ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, junho 17, 2009

Oh pá, uma delícia!

A sério. Passem por lá.

Até me arrisco um dia a pedir uma ilustração tão bonita e certeira como
esta no blog da minha amiga M.
Há dias falava com um amigo, e conversava-se acerca daquilo que eu designo de "segunda vaga". Ou, talvez mais apropriadamente, os pós projecto. Pós oportunidade. Pós hipótese. Mas ao contrário do que diziam outros, não pós sentimentos ou emoções.
A segunda vaga é constituida por pessoas que de alguma forma se encontram no meio de um quotidiano onde as formas, mais ou menos arranjadas, de viver simplesmente se tornaram inaplicáveis. Mas todas essas pessoas procuram algo. E procuram-no de forma quase abstracta, porque não é raro não saberem exactamente o que é. Ou pode ser. Em muitos casos, talvez até possa ser a aprendizagem com uma vivência mais isolada, ou o culto de certas formas de amor que possam de alguma forma compatibilizar-se com uma série de dúvidas e fraquezas que tornam o envolvimento romântico uma espécie de mononucleose que, como se sabe, leva uma carrada de tempo a passar.
A segunda vaga é também caracterizada por sofrer de um preconceito de "uso" ou "vício comportamental", ou a melhor, falta de qualidade que explica a tal suposta passagem ao lado do conceito de recomendável. É ainda definida como a arca dos malucos, dos imaturos, dos qualitativamente discutíveis, dos disruptores da ordem definida como emparelhamento.
A verdade é que, falácias à parte, a segunda vaga é, pelo menos no que me diz a experiencia, mais difícil. São pessoas plenamente conscientes de que o seu mundo pode terminar, sejam lá quais forem os motivos, e assustam-se com pouca coisa. Talvez porque vivam com um certo tipo muito particular de medo. Não sei. São tantos os casos, as histórias, as vivências.
Mas algo é comum. A experiência que muda tudo. A visão jamais límpida, o que torna ainda mais premente a força de algo ainda mais raro. A alternativa entre o amor empático e a auto-suficiência.

E as histórias multiplicam-se.
Comodismos, rendições, sorte real, felicidades com ecos.
Mas a segunda vaga é feita de gente que se atreve. A viver à sua maneira, a esperar, a exigir, a trabalhar para os sentidos para muitas coisas não se esgotem em timmings ou qualificações ditas de "oportunidade".
A segunda vaga existe na firme crença de que algo melhor vem por aí. Se calhar porque o que existia não passava por vida.


terça-feira, junho 16, 2009

Bolas, levei tempo, mas...

Pedro e o Lobo.

Mais do mesmo.

Enfim...


Nada como ter a elegância da percepção, e simplesmente "take the hint"...



Nisso, pelo menos, sempre fui proficiente.



A duras penas, mas antes assim. Mil vezes.





Não há nada mais certeiro que pessoas a morderem determinados tipos de isco...
Só um geiser, e mesmo assim...

Beleza Americana, que me desculpe o malogrado Benard da Costa, é ainda o meu filme maior. Em várias vertentes, talvez porque ponha o dedo (com sal e sujo) na ferida. Nas minhas, pelo menos.

Beleza Americana, nos milhares de contextos e complexidades maravilhosas que encerra, fala também dos perigos, ou incapacidades associadas à verdadeira vulnerabilidade. Fala dos perigos associados ao que automaticamente qualifica a individualidade. Mais do que aquela que se "escolhe", aquela que assenta em coisas que realmente diferenciam o ser individual. As mesmas que também o tornam um alvo, e justificam a opção sem ganhos entre a solidão e a protecção.

O protagonista, pleno de ausências de virtude, e digo ausências porque é a falta de algo que mais lhe caracteriza a vida, tem no entanto um reduto precioso, algo encerrado em si mesmo, um pouco em consonância com o personagem que aqui fala da beleza errática que por vezes todos encontramos nas coisas aparentemente mais insignificantes. E bem vistas as coisas, a beleza pungente está encerrada na felicidade que se cristaliza aquando da percepção que, de entre toda a dor e alienação pessoal possível, há algo que sobrevém. É o seu interior, a sua vulnerabilidade, a sua preciosidade feita de coisas que são luz. E é na sua emergência que ele acaba por morrer. Morrer feliz, diz o futuro genro. E a metáfora está assim dolorosamente completa. Surge como um aviso belíssimo. Materializa-se na prova da beleza enquanto existência, mas também na triste constatação que a sua vida é frágil e de equilíbrio precário.

Por isso, e é aquilo que o saco de plástico aparenta trazer, por vezes a beleza é tão grande que parece encher e rebentar as contenções. O desejo de exposição, de contar os conjuntos de histórias mais importantes de todos vem ao de cima, mas surge como um pássaro liberto numa planície de caça. No fundo a beleza prova-se a si mesma também na necessidade da protecção, e sobretudo porque ao afirmar-se, corre o risco do pavão que dança no pré-crepúsculo. Anuncia-se a si mesma na extrema potencialidade do seu assassinato. Na extrema probabilidade.

Anunciar a vulnerabilidade é, nas palavras do homónimo, sermos Sheherazade de nós próprios.



sexta-feira, junho 12, 2009


Seja pilotagem de naves, ou carros, "gestao" de pessoas, pedaços de palavras colocados numa superfície branca ou a limpeza da bancada da cozinha, existem métodos para tudo. Mas esses métodos não são , em circunstância alguma, totalmente ditados por uma racionalidade absoluta. São palpação, navegação de cabotagem, porque todos têm cabos, ventos e procelas. É uma percepção da unicidade de um carácter, o recorte do que é especial e como tal, acaba por fazer-se presente por uma percepção que se antecipa a si mesma.
Eu explico.
Os métodos assentam na confusão entre a aplicabilidade racional das vontades e opiniões, e a aceitação de esquinas mais afiadas que traduzem " personalidades que fazem merda porque escolhem fazer merda, mas que tornam possível acreditar que a matéria fundamental contém em si algo de insitamente bom , e que numa lógica de percurso, a determinado momento irão auto-determinar-se por critérios melhores."(sic)
São assim métodos em parte involuntários, e tão mais engraçados por causa disso. É a aplicabilidade de uma probabilidade de vontade e aceitação, ao meio metro ao qual a racionalidade não chega, pelo menos inteira. É a criação de empatia por uma espécie de pré-cognição, do que se sabe sem saber como se sabe. Da aceitação do que ao ser diferente, é de certa forma impassível de entradas em compêndios, ou pretensões axiomáticas.

E só assim é possível perceber que um pombo correio sabe sempre para onde vai, ou que qualquer forma de amor mantém naves no céu, ou que em muitos casos, o que nos contamina o coração é a tal persistência pelo que se adivinha como bom. É essa intuição que funciona como contra-veneno. Que apaga o niilismo ao fazer do nada sempre alguma coisa.
É o que felizmente aprendemos que "certifica" o método.
Nunca são demasiadas ou sequer suficientes as homenagens a quem e ao que nos inspira esse senso de impermeabilidade ao mais nefasto de qualquer desesperança.
Quando a teimosia se humaniza, a tristeza é apenas parte de algo, uma espécie de rebaque cartesiano. É o quem mantém a Serenidade no ar...





quinta-feira, junho 11, 2009


Depois de horas e horas a direccionar a réstia de cérebro que me resta (mau jogo de palavras - caríssimos e atentos stalkers, não deixem passar esta) uma pessoa pára, pouco é certo, para pensar um pouco. No meio destes períodos de concentração e entrega total a um objectivo, normalmente pragmático, existe aquela ilusão na qual o mundo parece parar. E no entanto a verdade é que isso não acontece. Amigos estão de férias, ao sol, como espero que mereçam, as pessoas chateiam-se, outras enamoram-se, e os dias sucedem-se sem me dar qualquer cavaco, alheios ao facto de que daqui a algum tempo espero poder apanhá-los novamente e espremer-lhes qualquer coisa.

Esta ausência, ou isolamento forçado, deixo a quem quiser construir o qualificativo que o faça, reestrutura a perspectiva sobre as coisas. Sobre as pessoas. Sobre o que se sente, ou deixa de sentir. Sobre a vontade que se tem de humanizar, de ter sido melhor, se querer evoluir, de pensar que algo amanhã tem de fazer mais sentido que hoje. E depois dou comigo a rever os instantes em que preferiria ter feito algo de forma diversa, outros tantos em que sei que faria a mesma merda e com requintes, a ter uma saudade muito própria de onde, seja de que forma for, me posso inserir. A censurar aqueles que não fazem o que eu acho que deveriam fazer, e a esquecer-me deliberadamente de algumas patas na poça. A exercitar recordações e ansiedades, como se o simples facto de pensar fosse uma respiração, de movimentos alternados, contraditórios, e no entanto absolutamente necessários e sistémicos.

Por isso, em rambling motion...

Ontem chovia, hoje está sol e calor. Recorda-me os exames em Junho. Porra.

Na psicose interna (sim, eu sei que é uma redundância), a guerra continua a mesma entre as mesmas -
esta e esta

Não há férias fora do rectângulo este ano. Again!

Graças a seja quem for, hoje havia a Blitz, a Premiere e Empire, todas alinhadas à minha espera.

Maldito seja o Código da Contratação Pública!

Felizmente não há ainda formato de cinismo sem humor. Nem acho que venha a haver.

O Verão ainda é a melhor estação para a felicidade contemplativa em não se ser uma mulher.

Os dois últimos episódios do House ainda são provavelmente o melhor que vi em televisão em muito tempo.

Ainda e sempre, "conter (ao máximo porque ninguém é de ferro) julgamento ainda é matéria de infinita esperança", já lá dizia o ébrio.

Continuo sem a mínima pista, mas isso já me aborreceu muito mais.
E eis que se acaba o desconto de tempo.

Até já.(?)








terça-feira, junho 02, 2009


A propósito de uma frase de Woody Allen dita ontem, (algures no meio de uma profunda insónia), relativamente ao posicionamento de cada um perante aquilo que a vida parece trazer na velha metáfora dos copos meio cheios ou meio vazios, surgiu-me uma ideia. Uma ideia originária de um pessimismo com o qual me reputam, com justiça diga-se, mas que não é ele em si originário. É, talvez, um produto do percurso evolutivo pessoal, e assenta na forma como se reacionalizam em perspectiva as percepções trazidas pelas emoções maioritárias no decorrer dos dias.
Embora o pessimismo seja um hábito, e se instale como uma segunda pele, a verdade é que, em meu ver, ele difere muito do niilismo. E não só etimológica ou conceptualmente. O pessimismo é uma espécie de filtro enegrecido, mas que ao reconhecer a luz como antítese, reconhece-lhe o brilho e o desejo por oposição. O pessimismo é de facto como uma epifania, ou talvez melhor, uma professão de fé. Julgo ser uma prepotência por parte das pessoas "maioritariamente felizes" (o que quer que isso seja) julgar que o pessimismo é volitivo. Que se acorda de manhã e se tende a pensar que a balança de cada dia pende mais para os escuros porque se quer, ou porque se tende a potenciar essa mesma forma de estar. Eu pessoalmente creio que o pessimismo é, em primeiro lugar, caracterizado por um forte desejo de o desmarcarar como nada mais que uma lente suja. O pessimismo não rejeita a luminosidade simples do que se julga ser a felicidade descomplicada. Muito pelo contrário. O pessimismo é um anseio racional e consciente, quase uma denúnca ansiosa pelo outro lado, pelas faces de cada conceito que estão sujeitas à luz, e como tal, lhe dão a totalidade real que as deve caracterizar.
Por outro lado o pessimismo é como uma crença. Mais racional que outras epifanias ou intuições intelectuais (como a fé), mas ainda assim fixa-se na mente e personalidade como uma espécie de máxima, que se repete em muitos momentos e em relação a uma miríade de situações que, infelizmente, ajudam a construir essa base sólida de tons pardacentos.
O pessimismo surge como o célebre "eu avisei-te". É mais ou menos uma factura. É a manta diáfana que de alguma forma não se consegue sacudir quando os que amamos estão para além da nossa ajuda não importa o que possamos fazer, ou quando a pessoas boas acontecem coisas más, ou quando algo dentro de alguns simplesmente os impede de se desculparem por um segundo que seja. É a simples verificação, a verdade na aresta mais cortante, da conformação dos factos a uma certa perspectiva. Aquela que queremos negar, aquela que esperamos que não nos domine, aquela que agudiza os momentos de beleza e paz como alternâncias necessárias à pancada racional e continua como o som sequencial de um ponteiro em demasiados momentos de todos os nossos tempos.
Não se é pessimista porque se quer. O que se quer é não ser.
É a existência pela oposição. Verificação pelo desejo. Sei lá.
Hieraclistismo, se preferirmos.
Ou então, uma outra frase.
"O que raios me terá passado pela cabeça..."





segunda-feira, junho 01, 2009

Uma vez que sempre foi aparentemente impossível apanhar o realizador Terence Malick, eis uma fascinante entrevista a Nick Nolte, acerca daquele que é para mim o melhor filme do dito realizador, um dos filmes da minha vida, e uma absoluta obra prima - The Thin Red Line.

Antes e depois da entrevista existem outros convidados, mas passem adiante e vejam Nick Nolte. E já agora, quem não viu o filme, que passe por lá, já que Malick só realiza filmes mais ou menos de vinte em vinte anos. E a julgar pelas idiossincrasias relatadas po Nolte, há pelo menos uma ou duas pessoas com quem o identifico, e para quem a sua linguagem de cinema fará realmente todo o sentido. Eles sabem quem são.

Enjoy!


quarta-feira, maio 27, 2009

É sempre lisonjeiro (ou ok, assustador) ter alguém que se dá ao trabalho de perder o seu tempo precioso a ler algo que não gosta, arranjar uma identidade desconhecida e distribuir insultos.
E pior para ele(a)(es), gastar energia a pensar que isso realmente me importa alguma coisa, ou que não passa da insignificância pusilânime própria dos cobardes.
Pensei que só as celebridades é que tinham stalkers.
É divertido. :)

terça-feira, maio 26, 2009

Nos últimos dias houve uma repetição da mesma ideia, trazida por duas pessoas diferentes. Uma ideia acerca da simplicidade dos nossos processos diários, das ideias de objectivos, da capacidade de esperar e antecipar algo. Uma ideia que me foi repetida e assente numa lógica de auto-ajuda, de capacidade de introspecção, de visão do que supostamente somos e podemos fazer.
Numa altura em que claramente se multiplica o desespero mudo, por questões de pragmatismo associado ao estado na nação, mas também pela mudança de hábitos e consciências do que é quotidiano e "urbano", se preferirmos assim, os optimismos, tão necessários, surgem por vezes associados a uma espécie de escárnio. Como se a crença simples em pequenas coisas que fazem a continuidade dos laços fosse passível de infindos exames conceptuais, e afinal de contas, a simples vontade de fazer ou saber algo acerca de alguém seja como a cultura em tempos de crise. Um luxo próprio de quem aparentemente se esquece do realmente "importante". E no entanto as denúncia sucedem-se. Dos estados em que as pessoas se encontram, da forma com a saúde pública os reflete em preocupantes estatísticas, de como as pressões do aparentemente supérfluo
estoira em violência que varia entre a televisionável ou aquilo que um grande musico chama os pequenos crimes entre todos nós.
No fundo, e embora isso pareça quase claro e evidente, a verdade é que até mesmo em células familiares, pouco se aparenta saber. Nota-se que os diálogos são pouco profundos, talvez porque as pessoas tenham mesmo medo de ver o que se passa do lado de lá. Medo de confrontar desejos, medos, arrependimentos e enfados que não se encaixam na lógica do projecto. Sofre-se no mutismo antes da companhia, por falta desta, e pelo receio da quebra da paz ilusória, quando aquela primeira sucede. Não generalizo claro, mas a forma tão ávida como a bondade de "estranhos" parece ser absorvida, relativamente ao que deveria ser aplacado por quem deveria saber, quem está, quem vê, dá que pensar.
E entendo esses receios. Algumas dessas coisas são feias, outras são parvas, outras tão idiossincráticamente íntimas ao ponto de parecerem masturbação mental. São coisas que nos revelam imperfeitos, portadores de desejos menos convencionais, de egoísmos e vontades alheias ao suposto esperado, que tantas vezes redundam em silêncio. Receios de que sejam mal entendidos, que a visão dos mesmos redunde apenas na estranheza de quem reflete e conclui sobre eles.
Mas também entendo que ao depositar-se a dose de confiança necessária para deixar sair tais gatos de tão emaranhado cesto, está a colocar-se nas mãos de outros algo de muito precioso, de único, daquilo que cada um é. Aquilo que permite as cumplicidades, as piadas realmente engraçadas, as leituras de alegrias e desesperos em apenas metade de meio segundo num olhar. Desejar-se isso é reconstruir para o próprio a noção de pertença, e é, de alguma forma, lográ-la.
E acho que há coisas muito piores para desejar. Mas também imensas muito menos difíceis.
A onda da psicoterapia que entrou na ordem do dia, dixit...


sexta-feira, maio 15, 2009



Peço antecipadamente desculpa pelas susceptibilidades que possa vir a ferir, mas a ideia de ciúmes do passado parece-me uma perfeita parvoíce. Bem, já o conceito clássico de ciúmes não me é muito simpático, mas adiante. A ideia de que alguém pode andar ou ficar inquieto por causa de alguém que já existiu na vida da pessoa com quem está parece-me claramente ideias de quem tem demasiado tempo nas mãos, está cansado de estar bem e precisa de arranjar sarna para se coçar.
A razão pela qual alguém anda inquieto por alguém que já não é factor, é coisa que me esgota qualquer capacidade para argumentação racional. E depois poder-se-ia dizer que o medo é daquela pessoa, de um artista qualquer que supostamente marcou a pessoa indelevelmente... mas não... normalmente esta patologia estende-se a toda e qualquer alminha que alguma vez se tenha aproximado e tocado na parceira(o), como se a coisa a qualquer momento pudesse repristinar. É competir com fantasmas, arranjar conflitos com base em conflitos que já acabaram, assim como ser-se um cossaco em plena 2ª guerra mundial.
Se é suposto funcionar como uma qualquer espécie de declaração indirecta de amor, pois, sem mais comentários.
Os ciúmes do passado são um mecanismo quase prepotente, com pitadas de uma sobranceria estranha, já que se age como se o mundo só existisse a partir do momento em que o ciumento retroactivo tivesse entrado em cena. E, que diabo, presunção e água benta, cacete...
E normalmente essas pessoas, que arranjam redomas em torno da pessoa que as acompanha, acabam por redundar numa única coisa. Ficam a falar sozinhos, e aí sim, com coisas que não existem, mais ou menos aquilo que arranjou a sarilhada que os terá levado até essa solidão superveniente.

Desculpa lá Chris, mas definitivamente não concordo contigo...





quinta-feira, maio 14, 2009


Sendo, em vários cenários sociais nos quais me insiro, um dos raros desemparelhados, mentira se algumas dúvidas não surgissem. E surgem relativamente ao que observo, às movimentações, à sacralização da chamada "adaptação", aos instintos de preservação de algo face a naturais constrangimentos de personalidade. Embora o velho brocardo romatizado nos diga que as diferenças constroem dinâmica relacional (sim, porque a falta de antagonismo mata, por exemplo, o senso de humor, e sem provocação ninguém sobrevive), essas dissimilitudes possuem gradações. E quando o grau se eleva ao ponto da discórdia, com a acrimónia logo ali ao lado, ou pior, da apatia por ausência de comunicação, surgem várias questões quanto ao fundamento das relações ditas estáveis (seja lá o que isso for).

Mas vamos por partes.

Em primeiro lugar falamos do conseguir. Do chegar lá.

Por mais voltinhas que possamos dar, existe em quantidade considerável a ideia do projecto. A ideia de que em certo tempo, "há que arrumar a vida". E são tantos os factores que assistem a esta ideia que custa enumerar todos. Mas falemos um bocadito acerca dos que me parecem mais relevantes, e em alguns casos, assustadores.

Em conversa com algumas, para não dizer, muitas pessoas, verifico que as palavras mais utilizadas são "cedência" e "adaptação". Vejo que em certos casos, a lógica do projecto sobrepõe-se à percepção de vontade real. Assumem-se compromissos porque "está na hora". Mudam-se comportamentos, ou tenta-se pelo menos, não pela ideia de auto-consciência dessa mudança, mas porque se torna "adequado" ou "necessário". Surge aquela terrível frase - "eu cá já estou despachado", o que em certa medida se adequa perfeitamente a certas situações.

E perante isto, porque o calendário não pára, porque o medo da solidão na urbanidade faminta é terrível, porque as ameaças de ausência são gigantescas, as razões para o "despacho" surgem como uma espécie de racionalização comportamental perante marcos cronológicos.

Afinal há muita festa, muito convívio, ninguém quer ir sozinho a casamentos, ninguém quer dar beijos de fim de ano apenas em faces, ninguém quer contemplar o cenário das férias esquizofrénicas de ecos e silêncio de letras e frases em papel, ninguém quer ouvir os pais em cuidados acerca da vida própria que nunca mais se "arranja". Eu sei certamente que não é coisa que me agrade.

Mas será isto a ideia que deve subjazer a uma ligação com alguém? Será a ideia do relacionamento transcendente quando relacionada com a ideia da pessoa? Será que perante a ausência dos paradigmas, a dinâmica relacional pode justificar que os padrões se adaptem? Que afinal de contas, surge como necessário é estarmos sossegados e "entregues", e que depois logo se gere, como se gere o trabalho e todo o pragmatismo da vida de todos os dias?

Não faço qualquer julgamento. Apenas tenho dificuldade em ver essa dimensão das coisas, o que se calhar explica muita coisa. A ideia da conveniência, do ajustado, daquilo que afinal de contas acaba por "servir", porque afinal não se encontrará "melhor" mesmo parece-me um grande explosivo com um detonador retardado. Cedo ou tarde vai estoirar, e normalmente fá-lo na cara dos seus manuseadores. Acontece porque cedo ou tarde se descobre, acho eu, que podemos lidar com as dificuldades inerentes a qualquer perenidade relacional, mas dificilmente se é livre com a ideia da calçadeira. E essa ideia assaltará a pessoa dia após dia, até que ou ela se torne dormente quanto à questão, ou sobreviva com subterfúgios, ou compre uma mala e siga.

Mas é realmente essa a ideia que subjaz. Aconchegados, com o mundo "lá fora", parece repetir-se a ideia de que a alternativa é bem pior, que mal por mal, mais vale a companhia, a ideia de pertença, a lucidez aparentemente óbvia de que a vida tem de continuar, com o que se quer, ou o que mais se aproximar disso.

E infelizmente (ou naturalmente), claro está, dá, em muitos casos, merda.

Não defendo a outra alternativa. Sei lá e quem sou eu para definir o que é certo, ou adequado. Mas olhando para os resultados, para os efeitos das dissimilitudes em relações onde a solidez se fez das suas periferias, as rupturas e danos são frequentes. E ainda assim, muitos não se questionam. A adaptação é soberana, mas onde outrora a mesma era muitas vezes motivada por constrangimentos de sobrevivência, agora é-o na mesma, mas numa questão de sobrevivência vivencial entre pares, acicatadas pelo medo da ausência de plano, de estrutura, de tempo certo para as coisas.


E depois de lá estar?


Bem, aí surgem outras coisas.


É certo e sabido que a convivência tem mais segredos que a fechadura do cofre em Fort Knox, mas a ideia é similar. Para mim, quero dizer.

Ninguém pode estabelecer qualquer espécie de relação, seja de que espécie for, sem a capacidade de adaptar e tornar as diferenças em combustível. Como disse, o antagonismo, a capacidade de provocar pela dissimilitude, o senso de humor em si também provocatório são absolutamente essenciais. Se perdemos a capacidade de contar coisas do lado de cá, e ouvir do lado de lá, se tudo é uma claque perante uma única equipa em campo, qualquer enlace sofre. Seja ele de cariz amoroso ou de amizade ou do que for, é no argumentário mútuo que está a génese do contacto, da evolução na interiorização do outro.

Mas isto não cai minimamente na ideia de auto-colante manhoso e brega onde se lê que os opostos se atraem. Os opostos atraem-se até ao momento em que se apercebem ao ponto em que se opõem. E aí a merda atinge a ventoínha, e não podem existir dois galos, dois alfas, dois directores. Perante as clivagens, a experiência diz-me que alguém acaba por ceder, e o que passa a existir é um regime político com debates do estado da nação. Mas perante a maioria absoluta, pois, a coisa já tem destino conhecido.


E dou comigo a ouvir queixumes velados, ideias de adaptação que parecem cair mal como auto-convencimento quando algo do fundamental é cedido para que o projecto "navegue". Seja pelo desencontro de líbidos, pelos rituais de relacionamento social, pela questão da paternidade, whatever. Os sacos enchem, os olhos começam a ficar cada vez mais opacos, e a postura corporal assume o formato resignado. A ideia dos sacrifícios que se têm de fazer para que a coisa vá para a frente, sem se perguntar minimamente se a palavra "sacrifício" deveria ser sequer cogitável.

Nunca colocando de lado que o medo da solidão, que é profundamente convincente (e a malta não vai ficando mais nova), seja factor, (e eu tenho medo dela que me pelo), pergunto-me até que ponto a alternativa, o porto onde se pode atracar, surge defensável como racionalização de uma vida possível. Até que ponto o vergar a métodos de convivência, (porque é tempo, ou fica bem, ou se quer durante um certo tempo e depois quer-se manter sem que se saiba muito bem porquê,) poderá significar de facto o necessário portal para fases de vida ditas necessárias.
A inadaptação é solitária, é certo, mas é também uma questão que, ao perdurar no tempo, radica em esperança de que algo passe e encaixe na naturalidade das dúvidas.
Se não crer em caras metade é sinal de lucidez, e eu até concordo, a verdade é que criá-las, por oportunidade, ao momento dito certo, não é lucidez. É esperar que o tornado mude de sentido, ou contrair dívidas estando certo que a taluda cairá, mais cedo ou mais tarde.
E depois há quem se ache, por estar dentro da verificação do conceito, que determinados comportamentos são esperados, que a falta de indícios comportamentais num certo sentido deverão milagrosa e pacificamente surgir pelo simples facto de se estar dentro de um compromisso ou ligação. E já sabemos que um lobo com uma pele em cima não se torna realmente um javali.
No fundo acho que me cansa um pouco que muitas pessoas que conheço façam da solidificação de uma relação, seja lá o que isso for, uma espécie de troféu. Uma maioridade social que mal consegue esconder o enfado, o cansaço, as questões. Não generalizo, evidentemente, mas sei da enorme relevância dessa amostragem. Da infelicidade cansada que leio nos olhos dos muitos "adaptados", da dificuldade que têm em defender essas escolhas com o coração escusado com as necessárias diferenças.
Se calhar eu próprio não passo de um adaptado. À minha teimosia, ao insuficiente peso do medo, à ilusão por coisas se calhar tão quiméricas como as que referi acima. Talvez a coisas bem piores, a elementos tão profundamente assentes que são definidos muitas vezes como disturbios ao retardador.
Mas em última análise, o problema nunca é ter as dúvidas. É dá-las como certezas quando existem. Até porque por vezes os tornados mudam de carreiro, mas não será certamente porque possamos fazer alguma coisa para que isso não aconteça. Porque o melhor que pudermos fazer é sempre o melhor que pudermos fazer.
Por isso... :


quarta-feira, maio 13, 2009

I have a very simple thought about things and people. People interest me in an abstract way. They appear as a gathering of things which become unique more by our action than their own, and what’s remarkable about that is the growth that ensues. We become the builders of that uniqueness. We become somehow responsible, necessary “Pigmaleonic” folks that search the reason for that inspiration through one’s own eyes. Beauty might be in the eye of the beholder, but I strongly believe that it lives in his imagination, and the capability to build around the object of affection without tainting his or her essence.

And it might happen that someone catches your eye, sings an unpredictable tune and you are on your way, imagining and asking some forbidden questions from time to time. Hal Hartley said that usually there was nothing else but desire and trouble. I tend to disagree. There is some kind of simple wonder, where sexual earning is but a part of what begins to nag your head. Sexual or mental magnetism draws you near and somehow acts as a catalyst.
But some tendency to endure or linger is something of absolute rarity, I guess.

Like a real sense of humour.

Like some special kind of real people.






terça-feira, maio 12, 2009

Os últimos tempos têm sido de um tal caos controlado, que quase nada de tempo após as jornadas de trabalho, os desafios inerentes, e o cansaço (felizmente) dormente.
Não quer isto dizer que não hajam coisas a flutuar por aqui, ideias, contrastes de luz e outras coisas bem menos felizes.
Mas é espantoso como o tempo pode realmente passar quando a um objectivo se consegue, ainda que parcelarmente, dar quase o envolvimento da maioria das parcelas da chamada vida de todos os dias.
Espantoso e perigoso, mas por agora, a alternativa não é possível.
Até já.



sexta-feira, maio 08, 2009

Uma pessoa começa a perceber que perde o controlo sobre a própria vida quando as rotinas e os acontecimentos parecem encaixar completamente numa escala.
Quando os dias mal começam ao sair e já morreram ao regressar.
É complicado não interiorizar as mecânicas das terapêuticas de substituição, como trabalho e exercício físico, e negar a sua capacidade de nublar os verdadeiros receios que surgem com a reflexão, com a contemplação da própria vida, os seus ritmos, rituais e expectativas.
Vivendo numa cidade essencialmente desalmada, todo o cuidado é pouco. É preciso temer e prever aquilo em que se consegue pensar, e teimar. Teimar muito na ideia de que nada são paredes de concreto, e que se Pyramus e Thisbe se safaram... quem sabe?...
Eu tenho medo.
E não tenho medo de o dizer.
Mas render-me aos tempos da conveniencia... Bem, isso é outra conversa.

sexta-feira, abril 24, 2009

Coincidências felizes.
Daquelas que tendem a silenciar-nos porque têm tanto a ver connosco que por tudo dizerem, tornam-nos redundantes relativamente a nós próprios.
Clementine e Fever Ray...




(Há por aí gente inconscientemente fantástica, graças a prendas inadvertidas como esta... )



quinta-feira, abril 23, 2009

quarta-feira, abril 22, 2009

"Maybe, just maybe...and maybe I took it to old lady Simons and told her, and all the money was there. But I still got a three-day vacation because it never showed up. And maybe the next week old lady Simons had a brand new skirt on when she came to school."

"Yeah, yeah! It was brown, and had dots on it!"

"Yeah, so lets just say that I stole the milk money, but old lady Simons stole it back from me. Just suppose that I told this story. Me, Chris Chambers, kid brother to Eyeball Chambers. Do you think that anybody would believed it?"

Stephen King - 1982

terça-feira, abril 21, 2009

Ainda que por vezes não seja possível, pelas mais variadas razões, sejam elas endógenas ou próprias do ambiente circundante, não há como a evitar.
Complica-se demasiado a luz de um dia como este. A ausência de peso do ar sem cinzentos.
Problematiza-se demasiado mesmo quando o que ouvimos do outro lado são risos, e o que lemos são desejos de melhoras, ou de todo o bem simples disponível, e por isso, completo.
Foge-se demasiado ao impacto do prazenteiro, como uma equipa que tem medo de ganhar. As sobrancelhas tornam-se chavetas quando afinal há um raio de sol em cima de uma mesa onde algo fumega com o cheiro de mil felicidades e recordações teimosamente presentes, como são todos os prazeres simples.
Presta-se pouca atenção á amabilidade dispensada sem esforço, ao gosto provocado nos raros e especiais por nada mais que a simples forma de ser. Ouve-se raras vezes a musicalidade da admiração causada, do feito conseguido e devolvido em gratidão.
E num dia como este, ainda que envolto na complexidade de algo que se transmuta só com metade assente em razão, não restam dúvidas. É (felizmente) objectivo.
Pensa-se, e tornamo-nos algo semelhante á luz do sol.


segunda-feira, abril 20, 2009

"Ao recordar tudo o que aconteceu, fico com a ideia que talvez me tenha deitado no meu casarão e tenha sonhado com tudo isto. No entanto, a recordação das noites frias, da fome e da boca afiada da cidade não mo permitem. Há marcas que não desaparecem, e aprendemos a viver com elas. Não temos outra hipótese. Ainda hoje especulo e pergunto a razão pela qual tudo aconteceu, e porque aceitei o impossível com alguma facilidade. O que teria acontecido no cemitério? Que teria ela visto? Quanto a isso, não faço ideia. Mas ao olhar para tanto enfado, tanta consciência pesada e tanto teatro urbano sentado à minha frente, não consigo deixar de pensar em todas estas coisas. Não consigo pensar no que terá ela invejado, naquilo que eu tinha e mostrara, aparentemente sem consciência. Porque alguma coisa teria sido. Algo a que me atrevera. Na persistência de apego à casa e à memória de quem supostamente já estava morta e ainda assim me dera vida, reside talvez a justificada gratidão por ter uma vida. Mas aquilo que me ocorre - e por vezes surge como uma ferida aberta na mente - é a razão pela qual eu julgo que já teria esse algo comigo muito antes de me tornar o que sou hoje. Algo que não me pode nunca ser ensinado, mostrado ou imposto e que no entanto lá estava, contorcendo-se até mesmo perante a perspectiva da morte. Da morte lenta, que chegaria com certeza à morte efectiva.
Sentirei falta da velhota? Bem já que estou a falar sem abrir a boca e parto do princípio que ainda não existem gravadores de cogitação, posso ser honesto. Julgo que sinto a falta daquilo que ela me foi criando. Da sensação de chegar a qualquer lado, de ter algo a fazer, da criação de um “micro-objectivo”. Também sou o primeiro a dizer que ela terá exagerado na retribuição, considerando que a expoliei e pensei pelo menos em magoá-la para poder então roubar tudo o que fosse possível. E no entanto fico com a sensação que em muitos casos não fazemos ideia do que temos e do que mantemos vivo internamente. Somos demasiado ingratos com essa capacidade, Ingratos com demasiadas coisas e pessoas, parece-me. Somos demasiado novos durante demasiado tempo."
12/2007


Há uns anos, por diversas questões, tive de fazer uma pequena investigação acerca das doenças ditas psicológicas. Aquelas que alguns artistas chamavam o grande mal ou ou grande negro, sinceramente já não me recordo, mas que ceifou pessoas e mentes nos seus tempos. Pessoa, Espanca, Jeremy Brett (sim, o verdadeiro Holmes), Heminguay, etc, etc, etc. E calhou ontem, em conversa com amigos e familiares, o emergir de tais doenças num contexto global. E falo em contexto global tendo em conta uma espécie de organização de comportamentos e os hábitos ganhos em sociedade relativamente á percepção destes fenómenos. Dir-se-iam em emergência, embora eu cá tenho também a percepção que a palavra moda não estará muito desfasada da realidade.
Não restam dúvidas que os efeitos do modelo de sociedade preconizado pela velocidade dos tempos estão a deixar a sua marca. Uma voz optimista e até surpreendente de um familiar muito próximo disse convictamente que as novas gerações não vão chupar este modelo de sociedade. E em certa medida, partilho desse optimismo, embora talvez não com tanto grau de certeza. A ideia que tenho é a de um equilíbrio instável, porquanto os esclarecidos talvez não suportem este staus quo, muitos serão aqueles a quem tudo isto não parecerá senão normalidade até que os estragos sejam impensavelmente irrecuperáveis.
As estatísticas não mentem. O mundo gasta "zilhões" de euros a debelar os efeitos na saúde psiquica das pessoas, e nos dias que correm apenas as doenças cardiovasculares ultrapassam as doenças psicológicas na factura mundial a pagar. O paradigma está a alterar-se. A psicoterapia começa a democratizar-se, bem como uma parafernália imensa de muletas e ajudas para o horror existencial e incerto em que se vive. Os milhões de casos dividem-se em insuficiências endócrinas (deficiente produção de neurotransmissores), e as insuficiências sociais (tristeza, isolamento, individualismo selvagem), mas o resultado acaba por ser o mesmo - presta-se atenção quando da tristeza se passa á irascibilidade, quando da apatia se passa à auto-agressão. E não há dúvida que a atenção está a ser suscitada, ainda que seja à força, digamos assim.
Mas também não consigo deixar de ter a sensação que andamos numa moda. Hoje em dia muitas pessoas olham para a psicoterapia não como uma forma de ajuda, mas como uma muleta que está na moda, óu um outro local de ganho de atenção. É falar com um grupo de pessoas, e pelo menos um punhado tem um psicoterapeuta que provavelmente mais não fará que substituir a função de ouvintes interessados e afectivos. E julgo (admitindo a minha ignorância acerca do foro) que talvez os próprios profissionais em alguns casos pensarão que não serão mais que um amigo pago á hora, com a vantagem de poder perguntar ou saber de tudo sem que isso crie anticorpos.
Aparentemente, a organização social padece, como noutros momentos, de grandes mudanças de paradigma, fechando grande parte da urbanidade em ecrãs iluminados e caracteres certinhos (e contra mim falo, mas que saudades de uma carta escrita à mão...). Os pequenos crimes entre nós, como dizia o DAve Matthews, crescem a olhos vistos e a solidão ganha formatos novos como uma Hydra o faria com membros cortados. As mentes sofrem, ou aquilo que designamos por almas sangram. Pode ser um cliché, admito, mas os números são indesmentíveis. E embora seja talvez necessário um toca a reunir das consciências, para educar e sobretudo aprender a ouvir realmente, temo que por outro lado a resistência da mente aos seus sobressaltos necessários seja em muitos casos substituída por todas as formas possíveis de atenção perante aquilo que não é uma condição, mas em muitos casos apenas os normais, ainda que importantes tropeções existenciais de quem sente e oscila na sua compreensível e limitada humanidade.
Estes são tempos de alerta, e por isso, todo o cuidado é necessário.
Mas em muitos casos parece-me que talvez possamos cair na velha história do Pedro e do Lobo.
E aí, todos saem feridos.


sexta-feira, abril 17, 2009


Destes três actores, só o paradeiro de um deles é quase desconhecido. Precisamente o protagonista, que encarna a personagem de Gordon LaChance, um doppleganger de Stephen King, de resto o autor da maravilhosa história que está na base do filme.
Os outros três têm paradeiros bem determinados.
O gorducho, de nome Jerry O'Connell, é hoje em dia um actor em voga, tendo participado em vários filmes e muitas séries de televisão, incluindo o mais-ou-menos namorado da personagem de Jordan em "A Patologista". Em várias entrevistas referem-se a ele como "the fat kid from Stand by Me".
O protagonista, Wil Weaton, fez umas coisas em Star Trek, mais umas séries.
Corey Feldman, o moço dos óculos, e River Phoenix, o rapaz de cabelo rapado e líder do grupo, estão mortos devido a complicações com drogas e álcool. Este último, talvez o mais mediático, tomou um Speedball (Cocaína e heroína em cocktail) à porta de uma discoteca e quinou pouco tempo depois.
O mais curioso acerca destes factos, é que os personagens da história original, recordada pelo narrador já perto dos quarenta anos, morrem todos em momentos posteriores da vida. É certo que Jerry O'connell ainda está vivo, mas os outros dois morreram de formas semelhantes às dos personagens, designadamente em acidentes relacionados com bebida. Embora no filme isto não surja, está presente na história original.
Esta história, datada de 1982, era toda ela premonitória. E no fundo, se pensar em algumas pessoas que me rodeavam quando eu tinha doze anos, algumas estão já não vivem, por força de comportamentos auto-destrutivos que redundaram em mortes prematuras. Calculo que se todos nos recordarmos desses tempos, existem caras que nunca mais voltámos a encontrar anos mais tarde, com as barrigas e os filhos. Cristalizaram-se naquela de meninice, ou adolescência, e são como ecos de um passado onde a vida e a morte pareciam sempre abstracções de um mundo ao qual éramos alheios. E não são raras as ocasiões em que ao confrontar os pouquíssimos cenários ainda intactos, esse tempo e essas faces surgem, como lembranças de uma inocência que rapidamente desaparece e se transforma numa nostalgia consciente, uma moínha de saudade por certa simplicidade do mundo.

Aquela viagem dos quatro protagonistas, e a premonição derivada de tudo o que acontece, talvez seja a viagem que todos fizemos um dia na nossa pré-adolescência. Não nos mesmos termos ou com a mesma finalidade, mas a viagem estava lá. Como o primeiro contacto com fenómenos que geram coisas, as quais, nas palavras do autor daquela que talvez seja a história mais significativa do meu percurso como pessoa, são as mais mais importantes e as mais difíceis de dizer. E são-no porque as palavras as diminuem face ao que são internamente. Ficam encerradas não porque não porque falte um relator, mas porque dificilmente se encontra quem consiga ouvir.

(Isso é um veado a pastar num caminho de ferro explicam muita coisa. )






"The others slept heavily through the rest of the night. I was in and out, dozing, waking, dozing again. The night was far from silent; I heard the triumphant screech-squawk of a pouncing owl, the tiny cry of some small animal perhaps about to be eaten, a larger something blundering wildly through the undergrowth. Under all of this, a steady tone, were the crickets. There were no more screams. I doze and woke, woke and dozed, and I suppose if I had been discovered standing such a slipshod watch in Le Dio, I probably would have been courtmartialed and shot.
I snapped more solidly out of my last doze and became aware that something was different It took a moment or two to figure it out: although the moon was down, I could see my hands resting on my jeans. My watch said quarter to five. It was dawn.
I stood, hearing my spine crackle, walked two dozen feet away from the limped-together bodies of my friends, and pissed into a clump of sumac. I was starting to shake the night-willies; I could feel them sliding away. It was a fine feeling.
I scrambled up the cinders to the railroad tracks and sat on one of the rails, idly chucking cinders between my feet, in no hurry to wake the others. At that precise moment the new day felt too good to share.
Morning came on apace. The noise of the crickets began to drop, and the shadows under the trees and bushes evaporated like puddles after a shower. The air had that peculiar lack of taste that presages the latest hot day in a famous series of hot days. Birds that had maybe cowered all night just as we had done now began to twitter self-importantly. A wren landed on top of the deadfall from which we had taken our firewood, preened itself, and then flew off.
I don't know how long I sat there on the rail, watching the purple steal out of the sky as noiselessly as it had stolen in the evening before. Long enough for my butt to start complaining anyway. I was about to get up when I looked to my right and saw a deer standing in the railroad bed not ten yards from me.
My heart went up into my throat so high that I think I could have put my hand in my mouth and touched it. My stomach and genitals filled with a hot dry excitement. I didn't move. I couldn't have moved if I had wanted to. Her eyes weren't brown, but a dark, dusty black - the kind of velvet you see backgrounding jewelry displays. Her small ears were scuffed suede. She looked serenely at me, head slightly lowered in what I took for curiosity, seeing a kid with his hair in a sleep-scarecrow of whirls and many-tined cowlicks, wearing jeans with cuff and a brown khaki shirt with the elbows mended and the collar turned up in the hoody tradition of the day. What I was seeing was some sort of gift, something given with a carelessness that was appalling.
We looked at each other for a long time ... I think it was a long time. Then she turned and walked off to the other side of the tracks, white bobtail flipping insouciantly. She found grass and began to crop. I couldn't believe it. She had begun to crop. She didn't look back at me and didn't need to; I was frozen solid.
Then the rail started to thrum under my ass and bare seconds later the doe's head came up, cocked back toward Castle Rock. She stood there, her branch-black nose working on the air, coaxing it a little. Then she was gone in three gangling leaps, vanishing into the woods with no sound but one rotted branch, which broke with a sound like a track ref's starter-gun.
I sat there, looking mesmerized at the spot where she had been, until the actual sound of the freight came up through the stillness. Then I skidded back down the bank to where the others were sleeping.
The freighter's slow, loud passage woke them up, yawning and scratching. There was some funny, nervous talk about "the case of the screaming ghost," as Chris called it, but not as much as you might imagine. In daylight it seemed more foolish than interesting - almost embarrassing. Best forgotten.
It was on the tip of my tongue to tell them about the deer, but I ended up not doing it. That was one thing I kept to myself. I've never spoken or written of it until just now, today. And I have to tell you that it seems a lesser thing written down, damn near inconsequential. But for me it was the best part of that trip, the cleanest part, and it was a moment I found myself returning to, almost helplessly, when there was trouble in my life - my first day in the bush in Vietnam, and this fellow walked into the clearing where we were with his hand over his nose and when he took his hand away there was no nose there because it had been shot off; the time the doctor told us our youngest son might be hydrocephalic (he turned out just to have an oversized head, thank God); the long, crazy weeks before my mother died. I would find my thoughts turning back to that morning, the scuffed suede of her ears, the white flash of her tail. But eight hundred million Red Chinese don't give a shit, right? The most important things are the hardest to say, because words diminish them. It's hard to make strangers care about the good things in your life."

Stephen King - The Body - 1982

Embora possa ser entendido como um raciocínio lógico, atacar especialmente onde se situam as fraquezas surge sempre como um último recurso quando nada mais funciona. Porque atacar onde se sabe que os danos são certos e de debelação lenta, pressupõe conhecimento. Pressupõe uma confidencialidade, aceite pela natureza daquilo que se partilhou, e cujo acesso não previa qualquer espécie de publicitação. É em si um arma, mas daquelas que deveria estar apenas em exposição, como um subentendido semelhante às determinações da Convenção de Genebra.
E no entanto, como resíduo de uma eficácia certa para infligir violência, é uma regra violada uma e outra vez, porque nos estados emocionais subjacentes a confrontos dessa natureza não basta a igualdade. É necessário provocar baixas, e depressa, e diz, para mim, a idiotice própria de quem acha que a emoção justifica (quase) tudo, que em certos contextos valerá tudo.
Mas não é verdade. Não vale tudo. Como os delatores, os ataques pelas costas, ou o uso de armas ilegítimas pela previsão de dano máximo é um exercício de maldade mesquinha. É simplesmente prever, friamente, que certa acção acabará por causar danos que muitas vezes ultrapassam em muito ao origens e fundamentos da contenda entre as pessoas. A desproporcionalidade, muitas vezes, cria cicatrizes perenes.
Em meu ver não há qualquer justificação para tal coisa. É como atacar a perna de um manco numa luta, ou atingir abaixo da linha da cintura no boxe, ou simplesmente achar que os fins justificam todos os meios. E em situação nenhuma, e muito menos no amor e na guerra, como diz o brocardo, tal raciocínio tem legitimidade para passar da eficácia conceptual para o dano pessoal.
É triste, desleal, indecente, e não produz nada mais que terra queimada num contexto onde a urbanidade já destruiu muito do capital confiança entre pessoas, que é coisa débil e triste nos dias que correm.
O ataque baixo é próprio de pessoas rasteiras.
Tão simples como isso.


quinta-feira, abril 16, 2009

"You grow up the day you decide to do what's right.
Not just for you, but for everyone, even if it hurts."

Lars and The Real Girl

quarta-feira, abril 15, 2009

É brocardo já antigo que para muitos é difícil contentarmo-nos com o sucesso de outros. Que algo de bom e que faça brilhar alguém que não o próprio, é para muita gente, matéria de digestão complicada.
Este é um mecanismo que nunca entendi muito bem. Talvez porque a única reacção que tenha seja contra aquilo que é conseguido à custa de outros ou um enriquecimento sem causa que não a própria.
Mas para algumas pessoas, a manifestação de alguém livre, e belo porque, pelo menos naquele momento, está feliz, é desconfortável. Surge um pouco aquela noção de insatisfação própria em detrimento do que de bom enche a vida de outrem, como se para essas pessoas a vida fosse um estatuto permanente de credor de objectivos insolventes. Chatos dos caraças que adoram paradas à chuva, é o que é.
Em alguns casos fico mesmo feliz. Porque alguns palmilham a Capadócia, outros aprendem a fortalecer-se porque partilham fardos, outros têm o reconhecimento que merecem.
Noutros sorrio, porque apesar de não ser fã de miúdos, percebo a alegria da parentalidade próxima para algumas pessoas.
Mas noutros casos abano a cabeça porque algo que não me parece mais que inveja abstracta só merece mesmo é pena...
Mas celebre-se qualquer vida que melhore.
Porque o bem estar é por vezes, (esperançadamente), contagioso.
Não é?


segunda-feira, abril 13, 2009

Se a corrente actual, miserabilista, intelectualmente indigente, pseudo-realista armada aos cucos, etc, etc, de entretenimento destinado a malta mais nova (morangos com açúcar e quejandos) valesse 0,000001% do pior dos filmes de John Hughes, talvez muitos dos que eu ouço falar e opinar não se assemelhassem a feijões a negociar a saída do sistema digestivo de uma vaca (Black Adder dixit)...
E quem sofre mais com isso é quem, naquele universo etário até tem alguma coisa para dizer...
Como sempre.
Para os nostálgicos como eu, aqui fica uma pérola.
Abraço a todos


Existem, entre muitos outros, dois tipos de reacção visceral relativamente ao conceito de beleza. Que, claro está, não esgota o belo, diferenciando-se, em meu ver, como a sua manifestação terrena, se preferirem.
Existe a reacção de desejo. Desejo de a ter, de a obter, de sê-la, de a respirar, de a fazer uma pele, seja primeira seja segunda. Caso logrem a obtenção desse estado, há todo um estado de felicidade, julgo eu por se encontrar uma espécie de correspondência entre o desejo de materialidade das coisas boas e sensíveis da tal primeira e insubstancial pele. Quando não o logram, há uma reacção de desconfiança, de agressividade, de despojamento de substância, como se a beleza em si fosse como um qualquer animal esquivo e jocoso na sua plena liberdade de tudo poder fazer e conseguir.
No outro espectro, está a reacção do fardo. De quem aparentemente o carrega e sente que lhe é negada uma identidade, uma diferenciação por detalhes que não sejam aqueles aos quais a natureza parece vergar-se. Surge o medo da impostura auto-reconhecida, das conclusões do evidente, da invisibilidade da necessária limitação como algo de tangível e necessariamente humano. E no entanto, navega-se nesse paradoxo, porque a identidade dos traços também é parte, e é protegido porque afinal de contas, como parte do próprio, qualquer corte é uma dor compreensível, o que torna a aparente contradicção ainda mais dolorosa.
No fundo, são questões de receio. Receio pela invisibilidade. Pelo que não se vê devido ao ruído ou às plumas. receio pela conclusão que o evidente pode trazer aos impulsos, e sabe o mundo inteiro que num meio segundo de risco pode estar toda a diferença.
E o reconhecimento de cada uma destas faces do mesmo problema pode trazer ressentimento. Pode trazer medo. Resistência, protecção com as armas que distam entre si como um sarcasmo perfeito ou a consistência de um beijo bondoso da natureza.
Como em tudo, parece-me, na minha modesta opinião, que a conclusão talvez se possa mesmo apoiar na lógica da totalidade. O equilíbrio não serve só para andar de bicicleta ou sustentar filosofias de vida de cariz oriental. É uma linha que cruza e corta ao meio, e à qual julgo que é normal que nos agarremos para definir tudo aquilo de que somos feitos. O próprio amor é constituído de partes, embora eu ache que muita gente apenas teime em ver uma espécie de bloco indivisível, como se não fossemos recortados por palavras ou cicatrizes.
Por isso, como em muitas outras coisas, a beleza é algo que não se denuncia a si mesma enquanto totalidade, mas sim envolta no necessário fascínio que tantas outras coisas detêm. E talvez a concentração de desconfiança aquando da sua existência provoque tanto mal como o receio que o seu poder instila. É, ou pode ser (inegavelmente), uma arma, e mal usada, tem efeitos muito parecidos com a irresponsabilidade de qualquer poder. É, nessa asserção, a negação do belo, esse sim, assente num aspirar ao completo, ao uno, ao equilíbrio, como um círculo perfeito, que como qualquer abstracção, é uma criação mental, assente naquilo que a visão una de cada um permite.
Mas, para mim, a verdade está algures entre Antoine de Saint-Exupéry e Keats ou Drummond. No equilíbrio. Sem parcialidades relativamente à ideia de que o belo transcende largamente a beleza, mas dificilmente sobrevive sem qualquer manifestação dela.



quinta-feira, abril 09, 2009


Desatino solenemente com pessoas que sabem tudo. Aquelas pessoas que se erguem do alto da sua experiência ou suposta sapiência, e toca a moldar a realidade de acordo com as suas vivências, como se tivessem o formato de um livro de instruções para a vida. Disfarçam a sobranceira com uma espécie de sentido de humor histriónico, com o qual adquirem aquela velha frase entre pares "deixa lá, ela é assim".
São pessoas que raramente ouvem, muitas vezes cortam as frases dos outros a meio, sobrepõem o que lá acham que é opinião válida, e ouvem as invectivas ou opiniões alheias com o ar desdenhoso de quem escuta os balbuciares inseguros de uma criança ou coisa que o valha.
Essas pessoas, que em alguns casos até têm uma bagagem cultural ou experiencial digna de nota, borram a pintura toda porque o que poderia ser opinião informada parece quase discurso panfletário, próprio do snobismo assente num subentendido que eles tomam por história própria e que, assim bem espremidinho, nem meia laranjada dá... Mas passeiam com a leveza de quem não toca no mesmo chão que os outros, ou trauteiam um qualquer hino de segurança superlativa, onde até a filhaputice parece transformada numa perfeita e lógica justificação de "feitio", porque, sabem lá eles o que é...
Não há nada que mais aprecie do que aprender com as pessoas. Algumas conseguem ter sempre algo a dizer, algo a emergir do intelecto que acrescenta algo ao dia, sejam motores a dois tempos, Santiago Calatrava, ou colorações de cabelos, whatever. Outras exibem a caganeirice, envolta na velha máxima segundo a qual quem fala mais alto é que tem razão, e aquilo com que contribuem, que até poderia ser válido em conceito, não passa muitas vezes de ruído.
Bem sei que algumas pessoas têm problemas com défice de atenção, mas não há pachorra para os holofotes "wannabe" em salas plenas de lâmpadas idiossincráticas, e por isso, interessantes...


quarta-feira, abril 08, 2009

“Speech destroys the functions of love, I think...that’s a hell of thing for a writer to say, I guess, but I believe it to be true. If you speak to tell a deer that you mean no harm, it glides away with a single flip of its tail. The word is the harm. Love isn’t what these assholes poets like McKuen want you to think it is. Love has teeth, they bite; the wounds never close. No word, no combination of words, can close those lovebites. It’s the other way around, that’s the joke. If those wounds dry up, the words die with them. Take it from me, I’ve made my life from the words, and I know that is so.”
Stephen King - The Body.


terça-feira, abril 07, 2009

A verdadeira incapacidade de que padecemos só se revela perante aqueles de quem realmente gostamos. E nenhuma constatação é mais dolorosa que essa, ou paradoxalmente melhor.


O problema dos detentores dos martelos é que nada para eles é a transparência do vidro impassível de reconstruir, mas apenas a monótona consistência translúcida do gelo que se reconstitui uma e outra vez, graças ao imenso frio que deles emana.


Gostava de ter asas. Mas não para voar. Não é isso que me ocupa a mente quando a ideia me surge. Gostava de ter asas. Ou que elas não se aparentassem tanto com elas próprias, no reduto da inegável inexistência de que padecem.
Ou será que gostava?
Será que na perseguição de tais coisas nas minhas costas, a perspectiva que deals tinha se mantinha a mesma? Ou a minha própria adaptação do motor moral do postulado da imortalidade da alma claudicará perante a sua própria explicação?
Será que no reconhecimento da natureza levanto-me no ar mais à custa dos dentes que das asas que não existem. Mas que se vêem(?).
Gostava de ter asas então.
Gostava mesmo.


Abri a folha e das entranhas do papel saiu um jorro de azul e um punhado de outras cores. O céu estava pintado em várias matizes de azul, no que me parecia ser lápis de cor ou pastel. Era um céu sem um padrão uniforme de azul, com algumas nuvens recortadas pela ausência de lápis no papel. Em baixo, figuras sem rosto, também azuladas, enchiam um pedaço de terra árida, sem qualquer contorno que não o de montes. Nem uma casa, árvore ou erva. Nem sequer pedras. Apenas pessoas e mais pessoas, paradas, sem rosto. Sem nada.
-É um céu de papel. É dos meus preferidos.
Olhei para ele e não pude deixar de sorrir.
- E estas pessoas?
- São pessoas de plástico. Pessoas de plástico e um céu de papel. Gostas?
- Não têm cara…
- Pois não. – disse o miúdo, exibindo um sorriso radioso.


I have no idea of what they were talking about, as I never do when some women get together and seem to conspire in that intangible and secret way. But it always made me smile and think about those things we pursue all our lives with curiosity. To find that there is always something to discover is a true gift, even if sometimes it’s just an illusion to keep time at bay and life’s sense into perspective.


quinta-feira, abril 02, 2009

Inepto informático solicita ajuda a conhecedores para colocar um leitor de música aqui ao lado, que seja somente escolher a música e copiar o código de html para o template...

Muchas Gracias :)

Talvez todas as nossas histórias sejam mesmo parecidas, e haja quem pense que nada mais resta por contar.
Eu tenho uma ideia muito diferente. Basta que alguém não olhe para as mesmas coisas com os meus olhos. Porque nisso sou cartesiano até ao tutano (mesmo com a má rima acidental).
Quando há interacção com alguém seja em que plano for, pergunto-me sempre se a visão dos conceitos, ate mesmo os objectivos, nos reconhecimentos, não são mais do que o plano do tal Deus cartesiano, que se revela parcelarmente nos pontos de vista, atitudes e tendências do multiplos observadores.
Enquanto não me surgir a certeza, que felizmente nunca aparece, de que sei exactamente o que estão a ver quando há o mais ínfimo entendimento da mais simples das coisas, há sempre uma história diferente, nunca nada é igual, e a magia de tudo está na capacidade de conseguir transmitir, por muito pouco que seja, essa diferença em meio ao tudo que parece igual.
Acho que é por isso que talvez haja exigência. Porque muitas vezes emprestam-se e usam-se as histórias dos outros como matéria comunal, por uma convicção preguiçosa de que talvez não haja uma própria...