ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, março 15, 2018

DEVEMOS (RE)SENTIR-NOS?


Devemos?
Esta é uma boa pergunta.
Devemos sentir-nos mal porque fomos preteridos? Porque nos dão importância média? Porque o que disseram acerca de nós não tem tradução em gestos? Porque julgam que nunca levamos a mal? Porque a compreensão, mais que esperada, é quase exigida?
Pois, não sei. Já achei que não. Já achei que a medida da elegância que temos ao viver junto a outros, é aceitar a estrita medida da sua vontade e, de preferência, antecipá-la. Para bom entendedor, basta nenhuma palavra. Algo assim.
Hoje em dia não estou bem certo. Talvez porque dê comigo a perceber que quem defende esta elegância, raramente ou nunca a pratica quando é o seu quintal que está a definhar. Talvez porque, quando estamos sozinhos, a reflectir sobre uma atitude estupida, ou distante, e percebemos que nos chateia de alguma forma, não é o silêncio comodo que nos apetece manter.
Não estou mesmo bem certo. Se gosto dessa elegância, da desnecessidade de explicar o que parece evidente, já gosto menos das palavras que são ditas, com convicção até imprudente, mas que vinculam a algo que depois não tem presença ou substância. Exemplo disso são as amizades “não exercidas”. São uma treta. Aquilo que há é, quanto muito, a nostalgia de um gosto por alguém. Não há amizade em tese, só em exercício. Mas não se esgota aí…
Devemos ressentir-nos?
Talvez.
Não é preciso ser nem agressivo nem desagradável. Mas pode-se ser duro. Directo. Claro que estas situações confundem-se, especialmente para, (e desculpem-me mas acho mesmo que o são), aquela espécie de idiotas que prega aos sete ventos que não há expectativa nenhuma a ter perante as pessoas, ainda que elas se tenham vinculado com todas as expressões possíveis no dicionário e/ou selecta. Pode e deve dizer-se que não se gosta, e até pedir (com intensidade, para não dizer exigir) o porquê da viragem do bico ao prego. Esse pedido tem uma justificação. Qual? Simples. Normalmente ninguém pede a outra pessoa que se vincule seja ao que for. Mesmo quando ela o faz, o sensato perguntará se tem a certeza do que está a dizer ou oferecer, e o que ouve é uma espécie de promissória convicta, cheia de “sentimento”. Esta é reiterada e reiterada, até que o sensato crê que ninguém dirá tal coisa sem o querer. E é aqui que asneirada aparece. A promissória tem a substância de uma brisa quente e o que fica é uma espécie de abandono do local da festa sem dar cavaco ao anfitrião. Passa-se, acho eu, do desagradável a uma espécie de má educação. Dá-se o outro por garantido, ou pior, por amorfo.
Devemos ressentir-nos?
Sim. Mas com critério. Primeiro saber se vale a pena expressar o ressentimento, não vá o destinatário nem sequer o perceber. Depois ter a noção que esse ressentimento dificilmente será aceite, porque afinal, “não vale a pena stressar por coisas pequenas”. Finalmente, e acho que é aqui que acusar o toque é tão valioso e necessário, é preciso averiguar se ao fazê-lo, conseguimos esclarecer ou definir de uma vez por todas o valor que temos seja para quem for.
Se isto ocorrer, devemos ressentir-nos?
Acho que sim. Caso contrário, pode parecer que vale tudo, quando afinal talvez não hja valor dado a nada.


NAJ ™ – 15/03/2018 - Estações Diferentes™
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terça-feira, março 06, 2018

DA VALORAÇÃO (NECESSÁRIA)? TALVEZ, TALVEZ NÃO…


Em conversa com uma amiga, acerca da capacidade que podemos (ou não) adquirir para deixar a auto-culpabilização face aos actos alheios, percebo que o raciocínio que chega até essa conclusão é tão complexo como justo. Dizia ela, e como a entendo, que face a algo que parecia saído de uma desconsideração, do acto de ignorar, de uma qualquer desvalorização, especialmente as “simpáticas”, o primeiro impulso era arranjar o culpado óbvio. Este normalmente tem um nome curto e directo. “Eu”. Onde é que fiz merda, onde é que falhei, onde é que não cheguei, que característica é que me falha, a porra da lista é infinda. Devo dizer, como advogado do maldito, que não julgo ser mau reflexo a análise dos próprios comportamentos e características antes de partir para a culpabilização alheia. Não faz mal nenhum, e fez muita falta a muita gente, tentar perceber se a asneira ou falha não mora em casa. Mas fazer disto princípio é simultaneamente incorrecto e injusto a mais das vezes. Pior, pode ser perigoso, porque se há coisa que a natureza humana adora é incidir o holofote da culpa ou responsabilidade em cima de qualquer outro desgraçado que não o próprio. Se pensarmos bem, por vezes não há responsabilidade nem falha alguma. Há uma dinâmica de não reconhecimento, mas não assente numa falha objectiva do sujeito, mas sim em situações que de nada passaram a… continuar nada.

Concretizemos.

Se alguma pessoa nos enaltecer e tratar de determinadas maneira, dirá coisas. Se as diz, em princípio não as dirá gratuitamente, ou não o deveria fazer. Ao contrário do que as pessoas dizem, agarramo-nos todos tanto aos actos como às palavras. Estas são a declaração perpetuadora de uma ideia que durará enquanto a memória o permitir.

Quem nunca proferiu as palavras “mas tu/ele/ela tinha(s) dito que…” que atire a primeira pedra. E na confusão da desconsideração sem razão aparente, ou com razões manhosas, o que fica na memória a remoer não é (ou não é só) a imagem do afago, da queca, do acto de amizade, mas as palavras que possam eventualmente ter dado uma moldura diferente a esses actos. É que ninguém pede a ninguém para dizer coisa alguma. Ninguém pede qualquer discurso imprudente, exagerado, que fica bonito mas pouco serve. Ninguém pede discursos de Henrique V em Azincourt relativo a algo tão simples como saber se se deve ou não desamparar uma certa loja. Mas se o discurso é proferido, convém segurar as rédeas ao cavalo se ele decidir dar às de Vila Diogo.

Retornando ao que disse a minha amiga, com justa dúvida no tom, “eu não tenho de ser a origem do que não corre bem, nem devo entrar no absoluto parafuso com essa eventualidade”. Não há sempre justificação própria para o que de desagradável surge no alheio. Ao contrário do que grassa por aí em teorias imbecis de auto ajuda, não, nem sempre somos nem a origem nem a responsabilidade para tudo o que não corre bem ou desconsiderações inexplicáveis.  E faz muitíssimo bem protestar, rugir e “bardamerdar” algumas coisas, mesmo que com risos à mistura. Se a presença de outrem pode ser e é, pela partilha humana, um privilégio, a verdade é que o que cada pessoa tem de único genuíno e partilhável também é. A ideia de privilégio, de valor, é bilateral. É uma passadeira de supermercado com dois sentidos.

Podemos obviamente não agradar, tentar, seduzir, melhorar, etc(…) ninguém. Eu creio que há qualidades e/ou valores humanos passiveis de defender como mais ou menos objectivos, mas certamente isto faz pouca escola no plano dos “sentimentos aleatórios” (argh…). Creio também que é um dever humano a tentativa de evoluir, sendo este verbo correspondente a melhorar um pouco sempre que possível, seja em que dimensão tal melhoria se apresente. Claro que nada disto vale um charuto se alguém nos tomar de ponta. Podemos conseguir pintar o tecto da capela Sistina no verso de um bilhete de autocarro, mas algumas pessoas dirão que usámos sempre a caneta errada. É a vida. As unanimidades também sempre me fizeram alguma confusão (excepto em coisas como direitos humanos e tal, mas isso é outra historia…).  O reverso disto é, no entanto, perceber que há coisas que custam uma vida inteira a obter, que não é pecado algum perceber que até se tem algumas qualidades, e que aquilo que se pode ter para dar não é assim tão dispensável como isso. E que (retornando mais uma vez à conversa com a minha amiga), se isso não for visto assim, não é necessariamente culpa do próprio. A mais das vezes, é mesmo o contrário.

É a ilusão de que o valor do outro é curto que valida a atitude menos boa ou menos interessada. Há uma presunção de aceitação, de ausência de efeito, como se tudo o que viesse fosse válido. Mas é só isso mesmo. Uma ilusão. E já chega. Já se percebeu o ponto. É tempo de ver outro(s). Melhores. Como o próprio também é.

Se é preciso explicar isto repetidamente, então a solução apresenta-se a si mesma.


NAJ ™ – 28/02/2014 - Estações Diferentes™
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quarta-feira, fevereiro 28, 2018

PORREIRISMO INDIVIDUAL

Se há conceito ou postura que tem sérios problemas quanto à sua natureza paradoxal, é o casaco do “Porreiro”. Quem é o Porreiro? Que espécime é esse? Como se caracteriza.

Bom, imaginemos Sir David Attenborough a sair de um arbusto e comecemos:

  • O Porreiro é aquela pessoa, homem ou mulher (que estas coisas do feitio pró-entendimento não escolhem sexo), ao qual se recorre e do qual não se tem especial receio. Há, em certa medida, uma expectativa mais ou menos declarada que o Porreiro entenderá as asneiras, erros e omissões vindos de todos os quadrantes. É o gajo que não chateia porque raramente se chateia, o que leva a que o cuidado seja doseado porque, afinal, não é preciso assim tanto.
  • O Porreiro é então uma pessoa que, embora isso a chateie e até, imagine-se, lhe possa estragar a disposição, encara todas as cagadas e faltas de atitude como algo despiciendo, como não característico dos seus praticantes, como algo que nem sequer se considera, quanto mais se tem de ultrapassar. É o indivíduo para quem todas as explicações são boas, ou deverão ser, para quem os silêncios nunca são significativos e as faltas nunca levam ao chumbo pessoal.
  • O Porreirismo é bom porque permite que esse tipo de pessoas possam procurar sempre entender antes de agir ou definir. Porque impede as precipitações, adia os julgamentos e perspectiva as motivações. O Porreiro pensa no que se passou antes de qualquer outro acto. Sempre. Desqualifica por tendência aquilo que o pode por em causa porque talvez ache que isso se justifica. Aquilo que lhe faz ou pode fazer falta é apenas “uma perspectiva”, o que em última análise lhe retira a importância, passando o foco para o entendimento da posição do outro. Em suma, “como é possível não entenderes a merda que acabo de fazer? Logo tu!?”
  • O Porreiro é, assim, uma espécie de maratonista do arranjo. Vai compondo o que é falho pela necessidade de valorar a sua posição antes de perguntar, seja a quem for, porque raio acha que pode fazer certo tipo de merdas e isso ser “normal”.
  • O Porreiro também faz trampa. E da grossa, claro, mas isso leva-o a querer, a mais das vezes, reverter o efeito da porcaria que atinge a ventoinha, e de forma activa. E, curiosamente, o entendedor militante tem muitas dificuldades em ver a sua alegação aceite, o que embora esperada, não deixa de ser uma ironia pouco cómica.

O exercício do Porreirismo anda a tornar-se uma actividade de risco. Parece um daqueles estágios vergonhosos em que querem pagar às pessoas em “boa disposição” e aprendizagem. É algo louvável mas definitivamente a repensar por parte dos seus praticantes. Há demasiados riscos até para genuínos mas equilibrados pessimistas…


NAJ ™ – 28/02/2018 - Estações Diferentes™
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quarta-feira, fevereiro 14, 2018

(DIA DE) SÃO VALENTIM – A HISTÓRIA REPETE-SE




1. Da Eterna Questão
Todos os anos, em ocasiões específicas, existem maus fígados acerca de datas ou supostas efemérides criadas para varrer o inventário das lojas da especialidade. A esmagadora maioria das menções e trabalho de marketing associado ao chamado dia de São Valentim são, no mínimo, desastradas e involuntariamente hilariantes. O marketing do “amor” é como os anúncios de higiene íntima. Não há um que resulte, é tudo pateta, algo constrangedor e sempre cómico. E andam atrás do euro? Claro.
Isto repete-se seja no Natal, na Páscoa, no Carnaval, etc, etc etc…
Mas vamos lá ver um par de coisas:
1.      É de facto assustador, ou triste, ou ambos, se alguém só se lembra de levar alguém a jantar neste dia. Ou a um filme, ou a um teatro, ou a uma espécie de massagem proscritas com óleos de flores esquisitas, ou a comprar velas que não sejam apenas para remediar a quebra de energia em casa. É verdade que em muitos casos parece existir uma espécie de obrigação procedimental, e em não raras vezes, um alívio de um sentimento de culpa de quem não sabe brincar o ano inteiro e acha que este dia equivale a pagar as quotas anuais para esse clube. E não nos enganemos quanto a uma coisa – esta tipologia de compensação canhestra está de ambos os lados da barreira de género. A preguiça não escolhe o tipo de genitália ou orientação que determina o que se deseja fazer com ela. É um fenómeno inclusivo.

2.      Se é certo o que disse acima, também o contrário é possível. Há malta que se diverte o ano todo e TAMBÉM neste dia. É o mesmo raciocínio que aplico ao Natal, época que me é cara. Se essas datas são apenas mais uma oportunidade para fazer algo que já é levado a cabo regularmente, e para brincar um pouco mais, porque não? Eu não sou partidário da festa de São Valentim porque a acho inerentemente Kitsch, mas isso não significa que todas as manifestações da coisa num dia como este sejam apenas e só picagem de ponto. Acredito que seja a maioria, mas isso é outra conversa. O ponto, parece-me, é que há uma diferença entre rir da piroseira dos peluches da Funny e um ódio figadal ao dia que me parece ter outros motivos…

3.      Talvez seja verdade que neste dia, os (arghh…) (românticos incorrigíveis - ou talvez muitas pessoas para as quais a medida de sucesso seja o “check” na quadricula “relação”, mas isso é também outra conversa…) – que se encontrem distanciados de um envolvimento mais significativo, e que sofram com isso (pois há quem esteja muito bem), terão muito a dizer sobre a esfrega de marketing que suportam num dia destes. Porque, como dirá qualquer pessoa que alguma vez teve uma sintonia especial com alguém, a piroseira, restrita a níveis mínimos bem aplicados, faz parte da capacidade de brincar que as reais empatias proporcionam. Há no amor, seja lá o que ele for, o atrevimento para sair da elegância e dar pequenos passos num universo de brincadeira parva. Faz parte, dizem.
Mas valerá a pena tanta bílis? Há assim tanta denúncia irada a fazer? A data é parva o suficiente para colocar o “raivómetro” no limite da escala? Se calhar mais vale brincar com a cena, e sim, fazer perguntas pertinentes acerca da sanidade mental de alguém que acha que perder um jantar neste dia é sinónimo de um crime de lesa-majestade para a tal “relação”. Para picar pontos já chega o trabalho, digo eu, mas caraças, vale a pena comparar isto a uma praga zombie? Eu cá acho a data pateta e canhestra, mas se a malta se divertir com a coisa, siga. Acho que estrear o terceiro filme da sopeira já é castigo suficiente, não acham?

4.      O que tem piada nesta altura? A história. E a História. O mito é delicioso, e tão pleno de ironia que daria um semestre de psicanálise. E segue abaixo. Divirtam-se. Neste e outros dias. E já agora, sem juizinho.


2. – Da História
1.      No dia 14 de Janeiro de 1929, Al Capone limpou o sarampo a 9 rivais, tendo-se enganado num, e usado uma táctica de dissimulação ao disfarçar dois dos executores como policiais. Este evento ficou conhecido como o “Massacre de São Valentim” e é demasiado delicioso na sua ironia involuntária face ao evento de massas ligado à data em questão. Tirem as vossas conclusões. Eu sei que tiro as minhas, e são umas quantas...
Tendo isto com pano de fundo, o próprio mito de São Valentim tem tido umas distorções para ajudar à efeméride. Há quem diga que o rapaz havia perdido a cabeça por causa de uma moça que o teria feito repensar a sua vida eclesiástica, mas a história é consideravelmente diferente. Não há aqui nada de Heloísa e Abelardo, mas mais de um mártir que terá perdido a vida por querer por juízo e ou moralidade numa sociedade estranha, onde o cristianismo tentava assentar arraiais, especialmente em matéria de costumes.Parece que a malta em Roma não achava piada ao casamento cristão, gente esperta e previdente lá está, e proibiu-o porquanto se dizia que a ligação de tal sorte poderia levar a que os soldados hesitassem aquando dos embates bélicos, por medo da sua família ou pelo seu próprio destino. No entanto, como a fé cristã lá ia penetrando a sociedade, (assim como um vírus – pois, o que estavam à espera?), o mártir foi casando o pessoal às escondidas, com grande risco pessoal para ele e para os cordeiros casadoiros do seu rebanho. Até que foi apanhado e submetido a algo semelhante ao que aconteceu a Rasputin, [que ao que parece, segundo a história e os Boney M (em anexo 😉 ) , era fresco e supostamente o John Holmes do seu tempo… ] ou seja, foi espancado, lapidado e decapitado.

2.      Dizem algumas versões que a confusão dos supostos intentos românticos do mártir se deve à mensagem que terá deixado à filha de Asterius (não confundir com o gaulês irredutível), um alto responsável judicial de Roma. Diz-se que o anto Valentim a terá curado de uma cegueira, e que o pai da pequena ter-se-á, em função disso, convertido à religião cristã, mas não a ponto de poder evitar a terrível sentença do safardana do imperador Claudio II.

3.      Em suma, o Santo Valentim, associado a este dia de pretensa celebração romântica e até mesmo um impulso de deliciosa carnalidade e chavascal, era afinal um rapaz que suou as estopinhas para acabar com essas badalhoquices imorais dos amigamentos, não raras vezes em grupo, dos romanos. Não mencionando a evidente e contínua ironia, não deixo de sentir uma certa pena pelo ícone desta efeméride, morto de forma terrível por celebrar casamentos numa sociedade onde se calhar valia tudo menos tirar olhos. E imaginem o que era se a malta gostasse?

4.      Assim, conclui-se que São Valentim não é o padroeiro do enamoramento, nem do erotismo, nem do chamamento romântico. Era um prelado responsável e dedicado a celebrar cerimónias de casamento, que perdeu a cabeça por querer fazer a vontade às pessoas que insistiam em meter-se em alhadas. Eu prefiro os mitos que diziam que ele tinha perdido a cabeça por causa de uma miúda. Mal por mal, era bem mais real e consentâneo com a natureza humana, e ao menos tinha-se divertido antes de bater a bota.

5.      Outra ironia para ficarmos a pensar. E como se sabe, a ironia faz bem ao sangue.

NAJ ™ – 14/02/2018 - Estações Diferentes™
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sexta-feira, fevereiro 09, 2018

A OBSESSÃO ÉTICA DO SEXO ARRUMADINHO E BEM JUSTIFICADO



 Se há coisas que irritam nos dias de hoje, é esta novilíngua segundo a qual qualquer manifestação de desejo tem de ter um enquadramento ético e arrumado. O desejo, o fenómeno da curiosidade, a simples animalidade que toca a todos, está no presente quotidiano sujeito a uma espécie de freio e molde organizador. O fenómeno erótico parece estar sujeito a instruções do IKEA – tem um diagrama e se não for seguido, a estrutura é instável, ou errada, ou nem sequer é um móvel!

Não há pachorra.

A quantidade de pessoas que, ao invés de cuidarem da sua própria vida insistem em regular o que outros, como adultos consensuais e anuentes, decidem ou querem fazer, leva qualquer pessoa a uma espécie de desespero. Pior, peroram sobre uma pretensa ética dessas escolhas, com um escantilhão moral tão exacto que corta o mundo em divinos e danados. Censuram-se artistas, confunde-se a obra com a pessoa, atribui-se uma certa profissão liberal a pessoas que não se enquadram no anúncio de cerveja ou da manteiga de pequeno-almoço, presume-se um destino, no mínimo “protoconjugal” a qualquer pessoa que queira ver outra sem roupa, por oposição a uma superficialidade que faria de Sodoma uma espécie de cúria romana, e outros dislates relativos a vidas que não são as suas.

Há uma obsessão ética em colocar o sexo numa prateleira do “certo” e “adequado”, ou melhor dizendo, como fenómeno digno apenas quando sustentado numa ideia de afeição maior que os anéis de Saturno. Se pensarmos na raridade que é conseguir sentir algo de realmente perene ou avassalador por alguém, penso na pobreza que será viver e considerar o fenómeno erótico tão entrincheirado em tais premissas. Deve ser lixado o sexo apenas em caso de amor verdadeiro e imorredouro. Acho que setenta e cinco por cento da população seria condenada a um tiro único ou nem sequer isso… É bem sabido que no universo erótico, a liberdade, pelo menos de pensar, não se coaduna com uma linearidade pacífica e ao mesmo tempo inquietante. Simplesmente não acontece. A porra das hormonas (no circuito neurológico) nem sequer aparecem todas ao mesmo tempo na esmagadora maioria dos casos. E ainda assim, há uma tentativa de dar boa reputação ao chavascal que nos inunda a cabeça a quase todos. Essa perspetiva tem muitos adjectivos, mas acima de tudo é ingénua.

A maioria das histórias de vida são feitas de solavancos tão fortes na perspectiva que tinham da mesma, que o espaço erótico e desarrumado é apenas uma daquelas que raramente corre na linha do dever ser. É uma sorte quando acontece, como é uma sorte ganhar o euromilhões ou nascer com a estrutura óssea da Isabel Goulart ou a voz da Agnes Obel. Mas a sede de “decência”, de arrumação, de encaixar o fenómeno do acto visceral de desejar numa espécie de manual de regras de certificação é, quanto muito, e mesmo aí duvido, um esforço individual. Como doutrina é uma merda pontificada com hipocrisia da boa, daquela passivo-agressiva que enterra os outros para limpar um suposto cadastro. Tudo errado, portanto.

Assim, censurar quadros, filmes, livros, fotografias, etc etc etc, é estupido. Fazer juízos morais e normativos sobre a vida de adultos que fazem o que lhes dá na bolha de forma voluntária, é prepotente. Acima de tudo, emprateleirar o erotismo na ética é como falar do desejo como uma receita infalível. Na maior parte dos casos o bolo queima-se, ninguém come nada, e resta a raiva associada ao que afinal deveria ter sido feito.
A mesma história de sempre, portanto.
Por isso, viva SCHIELE, BALTHUS, NABOKOV, MANN, etc, etc, etc…
Viva o reconhecimento da desordem que é querer ou imaginar alguma coisa. É que não há outra forma de o fazer…


P.S. – Obviamente que se exclui daqui todas as formas de violência não consentida, e todas as formas de ilícito ou crime associadas ao fenómeno erótico. Não vá a brigada da justiça social achar que se promove aqui a prática de crimes… Seria estúpido pensar isso, mas nunca fiando quando se trata de gente que quer corrigir o final da Carmen ou retirar do Balthus das paredes ou ainda dizer a recasados que pinar está fora de questão…  

NAJ ™ – 09/02/2018 - Estações Diferentes™
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