Sinceramente, não acho que muitas pessoas sejam complicadas. Acho genuinamente que em muitos casos simplesmente não ouvem. Ou não querem ou vir, o que também é muito legítimo, porque no fundo já existem as vozes internas a recordarem o rosário de asneiras feitas.
Julgo que é nessa falta de audição que existe o ressentimento. Na ausência de um pressentir, na opacidade daquilo que supostamente é retumbante e claro como halogéneo numa mina desactivada. Esse ressentimento cresce e liberta. Liberta porque entre a legitimidade para a surdez e a ausência de códigos destrói qualquer senso de perspectivação relativamente ao que no fundo toda a capacidade de desejar permite esperar, nem ue seja um bocadinho nos minutos de silêncio em que somos mesmo só nós.
Mas e virar a mesa ao contrário? E por ouvir, também imaginar dizer? Talvez em muitos casos muitas pessoas, o proferir seja realmente o velho milagre da escuta activa. Talvez seja o esperanto das formas de estar, ou melhor, de esperar. Talvez seja uma ponte que consiga traduzir aquele velho mas tão eficaz conceito que assenta sempre na diferença feita não por aquilo que quem ouve ou diz saberá, mas pelo que se pode aprestar a ser capaz de saber ou interiorizar.
Contra mim falo quando digo que por vezes há que obviar mais a descoberta alheia. Há toda uma panóplia de mazelas que no desenrolar do "crescimento" nos fragmentam as arestas e nos tornam pouco populares a puzzles mais conhecidos. Mas não há qualquer dúvida na minha mente que as acrimónias que testemunho, os silêncios emburrados, os ressentimentos provocados como claro efeito secundário dos afectos, são uma combinação idiota entre surdez e mudez, que não só rimam foneticamente, mas também nos efeitos que provocam.
Não há a mínima dúvida que associada à parca capacidade de querer perceber, de apanhar os sons contrastantes quando o vento muda de sentido, há também o silêncio, a ausência de código, e a imputabilidade de responsabilidades ao eco desse mesmo silêncio.
E isto não é complicação. É até terrivelmente simples.
