Então o senhor é o advogado da minha filha...
Alarme. Uma campainha agora, mas dentro da minha cabeça... diante de mim estava o autor da carta que a minha cliente trouxera para que eu lesse. Era o tipo que proferira, por escrito, palavras amargas e ameaçadoras à própria filha. Abriu uma garrafa de “whisky” velho e encheu cerca de meio copo. O líquido faiscou de encontro ás chamas da lareira. Lá fora começava o ribombar dos primeiros trovões. O meu anfitrião movia-se bruscamente. Os gestos eram rápidos, como se temesse tocar demasiadamente nas coisas. Os olhos estavam sempre escancarados e era difícil fitar aquela expressão. Eram de um azul glacial e penosamente penetrantes.
Sente-se, por favor. Quer beber alguma coisa?
Sim, muito obrigado.
Encheu-me um copo, como fizera para si. Sorvi um golo e aqueci imediatamente. O sabor explodiu suavemente na boca, e senti-me um pouco melhor, desde a primeira vez que ali chegara. Olhei para a garrafa. James Martin 25 anos. Claro. Sentámo-nos um em cada sofá, com o “whisky” na mão, olhando para a vista que se perdia na orla do bosque e no céu cinzento e trovejante. Propus-me falar do que fora que me trouxera ali, mas ele não me deu essa oportunidade.
Diga-me, doutor...
Gabriel. Gabriel Gusmão.
Dr. Gabriel, já alguma vez teve medo?
Olhei para ele sem entender muito bem a que se referia.
Sim, penso que sim. Acho que todos nós já tivemos em algum momento das nossas vidas. É uma coisa normal.
Sim, mas eu não falo em passar numa rua e ver um cão que nos olha de uma forma esquisita e rosna. Ou um grupo de pessoas encostadas a uma esquina que...
O primeiro relâmpago fez a sua aparição e, poucos segundos depois, o trovão abriu as goelas.
... que nos olham de uma forma estranha e demasiado fixa. Eu falo de medo. Medo pela vida, medo por algo horrível e não concretizável pela imaginação mais fértil. Aquele medo que incapacita os movimentos e embranquece os cabelos? – disse, tocando nos seus.
Olhei para ele e senti uma mão invisível perscrutar-me por dentro. Comecei a tremer, talvez ainda antes de dar por isso. Mais um relâmpago. Um trovão. Desta vez muito mais alto. Os copos de cristal protestaram um pouco dessa vez. Dei um pulo no sofá. Tinha as palmas das mãos suadas e o estômago contorcido.
Bem, a esse ponto, talvez não.
Que sorte que você tem e nem sequer sabe. Acordar todos os dias e ver que nada mais tem a temer que o normal.
Olhei para o canto mais afastado da casa. Estava completamente escuro, como de resto pareciam estar todos os cantos de todas as divisões daquela pequena mansão. O meu anfitrião falava-me de medo, de passar os dias em antecipação e angústia, de olhar para trás de cada porta, desconfiar de cada ruído aparentemente inocente, e nunca pôr em causa o grito de alarme dos instintos. A sua voz ia ficando cada vez mais cansada, mas eu olhava somente para aquele canto. Ele não reparava, uma vez que olhava para o céu escuro lá fora, para a chuva que zurzia a terra e as árvores. Conforme ele ia falando, eu senti o aumento do tremor. As palmas da minha mão estavam agora suadas ao ponto de deixar marcas no copo de “whisky”. A sombra no canto parecia estar a aumentar. Poderia ter pensado que tal era consequência do passar do dia e do fenecer da luz solar, mas eram tretas a mais para descansar um só espírito, e além disso, o toque na mão e o sal na água que havia provado antes não me saíam da cabeça. Para ajudar ao sentimento de medo e paranóia, o ruído que ouvira desde que ali entrara estava agora mais audível. Era algo misturado, que reunia algo semelhante ao miar sofrido de um gato no período de cio e o desfazer de alguma coisa húmida e orgânica, como o separar de peças de carne húmida. Era o som mais horroroso que ouvira até então. A sombra naquele canto, e em todos os outros, aumentava de dimensão. Tentáculos negros emergiam do negrume oculto, e pareciam juntar-se em camadas. A sombra crescia, viva, em movimentos anti-naturais, como se algo com capacidade de se mover e de crescer resolvesse aumentar um pouco o espaço sob seu domínio.
Não tenho vergonha nenhuma de dizer que tremia por todos os lados. O meu anfitrião perdia-se a discorrer sobre o medo, e eu ouvia-o. Estava a perceber cada vez melhor o que ele queria dizer e senti que toda a segurança e normalidade do meu mundo estavam a desaparecer, como uma vela de encontro a uma chama forte que morre rápida e em agonia surda. O meu coração voltava aos solos de bateria. Quando os cantos escuros cessaram o seu crescimento, o ruído caiu igualmente para os bastidores, sendo ultrapassado pelo crepitar da lareira. O meu anfitrião fitava-me agora e vi pela primeira vez no seu rosto um sorriso parecido com uma emoção humana normal. Era um sorriso de cumplicidade, de candura, o que me fez entender. Entendi tão bem, que quase me levantei do sofá para correr dali para fora. Porque não o fiz, ainda hoje não sei.
O dia passou, mas nem sinal da restante família.
O meu amigo retornou ao fim da tarde, o que em termos de vigília solar significava já noite cerrada, e serviu-nos um jantar fabuloso. O anfitrião mal tocou na comida, tendo mordiscado meia fatia de carne de vitela e duas pequenas batatas. Emborcou uma garrafa de vinho só à conta dele e no entanto, quando se levantou, os seus gestos e equilíbrio permaneciam inalterados. Dirigimo-nos ao salão e continuámos a nossa conversa. Os temas diversificaram-se, passando pelo futebol, política, religião e outros. O meu anfitrião era um poço de cultura. Falava quatro línguas, entre as quais o russo, tocava dois instrumentos musicais, e era enciclopédico no seu saber. Eu ia conseguindo acompanhar, mas apenas quando ele não elaborava demasiado. Não mencionava o resto da família, e eu não perguntei. Estranhava muito, mas não perguntei. Conversámos até terminar o serão e dirigimo-nos para os respectivos quartos. Deitei-me e dormi que nem uma pedra, pelo menos enquanto a noite o permitiu.
Por volta das três horas da manhã, acordei de um pulo. Acendi a luz e apanhei um susto tremendo. Ao contrário daqueles que são momentâneos, este permaneceu como que parado no tempo, roubando-me a capacidade de raciocinar ou mover com a costumeira agilidade. Sentia como se de repente um capacete invisível e moldável me pressionasse para baixo. Aquele ruído estava agora mais audível e espalhava-se como uma doença, revelando em uníssono vários gatos em agonia e pés em cima de lama ensopada. Levantei-me obedecendo a um acto reflexo motivado pela estranheza. A noite estava furiosa, mas os trovões ouviam-se muito por detrás daquela parafernália de som. Saí do quarto, de pijama e ténis, uma vez que me esquecera de trazer chinelos. A sola de borracha chiava ligeiramente em contacto com o chão de madeira limpa e encerada, mas em meio aquela zoada nem sequer era audível. Premi o interruptor e a mesma luz combalida entrou em cena. Em meio à noite escura, era ainda mais débil e enjoativa.
Olhei para as janelas. A chuva caía em catadupa, embatendo violentamente nas janelas, sempre de mão dada com o vento. Soprei um pouco e o meu bafo desenhou uma pequena nuvem à minha frente, como se fumasse. Estava um frio de rachar. De morte.
Passei pelo quadro e ao contrário do que se passara na tarde anterior, não senti qualquer alívio ao fitá-lo, já que a tristeza imanente da pintura passou para mim. Experimentei um desânimo estranho e incomodativo. Todas as minhas reacções e muletas mentais começavam a fraquejar nitidamente, como se o peso que sentia no corpo e na respiração tivesse encontrado forma de chegar ao meu espírito. Cada vez que fechava os olhos via os cantos da casa a crescer em escuridão, alternando com o olhar faiscado de sangue do meu anfitrião e pensava na insanidade que não me permitira fugir a sete pés.
Desci as escadas e entrei na sala principal. Estava quase escura, à excepção das pequenas brasas que ainda ardiam na enorme lareira da sala, já moribundas. Tacteei as paredes em busca do interruptor, até que o encontrei, e a luz que emergiu era feita do mesmo brilho enfermo que existia por toda a casa. Procurei uma lanterna, para que pudesse iluminar melhor a sala e, porque não, os cantos. O som omnipresente estava lá, incontestado. Sentia tudo isto, mas em abono da verdade, não posso dizer que visse alguma coisa. Como não encontrasse qualquer lanterna ou uma vela que fosse, acendi um dos candeeiros que ficavam perto das mesas pequenas e resolvi perscrutar a estante repleta de livros. Ao lado de um antigo exemplar de “Wuthering Heights” estavam os misteriosos volumes pretos, magnificamente encadernados. Cada um deles deveria rondar as cem páginas A4. Sem pensar no que diria aos anfitriões, caso algum destes me apanhasse a remexer nos seus livros em plena madrugada, resolvi tirar o primeiro volume e folheá-lo. Li a primeira página, escrita numa caligrafia cuidada e elegante e notei que o discurso estava escrito na primeira pessoa, levando-me a concluir que se tratavam de palavras escritas pelo anfitrião. A meio da segunda página, dava início a uma narrativa das suas vivências e, acima de tudo, um discorrer acerca do medo paranóico que começava a viver nessa altura, por volta de Agosto de 1990. Fiquei como que preso naquela cadeira, lendo a narrativa de medo, de desesperança e de horror. Era mais do que eu podia suportar, mas não conseguia deixar de ler as páginas que me consumiam, com relatos de um sofrimento inexplicável. Desde o início da narrativa, o anfitrião falava da mulher com uma paixão incontida. Da sua beleza, da vida que lhe trazia, de tudo aquilo que com ela fizera, desde as viagens ao estrangeiro, ao sexo, tudo descrito de forma clara, mas não muito desenvolvida. Aquilo que surgia mais desenvolvido e absolutamente recorrente eram as suas suspeitas, os seus medos, e os efeitos que lhe causava. Era tão vívida a sua descrição que a ocasional náusea parecia rastejar para fora das palavras, como uma excrescência demasiado poluída para ser retida pelas letras. Era como tocar com a mente em algo radioactivo ou infeccioso. Falava de outras coisas igualmente medonhas, constituídas em pano de fundo por uma suspeita hedionda, a qual envolvia os filhos e a dita mulher. Uma desconfiança que parecia provir das inacessíveis montanhas da loucura mental, tocando-me com dedos obscenos feitos da lástima e do medo que mantinham aquele homem preso a este local e ao que temia.
Fechei o volume quando passava pouco das cinco e meia da manhã. Não fora apanhado, mas tinha agora receio em circular pela casa e de me aproximar dos cantos sombrios. A imagem do quarto inundado parecia pulsar-me na memória como um dente terrivelmente infectado, lançando uma escada ao pânico.
Porque não me fui logo embora? Pode ser muito simples, ou muito complicado. Mas nem sequer vou arriscar uma explicação. Talvez porque certas coisas sejam assim. Inegáveis na sua existência, mas inexplicáveis quanto à essência que as constitui ou a uma qualquer vontade que as justifica. Subi as escadas, sentindo-me cansado e vazio. Escusado será dizer que tive um sono atribulado, cheio de sonhos hediondos e inconfessáveis, enclausurado no que seria um provável início de loucura.
Já o sol ia bem alto quando fui despertado por um som leve na minha porta.
A princípio pensei que era algo dentro de meu sonho, pleno de sons, ecos, figuras endemoninhadas e liquefeitas, que se transformavam uma e outra vez à semelhança de algo que se comia e regurgitava a si mesmo. Ao acordar, verifiquei que a minha pele estava ensopada em suor. Os lençóis fizeram um som húmido quando os afastei da minha pele, o que era estranho, considerando que o dia amanhecera frio. Passava já do meio-dia. Os pássaros não cantavam, o sol não tinha saído do covil de nuvens que o circundava. Estava frio e as sombras eram fracamente banhadas por uma luminosidade metálica, em cinzentos esbatidos e tristonhos. Levantei-me da cama, sentindo-me ainda mais abatido que no dia anterior. Cada olhar que dirigia era despido de cor, como se eu fitasse algo ou alguém marcado para morrer.
Era o meu amigo que batia à porta. A jovialidade expressa na voz contrariava todo este cenário, mas não era suficiente para o fazer desaparecer. Era como um pássaro limpo e livre no meio de uma floresta queimada. Olhei em volta, e os meus temores concretizaram-se, arrancando-me um arrepio que me fez estremecer quando voltei a colocar os olhos no quadro. Permanecia ali solene e belo, mas algo estava diferente. Era um detalhe que facilmente se poderia atribuir à minha imaginação desgarrada, mas podia jurar que o quadro estava mais escuro, com os tons mais carregados e os negros ligeiramente mais vastos na tela. Atendendo ao que vira até então, resolvi aceitar essa ideia como mais um elemento do que não compreendia, o que começava a juntar a muito fenómenos.
Almocei sozinho novamente. O meu amigo informou-me que o anfitrião estava às voltas com o cão na orla do bosque e que os restantes convivas deveriam chegar naquela noite. Com eles viria a minha cliente, pessoa que eu esperava ansiosamente para poder perguntar-lhe finalmente que diabo se passava ali, ou porque estava eu à espera deles havia mais de um dia. Ou porque é que o pai dela parecia um foragido da masmorra do Drácula, e por aí fora. Mas a curiosidade mais ávida era dirigida a outro facto. Queria ver quem se aproximaria dos cantos da casa e se me podiam explicar o que era aquele ruído horroroso que ia aumentando e diminuindo de volume e que se assemelhava a alguém com voz de gato a despir a própria pele.
Esperei na sala, já com a lareira ressuscitada, e agarrei num outro volume. Fiquei perdido durante mais algumas horas. A tarde foi passando, escura e chuvosa, até ameaçar transformar-se em noite. Os trovões não paravam, bem como o ocasional acender do céu. Senti o medo crescente tocando-me com unhas afiadas na base do pescoço. Transpirava, mas quase não dava por isso. Encontrava-me num estado febril e parecia que todos os sons estavam mais altos, as luzes mais fortes, os aromas mais intensos. Um pânico calmo sorvia cada instante de brandura, que doía no espírito como o mais destilado sentimento de desamparo que alguma vez senti.
Olhei para os lados. Os cantos cresciam e definhavam, como massas pulsantes de uma matéria negra e despida de textura. Os tentáculos subiam e desciam, como algas no fundo de um rio, impulsionadas em várias direcções pelas vontades das águas correntes. O som... Meu Deus, o som era horrível, como o som de ossos a serem descarnados, um som húmido e rastejante. E terrivelmente próximo e indefinível. Como uma pulsação. Viva. Impura mas viva.
Quando acabei o último dos volumes a noite já ameaçava retornar. Fui à casa de banho molhar o rosto e verifiquei que a minha pele empalidecera. Os meus olhos estavam por sua vez ligeiramente desenhados a sangue. As olheiras cavavam sulcos profundos no rosto e todo eu era a imagem de um temor primitivo.
Naquele instante resolvi abandonar a casa, com ou sem cheque de provisão. Não fora para aquilo que fora contratado e a minha cliente certamente o entenderia. Se não quisesse entender, também se arranjaria outra forma de fazer as coisas. Ia para uma bomba de gasolina trabalhar um ou dois meses, pagava-lhe o que devia e lançava toda aquela demência para trás das costas. O medo mordia-me os calcanhares como um cão raivoso, e era tempo de saltar o muro e deixá-lo para trás, ladrando em frustração.
Subia as escadas em direcção ao quarto (era necessário fazer a mala) quando o telemóvel tocou. Era a minha cliente. Pedia-me imensas desculpas, que fora impossível comparecer, que amanhã estariam cá sem falta, e mais umas dez desculpas esfarrapadas. Estive a um segundo de recusar qualquer desculpa, mas ela acabou por conseguir convencer-me. No dia seguinte, tudo seria explicado e o que não pudesse ser constituiria a razão mais que óbvia para desaparecer dali o mais depressa possível. Desliguei o telefone, fui tomar um banho e esperei pelo jantar deitado na minha cama, com o “walkman” ligado e os olhos fechados. Já tinha ouvido e visto o suficiente. Alguém, no entanto, tinha ideias diferentes.
O jantar ocorreu sem novidades. O anfitrião juntou-se a mim, mas o seu aspecto desolador era ainda mais acentuado. Era a figura de um homem derrotado. Os olhos estavam firmemente encovados no rosto, escondidos atrás das imensas olheiras e da expressão alucinada e sempre nervosa. Falámos de banalidades enquanto a lareira tremeluzia. Eu mordiscava o magnífico cherne grelhado enquanto pensava no último dos volumes pretos que lera, em tudo o que acontecera, e na chegada da minha cliente. Tinha a mente imersa numa teia pesarosa. Cada gesto exigia um esforço físico considerável. Olhei-me mais tarde ao espelho e vi que as bordas negras das olheiras começavam a fazer desenhos no meu rosto. Riscos erráticos e vermelhos começavam igualmente a ornamentar a região dos meus olhos onde não havia cor.
O jantar acabou e o meu anfitrião retirou-se. Subia as escadas como quem subia para o cadafalso. Os ombros curvados, os passos lentos e arrastados, uma respiração sonora e doente. Imaginei o velhote no quadro, mas sem qualquer réstia de serenidade. Eu retirei-me em seguida. Estava exausto, e durante a manhã seguinte, tudo se resolveria. Queria simplesmente ir-me embora.
Acordei por volta das quatro da manhã.
O céu tornara a revoltar-se e os relâmpagos davam agora um grande espectáculo. Os ruídos que se seguiam sublimavam a demonstração da sua grandeza, mas não tinham sido estes a acordar-me. Ecoava pela casa inteira um grito imenso e apavorante. Era um estertor de garganta, um brado de medo, raiva e dor excruciante. A atmosfera doente e triste da casa parecia agora um véu diáfano que se espalhava por todo o lado, tal era a sua densidade quase física. O meu coração disparou num ritmo desenfreado. O suor queimava-me os olhos. Tremia sem que conseguisse controlar minimamente o corpo. Os gritos eram altos, terríveis. Eram dor e agonia feita voz.
Foi aí que as minhas surpresas se acabaram. Recordei os primeiros volumes que lera e, de uma certa forma, segui os passos que dei anteriormente, como um pirata demente que segue um mapa de tesouro rumo a uma armadilha mortal.
Saí do meu quarto. O corredor, mergulhado em sombras e povoado de gritos, parecia imenso. Uma bocarra escura e silenciosa, que mal se iluminou com a luz doentia que emanava das lâmpadas. Os cantos das divisões eram agora furiosos centros de ruídos asquerosos e movimentação de sombras vivas. Ou talvez não fossem sombras. Ou talvez eu não quisesse saber o que eram. Sim, acho sinceramente que foi essa a ideia que tive. Talvez até porque já desconfiasse o que seriam. Andei alguns metros até chegar à porta que anteriormente me fora interdita. Os gritos emanavam de dentro do quarto proscrito. Toda a casa fervilhava com uma actividade que não era vida, de sons e enganos horrendos à visão. As ilusões saltitavam por todo o lado e era grande o toque do pavor.
Abri a porta e tudo se tornou claro. Substancial como sangue, mas cristalino como lágrimas recém vertidas. O chão do quarto estava invisível, coberto por uma altura de água que atingia facilmente os quarenta ou cinquenta centímetros. Agora que penso, vejo que a água não escorreu para o corredor quando abri a porta, o que também não me teria surpreendido. Era ali que tudo se tinha de passar. Não precisei de provar a água para saber que ela era salgada. Agora percebia. Meu Deus, como eu percebia e como estaria arrasado ao sonhar, para sempre.
A cama onde anteriormente nenhum corpo repousava, estava agora ocupada por um corpo ensanguentado e semi-devorado. O meu anfitrião berrava em agonia pura, vertendo muito sangue. Ainda estava vivo, embora eu não pudesse entender como. Perto dele enlaçavam-se o que pareciam ser hienas famintas em volta de um leão moribundo, só que tinham o formato de cinco pessoas, nuas, com os corpos untados de líquido vermelho e viscoso. Devoravam o homem que se contorcia na cama. Ou o que restava dele. Das bocas pendiam fios de sangue espesso. Os olhos exibiam apenas uma cor branca e leitosa e os trejeitos eram estranhos, como que desajustados aos corpos que os efectuavam. Eram gestos animais, descoordenados, mal colocados e improváveis naqueles corpos. As posturas eram simiescas e os meneios quase felinos.
Passei por um instante horroroso quando vi o rosto da minha cliente, com os lábios emersos em sangue e segurando um naco de carne com dedos enclavinhados. Das costas destas pessoas, se é que era isso que eram, emergiam filamentos grossos e negros, semelhantes a cordões umbilicais, os quais se estendiam até aos cantos da divisão e fervilhavam de movimento como uma maldição feita carne. Olharam para mim e sorriram todos. Sorriram num esgar demente, com os dentes plenos de sangue e as mãos empunhando pedaços de algo que até hoje agradeço não saber exactamente o que era. Eram sorrisos de tal forma malévolos que senti por momentos o medo a levar a melhor sobre mim, podendo deixar-me ali, prostrado e rendido a uma insanidade irrecuperável.
Saí o mais depressa possível do quarto. Olhei para o quadro e percebi tudo. Nem necessitava de ter lido o último volume para saber o porquê do sabor da água. Percebi com uma dor na alma que ainda hoje é uma chaga aberta, branca e fria.
A casa era uma sinfonia de ruídos de carne e pele húmida que se despegavam, de gritos de dor, ruídos inumanos e trovões furiosos.
Sem saber como, agarrei nos meus pertences e tentei sair da casa. Ia caindo pelas escadas abaixo enquanto conseguia aperceber-me que os cantos das divisões eram agora quase paredes inteiras tingidas de negro vivo, ignorando a luz que as deveria expulsar. Gritei a plenos pulmões, para me lembrar que estava ali e que o instinto de sobrevivência teria de me manter desperto antes de me paralisar numa demência ineficaz.
Abandonei a casa, com gritos que ainda ecoavam na noite apesar da violenta trovoada. Ele ainda estava vivo.... por quanto tempo mais? Passei pela piscina, e vi que o cão se dirigia a mim com o mesmo ladrar afável de sempre. Tinha a língua de fora, arfava e nunca mais me abandonaria. Aliás, tenho-o aqui comigo, aos meus pés, dando-me conforto. Curioso como se apercebe sempre que estou agitado.
Abri a porta do meu carro, que felizmente pegou, e ele entrou num pulo. Como sempre, os animais são mais espertos que nós. Quando liguei as luzes e me olhei ao espelho não reparei imediatamente. Isso só aconteceu quando não podia já ouvir aqueles ruídos de descarnação e dor que me apercebi finalmente. Quando já via a estrada à minha frente e o medo permitia que os tremores acalmassem. Foi nessa altura que reparei. Tinha os olhos sulcados de sangue e olheiras enormes. Mas algo emergia, Algo que ficaria como uma lembrança de leito de morte. Toquei na cabeça, penteando o cabelo para trás, o qual faiscou perante as luzes oriundas dos candeeiros de rua.
Estava totalmente branco.