ESTAÇÕES DIFERENTES
Stephen King - "Different Seasons"
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quarta-feira, junho 17, 2009
A sério. Passem por lá.
Até me arrisco um dia a pedir uma ilustração tão bonita e certeira como esta no blog da minha amiga M.
A segunda vaga é constituida por pessoas que de alguma forma se encontram no meio de um quotidiano onde as formas, mais ou menos arranjadas, de viver simplesmente se tornaram inaplicáveis. Mas todas essas pessoas procuram algo. E procuram-no de forma quase abstracta, porque não é raro não saberem exactamente o que é. Ou pode ser. Em muitos casos, talvez até possa ser a aprendizagem com uma vivência mais isolada, ou o culto de certas formas de amor que possam de alguma forma compatibilizar-se com uma série de dúvidas e fraquezas que tornam o envolvimento romântico uma espécie de mononucleose que, como se sabe, leva uma carrada de tempo a passar.
A segunda vaga é também caracterizada por sofrer de um preconceito de "uso" ou "vício comportamental", ou a melhor, falta de qualidade que explica a tal suposta passagem ao lado do conceito de recomendável. É ainda definida como a arca dos malucos, dos imaturos, dos qualitativamente discutíveis, dos disruptores da ordem definida como emparelhamento.
A verdade é que, falácias à parte, a segunda vaga é, pelo menos no que me diz a experiencia, mais difícil. São pessoas plenamente conscientes de que o seu mundo pode terminar, sejam lá quais forem os motivos, e assustam-se com pouca coisa. Talvez porque vivam com um certo tipo muito particular de medo. Não sei. São tantos os casos, as histórias, as vivências.
Mas algo é comum. A experiência que muda tudo. A visão jamais límpida, o que torna ainda mais premente a força de algo ainda mais raro. A alternativa entre o amor empático e a auto-suficiência.
E as histórias multiplicam-se.
Comodismos, rendições, sorte real, felicidades com ecos.
Mas a segunda vaga é feita de gente que se atreve. A viver à sua maneira, a esperar, a exigir, a trabalhar para os sentidos para muitas coisas não se esgotem em timmings ou qualificações ditas de "oportunidade".
A segunda vaga existe na firme crença de que algo melhor vem por aí. Se calhar porque o que existia não passava por vida.
terça-feira, junho 16, 2009
Nisso, pelo menos, sempre fui proficiente.
A duras penas, mas antes assim. Mil vezes.
Só um geiser, e mesmo assim...
Beleza Americana, que me desculpe o malogrado Benard da Costa, é ainda o meu filme maior. Em várias vertentes, talvez porque ponha o dedo (com sal e sujo) na ferida. Nas minhas, pelo menos.
Beleza Americana, nos milhares de contextos e complexidades maravilhosas que encerra, fala também dos perigos, ou incapacidades associadas à verdadeira vulnerabilidade. Fala dos perigos associados ao que automaticamente qualifica a individualidade. Mais do que aquela que se "escolhe", aquela que assenta em coisas que realmente diferenciam o ser individual. As mesmas que também o tornam um alvo, e justificam a opção sem ganhos entre a solidão e a protecção.
O protagonista, pleno de ausências de virtude, e digo ausências porque é a falta de algo que mais lhe caracteriza a vida, tem no entanto um reduto precioso, algo encerrado em si mesmo, um pouco em consonância com o personagem que aqui fala da beleza errática que por vezes todos encontramos nas coisas aparentemente mais insignificantes. E bem vistas as coisas, a beleza pungente está encerrada na felicidade que se cristaliza aquando da percepção que, de entre toda a dor e alienação pessoal possível, há algo que sobrevém. É o seu interior, a sua vulnerabilidade, a sua preciosidade feita de coisas que são luz. E é na sua emergência que ele acaba por morrer. Morrer feliz, diz o futuro genro. E a metáfora está assim dolorosamente completa. Surge como um aviso belíssimo. Materializa-se na prova da beleza enquanto existência, mas também na triste constatação que a sua vida é frágil e de equilíbrio precário.
Por isso, e é aquilo que o saco de plástico aparenta trazer, por vezes a beleza é tão grande que parece encher e rebentar as contenções. O desejo de exposição, de contar os conjuntos de histórias mais importantes de todos vem ao de cima, mas surge como um pássaro liberto numa planície de caça. No fundo a beleza prova-se a si mesma também na necessidade da protecção, e sobretudo porque ao afirmar-se, corre o risco do pavão que dança no pré-crepúsculo. Anuncia-se a si mesma na extrema potencialidade do seu assassinato. Na extrema probabilidade.
Anunciar a vulnerabilidade é, nas palavras do homónimo, sermos Sheherazade de nós próprios.
sexta-feira, junho 12, 2009
Seja pilotagem de naves, ou carros, "gestao" de pessoas, pedaços de palavras colocados numa superfície branca ou a limpeza da bancada da cozinha, existem métodos para tudo. Mas esses métodos não são , em circunstância alguma, totalmente ditados por uma racionalidade absoluta. São palpação, navegação de cabotagem, porque todos têm cabos, ventos e procelas. É uma percepção da unicidade de um carácter, o recorte do que é especial e como tal, acaba por fazer-se presente por uma percepção que se antecipa a si mesma.
Eu explico.
Os métodos assentam na confusão entre a aplicabilidade racional das vontades e opiniões, e a aceitação de esquinas mais afiadas que traduzem " personalidades que fazem merda porque escolhem fazer merda, mas que tornam possível acreditar que a matéria fundamental contém em si algo de insitamente bom , e que numa lógica de percurso, a determinado momento irão auto-determinar-se por critérios melhores."(sic)
São assim métodos em parte involuntários, e tão mais engraçados por causa disso. É a aplicabilidade de uma probabilidade de vontade e aceitação, ao meio metro ao qual a racionalidade não chega, pelo menos inteira. É a criação de empatia por uma espécie de pré-cognição, do que se sabe sem saber como se sabe. Da aceitação do que ao ser diferente, é de certa forma impassível de entradas em compêndios, ou pretensões axiomáticas.
E só assim é possível perceber que um pombo correio sabe sempre para onde vai, ou que qualquer forma de amor mantém naves no céu, ou que em muitos casos, o que nos contamina o coração é a tal persistência pelo que se adivinha como bom. É essa intuição que funciona como contra-veneno. Que apaga o niilismo ao fazer do nada sempre alguma coisa.
É o que felizmente aprendemos que "certifica" o método.
Nunca são demasiadas ou sequer suficientes as homenagens a quem e ao que nos inspira esse senso de impermeabilidade ao mais nefasto de qualquer desesperança.
Quando a teimosia se humaniza, a tristeza é apenas parte de algo, uma espécie de rebaque cartesiano. É o quem mantém a Serenidade no ar...
quinta-feira, junho 11, 2009
Depois de horas e horas a direccionar a réstia de cérebro que me resta (mau jogo de palavras - caríssimos e atentos stalkers, não deixem passar esta) uma pessoa pára, pouco é certo, para pensar um pouco. No meio destes períodos de concentração e entrega total a um objectivo, normalmente pragmático, existe aquela ilusão na qual o mundo parece parar. E no entanto a verdade é que isso não acontece. Amigos estão de férias, ao sol, como espero que mereçam, as pessoas chateiam-se, outras enamoram-se, e os dias sucedem-se sem me dar qualquer cavaco, alheios ao facto de que daqui a algum tempo espero poder apanhá-los novamente e espremer-lhes qualquer coisa.
Esta ausência, ou isolamento forçado, deixo a quem quiser construir o qualificativo que o faça, reestrutura a perspectiva sobre as coisas. Sobre as pessoas. Sobre o que se sente, ou deixa de sentir. Sobre a vontade que se tem de humanizar, de ter sido melhor, se querer evoluir, de pensar que algo amanhã tem de fazer mais sentido que hoje. E depois dou comigo a rever os instantes em que preferiria ter feito algo de forma diversa, outros tantos em que sei que faria a mesma merda e com requintes, a ter uma saudade muito própria de onde, seja de que forma for, me posso inserir. A censurar aqueles que não fazem o que eu acho que deveriam fazer, e a esquecer-me deliberadamente de algumas patas na poça. A exercitar recordações e ansiedades, como se o simples facto de pensar fosse uma respiração, de movimentos alternados, contraditórios, e no entanto absolutamente necessários e sistémicos.
Por isso, em rambling motion...
Ontem chovia, hoje está sol e calor. Recorda-me os exames em Junho. Porra.
Na psicose interna (sim, eu sei que é uma redundância), a guerra continua a mesma entre as mesmas -esta e esta
Não há férias fora do rectângulo este ano. Again!
Graças a seja quem for, hoje havia a Blitz, a Premiere e Empire, todas alinhadas à minha espera.
Maldito seja o Código da Contratação Pública!
Felizmente não há ainda formato de cinismo sem humor. Nem acho que venha a haver.
O Verão ainda é a melhor estação para a felicidade contemplativa em não se ser uma mulher.
Os dois últimos episódios do House ainda são provavelmente o melhor que vi em televisão em muito tempo.
Ainda e sempre, "conter (ao máximo porque ninguém é de ferro) julgamento ainda é matéria de infinita esperança", já lá dizia o ébrio.
Continuo sem a mínima pista, mas isso já me aborreceu muito mais.
Até já.(?)
terça-feira, junho 02, 2009
A propósito de uma frase de Woody Allen dita ontem, (algures no meio de uma profunda insónia), relativamente ao posicionamento de cada um perante aquilo que a vida parece trazer na velha metáfora dos copos meio cheios ou meio vazios, surgiu-me uma ideia. Uma ideia originária de um pessimismo com o qual me reputam, com justiça diga-se, mas que não é ele em si originário. É, talvez, um produto do percurso evolutivo pessoal, e assenta na forma como se reacionalizam em perspectiva as percepções trazidas pelas emoções maioritárias no decorrer dos dias.
Embora o pessimismo seja um hábito, e se instale como uma segunda pele, a verdade é que, em meu ver, ele difere muito do niilismo. E não só etimológica ou conceptualmente. O pessimismo é uma espécie de filtro enegrecido, mas que ao reconhecer a luz como antítese, reconhece-lhe o brilho e o desejo por oposição. O pessimismo é de facto como uma epifania, ou talvez melhor, uma professão de fé. Julgo ser uma prepotência por parte das pessoas "maioritariamente felizes" (o que quer que isso seja) julgar que o pessimismo é volitivo. Que se acorda de manhã e se tende a pensar que a balança de cada dia pende mais para os escuros porque se quer, ou porque se tende a potenciar essa mesma forma de estar. Eu pessoalmente creio que o pessimismo é, em primeiro lugar, caracterizado por um forte desejo de o desmarcarar como nada mais que uma lente suja. O pessimismo não rejeita a luminosidade simples do que se julga ser a felicidade descomplicada. Muito pelo contrário. O pessimismo é um anseio racional e consciente, quase uma denúnca ansiosa pelo outro lado, pelas faces de cada conceito que estão sujeitas à luz, e como tal, lhe dão a totalidade real que as deve caracterizar.
Por outro lado o pessimismo é como uma crença. Mais racional que outras epifanias ou intuições intelectuais (como a fé), mas ainda assim fixa-se na mente e personalidade como uma espécie de máxima, que se repete em muitos momentos e em relação a uma miríade de situações que, infelizmente, ajudam a construir essa base sólida de tons pardacentos.
O pessimismo surge como o célebre "eu avisei-te". É mais ou menos uma factura. É a manta diáfana que de alguma forma não se consegue sacudir quando os que amamos estão para além da nossa ajuda não importa o que possamos fazer, ou quando a pessoas boas acontecem coisas más, ou quando algo dentro de alguns simplesmente os impede de se desculparem por um segundo que seja. É a simples verificação, a verdade na aresta mais cortante, da conformação dos factos a uma certa perspectiva. Aquela que queremos negar, aquela que esperamos que não nos domine, aquela que agudiza os momentos de beleza e paz como alternâncias necessárias à pancada racional e continua como o som sequencial de um ponteiro em demasiados momentos de todos os nossos tempos.
Não se é pessimista porque se quer. O que se quer é não ser.
É a existência pela oposição. Verificação pelo desejo. Sei lá.
Hieraclistismo, se preferirmos.
Ou então, uma outra frase.
"O que raios me terá passado pela cabeça..."
segunda-feira, junho 01, 2009
Antes e depois da entrevista existem outros convidados, mas passem adiante e vejam Nick Nolte. E já agora, quem não viu o filme, que passe por lá, já que Malick só realiza filmes mais ou menos de vinte em vinte anos. E a julgar pelas idiossincrasias relatadas po Nolte, há pelo menos uma ou duas pessoas com quem o identifico, e para quem a sua linguagem de cinema fará realmente todo o sentido. Eles sabem quem são.
Enjoy!
quarta-feira, maio 27, 2009
terça-feira, maio 26, 2009
segunda-feira, maio 18, 2009
sexta-feira, maio 15, 2009
Peço antecipadamente desculpa pelas susceptibilidades que possa vir a ferir, mas a ideia de ciúmes do passado parece-me uma perfeita parvoíce. Bem, já o conceito clássico de ciúmes não me é muito simpático, mas adiante. A ideia de que alguém pode andar ou ficar inquieto por causa de alguém que já existiu na vida da pessoa com quem está parece-me claramente ideias de quem tem demasiado tempo nas mãos, está cansado de estar bem e precisa de arranjar sarna para se coçar.
A razão pela qual alguém anda inquieto por alguém que já não é factor, é coisa que me esgota qualquer capacidade para argumentação racional. E depois poder-se-ia dizer que o medo é daquela pessoa, de um artista qualquer que supostamente marcou a pessoa indelevelmente... mas não... normalmente esta patologia estende-se a toda e qualquer alminha que alguma vez se tenha aproximado e tocado na parceira(o), como se a coisa a qualquer momento pudesse repristinar. É competir com fantasmas, arranjar conflitos com base em conflitos que já acabaram, assim como ser-se um cossaco em plena 2ª guerra mundial.
Se é suposto funcionar como uma qualquer espécie de declaração indirecta de amor, pois, sem mais comentários.
Os ciúmes do passado são um mecanismo quase prepotente, com pitadas de uma sobranceria estranha, já que se age como se o mundo só existisse a partir do momento em que o ciumento retroactivo tivesse entrado em cena. E, que diabo, presunção e água benta, cacete...
E normalmente essas pessoas, que arranjam redomas em torno da pessoa que as acompanha, acabam por redundar numa única coisa. Ficam a falar sozinhos, e aí sim, com coisas que não existem, mais ou menos aquilo que arranjou a sarilhada que os terá levado até essa solidão superveniente.
Desculpa lá Chris, mas definitivamente não concordo contigo...
quinta-feira, maio 14, 2009
Mas vamos por partes.
Em primeiro lugar falamos do conseguir. Do chegar lá.
Por mais voltinhas que possamos dar, existe em quantidade considerável a ideia do projecto. A ideia de que em certo tempo, "há que arrumar a vida". E são tantos os factores que assistem a esta ideia que custa enumerar todos. Mas falemos um bocadito acerca dos que me parecem mais relevantes, e em alguns casos, assustadores.
Em conversa com algumas, para não dizer, muitas pessoas, verifico que as palavras mais utilizadas são "cedência" e "adaptação". Vejo que em certos casos, a lógica do projecto sobrepõe-se à percepção de vontade real. Assumem-se compromissos porque "está na hora". Mudam-se comportamentos, ou tenta-se pelo menos, não pela ideia de auto-consciência dessa mudança, mas porque se torna "adequado" ou "necessário". Surge aquela terrível frase - "eu cá já estou despachado", o que em certa medida se adequa perfeitamente a certas situações.
E perante isto, porque o calendário não pára, porque o medo da solidão na urbanidade faminta é terrível, porque as ameaças de ausência são gigantescas, as razões para o "despacho" surgem como uma espécie de racionalização comportamental perante marcos cronológicos.
Afinal há muita festa, muito convívio, ninguém quer ir sozinho a casamentos, ninguém quer dar beijos de fim de ano apenas em faces, ninguém quer contemplar o cenário das férias esquizofrénicas de ecos e silêncio de letras e frases em papel, ninguém quer ouvir os pais em cuidados acerca da vida própria que nunca mais se "arranja". Eu sei certamente que não é coisa que me agrade.
Mas será isto a ideia que deve subjazer a uma ligação com alguém? Será a ideia do relacionamento transcendente quando relacionada com a ideia da pessoa? Será que perante a ausência dos paradigmas, a dinâmica relacional pode justificar que os padrões se adaptem? Que afinal de contas, surge como necessário é estarmos sossegados e "entregues", e que depois logo se gere, como se gere o trabalho e todo o pragmatismo da vida de todos os dias?
Não faço qualquer julgamento. Apenas tenho dificuldade em ver essa dimensão das coisas, o que se calhar explica muita coisa. A ideia da conveniência, do ajustado, daquilo que afinal de contas acaba por "servir", porque afinal não se encontrará "melhor" mesmo parece-me um grande explosivo com um detonador retardado. Cedo ou tarde vai estoirar, e normalmente fá-lo na cara dos seus manuseadores. Acontece porque cedo ou tarde se descobre, acho eu, que podemos lidar com as dificuldades inerentes a qualquer perenidade relacional, mas dificilmente se é livre com a ideia da calçadeira. E essa ideia assaltará a pessoa dia após dia, até que ou ela se torne dormente quanto à questão, ou sobreviva com subterfúgios, ou compre uma mala e siga.
Mas é realmente essa a ideia que subjaz. Aconchegados, com o mundo "lá fora", parece repetir-se a ideia de que a alternativa é bem pior, que mal por mal, mais vale a companhia, a ideia de pertença, a lucidez aparentemente óbvia de que a vida tem de continuar, com o que se quer, ou o que mais se aproximar disso.
E infelizmente (ou naturalmente), claro está, dá, em muitos casos, merda.
Não defendo a outra alternativa. Sei lá e quem sou eu para definir o que é certo, ou adequado. Mas olhando para os resultados, para os efeitos das dissimilitudes em relações onde a solidez se fez das suas periferias, as rupturas e danos são frequentes. E ainda assim, muitos não se questionam. A adaptação é soberana, mas onde outrora a mesma era muitas vezes motivada por constrangimentos de sobrevivência, agora é-o na mesma, mas numa questão de sobrevivência vivencial entre pares, acicatadas pelo medo da ausência de plano, de estrutura, de tempo certo para as coisas.
E depois de lá estar?
É certo e sabido que a convivência tem mais segredos que a fechadura do cofre em Fort Knox, mas a ideia é similar. Para mim, quero dizer.
Ninguém pode estabelecer qualquer espécie de relação, seja de que espécie for, sem a capacidade de adaptar e tornar as diferenças em combustível. Como disse, o antagonismo, a capacidade de provocar pela dissimilitude, o senso de humor em si também provocatório são absolutamente essenciais. Se perdemos a capacidade de contar coisas do lado de cá, e ouvir do lado de lá, se tudo é uma claque perante uma única equipa em campo, qualquer enlace sofre. Seja ele de cariz amoroso ou de amizade ou do que for, é no argumentário mútuo que está a génese do contacto, da evolução na interiorização do outro.
Mas isto não cai minimamente na ideia de auto-colante manhoso e brega onde se lê que os opostos se atraem. Os opostos atraem-se até ao momento em que se apercebem ao ponto em que se opõem. E aí a merda atinge a ventoínha, e não podem existir dois galos, dois alfas, dois directores. Perante as clivagens, a experiência diz-me que alguém acaba por ceder, e o que passa a existir é um regime político com debates do estado da nação. Mas perante a maioria absoluta, pois, a coisa já tem destino conhecido.
E dou comigo a ouvir queixumes velados, ideias de adaptação que parecem cair mal como auto-convencimento quando algo do fundamental é cedido para que o projecto "navegue". Seja pelo desencontro de líbidos, pelos rituais de relacionamento social, pela questão da paternidade, whatever. Os sacos enchem, os olhos começam a ficar cada vez mais opacos, e a postura corporal assume o formato resignado. A ideia dos sacrifícios que se têm de fazer para que a coisa vá para a frente, sem se perguntar minimamente se a palavra "sacrifício" deveria ser sequer cogitável.
quarta-feira, maio 13, 2009
And it might happen that someone catches your eye, sings an unpredictable tune and you are on your way, imagining and asking some forbidden questions from time to time. Hal Hartley said that usually there was nothing else but desire and trouble. I tend to disagree. There is some kind of simple wonder, where sexual earning is but a part of what begins to nag your head. Sexual or mental magnetism draws you near and somehow acts as a catalyst.
Like a real sense of humour.
Like some special kind of real people.
terça-feira, maio 12, 2009
sexta-feira, maio 08, 2009
sexta-feira, abril 24, 2009
quarta-feira, abril 22, 2009
"Yeah, yeah! It was brown, and had dots on it!"
"Yeah, so lets just say that I stole the milk money, but old lady Simons stole it back from me. Just suppose that I told this story. Me, Chris Chambers, kid brother to Eyeball Chambers. Do you think that anybody would believed it?"
Stephen King - 1982
terça-feira, abril 21, 2009
segunda-feira, abril 20, 2009
sexta-feira, abril 17, 2009
Destes três actores, só o paradeiro de um deles é quase desconhecido. Precisamente o protagonista, que encarna a personagem de Gordon LaChance, um doppleganger de Stephen King, de resto o autor da maravilhosa história que está na base do filme.
Os outros três têm paradeiros bem determinados.
O gorducho, de nome Jerry O'Connell, é hoje em dia um actor em voga, tendo participado em vários filmes e muitas séries de televisão, incluindo o mais-ou-menos namorado da personagem de Jordan em "A Patologista". Em várias entrevistas referem-se a ele como "the fat kid from Stand by Me".
O protagonista, Wil Weaton, fez umas coisas em Star Trek, mais umas séries.
Corey Feldman, o moço dos óculos, e River Phoenix, o rapaz de cabelo rapado e líder do grupo, estão mortos devido a complicações com drogas e álcool. Este último, talvez o mais mediático, tomou um Speedball (Cocaína e heroína em cocktail) à porta de uma discoteca e quinou pouco tempo depois.
O mais curioso acerca destes factos, é que os personagens da história original, recordada pelo narrador já perto dos quarenta anos, morrem todos em momentos posteriores da vida. É certo que Jerry O'connell ainda está vivo, mas os outros dois morreram de formas semelhantes às dos personagens, designadamente em acidentes relacionados com bebida. Embora no filme isto não surja, está presente na história original.
Esta história, datada de 1982, era toda ela premonitória. E no fundo, se pensar em algumas pessoas que me rodeavam quando eu tinha doze anos, algumas estão já não vivem, por força de comportamentos auto-destrutivos que redundaram em mortes prematuras. Calculo que se todos nos recordarmos desses tempos, existem caras que nunca mais voltámos a encontrar anos mais tarde, com as barrigas e os filhos. Cristalizaram-se naquela de meninice, ou adolescência, e são como ecos de um passado onde a vida e a morte pareciam sempre abstracções de um mundo ao qual éramos alheios. E não são raras as ocasiões em que ao confrontar os pouquíssimos cenários ainda intactos, esse tempo e essas faces surgem, como lembranças de uma inocência que rapidamente desaparece e se transforma numa nostalgia consciente, uma moínha de saudade por certa simplicidade do mundo.
Aquela viagem dos quatro protagonistas, e a premonição derivada de tudo o que acontece, talvez seja a viagem que todos fizemos um dia na nossa pré-adolescência. Não nos mesmos termos ou com a mesma finalidade, mas a viagem estava lá. Como o primeiro contacto com fenómenos que geram coisas, as quais, nas palavras do autor daquela que talvez seja a história mais significativa do meu percurso como pessoa, são as mais mais importantes e as mais difíceis de dizer. E são-no porque as palavras as diminuem face ao que são internamente. Ficam encerradas não porque não porque falte um relator, mas porque dificilmente se encontra quem consiga ouvir.
(Isso é um veado a pastar num caminho de ferro explicam muita coisa. )
"The others slept heavily through the rest of the night. I was in and out, dozing, waking, dozing again. The night was far from silent; I heard the triumphant screech-squawk of a pouncing owl, the tiny cry of some small animal perhaps about to be eaten, a larger something blundering wildly through the undergrowth. Under all of this, a steady tone, were the crickets. There were no more screams. I doze and woke, woke and dozed, and I suppose if I had been discovered standing such a slipshod watch in Le Dio, I probably would have been courtmartialed and shot.
I snapped more solidly out of my last doze and became aware that something was different It took a moment or two to figure it out: although the moon was down, I could see my hands resting on my jeans. My watch said quarter to five. It was dawn.
I stood, hearing my spine crackle, walked two dozen feet away from the limped-together bodies of my friends, and pissed into a clump of sumac. I was starting to shake the night-willies; I could feel them sliding away. It was a fine feeling.
I scrambled up the cinders to the railroad tracks and sat on one of the rails, idly chucking cinders between my feet, in no hurry to wake the others. At that precise moment the new day felt too good to share.
Morning came on apace. The noise of the crickets began to drop, and the shadows under the trees and bushes evaporated like puddles after a shower. The air had that peculiar lack of taste that presages the latest hot day in a famous series of hot days. Birds that had maybe cowered all night just as we had done now began to twitter self-importantly. A wren landed on top of the deadfall from which we had taken our firewood, preened itself, and then flew off.
I don't know how long I sat there on the rail, watching the purple steal out of the sky as noiselessly as it had stolen in the evening before. Long enough for my butt to start complaining anyway. I was about to get up when I looked to my right and saw a deer standing in the railroad bed not ten yards from me.
My heart went up into my throat so high that I think I could have put my hand in my mouth and touched it. My stomach and genitals filled with a hot dry excitement. I didn't move. I couldn't have moved if I had wanted to. Her eyes weren't brown, but a dark, dusty black - the kind of velvet you see backgrounding jewelry displays. Her small ears were scuffed suede. She looked serenely at me, head slightly lowered in what I took for curiosity, seeing a kid with his hair in a sleep-scarecrow of whirls and many-tined cowlicks, wearing jeans with cuff and a brown khaki shirt with the elbows mended and the collar turned up in the hoody tradition of the day. What I was seeing was some sort of gift, something given with a carelessness that was appalling.
We looked at each other for a long time ... I think it was a long time. Then she turned and walked off to the other side of the tracks, white bobtail flipping insouciantly. She found grass and began to crop. I couldn't believe it. She had begun to crop. She didn't look back at me and didn't need to; I was frozen solid.
Then the rail started to thrum under my ass and bare seconds later the doe's head came up, cocked back toward Castle Rock. She stood there, her branch-black nose working on the air, coaxing it a little. Then she was gone in three gangling leaps, vanishing into the woods with no sound but one rotted branch, which broke with a sound like a track ref's starter-gun.
I sat there, looking mesmerized at the spot where she had been, until the actual sound of the freight came up through the stillness. Then I skidded back down the bank to where the others were sleeping.
The freighter's slow, loud passage woke them up, yawning and scratching. There was some funny, nervous talk about "the case of the screaming ghost," as Chris called it, but not as much as you might imagine. In daylight it seemed more foolish than interesting - almost embarrassing. Best forgotten.
It was on the tip of my tongue to tell them about the deer, but I ended up not doing it. That was one thing I kept to myself. I've never spoken or written of it until just now, today. And I have to tell you that it seems a lesser thing written down, damn near inconsequential. But for me it was the best part of that trip, the cleanest part, and it was a moment I found myself returning to, almost helplessly, when there was trouble in my life - my first day in the bush in Vietnam, and this fellow walked into the clearing where we were with his hand over his nose and when he took his hand away there was no nose there because it had been shot off; the time the doctor told us our youngest son might be hydrocephalic (he turned out just to have an oversized head, thank God); the long, crazy weeks before my mother died. I would find my thoughts turning back to that morning, the scuffed suede of her ears, the white flash of her tail. But eight hundred million Red Chinese don't give a shit, right? The most important things are the hardest to say, because words diminish them. It's hard to make strangers care about the good things in your life."
Stephen King - The Body - 1982
quinta-feira, abril 16, 2009
quarta-feira, abril 15, 2009
Porque o bem estar é por vezes, (esperançadamente), contagioso.
Não é?
segunda-feira, abril 13, 2009
quinta-feira, abril 09, 2009
Desatino solenemente com pessoas que sabem tudo. Aquelas pessoas que se erguem do alto da sua experiência ou suposta sapiência, e toca a moldar a realidade de acordo com as suas vivências, como se tivessem o formato de um livro de instruções para a vida. Disfarçam a sobranceira com uma espécie de sentido de humor histriónico, com o qual adquirem aquela velha frase entre pares "deixa lá, ela é assim".
quarta-feira, abril 08, 2009
terça-feira, abril 07, 2009
-É um céu de papel. É dos meus preferidos.
Olhei para ele e não pude deixar de sorrir.
- E estas pessoas?
- São pessoas de plástico. Pessoas de plástico e um céu de papel. Gostas?
- Não têm cara…
quinta-feira, abril 02, 2009
Muchas Gracias :)
Talvez todas as nossas histórias sejam mesmo parecidas, e haja quem pense que nada mais resta por contar.