada, resolvi tirar o primeiro volume e folheá-lo. Li a primeira página, escrita numa caligrafia cuidada e elegante e notei que o discurso estava escrito na primeira pessoa, levando-me a concluir que se tratavam de palavras escritas pelo anfitrião. A meio da segunda página, dava início a uma narrativa das suas vivências e, acima de tudo, um discorrer acerca do medo paranóico que começava a viver nessa altura, por volta de Agosto de 1990. Fiquei como que preso naquela cadeira, lendo a narrativa de medo, de desesperança e de horror. Era mais do que eu podia suportar, mas não conseguia deixar de ler as páginas que me consumiam, com relatos de um sofrimento inexplicável. Desde o início da narrativa, o anfitrião falava da mulher com uma paixão incontida. Da sua beleza, da vida que lhe trazia, de tudo aquilo que com ela fizera, desde as viagens ao estrangeiro, ao sexo, tudo descrito de forma clara, mas não muito desenvolvida. Aquilo que surgia mais desenvolvido e absolutamente recorrente eram as suas suspeitas, os seus medos, e os efeitos que lhe causava. Era tão vívida a sua descrição que a ocasional náusea parecia rastejar para fora das palavras, como uma excrescência demasiado poluída para ser retida pelas letras. Era como tocar com a mente em algo radioactivo ou infeccioso. Falava de outras coisas igualmente medonhas, constituídas em pano de fundo por uma suspeita hedionda, a qual envolvia os filhos e a dita mulher. Uma desconfiança que parecia provir das inacessíveis montanhas da loucura mental, tocando-me com dedos obscenos feitos da lástima e do medo que mantinham aquele homem preso a este local e ao que temia.
Fechei o volume quando passava pouco das cinco e meia da manhã. Não fora apanhado, mas tinha agora receio em circular pela casa e de me aproximar dos cantos sombrios. A imagem do quarto inundado parecia pulsar-me na memória como um dente terrivelmente infectado, lançando uma escada ao pânico.
Porque não me fui logo embora? Pode ser muito simples, ou muito complicado. Mas nem sequer vou arriscar uma explicação. Talvez porque certas coisas sejam assim. Inegáveis na sua existência, mas inexplicáveis quanto à essência que as constitui ou a uma qualquer vontade que as justifica. Subi as escadas, sentindo-me cansado e vazio. Escusado será dizer que tive um sono atribulado, cheio de sonhos hediondos e inconfessáveis, enclausurado no que seria um provável início de loucura.

Já o sol ia bem alto quando fui despertado por um som leve na minha porta.
A princípio pensei que era algo dentro de meu sonho, pleno de sons, ecos, figuras endemoninhadas e liquefeitas, que se transformavam uma e outra vez à semelhança de algo que se comia e regurgitava a si mesmo. Ao acordar, verifiquei que a minha pele estava ensopada em suor. Os lençóis fizeram um som húmido quando os afastei da minha pele, o que era estranho, considerando que o dia amanhecera frio. Passava já do meio-dia. Os pássaros não cantavam, o sol não tinha saído do covil de nuvens que o circundava. Estava frio e as sombras eram fracamente banhadas por uma luminosidade metálica, em cinzentos esbatidos e tristonhos. Levantei-me da cama, sentindo-me ainda mais abatido que no dia anterior. Cada olhar que dirigia era despido de cor, como se eu fitasse algo ou alguém marcado para morrer.
Era o meu amigo que batia à porta. A jovialidade expressa na voz contrariava todo este cenário, mas não era suficiente para o fazer desaparecer. Era como um pássaro limpo e livre no meio de uma floresta queimada. Olhei em volta, e os meus temores concretizaram-se, arrancando-me um arrepio que me fez estremecer quando voltei a colocar os olhos no quadro. Permanecia ali solene e belo, mas algo estava diferente. Era um detalhe que facilmente se poderia atribuir à minha imaginação desgarrada, mas podia jurar que o quadro estava mais escuro, com os tons mais carregados e os negros ligeiramente mais vastos na tela. Atendendo ao que vira até então, resolvi aceitar essa ideia como mais um elemento do que não compreendia, o que começava a juntar a muito fenómenos.
Almocei sozinho novamente. O meu amigo informou-me que o anfitrião estava às voltas com o cão na orla do bosque e que os restantes convivas deveriam chegar naquela noite. Com eles viria a minha cliente, pessoa que eu esperava ansiosamente para poder perguntar-lhe finalmente que diabo se passava ali, ou porque estava eu à espera deles havia mais de um dia. Ou porque é que o pai dela parecia um foragido da masmorra do Drácula, e por aí fora. Mas a curiosidade mais ávida era dirigida a outro facto. Queria ver quem se aproximaria dos cantos da casa e se me podiam explicar o que era aquele ruído horroroso que ia aumentando e diminuindo de volume e que se assemelhava a alguém com voz de gato a despir a própria pele.
Esperei na sala, já com a lareira ressuscitada, e agarrei num outro volume. Fiquei perdido durante mais algumas horas. A tarde foi passando, escura e chuvosa, até ameaçar transformar-se em noite. Os trovões não paravam, bem como o ocasional acender do céu. Senti o medo crescente tocando-me com unhas afiadas na base do pescoço. Transpirava, mas quase não dava por isso. Encontrava-me num estado febril e parecia que todos os sons estavam mais altos, as luzes mais fortes, os aromas mais intensos. Um pânico calmo sorvia cada instante de brandura, que doía no espírito como o mais destilado sentimento de desamparo que alguma vez senti.
Olhei para os lados. Os cantos cresciam e definhavam, como massas pulsantes de uma matéria negra e despida de textura. Os tentáculos subiam e desciam, como algas no fundo de um rio, impulsionadas em várias direcções pelas vontades das águas correntes. O som... Meu Deus, o som era horrível, como o som de ossos a serem descarnados, um som húmido e rastejante. E terrivelmente próximo e indefinível. Como uma pulsação. Viva. Impura mas viva.
Quando acabei o último dos volumes a noite já ameaçava retornar. Fui à casa de banho molhar o rosto e verifiquei que a minha pele empalidecera. Os meus olhos estavam por sua vez ligeiramente desenhados a sangue. As olheiras cavavam sulcos profundos no rosto e todo eu era a imagem de um temor primitivo.
Naquele instante resolvi abandonar a casa, com ou sem cheque de provisão. Não fora para aquilo que fora contratado e a minha cliente certamente o entenderia. Se não quisesse entender, também se arranjaria outra forma de fazer as coisas. Ia para uma bomba de gasolina trabalhar um ou dois meses, pagava-lhe o que devia e lançava toda aquela demência para trás das costas. O medo mordia-me os calcanhares como um cão raivoso, e era tempo de saltar o muro e deixá-lo para trás, ladrando em frustração.
Subia as escadas em direcção ao quarto (era necessário fazer a mala) quando o telemóvel tocou. Era a minha cliente. Pedia-me imensas desculpas, que fora impossível comparecer, que amanhã estariam cá sem falta, e mais umas dez desculpas esfarrapadas. Estive a um segundo de recusar qualquer desculpa, mas ela acabou por conseguir convencer-me. No dia seguinte, tudo seria explicado e o que não pudesse ser constituiria a razão mais que óbvia para desaparecer dali o mais depressa possível. Desliguei o telefone, fui tomar um banho e esperei pelo jantar deitado na minha cama, com o “walkman” ligado e os olhos fechados. Já tinha ouvido e visto o suficiente. Alguém, no entanto, tinha ideias diferentes.

O jantar ocorreu sem novidades. O anfitrião juntou-se a mim, mas o seu aspecto desolador era ainda mais acentuado. Era a figura de um homem derrotado. Os olhos estavam firmemente encovados no rosto, escondidos atrás das imensas olheiras e da expressão alucinada e sempre nervosa. Falámos de banalidades enquanto a lareira tremeluzia. Eu mordiscava o magnífico cherne grelhado enquanto pensava no último dos volumes pretos que lera, em tudo o que acontecera, e na chegada da minha cliente. Tinha a mente imersa numa teia pesarosa. Cada gesto exigia um esforço físico considerável. Olhei-me mais tarde ao espelho e vi que as bordas negras das olheiras começavam a fazer desenhos no meu rosto. Riscos erráticos e vermelhos começavam igualmente a ornamentar a região dos meus olhos onde não havia cor.
O jantar acabou e o meu anfitrião retirou-se. Subia as escadas como quem subia para o cadafalso. Os ombros curvados, os passos lentos e arrastados, uma respiração sonora e doente. Imaginei o velhote no quadro, mas sem qualquer réstia de serenidade. Eu retirei-me em seguida. Estava exausto, e durante a manhã seguinte, tudo se resolveria. Queria simplesmente ir-me embora.

Acordei por volta das quatro da manhã.
O céu tornara a revoltar-se e os relâmpagos davam agora um grande espectáculo. Os ruídos que se seguiam sublimavam a demonstração da sua grandeza, mas não tinham sido estes a acordar-me. Ecoava pela casa inteira um grito imenso e apavorante. Era um estertor de garganta, um brado de medo, raiva e dor excruciante. A atmosfera doente e triste da casa parecia agora um véu diáfano que se espalhava por todo o lado, tal era a sua densidade quase física. O meu coração disparou num ritmo desenfreado. O suor queimava-me os olhos. Tremia sem que conseguisse controlar minimamente o corpo. Os gritos eram altos, terríveis. Eram dor e agonia feita voz.
Foi aí que as minhas surpresas se acabaram. Recordei os primeiros volumes que lera e, de uma certa forma, segui os passos que dei anteriormente, como um pirata demente que segue um mapa de tesouro rumo a uma armadilha mortal.
Saí do meu quarto. O corredor, mergulhado em sombras e povoado de gritos, parecia imenso. Uma bocarra escura e silenciosa, que mal se iluminou com a luz doentia que emanava das lâmpadas. Os cantos das divisões eram agora furiosos centros de ruídos asquerosos e movimentação de sombras vivas. Ou talvez não fossem sombras. Ou talvez eu não quisesse saber o que eram. Sim, acho sinceramente que foi essa a ideia que tive. Talvez até porque já desconfiasse o que seriam. Andei alguns metros até chegar à porta que anteriormente me fora interdita. Os gritos emanavam de dentro do quarto proscrito. Toda a casa fervilhava com uma actividade que não era vida, de sons e enganos horrendos à visão. As ilusões saltitavam por todo o lado e era grande o toque do pavor.
Abri a porta e tudo se tornou claro. Substancial como sangue, mas cristalino como lágrimas recém vertidas. O chão do quarto estava invisível, coberto por uma altura de água que atingia facilmente os quarenta ou cinquenta centímetros. Agora que penso, vejo que a água não escorreu para o corredor quando abri a porta, o que também não me teria surpreendido. Era ali que tudo se tinha de passar. Não precisei de provar a água para saber que ela era salgada. Agora percebia. Meu Deus, como eu percebia e como estaria arrasado ao sonhar, para sempre.
A cama onde anteriormente nenhum corpo repousava, estava agora ocupada por um corpo ensanguentado e semi-devorado. O meu anfitrião berrava em agonia pura, vertendo muito sangue. Ainda estava vivo, embora eu não pudesse entender como. Perto dele enlaçavam-se o que pareciam ser hienas famintas em volta de um leão moribundo, só que tinham o formato de cinco pessoas, nuas, com os corpos untados de líquido vermelho e viscoso. Devoravam o homem que se contorcia na cama. Ou o que restava dele. Das bocas pendiam fios de sangue espesso. Os olhos exibiam apenas uma cor branca e leitosa e os trejeitos eram estranhos, como que desajustados aos corpos que os efectuavam. Eram gestos animais, descoordenados, mal colocados e improváveis naqueles corpos. As posturas eram simiescas e os meneios quase felinos.
Passei por um instante horroroso quando vi o rosto da minha cliente, com os lábios emersos em sangue e segurando um naco de carne com dedos enclavinhados. Das costas destas pessoas, se é que era isso que eram, emergiam filamentos grossos e negros, semelhantes a cordões umbilicais, os quais se estendiam até aos cantos da divisão e fervilhavam de movimento como uma maldição feita carne. Olharam para mim e sorriram todos. Sorriram num esgar demente, com os dentes plenos de sangue e as mãos empunhando pedaços de algo que até hoje agradeço não saber exactamente o que era. Eram sorrisos de tal forma malévolos que senti por momentos o medo a levar a melhor sobre mim, podendo deixar-me ali, prostrado e rendido a uma insanidade irrecuperável.
Saí o mais depressa possível do quarto. Olhei para o quadro e percebi tudo. Nem necessitava de ter lido o último volume para saber o porquê do sabor da água. Percebi com uma dor na alma que ainda hoje é uma chaga aberta, branca e fria.
A casa era uma sinfonia de ruídos de carne e pele húmida que se despegavam, de gritos de dor, ruídos inumanos e trovões furiosos.
Sem saber como, agarrei nos meus pertences e tentei sair da casa. Ia caindo pelas escadas abaixo enquanto conseguia aperceber-me que os cantos das divisões eram agora quase paredes inteiras tingidas de negro vivo, ignorando a luz que as deveria expulsar. Gritei a plenos pulmões, para me lembrar que estava ali e que o instinto de sobrevivência teria de me manter desperto antes de me paralisar numa demência ineficaz.
Abandonei a casa, com gritos que ainda ecoavam na noite apesar da violenta trovoada. Ele ainda estava vivo.... por quanto tempo mais? Passei pela piscina, e vi que o cão se dirigia a mim com o mesmo ladrar afável de sempre. Tinha a língua de fora, arfava e nunca mais me abandonaria. Aliás, tenho-o aqui comigo, aos meus pés, dando-me conforto. Curioso como se apercebe sempre que estou agitado.
Abri a porta do meu carro, que felizmente pegou, e ele entrou num pulo. Como sempre, os animais são mais espertos que nós. Quando liguei as luzes e me olhei ao espelho não reparei imediatamente. Isso só aconteceu quando não podia já ouvir aqueles ruídos de descarnação e dor que me apercebi finalmente. Quando já via a estrada à minha frente e o medo permitia que os tremores acalmassem. Foi nessa altura que reparei. Tinha os olhos sulcados de sangue e olheiras enormes. Mas algo emergia, Algo que ficaria como uma lembrança de leito de morte. Toquei na cabeça, penteando o cabelo para trás, o qual faiscou perante as luzes oriundas dos candeeiros de rua.
Estava totalmente branco.


FIM
Lisboa - 20-05-2005

quinta-feira, agosto 28, 2008

Velha questão.
Somos o que somos, ou somente o que fazemos, ou somente aquilo que existe em função do que temos?
Confrontado com essa questão tenho sempre problemas em definir, em primeiro lugar, a definição mais ou menos consensual de ambição. A perseguição dos chamados objectivos, da otenção de algo, por vezes baralha-me. E baralha-me porque sempre julguei que somos definidos pelo que somos em fazemos em função daquilo que caracteriza a nossa pessoa, e não a produção de cenários em consequência do que se torna visível.
Estou plenamente convicto que ambição e evolução, no meu "livro", define-se algures num conceito misto entrincheirado entre o desejo de ser e crescer humanamente. Realizar coisas que tenham a ver com a nossa dimensão enquanto seres individuais. No fundo, a forma como os nossos recortes, internos ou externos, nos individualizam. O nosso senso de humor, conhecimento, sensualidade, humildade, mau-feitio, e uma série de inexplicáveis tiques que encaixam porque as empatias parecem ter vontade própria. Sempre encarei a evolução como a leitura de mais um livro, mais uma coisa que se aprende, algo mais que se vê, mais uma forma de descrever um sentimento junto ao manacial que cresce connosco. Sempre pensei que era o ser humano que ia fazendo que contava, e não o que o ser humano que era poderia ir fazendo.
Não estamos obviamente alheios a elementos básicos de avaliação dos feitos dos outros. Não podemos isolar as conquistas como algo exógeno, porque mesmo na era da meritocracia e do planeamento, as grandes conquistas podem não ter substância palpável. Podem não ser produto do obtido a custo de tantos feitos sujeitos a fotografia. Para mim assenta num complexo de tudo, mas principalmente no reduto de humanidade a que me dão acesso, e onde normalmente florescem os comportamentos associados a tudo o que causa desde a admiração ao desejo. É o que a pessoa é, o contorno que tem, e não o que supostamente rodeia o seu percurso dos dias mais pragmáticos.
Somos o que fazemos, é um facto. A ambição é absolutamente necessária. Crescer, juntar ideias e histórias, tudo é fundamental para despertar o olhar, a curiosidade, e com sorte, a empatia.
Mas em alguns casos, aparentemente o que se detém supera o que se é, o que se demonstra ultrapassa o que se consegue dar.
Respeito, evidentemente, mas mentiria se dissesse que não em entristece perceber até que ponto o que se é capaz de ter ou gerir ultrapassa o que se pode ser, dar e sobretudo, trocar como segredos ou cruzes em mapas para onde afinal todos verdadeiramente nos encontramos.
Manias...


quarta-feira, agosto 27, 2008

Há dias falaram-me de sorrisos perdidos e alegrias escondidas. Em outros tempos de gargalhada supostamente fácil contrastando com o aparente peso de um presente que se deveria ver mais "meio-cheio". Falaram-me de descaracterização, de assumpção do fado nacional, como se de alguma forma a lógica para as minhas dores pudesse ser produto de um complexo nacional já antigo, o da queixa pela queixa.
A verdade é que talvez eu sorria menos hoje. Sinceramente não sei. Tinha uma amiga que me dizia que eu nunca sorria abertamente nas fotografias, mas sinceramente acho que ela se confundia entre sorriso triste e receio de mostrar os dentes tortos que ostento. Brincava com ela acerca disso, mas a verdade é que o meu sorriso é diferente, como eu próprio julgo que o serei. Factores de crescimento, ou simplesmente a percepção de cantos escuros a quem uma certa luz de vivência não fez particularmente bem.
Sinceramente, tenho dificuldades em estar lúcido perante aquilo que me rodeia e conseguir ostentar um sorriso absolutamente fácil. Talvez preste demasiada atenção a certas coisas, ou talvez me importe excessivamente com outras. Não perdi o meu sentido de humor, e julgo que o cultivo, mas tenho a perfeita noção que ele se tornou menos leve, talvez, e a capacidade de brincar nunca ande demasiado afastada de um traço cáustico ou irónico, que felizmente só surge com quem tenho real confiança. Quem o vê, saberá do que falo.
Não sou uma pessoa mais derrotada. Nem sequer uma espécie de pólo deflector da espécie bípede e supostamente pensante, (sim, porque há gente que mais valia ingressar nos carreiros dedicados à vegetação, sempre alimentavam alguém.).
Há sim uma maior consciência. Considero que aceitar essa consciência de coisas onde falho redondamente, ainda que tente por tudo fazer o contrário, e saber que se calhar o meu melhor e o de muitas pessoas bem mais válidas do que eu terá uma importância zero perante coisas tão simples como respeitar o próximo e aprender algo, por vezes rouba-me o riso fácil. Sinceramente, e aqui aceito todas as vergastadas possíveis, mas é como eu penso, portanto temos pena, as (muitas, não todas claro) pessoas já me iludiram, agradaram e convenceram mais. Já me deram um alento maior em simplesmente ser-lhes agradável, em entender as suas idiossincrasias, em simplesmente ter mais afeição pelo conceito de humanidade em geral. E no entanto, um bilião e meio de chineses estar-se-á a cagar para isso, certo? E sei que muita da minha consciência perante as coisas é infinitamente parcelar, incompleta, e vale o que valem os meus valores e argumentação mais ou menos lógica. Mas é assim que sinto, vejo e interiorizo. É assim que percepciono muitas das coisas que deveriam ser quase óbvias e que permanecem no esconderijo tão eficaz de outras coisas como simplicidade, sensibilidade, empatias e entropias necessárias.
Continuo a gostar de pessoas e do mundo, mas sim, verdade seja dita, com o meu antigo sorriso talvez mais fácil (e inconsequente) foi-se um amor abstracto de outros dias a esses conceitos e realidades. Tornei-me mais pessimista, mas nunca niilista. Entendo menos hoje do que se calhar entendia com a força de anos pouco pisados. E essa falta de entendimento por vezes é o mais doloroso de tudo, porque em mim reverbera como uma daquelas más canções que não conseguimos deixar de trautear por mais que a detestemos.
Estou apenas a ver.
Por vezes com um sorriso, outras sem ele.
Com as minhas razões, as quais consigo explicar detalhada e logicamente. À meia dúzia de gatos pingados que se interessam, claro - a vida reservou-lhes vários castigos e este é um deles.
Mas eu ainda sou eu. Diferente, como o sou a cada respiração que fica para trás, e a cada dia que é mesmo único e não torno a ver.
Repetindo até à exaustão, digo - pessimismo da inteligência, optimismo da vontade.
E querer, é tudo, ainda que cauteloso, criterioso e sobretudo, exigente.
A grande mancha de abstenção de vida que observo não me faz sorrir.
Como eu próprio, muitas vezes, não me crio sorrisos.
Mas ainda me consigo rir de mim mesmo.
E enquanto for assim...


terça-feira, agosto 26, 2008


Sim, ainda me levam os D. Quixotes, os Wall-Es, os Aragorns, os Atticus Finchs e os Fermin de Torres.
Ainda me levam à certa uma parcela dos idiotas de Dostoievsky, e um certo desejo de simplesmente ver as coisas com bons olhos, com uma lente positiva, de ajuda, de construção, de dar o que se precisa para que algo ou alguém funcione melhor.
E não há quem nos coloque de joelhos que possa dar uma visão diferente, ainda que os cabeças de abóbora sejam cada vez menos frequentes...




segunda-feira, agosto 25, 2008

"Your whole life, people are gonna ask you to be weak. They're gonna practically beg you. But all anyone really wants is for you to be strong." - Ethan Hawke - "The Hottest State"
A insegurança é um presente envenenado parido da sensibilidade.
Sempre me surgiu como uma medida de análise do mundo, das suas ordens de grandeza, de abarcar algo do que nos transcende, quer porque nos maravilha, quer porque nos atemoriza.
A insegurança nunca deve ser debilitante. Nunca deve funcionar como um elemento que tolha a personalidade ao ponto desta se esconder atrás daquela. Nunca pode substituir-se a uma análise um pouco mais realista, e porque não, humanista, dos pedaços de fenómenos de que é feita a vida onde cada um intervém, e onde acaba por ter importância. A não ser que sejamos todos um doppelganger da Eleanor Rigby, alguma insegurança surge quase como um contorno necessário do simples facto de sermos finitos, falhos e necessariamente limitados.
A insegurança, em meu ver, não deve nunca ser confundida com fraqueza. Se há coisa que exige coragem é o confronto com os temores, com as auto-ameaças de incapacidade. Merece alguma deferência a capacidade de pairar às cegas, quando é notório que não sabemos voar.
Para algumas pessoas, qualquer forma se insegurança parece um capricho, uma mariquice própria de quem não consegue ser plenamente objectivo. Para outras, é uma forma de fazer género, ou sair à pesca de cumprimentos. Para outras ainda é como um estigma, uma espécie de repelente de aplicação tópica que supostamente contamina a pessoa ao ponto de a descaracterizar.
Mas a insegurança não é volitiva. A insegurança é um desenrolar de questões. É tão controlável por vezes como um espirro ou travar uma queda em pleno ar. Não é uma espécie de avitaminose da alma, e sim um olhar e sentir que por vezes transcende o próprio, misturando desejo, culpa, auto-crítica e na mais das vezes, um desconhecimento completo do que são os efeitos externos de quem se é. Na sua pior fase, gera auto-desconhecimento.
Acho que não conheço ninguém que não tenha uma qualquer insegurança. Sinceramente, acho que nem quero conhecer, obrigadinho. Os complexos de Deus cansam um bocadito, e não há pachorra para a racionalização absoluta do que são pequenas rachaduras de mente ou alma, como preferirem. Ninguém é inseguro porque quer, assim como não creio que existam indivíduos absolutamente seguros. Parece-me apenas humano temer (mas sempre tentar pelo menos reagir) coisas que nos levam a questionar a percepção do que está à nossa frente, e do que é o mundo em que nos colocamos. No qual temos influência.
A insegurança também permite evoluir, porque ao contrário do que se pensa muitas vezes, em alguns casos, pode ultrapassar-se. Não creio que se possa eliminar toda. Há algo em cada mente isolada no escuro que se teme, receia, ou redunda em desconforto.
Os inseguros de que falo são fortes. Porque vivem, progridem e agem, ainda que sintam sempre alguma coisa a morder-lhes os calcanhares. São parcialmente agredidos por dúvidas, e não páram no desejo de evolução. Têm uma parcela de alma perdida que lhes dá um charme inimitável. São palpáveis. Humanizam-se. Comovem-me a espaços.
Bem hajam.



quinta-feira, agosto 21, 2008

Acontece em todas as vidas, ou talvez a todas as pessoas, o surgimento de algumas aves raras que conseguem ter uma certa chave. É uma chave feita da percepção do nosso projecto, da planta que antecede a nossa personalidade, a qual julgamos a espaços estar erigida. E nessa medida, comete-se um erro. As boas notícias é que esse erro é apenas ocasional, já que tem uma simetria positivista que lança alguma dúvida deliciosa acerca da natureza de qualquer outro fora do nosso espaço mental. As más notícias é que julgo sermos capazes, eu pelo menos sou, de dar o ouro ao bandido com um sorriso, e ainda assim andar anos numa busca pela obtenção de indultos.
Burrice à parte, a verdade é que algumas pessoas entram. Limpam os pés e tocam ao de leve nas cerâmicas, com o cuidado de quem admira e delira por estar num tal local. O sorriso é cordato, o toque em tudo é um misto de gratidão pelo acolhimento e sede de experimentação. E alguns de nós, (eis-me novamente de mão no ar) são anfitriões ansiosos. Daqueles que mostram a colecção de Rembrandts sem pensar que ao mesmo tempo deram a combinação do cofre e a escala dos seguranças.
Ao evoluirmos com alguém, seja em que registo for, a familiaridade e a expansão afectiva exigem sempre uma maior entrega. E não falo apenas em entrega pessoal materializável, como o sexo, um toque na face, um gesto, uma conversa de ossos de fora. Falo daquelas coisas que nos circunscrevem, como formas desenhadas com cantos obscuros e particularidades esbatidas para criar uma sombra necessária à sensação de substância. Falo de unir os pontos para poder fazer o desenho. O mais curioso, é que por vezes alguém aceita esse algo. Alguém aprende a saber onde está tudo, como uma governanta especialmente eficaz, com a diferença que talvez não se pareça com a Mrs. Doubtfire.
E não há nada mais precioso, volátil e perigoso que esse acesso. Que o desligar do filtro que permite perceber onde as fundações estão mais carcomidas pela ferrugem de demasiada água corrida. Talvez porque de alguma forma, essa seja a experiência última, só uma jugular exposta permite que se passe do eco ao real diálogo. E no entanto, em alguns casos, o que somos é apenas uma espécie de escaparate onde se esperam as medalhas e os troféus. Onde a ambição não é medida pelo desejo de progressão e abrangência humana, mas pela suposta grandeza de coisas. Não existe pior percepção de que a ameaça da pequenez, ou que um olhar compassivo pelas piores razões. Essa evolução do que somos não permite ofuscar a dimensão do que deveríamos ter. E aqueles que possuem a chave, colocam-na na fechadura e partem-na com um golpe, na tentativa de nos encerrarem dentro da pequenez que não temos, das dúvidas que não pedimos e da culpa que dificilmente merecemos.
É algo terrível perceber não as diferenças, mas as condescendências, não as características, mas o que supostamente deveríamos fazer com elas. Nada pior que a simulação de uma roda de hamster quando é relva que se sente debaixo das patas, ainda que em alguns casos, seja apenas criada por aquilo que nunca, nada ou ninguém pode encerrar endefinidaemnte. Não há nada pior que crescermos para a pequenez aos olhos daqueles que entraram pela porta destrancada e viveram na casa até a gastar como visitas e nunca como moradores.
Algumas pessoas sabem onde acertar, e fazem-no com uma implacabilidade assustadora. Ou então não o percebem, o que é ainda pior. Ego ou insegurança à parte, aos que entram pede-se cuidado. Compaixão, talvez, ou só mesmo atenção. Porque aquilo que se obtém sobre outrem torna essa pessoa vulnerável durante muito tempo, e algumas coisas são possuem o valor que lhes é dado por quem as sente assim.
É complicado surgir para alguém como uma espécie de atestado de incompetência humana e emocional, especialmente quando o conceito do que éramos nunca fora atribuido pelo próprio. Tão terrível como sentirmo-nos a concretização de um espaço negro, onde antes a luz passava reiteradamente e dizia-se que costumava ficar. Sentir que o conhecimento prévio e rendido é apenas um flanco tenro é um modo de morte parcial. O que vale é que é direccionada...
Algumas pessoas deveriam poder dizer o que quisessem, mas nunca com o conhecimento de causa capaz de acertar no âmago do que nem sequer são verdades ou mentiras, mas apenas diferenças. São pessoas que deveriam esquecer o que sabem, ou pelo contrário, nem se permitirem a relembrar em voz alta, sob pena mostrarem de forma contundente a tristeza que é termos mesmo de nos proteger, e mais vezes do que seria desejável. Mas isto nem passa. E muito menos fica. E as portas estreitam-se mais um pouco ainda, felicitando-se quem saltou antes das reconstruções de quaisquer muralhas.
Assim nos cercamos uns aos outros.
Ferais, em círculo.
Alguns pouco atentos, ou apenas atentos em demasia somente às feridas de outros.
E é pena...


A pedido de uma amiga repito aqui o seguinte texto.
E a verdade é que não lhe retiro uma vírgula. Creio nele como um religioso comungará, e de alguma forma, aceito que as incompreensões sobre a bestialidade de que sou ocasionalmente feito não colocam de todo a ideia em cheque.
E e será o que me parece.
Como tudo, não passa de uma tentativa.
Porque o melhor que podemos fazer, é o melhor que podemos fazer...
Obrigado, A...
"Sempre achei extremamente difícil contar uma boa história de amor. Talvez porque a natureza contraditória do fenómeno faça com que a sua materialização se deva revestir de especiais cuidados, sob pena de ficar soterrado pelos constrangimentos, e não elevado pela intensidade daquilo que o torna (perigosamente) único.
Também considero que o amor é um “transmorfo” subjectivo. Cada hóspede da sua influência cria um universo próprio para o poder vivenciar, e as manifestações alteram-se consoante a capacidade do seu portador. É como um vírus (a maior parte das vezes benigno, mas nem sempre) cujas mutações correm pelo contorno do seu portador, chegando mesmo a transformá-lo.

Recordo aquele texto que andou a circular na internet, do MEC (A Causa das Coisas continua a ser, para mim, a referência. A crónica "Almoços" é a melhor e mais hilariante crónica que alguma vez li na vida), a propósito do chamado "Elogio do Amor Puro". Entendendo a posição do senhor (e o texto é de facto belo), mas não posso deixar de discordar com algumas coisas, que foram defendidas e assumidas como máxima de vida por uma carrada de gente, começando logo pela designação "Amor puro".
Não sei o que significa. Que vem a ser amor puro? Pureza num conceito tão contraditório, violento e caótico como este parece-me quase como colocar uma tiara de fada na cabeça da MAE WEST. Não joga. Quanto muito existe um destilar da capacidade de querer, a qual torna o sentimento tão afiado e intenso que corta tudo à sua passagem, mas não há nada de puro, nada de cândido ou limpinho. Amor é sangue e pele debaixo das unhas, e transmuta-se como uma segunda pele, adaptando-se ao tamanho e ritmo dos corações. Quando estes se partem, a tal pele estala, e como diz o outro, o vento acaba por levar tudo. O amor é sim o mais contaminado de todos os sentimentos, julgo eu.
Depois elogiar o amor sem razão alguma, aleatório, estúpido, cego e doente, mais parece uma ronda de tiro aos patos. Mas que merda de mania esta de achar que os mais elevados e poderosos sentimentos humanos se caracterizam por uma total ausência de relação "causa-efeito", ainda que seja parcial! Será assim tão nobre e bonito olhar para alguém e, assim do nada, deixar de ter capacidade de “empatizar” seja com o que for porque a suposta rajada aleatória do amor varre tudo à sua passagem? Será que a ideia do valor intrínseco da pessoa, daquilo que nos encanta na sua capacidade de comunicar, de ser, de se mexer, de problematizar, de fazer rir, de deixar sair as contradições que a fazem humana, são meros detalhes despiciendos, perante a tal grandeza da estupidez linda do suposto amor de origem desconhecida? A mim parece-me terrível que algo tão importante como o amor possa ser definido como uma indeterminação arbitrária, onde aquilo que sou como pessoa é simplesmente dispensável, perante o grande mistério totalitarista do amor que não se sabe de onde vem.

Tenham paciência...

Existe, obviamente, mistério no Amor. Porque entre dezenas ou centenas de pessoas que conhecemos, muitas delas com charme, encanto, inteligência, beleza, só muito poucas nos fazem suar com a antecipação do toque. É esta espécie de triagem que constitui o mistério, por uma combinação de coisas cuja matriz desconhecemos, e que nos retira o peso do corpo ao descobri-la. Mas que diabo, o substrato está lá. Há algo que reconhecemos como fundamento parcial daquele ser humano que nos encanta. Olhamo-lo, ouvimo-lo, cheiramo-lo e sabemos que lá está algo que tem coincidência com os nossos pontos de aceitação, com juízos estéticos, éticos, emocionais, e mesmo aquilo que nos irrita compõe o ramalhete. Aceitar a total falta de fundamentação, é, em meu modesto ver, reduzir a pessoa e o próprio amor a uma espécie de esoterismo dogmático, e o amor tem para mim muito pouco de religioso ou de "é assim porque é e o que é que a malta há-de fazer." (E sou tão sensível ao maravilhoso final do "The Dead" do Joyce como qualquer romântico inveterado.)

Se a beleza do amor é a falta de comunicação, a casmurrice, a ansiedade, os gritos, a falta de um mínimo de lógica e senso, as tragédias gregas, e se só isto significa esse algo que entra por nós a dentro e nos desequilibra, nos faz melhores, mais completos e mais vivos, então eu estou mesmo morto e não recebi o aviso lá em casa. Escandaleira, possessividade paranóica e drama não é amor, mas apenas uma forma de exercer poder sobre alguém.

Amor real, para mim, traduz-se em sentirmos que, por causa de alguém, somos muito melhores do que éramos, mais capazes, mais completos, e sobretudo, diferentes. Diferentes porque maiores, porque algo transforma as realidades, que parecem sempre iguais, em algo para o qual existem fundamentos, mas raramente uma explicação cabal.
Amor é perdermo-nos no que somos, e no que alguém é. É perceber que o coração pode partir-se e esse risco pode transformar-se num abandono à realidade que se vê sem cores ou formatos. Amor não é um tom pardacento ou misturado no completo desconhecimento. É passar do cinzento ao vermelho, e viver as gradações como se caíssemos de uma falésia, mas nunca em total desconhecimento.

Amor não é puro.

É justamente o contrário.
O amor é a mais notável forma de contaminação.

As boas histórias (acerca dele) são feitas de perguntas, de descobertas e sobretudo, de reconhecimentos inauditos, braço dado com as novidades de quem levou aquilo que era um pouco mais longe no nosso reconhecimento.

(E, claro está, é também um aroma corporal de fazer dobrar os joelhos e transpirar sem calor...)"
"As Harold took a bite of Bavarian sugar cookie, he finally felt as if everything was going to be ok. Sometimes, when we lose ourselves in fear and despair, in routine and constancy, in hopelessness and tragedy, we can thank God for Bavarian sugar cookies. And, fortunately, when there aren't any cookies, we can still find reassurance in a familiar hand on our skin, or a kind and loving gesture, or subtle encouragement, or a loving embrace, or an offer of comfort, not to mention hospital gurneys and nose plugs, an uneaten Danish, soft-spoken secrets, and Fender Stratocasters, and maybe the occasional piece of fiction. And we must remember that all these things, the nuances, the anomalies, the subtleties, which we assume only accessorize our days, are effective for a much larger and nobler cause. They are here to save our lives. I know the idea seems strange, but I also know that it just so happens to be true. And, so it was, a wristwatch saved Harold Crick."

Stranger Than Fiction - Zach Helm

quarta-feira, agosto 20, 2008

They say that you have a very big chance to overcome your obstacles if you believe in your capability to endure the tasks that will allow you to overcome them.
I always thought that was pure bullshit. Sometimes things happen and all the logic of compensated effort does not work. Pure cynicism puts luck in charge, but perhaps the truth lies somewhere in the middle of all this.
Thankfully, there is always another story to tell, I guess...


Existe uma frase, frequentemente trocada entre amigos, que sempre me fez confusão. Também é verdade que ao mesmo tempo sempre se revelou certeira. Pelo menos em parte.
“Um dia ainda te vais rir disto tudo”, dizia um amigo meu, ou melhor vários amigos meus, perante a incapacidade em fazer alguma coisa que fosse para combater o meu suposto estado de mortificação. Coitados. Dá-me sempre pena, porque também sempre me custou imenso, perceber a debilidade da eficácia dos nossos esforços quando alguém nos arrancou as entranhas com as unhas e as deixou em cima da mesa com um bilhete. A presença é tão importante como parcialmente ineficaz, e no entanto, alguns pretensos consoladores são os tipos mais injustiçados da história dos gestos de amizade. E claro está, em meio ao desespero, cospem pérolas destas porque o silêncio é uma alternativa insuportável.
E depois existem outros que ouvem. Que sabem. Raríssimos.
E essas são outras histórias.



segunda-feira, agosto 18, 2008

"It is the Tale, not he who tells it."
Stephen King - 1982

(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)

"FRIO BRANCO"

Parte III
"Durante as duas semanas seguintes falei com a minha cliente exclusivamente através de telemóvel. A voz dela variava entre o exausto e o nervoso. Com o passar dos dias, comecei a achar isto normal e fiz o meu trabalho de casa, mas pouco lhe podia adiantar, já que ainda não sabia exactamente o que ela pretendia que eu fizesse. Havia no entanto um detalhe curioso. As conversas ficavam sempre a meio e ela não voltava a telefonar. E durante as conversas, enquanto a minha cliente falava, existia sempre um ruído de fundo estranho. Pareciam gatos famintos ou qualquer outra coisa de desagradável, estridente e indefinido.

Dois dias depois do último telefonema, chegou uma carta ao escritório. Quando a abri, ia cuspindo o chocolate quente pela sala inteira. Dentro do envelope, estava um cheque com a primeira provisão. Eram cento e cinquenta contos em moeda antiga, escritos numa letra cuidada. Olhei para o cheque durante vinte minutos, convicto de que seria um engano. Mas não. Estava lá o meu nome e a quantia por extenso. Acompanhando o fantástico cheque, vinha uma carta escrita na mesma caligrafia cuidada.

«Dr:
Junto envio-lhe a provisão para fazer face às despesas que tem com este caso, e agradeço-lhe o trabalho efectuado até este momento.
Espero que esteja dentro de valores razoáveis.
Aproveito no entanto esta missiva para lhe fazer um convite para passar alguns dias connosco na dita casa que meu pai pretende vender. Ele está um pouco diferente e diz que gostaria de nos reunir para passarmos alguns dias. Falei-lhe de si, e ele achou bem que viesse. Diz que gostava de falar consigo e eu preferia que estivesse presente no que poderá ser a discussão do testamento. Se puder contar com a sua presença, por favor tenha a bondade de me ligar para o meu telemóvel.
Com os melhores cumprimentos

Alexandra X»

Sem pensar, telefonei à minha cliente, aceitando e desfazendo-me em agradecimentos pelo convite. Se ela ia pagar-me cento e cinquenta contos de provisão, eu até trabalharia um bocadinho na horta da casa de família, se ela o quisesse. Estava cada vez mais curioso, mas também incomodado.
Naquela noite fui jantar fora com a minha namorada. Depois fomos ao cinema e terminámos a noite num hotel não muito caro. Estávamos deitados, exaustos pelo sexo e o dia a dia de doidos, quando ela me perguntou se e quando eu iria nesta estranha expedição. Eu disse-lhe que partiria dali a quinze dias. Ela sorriu e desejou-me boa sorte enquanto a sua mão esquerda voltou a encontrar algo no centro das minhas virilhas. Eu respondi quase imediatamente, embora, por um terrível segundo, tivesse julgado ver o rosto da minha cliente no vidro da janela. Não era água o que lhe escorria do rosto.

A casa da minha cliente e respectiva família ficava perto da Malveira da Serra, nas proximidades de Torres Vedras. Estava à espera de algo como a Quinta da Marinha, ou Aroeira, ou coisa que o valesse, mas não. A dita casa de férias estava situada na boca de um denso pinhal e junto a um pequeno regato que corria a cerca de cinquenta metros da casa. Tratava-se de um casarão imenso, com perto de 15 quartos, distribuídos entre dois pisos. Era relativamente novo, mas tinha sido construído segundo os padrões de estética dos velhos solares que ainda hoje se encontram espalhados um pouco por todo o país, maioritariamente recuperados e destinados ao turismo de habitação. Tinha um quintal imenso, no qual repousava uma piscina vazia em forma de lua crescente, demasiado parecida com uma bocarra aberta num sorriso demente e azulado. Existia também, mais atrás, um campo desportivo no qual se podia praticar quase tudo, desde basquetebol, o que não me soava nada mal, até futebol de cinco ou mesmo ténis. O bosque ficava por detrás, no sopé da pequena elevação onde se encontrava a casa. O vento soprava frio e uivante, assobiando com ar de poucos amigos enquanto carregava folhas mortas e agulhas de pinheiro.
Parei o meu Ibiza velhinho perto de alguns carros. Só dois deles equivaliam em dinheiro a uma década de salários, se eventualmente mos pagassem. Saí do automóvel com o saco onde estavam as minhas mudas de roupa, e fiquei especado a olhar para um Porshe Boxter S. Naquele preciso instante arrependi-me da decisão que tomara. Pensei seriamente em meter-me no carro e acelerar até Lisboa, mas tinha o cheque da minha cliente na carteira e não me conseguia forçar a devolvê-lo.
Entrei no portão e um indivíduo de compleição sólida fez-me um sinal. Tinha um ar afável e humilde, o que não encaixava bem dentro de um físico que denunciava uma força desmedida. No entanto, e apesar da aparência vigorosa, o cabelo farto que despontava de ambos os lados da cabeça era prematuramente grisalho. Ao dar o primeiro passo para dentro do quintal, um “golden retriever” correu na minha direcção num galope rapidíssimo. Fiquei paralisado enquanto ele me cheirava, fungando entusiástica e comicamente. O homem ao fundo fez-me um sinal, penso que para me acalmar, e segundos depois tinha o cão rendido aos meus afagos, como a língua pendente o comprovava. A pessoa em causa era uma espécie de faz-tudo. Podia ser o mordomo ou capataz ou uma coisa qualquer parecida, e cumprimentou-me calorosamente. Ao apertar-me a mão percebi que aquele homem era ainda mais forte do que aparentava. A mão que apertou a minha num cumprimento cordial assemelhava-se a um torno com dedos, mas o sorriso era aberto e simples.

O senhor desculpe o susto, mas este malandro não faz mal a ninguém. É o pior cão de guarda que já vi. Se os ladrões cá vierem e lhe derem uma bolacha ou um carinho, ele é capaz de os acompanhar no saque. Não é, meu malandro?! – disse, fazendo uma festa ao animal com um carinho sincero.

Eu peço desculpa, mas venho da parte da senhora Dona Alexandra.

Sim, uma das filhas do patrão. Eles foram todos almoçar lá abaixo à adega do Faria. O senhor é o Doutor Gabriel Gusmão? O advogado da dona Alexandra?

Sim, sou eu.

Desculpe perguntar, mas pensei que fosse mais velho.

“Tens razão amiguinho. Muita razão. Mas que posso fazer?”

É normal. Eu ainda sou novo na profissão, sabe?

Sim, imagino. Mas venha, não fique aí ao frio! Vamos instalá-lo e esperamos os dois pelos patrões.

Fiquei a gostar deste homem num ápice. Tinha aquela qualidade genuína que nenhuma palavra poderia dar mas que surgia em todas as que proferia e movia-se como alguém para quem nada no mundo parece difícil.
Abriu-me a porta e deixou-me à vontade no salão principal. O fausto exterior parecia pálido perante o desfile de riqueza que se vislumbrava no interior. Móveis antigos, uma lareira imensa, tudo com um toque ancestral mas não caduco. Cada passo dado ecoava por todo o lado, em estalidos que se perdiam na distância. A casa era enorme, quase desproporcionada para albergar qualquer família, por muito numerosa que fosse. Sem saber bem porquê, dei comigo a subir um lance de escadas em caracol, da qual uma diva do cinema poderia fazer uma cena de queda perfeita, e entrei num corredor superior, muito comprido, com portas de ambos os lados. Ao fundo, uma outra sala, com uma salamandra imensa, e o mesmo gosto irrepreensível nos móveis. Entrei num quarto, sem saber que viria a ser aquele onde pernoitaria, e parei a olhar para a cama de casal. Os lençóis de linho bordados à mão provavelmente custavam mais que a minha própria cama e isso deu-me uma imensa vontade de rir, a qual consegui conter. No meio da exploração ouvia uma espécie de ruído estranho, muito à distância, ou abafado. Pareciam gatos, ou portas perras que guinchavam, queixosas da falta de óleo. Toda a casa estava impecavelmente arrumada, mas tinha um ar de tristeza e desolação que a embaciava como uma névoa invisível e o ruído só aumentava essa noção de desconforto.
O meu amigo deu-me uma leve palmada nas costas. O susto fez com o que o meu coração disparasse, mas o meu amigo continuava tão afável como antes e tranquilizou-me. No entanto, e só por um segundo, pareceu-me ver um escurecimento no olhar. Uma tristeza, uma nuvem passageira, um esgar de resignação amarga. Acabei por ignorar sem mais aquela situação, pois tinha muito em que pensar. Algo que surgia como lógico e omnipresente, especialmente quando me sentei na minha cama de casal, bestialmente confortável e com lençóis que fariam carícias semelhantes a mãos informes.

O que é que eu estava ali a fazer?

Os meus anfitriões demoravam-se e como não conseguisse sossegar, resolvi dar um passeio pela casa. Saí do quarto, trancando a porta sem saber muito bem porquê. Toda a habitação estava em silêncio, à excepção daquele ruído distante e dos estalos do soalho impecavelmente encerado, encimado por tapetes igualmente limpos e laboriosamente trabalhados. Desci as escadas e entrei no salão. Lá fora, o tempo fechara e a tarde prometia uma chuvada terrível. O céu estava tão plúmbeo que quase ameaçava cair e o vento soprava insistente. Olhei pela janela e vi somente prados onde alguns bovinos pastavam, além do bosque onde as árvores se abraçavam dançando ao sabor do vento.
O salão estava vazio. Sentei-me num dos sofás e saboreei a lareira acesa, que crepitava entusiasticamente. Do lado esquerdo, iluminada pelas difusões luminosas e irregulares do lume, estava uma enorme estante repleta de livros magnificamente encadernados. Tive uma tentação quase irresistível de pegar em alguns deles, mas a minha educação tocava o gongo mental e, assim sendo, limitei-me a olhar para as lombadas. Edgar Allan Poe, Defoe, Swift, Camus, Shakespeare, Garcia Marquez, H.P. Lovecraft, todos se ombreavam silenciosos em versões luxuosas das suas obras. Algumas delas ainda escritas ou traduzidas em português antigo, algumas delas primeiras traduções adquiridas a alfarrabistas e bibliotecas antigas e infelizmente desmanteladas. Passei os olhos por não sei quantos autores, sentido o calor da lareira e maravilhando-me com a multiplicidade dos exemplares, até que encontrei uma série de livros negros, sem inscrição na lombada. Eram todos aparentemente iguais e ocupavam uma fileira da estante, como soldados eximiamente alinhados. Mais uma vez fui tentado pela minha curiosidade e achei-me novamente detido, não pela minha consciência, mas pela voz do meu amigo informando-me que o almoço estava pronto e que os patrões iriam demorar. Afastei-me da estante num salto e assenti em acompanhá-lo. Tinha o estômago a dar horas. Algo mais estava diferente. Só quando descemos para a cave, que dava para a garagem e para uma janela de onde se podia ver toda a extensão da paisagem para além do campo de jogos, é que percebi de onde vinha aquele meu desconforto. O ruído aumentara ligeiramente de volume, como se estivesse mais perto, e havia como que um aumento da atmosfera opressiva da casa. A tristeza densificara-se e a atmosfera parecia pesar, como uma melodia minimalista e magoada.

Almocei sozinho numa sala totalmente mobilada com nogueira escurecida. Tudo estava no lugar, arrumado e limpo. Não havia um grão de pó em cima das prateleiras e ainda se notava um pouco do aroma do óleo de cedro. O meu amigo informou-me de que os seus patrões ainda demorariam, pelo que não havia outra alternativa senão comer algo antes que a fraqueza levasse a melhor. O tempo lá fora escurecera de tal forma que se tornou necessário acender as luzes para que eu acertasse com o garfo na comida e não na magnífica toalha de mesa bordada. Ao contrário de tudo o resto, as luzes deixavam muito a desejar, pelo menos em termos de eficiência. Era uma luz amarelenta, débil, que mais parecia cobrir as coisas com um pó dourado e luminoso que propriamente lançar-lhes claridade. Os cantos das divisões permaneciam numa espécie de penumbra indefinida, como focos de escuridão geometricamente colocados na casa.
Enquanto devorava uma fantástica sopa de peixe, seguida de um bacalhau à lagareiro igualmente magnífico, o som do meu mastigar era o único que se fazia ouvir, para além do vento uivante lá fora, do gotejar da chuva e aquele outro ruído estranho, que pé ante pé, ficara novamente mais audível, mas ainda assim imperceptível quanto à sua origem ou possibilidade de identificação. Comecei então a experimentar um desconforto que aumentava gradualmente. Por alguma razão estranha, senti-me sorumbático sem qualquer justificação para tal, já que no máximo estava assustado com a minha futura tarefa, mas não triste. Levantei-me o mais depressa possível da mesa. Aquele malfadado ruído começava a dar-me cabo da cabeça. O meu amigo ouviu-me levantar e perguntou-me com amabilidade se eu desejava mais alguma coisa. Abanei com a cabeça, perguntando de poderia dar uma volta pela casa, ao que este assentiu usando o seu sorriso generoso.

Mas vou-lhe pedir que não entre nos quartos que têm as portas fechadas. Os patrões não gostam, pode ser?

Sim, com certeza. Muito obrigado.

Ele voltou a desaparecer pela porta da rua. Ouvi o cão que latia alegremente e, no instante seguinte, o semi-silêncio retornou novamente. Resolvi levantar-me e começar a expedição à casa, bem como ao terreno circundante. Obedecendo a uma lógica elementar, resolvi começar de cima para baixo. O andar cimeiro era constituído unicamente pelos quartos, uma ou duas salitas de transição e o sótão. Era óbvio que nem sequer sabia o que estava a fazer, mas qualquer coisa servia para me manter ocupado e fugir à estranha plangência que parecia toldar-me os movimentos e a capacidade de pensar. Subi a escada que conduzia ao meu quarto e entrei no corredor. Estava invulgarmente escuro, já que a luz que emanava das janelas era a proveniente de um sol encoberto por um mar de nuvens. Acendi a luz e tive a mesma pequena desilusão que tinha tido na sala de jantar. As lâmpadas vomitavam a mesma luz fraca e doentia. Os cantos da casa permaneciam escuros, juntos por uma espécie de extensão escura que os unia, já que a luz não conseguia iluminar os rodapés. As paredes exibiam réplicas e serigrafias de quadros famosos. Uma delas, o “Filósofo em Meditação”, de Rembrandt, era um dos meus favoritos de sempre e naquele lugar ficava fantasticamente apropriado. A luz que entrava naquela casa era algo parecida com a cor vislumbrável no dito quadro, semelhante a uma neblina que tocava os objectos ao de leve mas nunca os chegava a iluminar. As sombras nunca pareciam estáticas, mas surgiam como desenhos criados com mestria, ondulando num cenário que parecia quase vivo. A atmosfera era bisonha e simultaneamente bela, possuidora de um aspecto solene, antigo e até venerável. Passei por alguns corredores, olhando para outros quadros, igualmente cópias de telas famosas. Vi um quadro de Cargaleiro e outro de Paula Rego, mas não consegui distinguir se seriam originais ou cópias, acabando por decidir que provavelmente esta gente teria dinheiro para comprar o artigo genuíno. Mas era o quadro de Rembrandt que não me saía da cabeça, talvez porque me sentisse dentro dele. Nadava naquela atmosfera onde podia sentir uma certa solidão amarga e uma profundidade de pensamentos que moldavam o isolamento, tornando batimentos cardíacos num ensurdecedor concerto de percussão. Penso que se pode determinar o estado de solidão e silêncio quando ouvimos o tamborilar do nosso próprio coração. Andei mais um pouco. Abri portas de quartos, contra a indicação do meu amigo, mas ele também não precisaria de saber deste meu pequeno pecadilho. Não vi nada de especial, a não ser algumas camas desarrumadas e roupas em cima de cadeiras. No entanto, ao abrir uma das portas fechadas, verifiquei que um dos quartos estava às escuras. Pensei que alguém estaria a dormir naquela divisão e tive o ensejo de fechar a porta imediatamente. No entanto o frio que emanava da divisão indicava claramente que ninguém seria capaz de dormir ali. Dei um passo em frente, e a penumbra era total. O ar estava invadido por um aroma estranho que se situava algures entre o adocicado e metálico. A opressão invisível que sentia na casa parecia um pouco mais acentuada naquele espaço, mas talvez fosse a minha imaginação a funcionar. Tacteei a parede em busca do interruptor, e tive um instante de surpresa. A parede estava molhada e tremendamente fria, como se tivesse chovido dentro daquele quarto. Chovia lá fora, é certo, mas não caía uma única gota do tecto, nem existia qualquer janela aberta que permitisse tal encharcamento das paredes. Com algum esforço consegui encontrar um interruptor, e a mesma luz morta fez-se presente. Era um quarto normal, perfeitamente arrumado. Entrei para o observar e verifiquei algo que me desconcertou imediatamente. As paredes estavam de facto encharcadas. Fios de água escorriam em cascatas mínimas banhando todas as quatro paredes. Examinei este fenómeno anormal e, pela primeira vez, a minha mente começou a rejeitar a normalidade no cenário. Senti que os meus testículos diminuíam de tamanho e que o sangue acelerava, tentando fazer uma corridita com o coração que começara adiantado. A água escorria em gotas, mas o chão estava completamente seco, bem como o tecto. Os cantos da divisão permaneciam escurecidos, mas o mais engraçado é que a água brotava das paredes e, por alguma razão que nem sequer vou tentar explanar, era novamente como que absorvida pelas mesmas. Não havia uma única gota no chão."
(...)
(to be continued)
"Keep me past the gate
I've worn the world without a word
And I don't care too much for what they say
Grip my smothering end
Another day will pass again
Keep My fire alive for I'm not afraid
Can I make them understand
Who in the world would have thought this
God I'll never know your plans
Doin what i got to
What I Got to hang on
Cause I'm doin what I got to
What I got to hang on
Hanging on by a thread this is what
I got So hang on to this"

Travis Meeks - DOTN

(não prestem atenção ao vídeo, e ouçam só à música)

domingo, agosto 17, 2008

Regresso.

"Pessimismo da inteligência, optimismo da vontade."

Agora, mais do que nunca.

Negativista nunca, mas talvez partidário de uma certa forma estranha de lucidez, não sei. Também me estou completamente nas tintas.

O programa segue dentro de momentos.