"1. Afastem-se da multidão"
(A continuacion...)
Mas vamos por partes.
Em primeiro lugar falamos do conseguir. Do chegar lá.
Por mais voltinhas que possamos dar, existe em quantidade considerável a ideia do projecto. A ideia de que em certo tempo, "há que arrumar a vida". E são tantos os factores que assistem a esta ideia que custa enumerar todos. Mas falemos um bocadito acerca dos que me parecem mais relevantes, e em alguns casos, assustadores.
Em conversa com algumas, para não dizer, muitas pessoas, verifico que as palavras mais utilizadas são "cedência" e "adaptação". Vejo que em certos casos, a lógica do projecto sobrepõe-se à percepção de vontade real. Assumem-se compromissos porque "está na hora". Mudam-se comportamentos, ou tenta-se pelo menos, não pela ideia de auto-consciência dessa mudança, mas porque se torna "adequado" ou "necessário". Surge aquela terrível frase - "eu cá já estou despachado", o que em certa medida se adequa perfeitamente a certas situações.
E perante isto, porque o calendário não pára, porque o medo da solidão na urbanidade faminta é terrível, porque as ameaças de ausência são gigantescas, as razões para o "despacho" surgem como uma espécie de racionalização comportamental perante marcos cronológicos.
Afinal há muita festa, muito convívio, ninguém quer ir sozinho a casamentos, ninguém quer dar beijos de fim de ano apenas em faces, ninguém quer contemplar o cenário das férias esquizofrénicas de ecos e silêncio de letras e frases em papel, ninguém quer ouvir os pais em cuidados acerca da vida própria que nunca mais se "arranja". Eu sei certamente que não é coisa que me agrade.
Mas será isto a ideia que deve subjazer a uma ligação com alguém? Será a ideia do relacionamento transcendente quando relacionada com a ideia da pessoa? Será que perante a ausência dos paradigmas, a dinâmica relacional pode justificar que os padrões se adaptem? Que afinal de contas, surge como necessário é estarmos sossegados e "entregues", e que depois logo se gere, como se gere o trabalho e todo o pragmatismo da vida de todos os dias?
Não faço qualquer julgamento. Apenas tenho dificuldade em ver essa dimensão das coisas, o que se calhar explica muita coisa. A ideia da conveniência, do ajustado, daquilo que afinal de contas acaba por "servir", porque afinal não se encontrará "melhor" mesmo parece-me um grande explosivo com um detonador retardado. Cedo ou tarde vai estoirar, e normalmente fá-lo na cara dos seus manuseadores. Acontece porque cedo ou tarde se descobre, acho eu, que podemos lidar com as dificuldades inerentes a qualquer perenidade relacional, mas dificilmente se é livre com a ideia da calçadeira. E essa ideia assaltará a pessoa dia após dia, até que ou ela se torne dormente quanto à questão, ou sobreviva com subterfúgios, ou compre uma mala e siga.
Mas é realmente essa a ideia que subjaz. Aconchegados, com o mundo "lá fora", parece repetir-se a ideia de que a alternativa é bem pior, que mal por mal, mais vale a companhia, a ideia de pertença, a lucidez aparentemente óbvia de que a vida tem de continuar, com o que se quer, ou o que mais se aproximar disso.
E infelizmente (ou naturalmente), claro está, dá, em muitos casos, merda.
Não defendo a outra alternativa. Sei lá e quem sou eu para definir o que é certo, ou adequado. Mas olhando para os resultados, para os efeitos das dissimilitudes em relações onde a solidez se fez das suas periferias, as rupturas e danos são frequentes. E ainda assim, muitos não se questionam. A adaptação é soberana, mas onde outrora a mesma era muitas vezes motivada por constrangimentos de sobrevivência, agora é-o na mesma, mas numa questão de sobrevivência vivencial entre pares, acicatadas pelo medo da ausência de plano, de estrutura, de tempo certo para as coisas.
E depois de lá estar?
É certo e sabido que a convivência tem mais segredos que a fechadura do cofre em Fort Knox, mas a ideia é similar. Para mim, quero dizer.
Ninguém pode estabelecer qualquer espécie de relação, seja de que espécie for, sem a capacidade de adaptar e tornar as diferenças em combustível. Como disse, o antagonismo, a capacidade de provocar pela dissimilitude, o senso de humor em si também provocatório são absolutamente essenciais. Se perdemos a capacidade de contar coisas do lado de cá, e ouvir do lado de lá, se tudo é uma claque perante uma única equipa em campo, qualquer enlace sofre. Seja ele de cariz amoroso ou de amizade ou do que for, é no argumentário mútuo que está a génese do contacto, da evolução na interiorização do outro.
Mas isto não cai minimamente na ideia de auto-colante manhoso e brega onde se lê que os opostos se atraem. Os opostos atraem-se até ao momento em que se apercebem ao ponto em que se opõem. E aí a merda atinge a ventoínha, e não podem existir dois galos, dois alfas, dois directores. Perante as clivagens, a experiência diz-me que alguém acaba por ceder, e o que passa a existir é um regime político com debates do estado da nação. Mas perante a maioria absoluta, pois, a coisa já tem destino conhecido.
E dou comigo a ouvir queixumes velados, ideias de adaptação que parecem cair mal como auto-convencimento quando algo do fundamental é cedido para que o projecto "navegue". Seja pelo desencontro de líbidos, pelos rituais de relacionamento social, pela questão da paternidade, whatever. Os sacos enchem, os olhos começam a ficar cada vez mais opacos, e a postura corporal assume o formato resignado. A ideia dos sacrifícios que se têm de fazer para que a coisa vá para a frente, sem se perguntar minimamente se a palavra "sacrifício" deveria ser sequer cogitável.